Relatos Selvagens (2014), dirigido por Damián Szifron
A Fúria do Cotidiano: Uma crítica de Relatos Selvagens (2014)
Ana Carolina
Uma obra-prima do cinema ibero-americano moderno, Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, 2014) é fruto da mente inquieta do cineasta argentino Damián Szifron, que assina com genialidade tanto a direção quanto o roteiro. O projeto ganhou proporções titânicas ao receber o peso da coprodução de Pedro e Agustín Almodóvar, resultando em exatos 122 minutos de projeção que dividem a tela perfeitamente entre o humor negro e o thriller psicológico. Amparado pela cinematografia sufocante e impecável de Javier Julia e pelos acordes instigantes compostos por Gustavo Santaolalla, o longa reúne a verdadeira realeza da atuação portenha, com destaque para atuações viscerais de Ricardo Darín, Érica Rivas, Oscar Martínez, Leonardo Sbaraglia, Rita Cortese e Darío Grandinetti. O reconhecimento global foi absoluto e imediato, rendendo-lhe o prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-americano, além de indicações à cobiçada Palma de Ouro em Cannes e ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
A narrativa foge da linearidade tradicional ao apresentar seis histórias curtas e independentes, unidas não por personagens em comum, mas por uma temática central e pulsante: a perda de controle diante das injustiças e frustrações do dia a dia. Ao longo dessas vinhetas, o espectador é jogado no meio de situações incômodas e facilmente reconhecíveis que, aos poucos, escalam para o mais puro absurdo. Conhecemos os passageiros de um avião que descobrem uma conexão sombria entre si; o embate violento, teimoso e sangrento entre dois motoristas de classes sociais distintas em uma rodovia deserta; a vingança fria tramada em uma lanchonete de beira de estrada; o surto de um pacato engenheiro que tem sua vida engolida pela implacável burocracia do sistema de trânsito; as manobras corruptas e sujas de uma família milionária tentando acobertar um acidente fatal; e, coroando o longa, uma festa de casamento que se desintegra em um espetáculo caótico de ciúmes e revelações. Em todos os contos, vemos cidadãos comuns sendo empurrados para o abismo do estresse, abandonando as máscaras da civilidade para abraçar seus instintos primais.
O grande trunfo desta película reside na sua habilidade em dissecar a hipocrisia e a fragilidade do nosso pacto social contemporâneo. Szifron utiliza a violência, levada ao extremo do absurdo, como uma ferramenta satírica, expondo as entranhas de uma sociedade adoecida pela desigualdade, pela ineficiência do sistema e pela arrogância. Ao invés de afastar o público com o comportamento grotesco de seus personagens, o roteiro cria uma cumplicidade perigosamente sedutora. Há um profundo prazer catártico em testemunhar um homem comum dinamitar a burocracia que o oprime, ou observar uma noiva ferida destruindo as falsas moralidades de seu próprio matrimônio. O tom ácido permeia as tragédias retratadas, criando um contraste fascinante onde o espectador ri do absoluto desespero alheio (impulsionado pelo reconhecimento de que, no fundo, basta um dia genuinamente péssimo para que qualquer um ceda aos instintos primitivos).
Deixando de lado qualquer traço de lição de moral apaziguadora, Relatos Selvagens entrega um soco no estômago disfarçado de entretenimento de primeiríssima qualidade. O longa-metragem não apenas atende às altas expectativas geradas por seu histórico de premiações, mas as supera ao oferecer um retrato atemporal, hilário e assustador da fúria humana. Se a busca é por um filme provocativo, que mantenha a adrenalina alta e gere reflexões incômodas muito depois dos créditos subirem, esta é uma escolha irretocável. É uma obra incisiva e altamente recomendada, que obriga quem assiste a encarar o próprio reflexo no espelho e questionar o quão perto todos nós estamos da mais absoluta selvageria.
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Seis histórias sobre o limite do convívio humano: uma crítica de Relatos Selvagens
Camili Machado
Lançado em 2014 e dirigido pelo argentino Damián Szifrón, “Relatos Selvagens” é um filme composto por seis histórias independentes, que exploram situações que chegam ao limite do convívio social. Produzido por Pedro Almodóvar e Agustín Almodóvar, o longa conta com um elenco de destaque do cinema argentino, como Ricardo Darín, Darío Grandinetti e Érica Rivas, e se aprofunda em frustrações cotidianas, que podem levar seres humanos comuns a atos extremos.
Cada situação parte de uma premissa considerada simples: um encontro no trânsito, uma humilhação pública, uma injustiça sem reposta. À medida que as narrativas se desenrolam, o filme mostra como a violência não é uma exceção na vida social, mas uma possibilidade que pode surgir em situações de pressão. Quem assiste o filme é convidado a se identificar com os personagens em situações em que eles perdem o controle, e a se perguntar o quanto ele estaria distante de fazer o mesmo naquela situação.
Mais do que uma obra cinematográfica, o filme retrata um contraste social, de uma classe rica, com acessos e oportunidades, e uma classe pobre, com necessidades e limitações. Em mais de uma situação, fica evidente como pessoas com dinheiro escapam facilmente de problemas, porque acreditam que podem passar “por cima” daqueles que nada têm. Essa dinâmica fica implícita nas situações, tornando a crítica eficaz.
A direção é precisa na construção da narrativa dramática. A tensão das histórias cresce de forma controlada até um ponto de ruptura que surpreende o telespectador. As atuações são performáticas e eficazes, conduzindo a narrativa do início ao fim de forma impecável. A trilha sonora atua muito bem com as transições das histórias, e a cinegrafia e a fotografia reforçam o tom realista das situações.
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e premiado pela crítica em Cannes, “Relatos Selvagens”é uma obra que entretém, ao mesmo tempo em que revela uma crítica social, evidenciando os mecanismos que sistema a vida em sociedade.
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Damián Szifron nos apresenta a seis histórias totalmente distintas que se dialogam no caos, na ambiguidade entre o certo e o errado, e na excentricidade. Acima de tudo, o diretor, que também é responsável pelo roteiro, não cria qualquer espaço para a existência de um julgamento mais hostil a seus personagens tão singulares: eles são seres humanos, independentemente da qualidade dos sentimentos e dos pensamentos que carregam, sobretudo das atitudes que tomam. Contudo, mesmo Szifron não exercendo ou promovendo qualquer juízo de valor tanto aos personagens quanto às situações, ele não deixa de levantar importantes debates sociais e morais por meio das mais absurdas, porém não inverossímeis, histórias.
De início, vemos um grupo de pessoas em um avião que de forma inesperada percebe que está ligado diretamente a Gabriel Pasternak, um músico frustrado cuja aparente vingança aproxima-se. Seguindo a temática da vingança, duas mulheres discutem sobre a oportunidade de envenenarem o único cliente do restaurante em que trabalham: um agiota responsável pelo suicídio do pai de uma delas. No terceiro enredo, dois homens se envolvem em bem mais que uma discussão acalorada na estrada, movidos não apenas pelo ego, como também pela masculinidade tóxica e pelos desdobramentos da desigualdade socioeconômica. Em seguida, um engenheiro decide tomar uma atitude drástica por se sentir desrespeitado ao tentar resolver as burocracias pendentes após seu carro ser equivocadamente guinchado, evidenciando a problemática das explosões emocionais geralmente reprimidas pela dinâmica da vida moderna. Na quinta narrativa, um pai decide buscar alternativas ilegais, a partir da sua fortuna, para livrar seu filho das consequências depois de atropelar uma mulher grávida e não prestar socorro. Por fim, uma noiva descobre na festa de casamento que seu marido a traíra com uma colega de trabalho, desencadeando situações completamente inesperadas.
Todos os seis curtas são construídos seguindo uma unidade estética realista, se utilizando de planos mais fechados e de uma montagem dinâmica e ágil, a fim de intensificar as tensões que se prolongam até o colapso, quase sem respiro, com episódios carregados de humor ácido, ironia, críticas, exagero e limites sendo ultrapassados sem o menor pudor. Szifron transforma impulsos violentos e socialmente condenáveis em catarse coletiva, despertando sem qualquer esforço e de forma excepcional o riso do espectador diante do absurdo que deveria causar horror.
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“Relatos Salvajes” e os limites da civilidade
Alice
“Relatos Salvajes” de 2014 é uma antologia argentina onde os protagonistas, após situações desgastantes acabam chegando ao seu limite e tomam medidas extremas revelando seu lado selvagem. Dirigido por Damián Szifron, o filme faz a mistura perfeita de comédia e suspense, conseguindo levar os espectadores do riso ao espanto em questão de segundos. “Relatos Salvajes” nos faz questionar: quanto estresse alguém aguenta até que seja despertado seu lado selvagem? Qual é o limite entre a civilidade e a selvageria?
O longa apresenta seis histórias independentes, mas que possuem algo em comum, algo que a princípio parece corriqueiro, leva os personagens principais á violência. Esse contraste de cenários corriqueiros com uma violência que beira ao caricato aproxima quem assiste e ao mesmo tempo o indaga: nessa situação você faria o mesmo? Uma das histórias que com certeza merece destaque é a do engenheiro com o carro guinchado de forma irregular. Quem nunca passou por uma situação parecida? Talvez não necessariamente um guinchamento de um carro, mas tenho certeza que de alguma forma às burocracia do sistema já levaram todos à beira da loucura. “Relatos Salvajes” retrata o que acontece quando cedemos a essa beira da loucura, ou melhor, quando entramos na loucura de vez. Com uma narrativa que flui, de curta em curta e trás, essa dicotomia a quem assiste que ao mesmo tempo que se identifica se horroriza com as escolhas dos personagens, mas se colocado em tal situação será que seu instinto selvagem venceria?
Em “Relatos Salvajes”, Damián Szifron constrói uma crítica tão divertida quanto perturbadora sobre os limites da civilidade humana. Ao transformar situações cotidianas em explosões de caos e violência, o diretor expõe como a pressão, a injustiça e a frustração podem despertar o pior lado das pessoas. Com humor ácido, ritmo envolvente e personagens extremamente humanos, o filme provoca risos ao mesmo tempo em que causa desconforto, justamente por aproximar o espectador daqueles impulsos irracionais que todos tentam esconder. No fim, “Relatos Salvajes” não fala apenas sobre personagens que perderam o controle, mas sobre uma sociedade em constante tensão, onde a linha entre civilidade e selvageria pode ser muito mais frágil do que imaginamos.
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Relatos Selvagens: Um reflexo da sociedade
Made Hess
O filme Relatos Selvagens, de 2014, dirigido por Damián Szifron, traz seis histórias sem ligação aparente, mas todas com humor ácido e violência envolvida em situações quase cotidianas.
No longa, acompanhamos distintos personagens enfrentando situações de total descontrole e desconforto. A reação individual de cada um perante os desafios a que são expostos se torna um grande entretenimento para quem assiste. Como nós espectadores reagiríamos se estivéssemos na situação dos personagens? Relatos Selvagens mostra, de forma crua e com um grande toque de humor, o pior lado do ser humano quando colocado em situações extremas.
Apesar da dificuldade em fazer com que seis distintas histórias sejam igualmente interessantes, o diretor e roteirista deste longa fez parecer um trabalho fácil. Ele traz situações nas quais qualquer um de nós pode estar inserido, alinhando a resposta de cada personagem a uma crítica à sociedade atual e à forma como lidamos ou como não lidamos em meio a cenários de desconforto.
As críticas à sociedade estão fortemente presentes, apesar de aparecerem de forma sutil, principalmente com um tom humorístico. Isso torna as situações dos seis curtas desconfortáveis, mas a um ponto que prende totalmente a atenção do espectador, o mantendo entretido do primeiro ao último minuto. O filme, apesar de ter duas horas, passa em um piscar de olhos.
Claro que um bom filme não se faz apenas com um bom roteiro e direção, mencionar as incríveis atuações deste longa é imprescindível. Todos os atores trouxeram vida aos seus personagens de forma tão natural que nem sequer parece atuação, mas sim, em certo ponto, algo como um documentário de crimes reais.
Portanto, Relatos Selvagens consegue mostrar com maestria como o ser humano é facilmente corrompido e manipulado quando exposto a situações de extremo desconforto.
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Relatos Selvagens: O Bom e Velho “Rir Para Não Chorar”
Luiza Cardoso de Oliveira
O diretor argentino Damián Szifron cria uma comédia primorosa em “Relatos Selvagens” (Relatos Salvajes, 2014). Com duração total de 122 minutos, seis curtas mostram personagens e histórias distintas onde seus personagens brincam com o limite entre civilização e barbárie, levados à loucura por situações do cotidiano. Sucesso internacional, conquistou o prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-americano, e foi indicado à Palma de Ouro em Cannes e ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
O filme conta com um elenco de peso do cinema argentino como Ricardo Darín, Érica Rivas, Oscar Martínez, e Darío Grandinetti que interpretam seus personagens de forma crua e hilária. Entre situações absurdas e tragicômicas, temos uma tripulação de um avião que se deparam com uma coincidência perturbadora; duas garçonetes que debatem se aproveitam a chance de se vingar com veneno de rato; uma briga de trânsito que leva à violência extrema; um engenheiro que se revolta com o sistema por uma multa de estacionamento; um milionário que tenta subornar a liberdade de seu filho; e finalmente, uma noiva que descobre a traição de seu marido durante festa de casamento. Em cada um deles, uma tensão crescente se acumula até atingir um pico de caos absurdo que junto com diálogos realistas de arrancar risadas da plateia. Apesar dos personagens chegarem a níveis extremos, não há julgamento, mas sim, identificação com sua indignação e explosividade, ao fazerem “justiça com as próprias mãos”. A montagem, fotografia e trilha sonora colaboram com essa noção ao aproximar o espectador o máximo possível do sentimento de desespero, desconforto e indignação que eles transmitem.
Produzido pelo aclamado Pedro Almodóvar e seu irmão Agustín, o filme reuniu mais de três milhões de espectadores nos cinemas argentinos e teve uma grande projeção internacional. Nesse longa, Szifron alivia o desejo de vingança de qualquer um que já ficou indignado com os aborrecimentos do dia a dia com humor ácido, críticas sociais e representações das diversas contradições da vida moderna.
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Entre impulsos e consequências: o descontrole humano em Relatos Selvagens
Davi Citatin
Dirigido por Damián Szifron, Relatos Selvagens é um filme antológico formado por seis histórias independentes que exploram os limites emocionais do ser humano diante de situações de estresse, frustração e conflitos cotidianos. A proposta do longa é clara: mostrar como pessoas comuns podem agir de maneira extrema quando pressionadas por injustiças, humilhações ou impulsos momentâneos. Apesar da ideia interessante e da forte crítica social presente ao longo da obra, o filme encontra dificuldades em transformar suas histórias em narrativas realmente marcantes.
O principal problema de Relatos Selvagens está na forma como constrói e encerra seus conflitos. Quase todos os curtas conseguem desenvolver tensão de maneira eficiente, criando expectativa no espectador e conduzindo as situações até momentos de grande intensidade. Entretanto, os desfechos raramente acompanham a força dessa construção, fazendo com que muitos episódios terminem de maneira abrupta ou menos impactante do que poderiam.
O primeiro curta, ambientado dentro de um avião, exemplifica bem isso. O suspense cresce gradualmente conforme as conexões entre os passageiros são reveladas, criando curiosidade sobre as motivações do personagem responsável pela situação. Ainda assim, o encerramento acontece rápido demais, sem aprofundar as consequências daquilo que havia sido construído até então.
Já o segmento envolvendo o atropelamento é, sem dúvida, o mais forte do filme. A narrativa utiliza o acidente para discutir corrupção, privilégio e interesse pessoal, mostrando personagens que transformam uma tragédia em negociações e vantagens próprias. É o episódio em que a crítica social funciona de maneira mais eficiente, justamente porque os conflitos morais dos personagens se tornam mais interessantes do que o próprio crime. Mesmo assim, o curta também transmite certa sensação de potencial desperdiçado, como se pudesse alcançar consequências ainda mais profundas.
Outro episódio que se destaca é o do homem revoltado com o sistema de multas e burocracias urbanas. Nesse caso, o filme consegue representar de maneira convincente a frustração acumulada de alguém comum diante de situações cotidianas que parecem pequenas isoladamente, mas se tornam insuportáveis quando somadas. A explosão final do personagem funciona como um protesto simbólico contra um sistema desumanizado, sendo um dos momentos mais eficientes do longa.
Apesar dos problemas narrativos, o filme compensa parte de suas falhas com uma qualidade técnica muito consistente. A direção de Damián Szifron utiliza enquadramentos, ritmo e movimentação de câmera de maneira eficiente para aumentar a tensão e o desconforto das cenas. As atuações também surpreendem positivamente, principalmente considerando que grande parte do elenco não possui reconhecimento internacional tão amplo. Ainda assim, os atores conseguem entregar interpretações intensas e convincentes em praticamente todos os episódios.
No geral, Relatos Selvagens apresenta uma proposta interessante ao discutir a diferença entre o comportamento socialmente esperado e as reações reais das pessoas diante do caos e da pressão emocional. Entretanto, o filme sofre com a falta de unidade entre seus segmentos e, principalmente, com conclusões que raramente alcançam o impacto prometido pelo desenvolvimento das histórias. Diferente de outras antologias, como V/H/S, os curtas aqui parecem apenas agrupados em um mesmo projeto, sem uma conexão narrativa mais forte. O resultado é um filme tecnicamente competente e com ideias relevantes, mas que não consegue transformar todo seu potencial em uma experiência verdadeiramente consistente.
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Crítica do filme Relatos Selvagens
Relatos Selvagens é daqueles filmes que começam no exagero, mas terminam dizendo muito sobre a vida real. Dirigido por Damián Szifron, o longa argentino transforma situações banais em explosões de raiva, vingança e descontrole, sempre com humor ácido e uma crueldade que faz rir e incomodar ao mesmo tempo. Estreou em 2014, concorreu ao Oscar de melhor filme internacional e virou referência imediata do cinema latino-americano contemporâneo — não à toa.
O grande acerto do filme está na forma como ele observa o comportamento humano quando a paciência acaba. Em vez de buscar sutileza, Szifron aposta no excesso, no absurdo e na escalada da tensão, e isso funciona porque cada episódio é construído com precisão quase cirúrgica. São seis histórias independentes, mas todas giram em torno da mesma ideia: basta um empurrão mínimo para a civilização desabar. O filme não tenta ser profundo filosoficamente; ele mostra, na prática, como a moralidade, a educação e a lei são frágeis quando submetidas à pressão diária.
Cada segmento começa de forma aparentemente comum — um atraso de voo, um engenheiro cobrado por dívidas antigas, um cordeiro perdido no casamento de uma família rica — e termina em caos total. O curta do avião já abre o tom: passageiros e tripulação descobrem que têm um inimigo em comum, e o que começa como conversa discreta vira confissão coletiva e, por fim, explosão de violência. É um dos episódios mais icônicos, mas o da festa de casamento e o da bomba emocional no restaurante também estão entre os momentos mais marcantes, justamente porque resumem o espírito do filme: sarcasmo, frustração social e uma vontade quase infantil de ver o mundo pegando fogo.
O episódio do garçom que é humilhado por um cliente e acaba perdendo o controle, o do engenheiro que busca justiça fora da lei e o da criança que é culpada por um acidente também mostram como Szifron não tem medo de levar as situações ao extremo. Há episódios mais fortes que outros — alguns espectadores podem achar o do bombeiro mais leve, outros o preferem como respiro —, mas o conjunto se sustenta muito bem. O ritmo é dinâmico, o corte entre as histórias é eficiente e a trilha sonora ajuda a manter a energia alta, sem deixar o filme cair no cansaço.
Ricardo Darín, Oscar Martínez, Elvira Mínguez, Leonardo Sbaraglia e o restante do elenco ajudam a manter tudo vivo, com atuações que entendem perfeitamente o tom entre o cômico e o trágico. Darín, em particular, é um dos pilares do filme: seu personagem, que vive uma situação de injustiça burocrática e termina se tornando um homem à margem da lei, é quase um retrato do homem comum argentino — e, por extensão, de qualquer lugar do mundo — levando o sistema ao limite. As atuações são contidas o suficiente para parecerem reais, mas com intensidade suficiente para que o estouro final tenha impacto.
O que faz Relatos Selvagens funcionar tão bem é que ele não parece apenas uma coleção de esquetes divertidas. Por trás da piada, existe uma crítica muito clara à desigualdade, à burocracia, à arrogância e à violência cotidiana. É um filme que fala de vingança, sim, mas principalmente de humilhação, impotência e da facilidade com que perdemos o controle quando o sistema, os outros ou nós mesmos apertamos demais. A burocracia, por exemplo, é tratada como um inimigo abstrato, mas que gera consequências concretas: pessoas sendo humilhadas, perdendo tempo, dinheiro e dignidade.
A desigualdade aparece de várias formas: a família rica no casamento, que tenta cobrir o problema com dinheiro; o engenheiro que é tratado como lixo porque não consegue pagar uma multa; o garçom que é submisso até o ponto de ruptura. O filme não faz um discurso político direto, mas deixa claro que a violência muitas vezes nasce de uma sensação de injustiça acumulada. A raiva dos personagens não é apenas “mau caráter”; é fruto de um contexto social que os empurra para o limite.
Szifron também brinca com a ideia de culpabilidade. Quem é o verdadeiro culpado? O que perde o controle? Ou quem criou as condições para que ele perdesse? O filme não responde de forma simples, e essa ambiguidade é parte do que o torna tão interessante. Às vezes, o espectador torce pelo descontrole, outras vezes se assusta com ele. Essa oscilação é proposital: o filme quer que a gente se questione sobre os próprios limites.
No fim, Relatos Selvagens é um filme afiado, popular sem ser leve, engraçado sem ser bobo. É cinema de impacto: daqueles que deixam a sala com a sensação de ter se divertido e levado um soco ao mesmo tempo. Ele não tenta ser amável, nem tenta agradar a todos. Propõe um espelho, mostra a parte mais feia do comportamento humano e, ao mesmo tempo, faz rir. É um filme que se sente mais vivo a cada vez que é revisitado, porque as situações que ele explora, a injustiça, a impaciência, a humilhação, a vingança, continuam absurdamente atuais.
Se há uma fraqueza, talvez seja que alguns segmentos funcionam melhor que outros, mas isso não prejudica o conjunto. O importante é que Relatos Selvagens cumpre o que promete: é um filme sobre a fragilidade da civilização, contado com humor negro, ritmo acelerado e uma inteligência que não grita, mas slowing descobre suas garras. Quase uma década depois do lançamento, continua surpreendendo, fazendo rir e, ao mesmo tempo, deixando aquele gosto amargo de que, no fundo, tudo aquilo é mais próximo da realidade do que gostaríamos de admitir.
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O LIMITE DA INSATISFAÇÃO
por Maria Luiza (Lully) M. Salvador
Relatos Selvagens (2014) é composto por 6 curtas diferentes. A ideia até pode parecer um “frankenstein” mas a execução, sob direção de Damián Szifron, é feita com maestria. Os personagens e histórias não têm conexão direta, mas se relacionam a partir de situações incômodas cotidianas que podem levar ao limite, despertando reações selvagens.
Na primeira história durante um voo, passageiros descobrem uma coincidência entre todos eles. Esse episódio é curto, funciona quase como um epílogo, mostrando o que está por vir. O segundo curta levanta um questionamento moral sobre vingança. Ao se deparar com o agiota responsável pelo suicídio de seu pai, a garçonete de um restaurante entre em um dilema de fazer ou não justiça com suas próprias mãos. A história gera empatia, compreensão da garçonete e ao mesmo tempo é desconfortável para o espectador. É difícil ter uma opinião formada sobre o que ela deveria ou não fazer.
O longa segue para a história de uma briga de trânsito. Um personagem rico, pretensioso e apressado, encontra outro com o carro caindo aos pedaços, andando lentamente. O rico xinga o mais pobre, quase se gabando por ter um carro bom e rápido. Mas lá na frente, eles se reencontram em uma situação complicada. O conflito é explosivo e sangrento. Quem assiste fica em uma posição também desconfortável, é possível compreender as motivações dos dois personagens e quase impossível tomar um lado.
Depois, em meio à pressa de pegar o bolo de aniversário da filha, um homem tem seu carro guinchado. A burocracia de tirar o carro do pátio e pagar a multa na prefeitura, junto à insatisfação de sua família por ele perder parte do aniversário da filha, o levam ao ápice. A trama, que levanta questionamentos acerca da burocracia e cumprimento de regras à risca, é seguida por uma que questiona a corrupção e a impunibilidade. Um jovem rico atropela uma pessoa e vai desesperado ao pai para pedir que ele resolva a situação. Os dilemas morais levantados aqui são até onde você vai para salvar seu filho e se o poder econômico prevalece a justiça.
O filme fecha com um casamento aparentemente feliz, em que a noiva descobre uma traição no meio. A sequência de acontecimentos após a descoberta é fascinante. São reações exacerbadas, como se os pensamentos intrusivos tivessem vencido. É desconfortável e brilhante na mesma medida.
São criticados ao longo do filme corrupção, impunidade criminal dos mais ricos, traição e a própria instituição do casamento, temas muito comuns na Argentina e também na América Latina. A identificação com as situações expostas faz com que os espectadores, principalmente da América Latina, se aproximem da trama e criem certa empatia pelos personagens. Ao mesmo tempo que uma parte racional julga as ações dos personagens, a parte emocional se identifica e até sente pena deles. As seis histórias são bem construídas a ponto de, em um intervalo curto de tempo, mostrar as motivações e os dilemas dos personagens em tela a ponto de trazer empatia ao espectador.
Em Relatos Selvagens, as tramas evoluem de forma que não é mais possível saber quem está certo ou errado. Não existe dualidade, personagens bons ou ruins, todos têm seus dilemas e ações humanas e compreensíveis. São sentimentos comuns, que por civilidade não extravasamos, mas no filme é diferente, a natureza animal quase sempre prevalece.
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O caos da realidade humana
Marina Bernardo
Relatos Selvagens é um filme argentino dirigido por Damián Szifron e mistura comédia ácida, tensão e violência para mostrar até onde uma pessoa pode chegar quando perde o controle. O longa é dividido em seis histórias independentes, mas ligadas por algo em comum, personagens reais que, diante de situações de estresse, humilhação ou raiva, acabam reagindo de forma extrema. Mesmo sendo exagerado em vários momentos, o filme consegue causar identificação justamente porque trabalha sentimentos muito humanos, como frustração, orgulho e impulsividade.
O que mais chama atenção é o desconforto que o filme provoca. Em muitos momentos, o espectador ri da situação, mas logo depois percebe o quanto aquilo é pesado ou violento. Essa mistura entre humor e tensão funciona muito bem porque deixa tudo imprevisível. Nunca dá para saber até onde cada personagem vai chegar, e isso prende a atenção do início ao fim.
As atuações são muito fortes e ajudam a tornar as histórias mais intensas. Mesmo em episódios curtos, os atores conseguem transmitir nervosismo, raiva e desespero de uma forma muito natural. A direção também merece destaque, porque sabe construir a tensão aos poucos, transformando situações simples em cenas caóticas. A fotografia acompanha esse clima mais pesado, usando enquadramentos fechados e ambientes que aumentam a sensação de pressão e ansiedade.
Outro ponto interessante é como o filme critica problemas sociais e comportamentos humanos sem precisar fazer discursos diretos. Em várias histórias aparecem temas como corrupção, desigualdade, egoísmo e violência cotidiana. O filme exagera nessas situações justamente para mostrar como as pessoas, em determinados momentos, podem agir de maneira irracional e até selvagem.
No geral, Relatos Selvagens é um filme intenso, provocador e muito bem construído. Além de entreter, ele faz o público refletir sobre os limites emocionais das pessoas e sobre como pequenas situações podem despertar reações extremas. É um filme desconfortável em vários momentos, mas esse desconforto é exatamente o que torna a experiência tão marcante.
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O limite da selvageria social
Ana Laura Horst
O cinema latino-americano está mais vivo do que nunca. Em meio às indicações brasileiras ao Oscar, sinto que o mínimo que podemos fazer, como nação, é acompanhar outros tipos de cinema dos vizinhos dentro do continente. Nessa mentalidade, é necessário destacar um longa-metragem argentino: Relatos Selvagens (Relatos Salvajes). Foi a público em 2014 e concorreu ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2015 devido, especialmente, à sua narrativa inusitada e estrutura não-linear.
Com a direção de Damián Szifron e roteiro por Pedro Almodóvar, o longa choca por sua forma incomum: seis histórias independentes que exploram situações-limite em que personagens comuns abandonam as convenções sociais e cedem aos impulsos mais primitivos. Raiva, tristeza, amargura e irracionalidade aparecem à flor da pele de todos.
O retrato é construído por meio de situações absurdas, quase irreais: trágicas e cômicas, além de estranhamente específicas. É um daqueles filmes que te fazem questionar o gênero (seria comédia? Drama? Suspense? Ação? Policial?). São duas horas de completa confusão mental, tanto para os personagens quanto para quem assiste.
Com um olhar típico brasileiro, é possível imaginar a imagem da realidade argentina — tanto com coisas boas, como identificação, além de reconhecimento interior e de uma nação, como com desigualdades sociais. Apesar da identidade ‘hermana’, algumas situações parecem universais, talvez enraizadas em um contexto de países latino-americanos colonizados, em especial as críticas sociais — relacionadas à injustiça, governo, desigualdade, saúde mental, pobreza e encarceramento.
Num geral, a fotografia é bela, apesar do filtro amarelado comumente usado por estadunidenses para retratar países latinos. Com um diretor argentino, a decisão é no mínimo questionável. Também tem o fator da violência explícita na tela, o que pode causar incômodo para alguns espectadores, como eu. Pessoalmente, por mais que cada história tenha me intrigado a saber o final, não aguentei ver o filme inteiro. Talvez a proposta seja mesmo a perturbação mental, mas com certeza não é inclusiva para todos.
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Entre o Caos e o Exagero: os altos e baixos de Relatos Selvagens
Matheus Alschinger
Dirigido por Damián Szifron, o filme Relatos Selvagens é uma antologia que transforma situações cotidianas em explosões de tensão, violência e humor ácido. A produção argentina utiliza diferentes histórias para retratar o limite emocional do ser humano diante da injustiça, do orgulho e da raiva. O longa consegue prender a atenção justamente pela imprevisibilidade de seus acontecimentos, alternando momentos extremamente engraçados com cenas desconfortáveis e caóticas. Além disso, a direção segura de Szifron faz com que cada conto tenha identidade própria, criando uma experiência dinâmica e intensa para o espectador.
Tecnicamente, o filme se destaca pela fotografia estilizada e pela montagem ágil, que ajudam a aumentar a tensão de cada narrativa. A trilha sonora acompanha o clima crescente de loucura e ironia, funcionando quase como um elemento narrativo. Os enquadramentos valorizam expressões e reações exageradas dos personagens, reforçando o tom satírico da obra. Outro ponto forte é o ritmo: mesmo sendo dividido em episódios independentes, o longa raramente se torna cansativo, mantendo constante sensação de expectativa sobre qual será o próximo desastre apresentado na tela.
Entre os seis episódios, três se destacam claramente pela construção e pelo impacto causado. O curta do avião, que abre o filme, é extremamente eficiente ao criar tensão e surpresa em poucos minutos, entregando um desfecho inesperado e memorável. Já a história do homem revoltado com o carro guinchado consegue transformar uma situação burocrática comum em uma crítica social divertida e ao mesmo tempo desesperadora, crescendo de forma inteligente até seu clímax. Outro ponto alto é o episódio do atropelamento, que aborda corrupção, dinheiro e manipulação moral de maneira envolvente, mostrando como cada personagem tenta escapar das consequências de seus atos.
Por outro lado, alguns segmentos parecem menos inspirados e acabam quebrando o equilíbrio da obra. Certos episódios soam excessivamente rápidos ou superficiais, sem desenvolver os personagens de forma suficiente para gerar envolvimento emocional. Em alguns momentos, a tentativa de chocar o público parece substituir uma construção narrativa mais consistente, fazendo com que determinadas histórias pareçam desconexas em relação às melhores do longa. Essa irregularidade faz com que parte da experiência oscile bastante, alternando contos memoráveis com outros que acabam se tornando apenas estranhos ou cansativos para o telespectador.
Ainda assim, Relatos Selvagens permanece como uma obra marcante do cinema latino-americano contemporâneo. O filme utiliza o exagero como ferramenta para expor impulsos humanos muitas vezes reprimidos, criando uma crítica social carregada de sarcasmo e violência. Mesmo com episódios menos interessantes, os melhores momentos do longa possuem força suficiente para justificar sua fama e reconhecimento internacional. Ao final, a sensação é a de ter assistido a uma coleção de explosões emocionais que, entre acertos e excessos, consegue divertir, incomodar e provocar reflexão ao mesmo tempo.
Nota Final: 6 (OK, vale revisitar)













