Análise de três críticas a partir da leitura de “A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces”


A crítica cinematográfica não apresenta um roteiro sobre como deve ser concebida, desenvolvida e aprofundada, mas estabelece critérios acerca das interpretações que podem ser obtidas e a forma como deve ser transmitida ao público as considerações a respeito de uma obra. Nesse sentido, alguns pensadores desenvolveram perspectivas envoltas na produção das alegações que são capazes de serem observadas em algumas das críticas elaboradas durante o curso. Nesse sentido, são apresentados aqui estudos no que diz respeito aos conteúdos desenvolvidos como forma de inseri-los nas convenções estabelecidas.

O teórico André Bazin alega que o crítico de cinema deveria interpretar o que foi apreendido pelas informações advindas da produção sem impor verdades estáticas, mas sim revelar a essência do encontro entre o cinema e a realidade. Com isso, as ponderações sobre o filme Pele de Asno (1970), do diretor Jacques Demy, trabalham em direção à esse princípio, tendo em vista a análise da paleta cromática do filme:

“Ponto forte do filme, no entanto, é o uso das cores pelo diretor, que se utiliza de conceitos da psicologia para acentuar alguns aspectos fundamentais da trama de forma que os elementos cenográficos e até figurantes conquistem destaque na tela. [...] Essa proposta, em um dos casos, revela uma oposição entre duas cores psicologicamente opostas: o azul e o vermelho, na qual a primeira representa aspectos como calma, serenidade e apatia; enquanto a outra expressa intensidade, amor e calor.”

Já para Siegfried Kracauer, a crítica é uma leitura sociológica que funciona como um reflexo da sociedade, ou seja, ela extrapola os limites da arte para se tornar um registro documental da realidade. Essa perspectiva pode ser facilmente observada com a análise do longa-metragem Retratos Fantasmas (2023), de Kleber Mendonça Filho, no qual a produção em si já se comporta como um documento histórico:

“Dessa forma, além de ser possível encontrar beleza e inspiração no cotidiano, o longa-metragem ainda nos agracia com referências históricas e sociais capazes de enriquecer o conteúdo difundido, além de tocar em outras áreas da arte como arquitetura e fotografia. Esta, funciona como emolduração e perpetuação do tempo, enquanto aquela transforma-se na apreensão das realidades existentes. Indo além, esta tangencia as mudanças existentes na sociedade e na cidade, ao passo que aquela ajuda na compreensão histórica.”

David Bordwell, por outro lado, difunde a ideia de que a crítica deva funcionar como um aparato sistemático fundamentado na interpretação do desempenho técnico do filme. Assim, o longa-metragem Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975) permite a inserção dessa vertente ao passo que os elementos impostos com base na criatividade do grupo e no baixo orçamento disponível para o filme expuseram a linha tênue entre a produção e a exposição de forma cômica:

“Os planos são quebrados, as cenas interrompidas, a relação entre produção e obra se funde, sem haver uma separação entre o "por trás das câmeras" e o que realmente é mostrado. Nesse sentido, todas as cenas carregam fortes manifestações de comicidade e de ironia (às vezes de forma mais latente, às vezes de forma mais tímida, mas sempre sendo apresentadas) que se espaçam e se diluem de maneira a tornar a experiência cinematográfica mais fluida e cativante.”

Portanto, é possível perceber algumas das considerações feitas pelos teóricos de crítica cinematográfica nas análises desenvolvidas no decorrer do curso. Indo além, é compreensível como as diferentes produções permitiram a criação de interpretações diversas que se enquadram nas perspectivas elaboradas.

Marlon Ramos

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As críticas que vou usar nesse texto são referentes aos curtas/filme: Je Vous Salue Sarajevo, Ilha das Flores e de Agarra-me Forte.

Início com a minha crítica de Je Vous Salue Sarajevo de Godard (1993). Inicio está trazendo um contexto- que hoje vejo que foi um pouco quanto vago- para a obra francesa, e logo depois início trazendo o olhar crítico de dentro do curta, ou seja aquilo que Godard está propondo ali. As noções de pessimismo fotográfico e da trilha melancólica, são conceitos que mesmo dentro de uma simbologia cinematográfica, estão falando também sobre a técnica usada pelo curta o que é uma herança da crítica eisensteiniana, já que abordo ali sobre a montagem do filme que expõe ideias sobre ele como arte política. Ao longo da crítica fomento um pensar dentro das nossas categorias de organização social, e sobre essa decadência solitária que é a experiência do capitalismo, trago o horror e o sofrimento humano que é apontado por Godard e como a cultura pode ser ao mesmo tempo que um limitador pois está dentro dos códigos capitalistas, pode ser a forma de se pensar fora no caso pelos expoentes da arte. Tais pontos, bebem da crítica de Kracauer que é de cunho sociológico. Termino esta crítica com uma frase que eu amei ter escrito e deixo ela aqui por fim, “até quando o agora vai ser o pavor do amanhã?”. 

A próxima crítica que vou me debruçar corresponde ao curta, “Ilha das Flores” de Jorge Furtado (1989). Essa crítica pela minha análise de agora, é muito mais sobre o curta em si, suas estratégias e seus instrumentos como o uso de uma linguagem que remete à de documentário e a “brincadeira” entre realismo e surrealismo. Porém, também trabalho dentro dela com a técnica e a mensagem social, então devo apontar de novo que uso tanto da herança crítica de Kracauer quanto de Eisenstein. Trago para sustentar essa acidez que é determinante na linguagem cinematográfica de Ilha das Flores, o filósofo Foucault com sua tese sobre a biopolítica que estratifica e por consequência exclui, com jogos de verdade que moldam o nosso real e assim docilizar nosso olhar para ignorar o quanto um tomate pode ter todo um ciclo por exemplo, como é retratado no filme, em relação ao que é ruim para um e que é necessário para outro. Afinal, nós como sociedade sucateamos pessoas assim como fazemos com lixo, e as isolamos em uma ilha deixando-as a uma solidão e necessidade mórbida. 

A terceira e última crítica a analisar é do filme uruguaio, “Agarra-me forte” das diretoras Letícia Jorge e Ana Guevara (2024). Este filme foi visto na mostra de filmes uruguaios exibido no Centro Integrado de Cultura (CIC), que foi lindamente proposto a ida pela professor, e que foi um evento muito enriquecedor e delicioso de estar presente a uma mostra cultural e gratuita, programa esse que é tão importante para uma agenda política e crítica, é sobre ocupar território urbano com arte. Esta crítica por ser de um filme, eu trato mais sobre a narrativa e o simbolismo surrealista, e por causa disso é muito mais sobre o subjetivo, o que o filme representa para mim, não uma mensagem específica a ser codificada. Também trato sobre o feminino dentro de Agarra-me Forte, que é um fio condutor dentro do filme, tanto por ser um filme com diretoras e roteiristas mulheres, como por ser uma história que gira ao redor de três mulheres, e um bebê que devido a idade é basicamente mais um apoio narrativo e alívio cômico. Nessa crítica, talvez por ser de um filme não de um curta, é a primeira que trago um ponto negativo, pois eu realmente não gostei da forma que o início do filme é entregue achei corrido e desorganizado e estraga a experiência do ao longo dele. Portanto, com esses três elementos que são novidades neste parecer, eu entro no mérito da herança de outros tipos de crítica. A primeira que trago é a de Barthes, que traz que é sobre o filme e o telespectador, e que o significado não se limita ao que é apresentado, é interpretado por nós então são vários sentidos pois abarca, e está aberto a abarcar a interpretação de todos do além filme. A segunda herança crítica, é da Laura Mulvey, que trazia sua crítica acerca do olhar masculino nos filmes, e aqui nesta crítica eu destaco o olhar feminino e como contribui para a história e enriquece pois ao olhar para relações de mulheres com mulheres e sobre mulheres faz sentido ter um olhar feminino, e em vários momentos quando os filmes retratam relações femininas mas são feitas por um olhar masculino vemos incongruências com a proposta. 

Creio que ao longo da disciplina minhas críticas foram melhorando, recentemente vi o filme O Agente Secreto de Kleber Mendonça e fiz uma pequena crítica e não publiquei em lugar nenhum, mas vi essa melhora enfática. Fazer críticas cinematográficas ajuda a ampliar nosso olhar e nosso senso crítico, que é a proposta teórica da disciplina. 

Ana Carolina Martendal Menegassi

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Na crítica escrita sobre Ilha das Flores, o foco está nas contradições sociais e na desigualdade estrutural mostradas no curta. A análise destaca como o filme expõe o ciclo de consumo e descarte que desumaniza os pobres, tratando o alimento e o ser humano como mercadoria. Essa leitura ultrapassa o nível estético e se insere no campo sociológico, exatamente como propõe Siegfried Kracauer, para quem o cinema reflete os valores e as tensões de uma sociedade.
Ao analisar o curta como espelho da desigualdade brasileira, a crítica se aproxima também de Walter Benjamin, pois entende o filme como um ato de denúncia dentro da cultura de massa — uma obra que, por meio da ironia e da montagem, revela a ideologia escondida sob o cotidiano capitalista. O humor ácido e a forma didática do curta são lidos como estratégias políticas de resistência, o que conecta a crítica ao conceito benjaminiano de “desmistificação das imagens”.
Na crítica de Parasita, o texto analisa como a arquitetura e a espacialidade expressam as divisões de classe — a casa luxuosa dos Park, o porão dos Kim, e a escada como símbolo de ascensão ilusória. Essa leitura articula conteúdo social e estrutura visual, combinando duas tradições da crítica cinematográfica.
Por um lado, há uma forte presença de Kracauer, pois o filme é lido como retrato da sociedade contemporânea: a desigualdade, o desejo de ascender e a violência simbólica entre classes. O espaço torna-se espelho das relações sociais — exatamente o que Kracauer defendia ao ver o cinema como reflexo do mundo social.
Por outro lado, a crítica também dialoga com Eisenstein, ao observar como a mise-en-scène e a montagem produzem sentido — a alternância entre luz e sombra, alto e baixo, visível e oculto. O texto mostra que o impacto emocional e político do filme surge da construção formal, não apenas do tema.
Já na crítica de Pequena Miss Sunshine, o foco recaiu na humanidade dos personagens, na naturalidade das relações familiares e na mistura de humor e melancolia que marca o filme. Essa maneira de ler a obra se aproxima da perspectiva de André Bazin, já que para ele a função do crítico é revelar o real no filme, observar como a obra captura a verdade das situações humanas sem artifícios exagerados.
A crítica adota exatamente esse olhar. Ela destaca como o filme não depende de grandes reviravoltas ou manipulações dramáticas, mas sim de gestos simples — o silêncio do irmão, a ansiedade da mãe, o fracasso do pai, a impulsividade do avô e a esperança da pequena Olive. A leitura valoriza essa forma de realismo emocional e de espontaneidade dos personagens, enxergando o humor e a fragilidade como dimensões autênticas da vida comum. Essa atenção aos detalhes, sem impor uma interpretação rígida, corresponde ao que Bazin chama de crítica de revelação, que tenta iluminar a essência humana do filme.
Por outro lado, a crítica também se aproxima do pensamento de Roland Barthes, especialmente na ideia de que o sentido do filme não é fechado pelo diretor, mas aberto ao olhar do espectador. Quando a análise ressalta que o filme celebra “a beleza do fracasso” e “as imperfeições da vida”, ela está propondo uma leitura afetiva, que parte da experiência individual do espectador diante das imagens, e não de uma interpretação normativa.
Essa liberdade interpretativa — que aceita a vulnerabilidade da família Hoover como chave simbólica do filme — ecoa a visão barthesiana de que a crítica deve multiplicar sentidos, não encerrá-los.

Assim, a crítica de Pequena Miss Sunshine não busca uma verdade objetiva, tampouco transforma o filme em tese sociológica ou manifesto político. Ela opera num registro mais sensível, interessado naquilo que há de humano, frágil e universal na obra. 
Elisa Schlichting
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A leitura de “A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces” apresenta um panorama das principais perspectivas utilizadas para analisar filmes, entre elas, a crítica formalista, a crítica narratológica, a crítica humanista, a crítica sociológica e a crítica ensaística. Ao revisitar três críticas cinematográficas de minha autoria, foi possível observar como cada texto se aproxima de diferentes vertentes teóricas, revelando escolhas de leitura e de interpretação que dialogam diretamente com essas abordagens.

A primeira crítica, sobre Orgulho e Preconceito, se baseia principalmente em duas perspectivas: a crítica estética/formalistae a crítica literária/narratológica. Ao comentar como a câmera de Joe Wright traduz emoções por meio de movimentos fluidos, pausas e olhares, e como a montagem sustenta o ritmo emocional da obra, a análise valoriza a forma cinematográfica enquanto linguagem capaz de expressar nuances internas. Esse olhar para mise-en-scène, ritmo e composição corresponde à crítica formalista, que privilegia a dimensão estética e os mecanismos de construção da imagem. Paralelamente, ao relacionar o filme à obra de Jane Austen e destacar como a adaptação transforma subtexto literário em gesto, expressão e silêncio, a crítica se aproxima da vertente narratológica, que examina a estrutura do enredo e o diálogo entre literatura e cinema. Por fim, ao interpretar o filme como uma narrativa sobre percepção e autoconhecimento, também emergem traços da crítica humanista, que enfatiza valores, sentimentos e transformações humanas.

Na segunda crítica, sobre o curta Je vous salue, Sarajevo, de Jean-Luc Godard, predominam duas vertentes teóricas centrais: a crítica política/sociológica e a crítica ensaística. A análise relaciona o curta aos conflitos da Bósnia, refletindo sobre genocídio, memória e barbárie, o que situa o texto dentro da perspectiva sociológica, que entende o cinema como discurso social e histórico. Ao tratar a arte como forma de resistência e de registro da devastação, a crítica reconhece o papel político do filme e sua relação direta com acontecimentos reais. Além disso, a leitura adota um tom reflexivo e filosófico, especialmente ao discutir os trechos de Bernanos, Aragon e a frase de Godard associando cultura e arte, o que caracteriza o viés ensaístico. Nesse tipo de crítica, o foco não está apenas em descrever a obra, mas em pensar com ela, interpretando símbolos, metáforas e sensações. Há também um toque formalista ao mencionar o uso da música, dos fragmentos visuais e da desconstrução da imagem, mas sempre subordinado ao discurso político e poético do curta.

Por fim, a crítica de Parasita evidencia de maneira mais clara a predominância da crítica formalista, articulada à crítica sociológica. A análise destaca a composição de quadros, o uso da luz, a paleta de cores e a organização do espaço, elementos que Bong Joon-ho utiliza para criar contrastes visuais entre classes sociais. Essa leitura valoriza a mise-en-scène como instrumento de significado e demonstra como cada escolha de câmera, de cor e de perspectiva contribui para construir tensão, ironia e desigualdade. Ao mesmo tempo, ao tratar da casa como metáfora de hierarquias sociais e da chuva como expressão das desigualdades estruturais, a crítica transita pela perspectiva sociológica, reconhecendo a presença da crítica social como um dos motores da narrativa. A combinação dessas duas abordagens, estética e social, reforça a ideia de que Parasita é um filme em que a forma e o conteúdo são inseparáveis.

Kailani Novello

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Quando eu olho para essas três críticas juntas, dá pra perceber como diferentes tradições teóricas da crítica cinematográfica atravessam a leitura dos filmes, misturando aspectos formais, políticos, sociológicos e interpretativos. Na crítica sobre A Ilha das Flores (1989), por exemplo, eu acabo destacando muito a denúncia das desigualdades sociais e a forma como o curta escancara contradições econômicas usando uma narrativa irônica e fragmentada. Essa forma de analisar o filme tem muito a ver com Kracauer, que vê o cinema como reflexo das estruturas sociais, e também com Benjamin, já que o curta desmonta ideologias e expõe violências que normalmente passam despercebidas. Além disso, quando falo do impacto da montagem e do formato ensaístico, isso conversa diretamente com Eisenstein, que entendia a forma cinematográfica como algo capaz de produzir sentidos políticos ao manipular ritmos e associações.

Em Je Vous Salue, Sarajevo (1993), o foco da crítica vai para o modo como a imagem é revelada aos poucos, obrigando o espectador a construir o sentido gradualmente. Essa atenção ao processo formal e à edição é bem ligada à tradição eisensteiniana, porque a montagem aí funciona quase como um pensamento em movimento. A reflexão sobre cultura e arte presente na narração aproxima a leitura de Benjamin, que sempre destacou o papel político da arte frente à barbárie. E, quando reconheço que uma única imagem pode mudar de sentido dependendo de como é apresentada, isso ecoa Roland Barthes, que entende o significado como algo que nasce da relação entre obra e espectador, nunca como algo fixo.

Já na crítica de Retratos Fantasmas (2023), eu acabo juntando elementos históricos, sociais e subjetivos. Quando falo da presença nazista nos cinemas UFA e do papel político das salas de exibição, retomo diretamente a ideia de Kracauer de que o cinema registra tensões ideológicas de cada época. A discussão sobre a transformação dos cinemas em igrejas e sobre a disputa simbólica dos espaços urbanos aproxima essa leitura de Benjamin, especialmente na crítica à cultura de massas e às mudanças da memória coletiva. Ao trazer minhas próprias lembranças e afetos, a crítica também se aproxima de Barthes, porque o sentido surge justamente no encontro entre o filme e quem vê. E quando valorizo o olhar do diretor e a forma como ele transforma a cidade em narrativa visual, isso conversa com Bazin e sua defesa da autoria e da sensibilidade do cineasta diante do real.

No fim das contas, essas três críticas mostram como várias tradições teóricas acabam se misturando na crítica contemporânea. Cada uma delas mobiliza, de um jeito ou de outro, o formalismo do Eisenstein, o sociologismo do Kracauer, a crítica ideológica do Benjamin, a atenção à autoria do Bazin e a leitura aberta do Barthes. Isso tudo reforça como interpretar filmes é sempre um exercício que junta forma, história, política e sensibilidade, exatamente como propõe “A Crítica Cinematográfica e suas múltiplas faces”.

Fernando Andrade
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A crítica sobre Parasita evidencia uma leitura predominantemente sociológica e semiótica, articulando concepções-chave desenvolvidas por teóricos como Kracauer e Metz, conforme discutido no texto “A Crítica Cinematográfica e suas múltiplas faces”. Ao enfatizar a desigualdade social, como a oposição entre espaços físicos (o subsolo habitado pelos Kims versus a casa luminosa dos Park) e o abismo simbólico entre as classes, a crítica mobiliza uma abordagem kracaueriana, na qual o cinema é interpretado como espelho da realidade social e documento cultural. Essa dimensão se entrelaça com uma leitura semiótica: as escolhas de luz, enquadramento e disposição espacial são lidas como signos densos de significado, expressando hierarquias de poder e alienação, nos termos da semiótica cinematográfica de Metz. 
Além disso, a crítica atribui a Bong Joon-ho uma autoria muito clara, evidenciando consciência formal e domínio narrativo — o que remete à perspectiva baziniana sobre o autor e a “revelação” por meio da mise-en-scène, já que a direção cuidadosamente orquestra o tom de comédia, suspense e tragédia. Esse controle autoral é visto como uma força estética, mas ao mesmo tempo a crítica reconhece a dimensão política da obra, numa linha que dialoga também com Benjamin, no sentido de analisar o cinema como indústria cultural capaz de manipular emoções e construir mitos sociais para massas.
  No caso de Pequena Miss Sunshine, a crítica privilegia uma perspectiva humanista e existencial, centrada nas relações familiares, na empatia e no absurdo da vida. Essa abordagem remete fortemente à tradição baziniana, pois valoriza a autenticidade das atuações, a sinceridade das emoções e a “verdade” do humano em cena. A força da comédia dramática é interpretada não apenas como um entretenimento leve, mas como um meio de acessar dimensões profundas da experiência humana, algo que a teoria crítica relaciona à “revelação do real” através de elementos cotidianos. Simultaneamente, há um uso interpretativo barthesiano: a crítica convida o leitor a refletir sobre as múltiplas leituras possíveis — falha e fracasso familiar, idealismo, ambição, fragilidade — e permite que o sentido da obra não se esgote numa única interpretação.
Quanto à crítica de Questão de Tempo (About Time), o foco recai sobre a dimensão ética e afetiva, valorizando a reflexão sobre o tempo, o amor e as relações. Essa leitura dialoga fortemente com Kracauer, ao ver o filme como expressão de valores contemporâneos e meditações sociais: o longa funciona como espelho de certas ansiedades modernas — a busca pelo significado da vida, a valorização dos momentos íntimos e o ideal de moralidade afetiva. Simultaneamente, há uma marca baziniana na valorização da emoção genuína e da condição humana, com destaque para a atuação, os diálogos e os gestos simples, em vez de artifícios formais exagerados. Finalmente, a crítica assume também um caráter barthesiano quando propõe que cada espectador possa atribuir seu próprio significado à narrativa: o filme não entrega uma mensagem única e definitiva, mas oferece espaço para que o sentido floresça na interpretação individual. 
No conjunto, as três críticas — embora tratem de filmes muito diferentes em gênero, tom e temática — demonstram a pluralidade de abordagens defendida no texto “A Crítica Cinematográfica e suas múltiplas faces”. A crítica de Parasita articula formalismo, sociologia e teoria da indústria cultural; a de Pequena Miss Sunshine combina humanismo, estrutura narrativa e leitura interpretativa; e a de Questão de Tempo privilegia a ética cinematográfica, a reflexão social e a criação de sentido pelo leitor. Essa diversidade exemplifica exatamente o tipo de crítica rica e multifacetada que o texto do blog se propõe a valorizar — uma crítica que não se limita a julgar, mas que interpreta, contextualiza e convida à reflexão.  
Luisa Da Rosa
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À luz da leitura do texto "A Crítica Cinematográfica e suas múltiplas faces", este trabalho propõe  uma análise das críticas dos filmes 'Retratos Fantasmas', 'A Pele que Habito' e 'Dias Perfeitos',  realizadas ao longo do semestre com o objetivo de estabelecer um diálogo entre as abordagens  teóricas científicas e a prática da crítica cinematográfica." 

O texto oferece uma base teórica para compreender o papel e a evolução da crítica de cinema.  Ele descreve a crítica como uma ponte entre o público e a arte, um estímulo ao debate cultural,  um motor para o desenvolvimento cinematográfico e um registro histórico. Ao apresentar as  perspectivas de teóricos como Bazin, Eisenstein, Kracauer, Benjamin, Metz, Mulvey, Barthes e  Bordwell, o artigo revela a natureza multifacetada e, muitas vezes, híbrida da crítica  contemporânea. As análises dos filmes ilustram como essas diferentes abordagens teóricas se  manifestam no trabalho de análise fílmica. 

A valorização da figura do diretor como autor, uma ideia seminal de André Bazin, é palpável nas  três resenhas. Já que todas elas destacam a assinatura única e a filmografia dos diretores,  reconhecendo seu estilo e habilidade em criar narrativas, fazendo um paralelo direto com a ideia  de que o crítico busca: "revelar a essência que emerge da relação entre câmera e mundo"  através da visão autoral. Nessas análises as menções às características típicas das obras e e à  filmografia de cada diretor demonstram a perspectiva baziniana que valoriza o entendimento  da obra dentro do universo criativo de seu realizador. 

A seguir, faço uma breve análise de cada texto: 

A pele que Habito: multiplicidade e autoria 

A crítica de "A Pele Que Habito" vai ao encontro da perspectiva de André Bazin ao destacar a  "assinatura única de Pedro Almodóvar" e referenciar sua "filmografia". Isso reconhece o diretor  como autor, cujas escolhas estéticas e temáticas se repetem e se desenvolvem ao longo de sua  obra. A menção de que "o que mais vale aqui é a assinatura única de Pedro Almodóvar" sublinha  a importância da visão autoral, um pilar da crítica baziniana. 

Além disso, a análise do filme, ao questionar "Seria um drama? Suspense psicológico? Uma  ficção científica? O gênero não importa", dialoga com a ideia de Roland Barthes sobre a crítica  como produtora de novos sentidos, que não busca uma "verdade" fechada, mas sim multiplica  interpretações. O fato de o filme abordar temas como "bioética", "transgeneridade" e "moral e  ética médicas" também o conecta à visão de visão de Siegfried Kracauer, que enxergava o  cinema como um espelho da sociedade, revelando valores e debates contemporâneos. A 

complexidade narrativa e temática incita o pensamento crítico sobre "certo e errado, justiça e  injustiça", uma função social da crítica apontada pelo texto introdutório. 

Retratos Fantasmas: O Espelho Social e a Voz Autoral 

A análise de "Retratos Fantasmas" é um exemplo claro da crítica como espelho social, na linha  de Kracauer. Ao descrever o filme como um mergulho na "identidade coletiva de um Brasil em  transformação" e ao observar o contraste entre o "passado que pareceu tão bom, bonito e  culturalmente rico" e o "presente tão empobrecido", o texto enfatiza a capacidade do cinema  de documentar e criticar a sociedade. A menção aos "templos evangélicos, antigas salas de  cinema" como materialização do cenário social reforça essa leitura sociológica. 

A dimensão autoral também é evidente, alinhando-se novamente com Bazin. A referência à  "montagem típica das obras do diretor" e à "filmografia do diretor" demonstra que a crítica  percebe e valoriza a consistência estilística e temática de Kleber Mendonça Filho. A abordagem  do diretor, misturando elementos de documentário e ficção, também pode ser vista como um  ato de resistência e um "gesto político e dialético", na perspectiva de Walter Benjamin, ao  questionar a cultura e o estado de coisas através da nostalgia e da comparação. 

Dias Perfeitos: A forma a serviço da introspecção 

A crítica de "Dias Perfeitos" destaca a "maestria de Wim Wenders como contador de histórias"  reforçando o conceito de diretor como autor de Bazin. No entanto, esta análise se aprofunda  significativamente nos aspectos formais, o que a conecta diretamente com as teorias de  Christian Metz e David Bordwell. 

Ao descrever a "direção meticulosa, com uma atenção especial à composição visual", os "take's  longos que evocam uma sensação de contemplação", a "paleta de cores cuidadosamente  escolhida" e o "simbolismo" de cada cena, a crítica adota uma abordagem semiológica e  formalista. Ela explora como a linguagem cinematográfica (os signos visuais, a estrutura formal)  constrói sentido e afeta a experiência do espectador. A menção de que o filme "exige paciência  do espectador" e proporciona uma "experiência rica e gratificante" para quem busca "reflexão  e exploração interna" toca na dimensão cognitiva da recepção, como proposto por Bordwell,  onde a forma do filme molda a interpretação e o engajamento do público. A ideia de que o filme  convida a uma "jornada introspectiva que ressoa bem além de seus 120 minutos de duração"  também sugere uma interpretação pessoal e subjetiva, que ecoa o pensamento de Barthes  sobre a produção de sentido pelo leitor/espectador.

Conclusão: A Crítica como Mosaico Híbrido 

Em conjunto, as três críticas práticas, feitas no âmbito da disciplina, demonstram a natureza  híbrida da crítica cinematográfica contemporânea, conforme apontado pelo texto teórico.  Mesmo que não citem explicitamente os teóricos, elas aplicam seus princípios. Vemos o  reconhecimento da autoria (Bazin) em todos os textos, a preocupação com o filme como espelho  social (Kracauer) e como engajamento político (Benjamin) em "A Pele Que Habito" e "Retratos  Fantasmas", e uma atenção notável à forma e à linguagem cinematográfica (Metz, Bordwell) em  "Dias Perfeitos". A capacidade de suscitar múltiplas interpretações (Barthes) está presente em  todas as análises, especialmente na dúvida sobre a categorização de gênero de "A Pele Que  Habito". 

Esses exemplos práticos validam a ideia de que a crítica é um "mosaico formado por perspectivas  distintas", que coexistem e se entrelaçam para oferecer uma compreensão rica e aprofundada  do cinema. Elas cumprem a "função essencial" de "iluminar o filme", "ampliar horizontes" e  "despertar consciência", tal como detalhado no texto introdutório, provando que o diálogo  entre a teoria e a prática é vital para a vitalidade da crítica cinematográfica. 

Elisa Rocha

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O texto "A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces" apresenta um painel de abordagens teóricas que, longe de serem excludentes, muitas vezes se entrelaçam na prática crítica contemporânea. É possível perceber esse ecletismo operando nas críticas a seguir.

Em Je Vous Salue, Sarajevo, a perspectiva de Siegfried Kracauer é a espinha dorsal. Kracauer defendia que os filmes são um "espelho da sociedade", capazes de revelar suas ansiedades, valores e contradições. Isso se aplica no momento em que se descreve não somente a imagem da guerra, mas ao extrair dela um diagnóstico social. A frase "a guerra não é um acidente, mas um produto lógico do sistema dominante" é a essência do pensamento kracaueriano. O filme não é um registro isolado, mas  um sintoma de um corpo social doente, que prioriza a "estabilidade do status quo ao ato de salvar vidas". A análise do cigarro, do computador e do turismo como "mercadorias de uma sociedade marcada pelo consumismo" amplia ainda mais este espelho, refletindo a cultura de massas que coexiste e ignora a barbárie.
Esta crítica à cultura de massas e à espetacularização da guerra é onde Walter Benjamin ressoa com força. Benjamin via a crítica como um "ato de resistência" para "desmontar a ideologia que se esconde sob o entretenimento". Seguindo os passos de Godard e Benjamin, se tira a guerra do campo do espetáculo distante e a coloca como um "produto lógico" do nosso sistema, gerando um "sentimento de culpa e desconforto" que é o primeiro passo para a conscientização.
Já em A pele de Asno,  eu inicio situando o conflito central do filme, o tema do incesto, salientando imediatamente a escolha estética de Demy: tratar a crueldade com "leveza desconcertante e franqueza quase infantil". Essa observação é profundamente baziniana. André Bazin acreditava que a crítica deveria revelar a verdade ontológica do filme, a "essência que emerge da relação entre câmera e mundo", sem impor um julgamento moral rígido.
Em seguida, a análise da cor e da construção das cenas demonstra uma clara influência da semiótica de Christian Metz. As cores pastéis e os cenários de conto de fadas não são meros ornamentos, mas como uma "narrativa por si só".  O contraste entre a beleza estética e a fé do tema é um significado construído pela justaposição de elementos visuais, uma operação semiótica que Metz ajudou a cunhar na análise fílmica.
Em A Pele que Habito, a linguagem visual de Metz é aguçada. Como a paleta de cores como um "personagem por si só", atribuindo significados psicológicos e narrativos aos "brancos clínicos e gelados", "verdes esmeraldas" e "vermelhos passionais". Isso é além de uma mera descrição estética, é uma decodificação ativa do sistema de signos que Almodóvar constrói para criar claustrofobia e beleza simultâneas.
A análise da estrutura narrativa é onde David Bordwell é mais evidente. Bordwell propõe uma crítica técnica e racional, focada no "funcionamento interno do filme" e na "cognição do espectador". A descrição do roteiro como uma "armadilha perfeita" e a forma como se detalha a experiência do espectador, "você é forçado a remontar toda a narrativa na sua cabeça", é um relato da abordagem cognitiva. Não só se identifica os "pequenos 'estalos' que remodelam a compreensão, mas também explica como esse processo metódico de revelação é que constrói o horror psicológico, em vez de um "plot twist único". É uma análise que se concentra no como o filme funciona, não apenas no o que ele conta.
Esse processo de remontar a narrativa liga-se, mais uma vez, a Roland Barthes. Ao celebrar a vontade de "voltar ao início, só para admirar a arquitetura perfeita",  colocando o espectador no lugar de produtor de sentido. 

Maria Eduarda
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Análise das críticas sobre a ótica do texto “A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces”


Uma das mais curiosas e criativas dinâmicas que compõem o campo da crítica cinematográfica é que sua elaboração pode partir de diferentes propostas e estruturas, elucidando a pluralidade de olhares que podem ser utilizados para interpretar e experienciar uma produção de cinema. Serão apresentadas aqui 3 críticas elaboradas ao longo da disciplina, relacionando-as às principais perspectivas teóricas apresentadas no texto em questão.

Tendo em vista a visão cinematográfica elaborada por Sergei Eisenstein, partindo de uma perspectiva política e ideológica de como se estrutura um filme, é possível observar elementos desta perspectiva na crítica elaborada acerca do curta Je Vous Salue, Sarajevo (1993), de Jean-Luc Godard. Ao longo da crítica, busquei destacar como o diálogo estabelecido pelo diretor entre a violência intrínseca à chamada “Europa cultural” e a violência da guerra é utilizado para fazer pensar na violência basilar da vida na sociedade capitalista. Ao destacar a maneira como as curtas cenas, e os cortes entre elas, são apresentadas e como dialogam com a narração forte que as acompanha, minha crítica foi de encontro ao entendimento de Eisenstein de que a maneira como diferentes elementos de um filme são combinados e dialogam entre si faz surgir novas emoções que não são enxergados nesses elementos separadamente. Trata-se de uma estratégia engenhosa que busca expressar uma voz político-ideológica nos detalhes, de maneira subjetiva e ao mesmo tempo impactante. 

Considerando a crítica que escrevi sobre o curta Ilha das Flores (1989), dirigido por Jorge Amado, é interessante apontar o diálogo que se estabelece com a perspectiva de Siegfried Kracauer. Minha crítica se iniciou apontando que o objeto essencial do filme sobre é a horrorosa mas verdadeira face da humanidade que a sociedade como um todo, e cada um de nós, construiu e a qual é sujeita. Kracauer prioriza não apenas a qualidade de um filme em si, sua qualidade técnica, narrativa etc., mas o que o filme nos diz de nós mesmos enquanto sociedade. Por meio da crítica na perspectiva de Kracauer, observamos o poder representativo de discursos e narrativas: o que queremos representar de nós na arte que produzimos? o que buscamos esconder? Como é feita essa distinção? Essas perguntas se encaixam bem com muitas questões da realidade moderna, na qual se encontram em alta debates sobre como nos identificamos e como interagimos com o mundo, e que foram trazidas por mim na crítica do curta quando destaquei as escolhas narrativas e como é traçada uma dinâmica entre os diversos elementos e personagens do filme, representando a comunhão, para o bem e para o mal, da vida em sociedade.

Por fim, quando analisei o filme Pele de Asno (1970), de Jacques Demy, evidenciei o papel executado pelos aspectos técnicos do filme, mencionando que as cores, os figurinos e a trilha sonora funcionam quase como personagens do filme em si. Destaquei, ainda, que essas escolhas se tornam ainda mais interessantes quando analisadas em oposição aos elementos narrativos que compõem a obra. Retomando a crítica, pude observar elementos que vão de encontro à perspectiva de Christian Metz, já que os símbolos, as cores e os arquétipos que compõem a estética e a forma de um filme são evidenciados pelas críticas que se encaixam nessa perspectiva teórica. Metz coloca ênfase nos mínimos detalhes de uma produção, que foi o ponto que destaquei na minha crítica como o que mais me chamou atenção nesse filme: me cativou no que diz respeito ao rigor técnico, mas não tanto com relação ao roteiro condutor e aspectos mais subjetivos do filme. 

Escrevendo essa análise, pude perceber que, para além das perspectivas selecionadas, outros teóricos elencados no material disponibilizado poderiam se encaixar nesses mesmos filmes. Ou seja, se torna evidente que a crítica cinematográfica nos ajuda a desenvolver e amadurecer não só diferentes olhares sobre os filmes que assistimos, mas também diferentes olhares sobre o mundo. Ela nos ensina a nos tornar mais sensíveis e ao mesmo tempo desenvolve nosso senso crítico, conjugando elementos históricos, políticos e culturais do mundo com nossa vivência e realidade.


Graziela Alves

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"A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces” e sua relação com 3 críticas produzidas anteriormente.

Ao observar em conjunto as três críticas – “Je Vous Salue Sarajevo”, “Retratos Fantasmas” e “Questão de Tempo” – é possível perceber como elas dialogam, em diferentes níveis, com as perspectivas apresentadas em “A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces”. Mesmo sem citar diretamente os teóricos, as leituras realizadas aproximam-se de autores como Bazin, Kracauer, Benjamin, Metz, Bordwell e Barthes, compondo um mosaico teórico semelhante ao descrito no texto.

Em “Je Vous Salue Sarajevo”, a crítica se concentra sobretudo na dimensão ética, política e social das imagens. Ao apontar que o curta não busca explicar diretamente a guerra, mas refletir sobre a banalização da violência e a indiferença coletiva, a leitura aproxima-se de Kracauer, para quem o cinema revela valores e tensões sociais, e de Benjamin, ao denunciar a forma como tragédias podem ser consumidas como espetáculo pela cultura de massa. A ideia de que o filme coloca o espectador “sob julgamento” reforça essa perspectiva crítica. Além disso, a escolha formal de uma única fotografia estática, que recusa o sensacionalismo da guerra, ecoa a preocupação de Bazin com uma relação mais ética com o real. Ao mesmo tempo, o fato de o curta não oferecer explicações fechadas, mas deixar questões que continuam ecoando, aproxima essa crítica de Barthes, que entende a obra como ponto de partida para múltiplas interpretações.

Em “Retratos Fantasmas”, o olhar crítico torna-se mais híbrido, articulando dimensões formais e socioculturais, em consonância com a ideia de multiplicidade teórica presente em “A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces”. Quando se destaca a importância dos antigos cinemas de rua, da memória urbana e do apagamento de espaços culturais, a crítica se alinha à perspectiva de Kracauer, ao tratar o filme como documento social, e à de Benjamin, ao problematizar o desaparecimento de lugares de memória em meio às transformações da cidade. Paralelamente, ao apontar problemas de ritmo, repetição, enquadramentos pouco expressivos e falta de rigor na edição, a análise se aproxima do formalismo de Bordwell, que enfatiza o funcionamento interno da narrativa, e da semiótica de Metz, ao considerar como as escolhas de linguagem visual contribuem (ou não) para a construção de sentido. A referência ao caráter íntimo e autoral do filme também dialoga com Bazin, pela valorização da perspectiva do diretor, ainda que se faça uma crítica quando essa subjetividade tende a afastar o espectador.

Já em “Questão de Tempo”, crítica mais recente, as relações com as teorias aparecem de modo mais articulado. Ao recusar a leitura do filme apenas como comédia romântica e interpretá-lo como uma narrativa sobre controle, perfeccionismo e negação do acaso, a análise aproxima-se diretamente de Barthes, entendendo a crítica como produção de novos sentidos e não como busca de uma “verdade” única da obra. A figura de Tim, que manipula o tempo e o destino conforme seus desejos, pode ser lida à luz de Kracauer, como expressão de um sujeito contemporâneo obcecado por controle, e de Benjamin, ao revelar a ideologia por trás de um romance aparentemente inofensivo. Ao situar o filme dentro do gênero da comédia romântica e mostrar como ele desloca algumas de suas premissas, a crítica ecoa Bazin, que vê a crítica como revelação da essência de um filme em relação às tradições do cinema. Além disso, ao analisar o uso recorrente das viagens no tempo como estrutura dramática que organiza a experiência do espectador, a leitura se aproxima de Bordwell, ao enfatizar o papel da forma e da narrativa na construção da recepção.

Consideradas em conjunto, as três críticas exemplificam o que o texto “A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces” descreve: um campo em que diferentes perspectivas – autoral, sociológica, política, formal, semiótica e interpretativa – convivem e se entrelaçam. Em “Je Vous Salue Sarajevo”, sobressaem as dimensões ética e política (Kracauer, Benjamin, Barthes, Bazin); em “Retratos Fantasmas”, há um equilíbrio entre memória social e forma cinematográfica (Kracauer, Benjamin, Metz, Bordwell, Bazin); em “Questão de Tempo”, destaca-se a releitura filosófica e interpretativa de um romance aparentemente convencional (Barthes, Kracauer, Benjamin, Bazin, Bordwell). Também se nota a ausência relativa de certas perspectivas, como a crítica feminista de Mulvey ou uma análise mais sistemática da montagem à maneira de Eisenstein, o que indica um foco maior em questões de sentido, sociedade e estrutura narrativa do que em gênero ou choque de imagens.

Dessa forma, a relação entre as críticas e o texto “A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces” evidencia que a prática crítica exercida já se insere nesse cenário teórico contemporâneo, em que a crítica não se limita a julgar filmes, mas a iluminá-los: como reflexos de uma sociedade, como construções formais e como espaços abertos para múltiplas interpretações.

Eduardo De Queiroz
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As três críticas selecionadas evidenciam diferentes modos de leitura que dialogam diretamente com as principais perspectivas teóricas apresentadas em “A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces”. Na análise de Ilha das Flores, a abordagem sociológica é predominante. A crítica observa como o curta expõe a desigualdade extrema e a lógica desumanizante do consumo, o que se relaciona com a concepção de Kracauer de que o cinema revela tensões e contradições sociais. A atenção ao ritmo, à narração encadeada e à montagem que conduz ao choque final aproxima essa leitura da teoria de Eisenstein, que entende a montagem como produtora de sentido político. Ao destacar o desconforto gerado pelo contraste entre a forma objetiva e o conteúdo brutal, a crítica também expressa uma postura próxima à de Benjamin, que questiona as ideologias presentes na cultura e evidencia como a linguagem audiovisual pode escancarar estruturas opressivas.

Na crítica de Pele de Asno, a leitura se volta para o artifício e a construção estética da obra. A percepção de que o filme assume sua natureza fantasiosa dialoga com uma noção que, embora distinta do realismo baziniano, mantém afinidade com a ideia de um pacto entre filme e espectador baseado na clareza das escolhas estéticas. A análise das cores, dos figurinos e da música reflete um olhar semiótico alinhado a Metz, ao considerar os elementos visuais e sonoros como signos que constroem significados próprios. O desconforto causado pela naturalização do incesto no conto original revela uma abordagem próxima à de Mulvey, que examina como narrativas tradicionais perpetuam relações de poder e violência simbólica. Essa leitura reconhece que o encantamento estético convive com tensões culturais profundas, o que também se aproxima de Barthes ao admitir múltiplas interpretações que emergem da relação entre espectador e obra.

A crítica de Je vous salue, Sarajevo se estrutura em torno da tensão entre cultura e violência, ponto que remete diretamente à reflexão de Benjamin sobre como a barbárie se manifesta dentro da própria cultura. A insistência na imagem fixa e na narração dura evidencia como o curta recusa a catarse típica do cinema e obriga o espectador a encarar a violência sem mediações. Esse procedimento se relaciona com o pensamento de Eisenstein, já que a justaposição entre a fotografia parada e a narração produz um choque conceitual que gera sentido político. A contextualização da guerra da Bósnia e da maneira como ela foi percebida na Europa reforça uma leitura próxima à de Kracauer, entendendo o filme como documento social que revela omissões e silêncios históricos. Por fim, a ideia de que o espectador precisa completar o não mostrado dialoga com Barthes, pois o significado surge do processo interpretativo, e com Metz, na medida em que a forma minimalista do curta funciona como estrutura significante que orienta essa interpretação. 

Alvaro Micaio

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A crítica cinematográfica é um campo de mediação entre a arte e quem a consome, uma ponte entre a perspectiva individual e todas as estruturas já presentes na sociedade, que moldam a forma de vermos, compreendermos e navegarmos o mundo. Ela não é estática, se transformando junto dos paradigmas teóricos se modificam. Nesse sentido, as críticas produzidas no decorrer da disciplina demonstram, de certa forma, a natureza da crítica contemporânea, se relacionando a teorias como o formalismo de Eisenstein e a desconstrução de Mulvey.

Na crítica sobre Je Vous Salue Sarajevo (1993), de Godard, busca-se decodificar a obra. Ao detalhar a forma que fotografia é destrinchada na obra, mostrando como a composição desses elementos cria uma ligação entre arte, cultura e política, o texto aplica o princípio de Sergei Eisenstein. Para este teórico, a função da crítica é compreender como a montagem de imagens gera significados que não estão presentes nos elementos isolados, atuando quase como um anatomista que revela as forças internas do filme.

A afirmação central de Godard, de que "a guerra é a regra, é cultural, e a resistência é a exceção, a arte", foi lida como um reflexo direto das tensões sociais, algo que se relaciona com a ideia de Siegfried Kracauer, que via o cinema como um espelho cultural, capaz de revelar valores dominantes e contradições históricas. O fato de a saudação de Godard ser considerada atemporal, estendendo-se para "Gaza, ou para o Sudão", reforça a visão do filme como um documento social que transcende seu contexto imediato.

Já na crítica sobre Pele de Asno (1970), o texto descreve o uso de cores vibrantes, figurinos extravagantes e a beleza das músicas, no entanto, faz uma avaliação crítica do ritmo, observando que o filme transmite a sensação de ser longo demais e que as músicas ou cenas aparentavam vazias e alongadas além do necessário. Essa avaliação sistemática do estilo, da técnica e da narrativa reflete a abordagem do formalismo contemporâneo de David Bordwell, que foca no funcionamento interno e na cognição do espectador.

O texto também mergulha em questões de representação e poder, tornando-se um espelho cultural. Por outro lado, o destaque do incômodo ao assistir o rei fazendo avanços na própria filha e a angústia diante da vulnerabilidade da princesa é um ato de denúncia e desnaturalização. Isso se alinha fortemente com a ideia de Laura Mulvey, que exige que a crítica revele os mecanismos de opressão e denuncie desigualdades sociais e de gênero, como o olhar dominante. 

Por fim, na crítica de Retratos Fantasmas (2023) a análise se relaciona fortemente a teoria do autor André Bazin, ao se centrar na figura de Kleber Mendonça Filho. A crítica estabelece a coerência temática do diretor, mostrando como sua vida pessoal influencia sua filmografia. O filme é visto, portanto, como uma reverência aos fantasmas que colaboraram com todas as histórias já contadas pelo diretor.

O texto também adota uma perspectiva sociológica, tratando o filme como um documento social e uma máquina do tempo. Ele registra a transformação do cenário urbano de uma cidade e a adaptação do cinema conforme o contexto político, econômico e social. Essa função de mostrar como os filmes refletem a sociedade é fundamental na visão de Kracauer. Essa leitura se intensifica ao enxergar a arte como resistência, destacando como o cinema “não permite que a arte definhe ou perca sentido em tempos sombrios, de ódio e censura", o que ressoa a ideia de Walter Benjamin de que a crítica e a arte podem ser um ato político contra ideologias.

Ademais, o sentimento de ser "tomado pela nostalgia de algo que nem viveu" e a descrição da obra como uma "carta de amor" demonstram a valorização da experiência subjetiva de quem está assistindo. Essa ênfase na leitura do espectador, onde o significado é multiplicado e não fechado, está ligada à teoria de Roland Barthes, para quem o sentido é criado na relação entre a obra e o leitor/espectador.

- Camilly Iagnecz

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A análise das críticas de autoria própria à luz das perspectivas teóricas da crítica cinematográfica, conforme proposto pela leitura de "A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces", é um exercício fundamental para aprimorar a escrita e a consciência metodológica. 

A primeira crítica, focada em Ilha das Flores, manifesta uma adesão clara à Perspectiva Sociológica e Ideológica. O texto não se limita a descrever o filme, mas o contextualiza em seu período de redemocratização, priorizando a leitura da obra como um instrumento de denúncia social. A análise do filme se concentra em sua mensagem central, destacando a "lógica cruel do capitalismo" e a exposição da desigualdade entre o desperdício de uns e a fome de outros. Para esta abordagem, a validade do cinema reside em sua capacidade de refletir e criticar as estruturas de poder, fazendo do filme de Jorge Furtado uma peça essencial no debate sobre a moralidade social.

Transitando para uma esfera mais abstrata, a segunda crítica se afasta do contexto político específico e se concentra na dicotomia entre Regra e Exceção. Este texto adota predominantemente uma Perspectiva Temática e Filosófica. O foco reside na exploração de ideias universais, onde a Regra simboliza o poder, o egoísmo e a estrutura social imposta, e a Exceção representa a vida sentida, a arte, os sentimentos e a felicidade complexa. A obra cinematográfica é utilizada como um mero veículo para a meditação existencial sobre o medo, o propósito e a eterna luta pela "arte de viver" que se opõe ao determinismo da "regra". O valor desta crítica reside na sua capacidade de extrapolar a narrativa para o campo das grandes questões da condição humana, tratando o filme como um catalisador para o pensamento filosófico.

Por fim, a terceira crítica, que aborda Questão de Tempo, demonstra uma combinação sofisticada de métodos. Ela se inicia com uma Perspectiva Formalista, ao analisar o recurso da viagem no tempo como um "dispositivo diegético" e uma "metáfora para a fragilidade da linha do tempo pessoal", ou seja, como a forma da narrativa é construída para gerar significado. Simultaneamente, ao interpretar o conselho da "dupla vida" como uma alegoria para a atenção plena (mindfulness) e a aceitação do "cronos inexorável", ela reforça a abordagem Temática e Filosófica. Adicionalmente, o reconhecimento do filme como uma "fábula moral e existencial de notável complexidade" escrita e dirigida por Richard Curtis insere a crítica na Teoria do Autor, que valoriza a visão pessoal e coerente do realizador como a fonte primária de significado da obra. Em suma, o conjunto de textos ilustra o espectro completo da crítica: da denúncia sociológica, passando pela investigação filosófica do tema, até a análise da estrutura e autoria do filme. 
Nathan Duarte
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As três críticas analisadas evidenciam a multiplicidade de perspectivas que caracterizam o campo da crítica cinematográfica, dialogando diretamente com as abordagens apresentadas em A Crítica Cinematográfica e suas Múltiplas Faces. A primeira crítica, sobre A pele que habito, articula elementos da crítica formalista ao examinar a trilha sonora, a ambientação e a estética perturbadora utilizadas por Almodóvar, ao mesmo tempo em que incorpora marcas da crítica impressionista, expressas nas reações subjetivas e nos juízos de valor sobre o impacto e os limites do filme. Além disso, ao questionar o tratamento dado às questões de identidade e gênero, aproxima-se de uma leitura ideológica, preocupada com a dimensão ética e política das representações.

Já a crítica do filme Agarrame Fuerte adota predominantemente uma perspectiva humanista e afetiva, valorizando a experiência sensível proporcionada pela narrativa e a forma como as diretoras constroem o luto, a memória e o reencontro com o passado. A análise dá ênfase à estrutura narrativa do filme e à função da lembrança como mecanismo de ressignificação da perda, aproximando-se de uma crítica de base narratológica, centrada na progressão dramática e no sentido emocional das ações. Embora menos explicitamente ideológica, essa crítica também mobiliza elementos sociológicos ao tratar das relações de afeto, do cotidiano e das vivências femininas.

Por fim, a crítica de Pequena Miss Sunshine integra perspectivas sociológica e narrativa ao discutir os conflitos internos da família e a forma como o road movie articula processos individuais e coletivos. A análise dos dilemas pessoais, das pressões sociais e da sensibilidade infantil revela uma leitura voltada para os temas e para as dinâmicas sociais representadas no filme. Há ainda observações estéticas gerais, como o uso da iluminação e da trilha sonora para manter o tom otimista, alinhadas a uma crítica jornalística que comenta aspectos formais sem aprofundamento técnico.

Assim, as três críticas exemplificam a diversidade de enfoques que compõem o fazer crítico: do formalismo à leitura ideológica, da análise afetiva à sociológica, passando pela atenção à estrutura narrativa. Cada uma demonstra, à sua maneira, como a crítica cinematográfica opera de modo plural, mobilizando diferentes métodos e sensibilidades para interpretar a experiência fílmica.

Luciana Pedrazzi

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A crítica cinematográfica , como visto nas aulas da matéria de mesmo nome, pode ser vista como uma discussão sobre a arte, falar sobre ela, mas ao mesmo tempo falar sobre o autor da crítica, sobre o mundo que vivemos e como interagimos com os filmes, decodificamos e os sentimos. A escrita se desenvolve então no sentido de conduzir o leitor e convidá-lo a sentir os aspectos simbólicos, políticos, técnicos e culturais em torno dessas obras. Ler e entender os teóricos que pensaram sobre esse ramo da escrita após escrever e experimentar nós mesmos dissecar o que vemos foi bom para percebemos como tais conceitos, “consciente ou inconscientes” são usados. 

Seguindo o que foi dito, a crítica de “Je vous salue Sarajevo” de 1993 do Godard bebe de muitas fontes – Como as duas que estão por vir – involuntariamente, principalmente toda a teoria da montagem de Eisenstein, o como os cortes e a edição do filme cria sentido para o que estamos vendo, nesse caso parece bem apropriado ao Jean Luc Godard considerado por muitos como “mestre da montagem”.Neste curta, há justaposições, cortes de uma imagem, mas que aos poucos revelam ao todo, junto a isso, um discurso político, revelando essa “engenharia estética” por trás da ideologia e os sentidos que o filme quer passar.

Na crítica “Incesto (não) é fantástico” sobre “Pele de Asno” de 1970, tem muita descrição do longa, mas ainda vejo como uma crítica aos moldes de Kracauer, na tentativa de compreender as escolhas artísticas do diretor, os símbolos, e comentar sobre os valores alí impostos, ambientando o filme em uma ideia de idade média e radicalizando os contos de fada, mas pra falar de temas como incesto e a crítica para essa vida luxuosa em uma corte europeia.

Já no comentário  “Singelo ou moralmente incerto? Uma Questão de Tempo, sobre o filme “Questão de Tempo” (2013), a abordagem se assemelha mais aos pensamentos de Bazin sobre a crítica ser um instrumento para dissecar o filme, como um escultor em uma pedra. A escrita acerca do filme busca entender a assinatura do diretor e entender suas escolhas de roteiro e história dentro do seu contexto, sendo assim possível pensar sobre a construção por trás da tela.

No decorrer do curso, percebesse uma melhora – ao menos nos olhos de quem escreve esse texto – na escrita e na percepção ao assistir o filme, e com as teorias ensinadas nas últimas aulas, foi ainda mais claro, fomentado curiosidade sobre a teoria do cinema, como percebemos o filme ao assistirmos e como nós percebemos ao escrever e pensar sobre os mesmos.


Vinícius Lemos Marcílio

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 A partir da perspectiva de críticas sobre a ótica do escrito " A crítica cinematográfica  e suas múltiplas abordagens" e das aulas de crítica cinematográfica, analiso às seguintes críticas de minha autoria:

1 Crítica de Je vous Salue Sarajevo

"Je Vous Salue Sarajevo", produzido por Jean-Luc Godard em 1993, é uma obra que desafia a percepção convencional do documentário. O curta-metragem, com apenas 2 minutos de duração, apresenta um olhar íntimo sobre a guerra na Bósnia, utilizando a linguagem cinematográfica para transmitir a dor e a confusão vividas durante o conflito.


Godard, ao optar por uma abordagem não linear, nos leva a refletir sobre a fragmentação da realidade em tempos de guerra. A narrativa evita o sensacionalismo típico das coberturas de mídia, favorecendo uma reflexão mais profunda sobre os impactos do conflito na vida cotidiana das pessoas. As imagens são intercaladas com textos e citações, criando uma atmosfera envolvente que instiga a empatia do espectador.


No entanto, essa técnica pode ser um tanto desorientadora. Para aqueles menos familiarizados com o estilo de Godard, o filme pode parecer confuso e até estranho. A desconexão entre as imagens e a trilha sonora provoca uma estranha mistura de emoções – uma combinação de esperança e desespero que ressoa com a complexidade da condição humana.

Com a questão de demonstrar sua narrativa em uma foto apenas, isso nos remonta como podemos ter diferentes realidades e tratamento no mesmo mundo, mesmo país, e mesma sociedade, remetendo à segregação.


Em suma, "Je Vous Salue Sarajevo" é um convite à reflexão sobre a guerra e suas consequências. Apesar de sua estrutura pouco convencional, Godard nos apresenta um retrato poderoso que transcende a simples documentação, levando o espectador a considerar o que significa ser humano em tempos de caos. É uma experiência que, embora desafiadora, vale a pena ser apreciada.


Análise:
Ao analisar a escrita dessa minha primeira crítica, noto vendo de fora, um tom mais jornalístico tradicional que mistura elementos técnicos com uma resenha de tabloide muito focada em passar o contexto do filme em diante para o leitor; mas também me remete um pouco a uma linguagem um pouco mais acadêmica que acaba se comunicando mais com o universo de pessoas que estudam cinema a fundo, não tão somente à grande massa.

2 Retratos fantasmas. 

Retratos Fantasmas (2023), dirigido por Kleber Mendonça Filho, é um documentário que se constrói como um espectro afetivo sobre o Recife e suas transformações. O filme trabalha a partir de registros íntimos, caseiros, da própria vida do diretor, para expandir-se em memória coletiva, criando uma linha narrativa que é ao mesmo tempo pessoal e política.

A montagem, feita de fragmentos que se repetem e se desdobram, traz esse olhar de permanência e perda, como se as imagens insistissem em existir mesmo quando a cidade insiste em apagá-las. De início nostálgico, o tom vai ganhando força crítica, pois o que poderia ser apenas um álbum de lembranças se revela também um retrato da exclusão, da especulação imobiliária e da desigualdade social que moldam o espaço urbano.

Kleber Mendonça nos guia por uma Recife que já não existe mais, porém que permanece viva no cinema. E é nesse choque entre lembrança e ausência que o documentário encontra seu peso: ao mesmo tempo que emociona pela nostalgia da memória, denuncia as violências de um sistema que consome até mesmo a própria identidade cultural da cidade. Retratos Fantasmas é, assim, um filme difícil de não se impactar, também é necessário ser visto pela sua capacidade de transformar o íntimo em universal.

Analise:

Nessa já notei uma linguagem diferente, um pouco menos formal porém ainda sim mantendo certa formalidade. Ao analisar o'escrito como um todo, percebi que essa uma se assemelha mais com breve crítica em rede sociais pelo seu formato curto e opinativo e ao mesmo tempo um pouco com crítica ensaística com espaço mais livre que permitiu uma linha um pouco poética mesmo que esse último aspecto esteja pouco presente na narrativa


3 Little Miss sunshine:

Little Miss Sunshine é um daqueles filmes que você assiste que você assiste e quando termina, pensa algo do tipo "eu já vivi isso". O filme é muito eficaz em demonstrar uma família disfuncional logo nos primeiros minutos, onde cada um é bem introduzido e bem contextualizado onde cada um tem seus desejos e suas amarguras bem definidas. Um ponto que gosto muito é da intersecção do comportamento infantil do avô e da Olive, que realmente é uma criança, parece que no final são os dois únicos a não se ofuscarem por suas frustrações.

A jornada da família foi muito bem construída e muito bem roteirizada, fala sério, se me contassem que eu iria gostar tanto de um filme que se passa dentro de uma kombi, dificilmente eu acreditaria. Isso mostra o quão bem escrito foi o roteiro, que também fala de forma "leve" e direta sobre temas sérios como Depressão e suicidio, e ambos expostos à ótica de uma criança. Bem como a crítica bem sólida à indústria da moda que retira a infância das crianças desde muito cedo e como isso quase tira a infância da protagonista também. 
A fotografia do filme é esteticamente muito agradável e os tons de amarelo se sobressaem em bons momentos do filme, e também são pensados para ressaltar as excelentes atuações do elenco, onde cada personagem se conecta com os outros e com o público de forma única.
Little Miss Sunshine é um filme de família para se ver com a família pois apesar de enfadonho, mostra o lado disfuncional que toda família tem, mas que isso não impede a união e o amor de prevalecerem.

Analise:

Já esta última veio com uma escrita que se transformou ao longo da matéria, uma escrita mais livre e aberta para uma linguagem mais pessoal e descontraída, quase como em formato de crítica para blogs . Em comparada às outras, o enfoque aqui é, não em aspectos tão técnicos como produção ou fotografia, mas sim em sentimentos e em subtextos que a trama carrega consigo, senti nessa crítica uma folga nas amarras de escrever para quem faz cinema, que transformou a escrita em um texto para quem gosta de consumir cinema.

Chego na conclusão que durante o curso da matéria me desatei de questões tão tecnicistas e uma crítica que mesclava jornalismo e academicismo para um formato mais leve voltado para a linguagem da crítica para blog e pouco como crítica ensaística, algo que no final julgo como progressivo, pois me adaptei a uma linguagem menos técnica e acadêmica e mais acessível. Muito interessante a classificação das críticas que o livro traz consigo e como sem perceber acabamos sempre nos encaixando em alguma delas. Certamente ajuda à fazer uma autocrítica muito melhor agora.




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