Dias Perfeitos (2023), dir. Wim Wenders
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Crítica: Dias Perfeitos (2023), dir. Wim Wenders
por Amanda M.
Dias Perfeitos é um daqueles filmes que parecem simples na superfície, mas deixam marcas profundas. Dirigido com delicadeza por Wim Wenders, o longa acompanha Hirayama (vivido de forma sublime por Koji Yakusho), um homem que trabalha limpando banheiros públicos em Tóquio — e que, apesar da rotina repetitiva, carrega uma vida interior rica, silenciosa e cheia de pequenos rituais.
A narrativa é lenta, contemplativa, quase minimalista, mas isso é justamente o que faz o filme ser tão especial. Em tempos de excessos visuais e ruídos constantes, Dias Perfeitos é como um respiro calmo e necessário. O filme nos convida a observar o cotidiano com mais atenção, a valorizar os detalhes: a luz da manhã, uma árvore balançando ao vento, o som de uma música antiga em uma fita cassete.
A fotografia é belíssima e carrega uma poesia visual discreta — cada enquadramento parece cuidadosamente pensado para transmitir silêncio, tempo e intimidade. A câmera respeita o tempo das coisas, sem pressa, sem cortes bruscos. Isso nos faz sentir mais próximos de Hirayama, como se caminhássemos com ele por Tóquio, entrando em seus pensamentos mesmo quando ele nada diz.
A trilha sonora, com clássicos como Lou Reed e The Velvet Underground, cria uma atmosfera nostálgica e acolhedora. É como se a música fosse a voz do personagem, já que ele fala pouco, mas sente muito.
Não é um filme cheio de grandes reviravoltas, mas é imenso em sensibilidade. Fala sobre solitude, envelhecimento, memórias e a beleza de uma vida aparentemente ordinária. Ao final, me vi emocionada — talvez porque Dias Perfeitos nos lembra que o extraordinário pode estar justamente na rotina, na repetição, na aceitação da simplicidade.
É um filme que exige entrega e paciência. Mas para quem aceita esse convite, ele deixa uma sensação profunda de paz — e uma vontade súbita de observar o céu com mais cuidado no dia seguinte.
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"Extraordinário e Comum”
Perfect Days é um filme nipo-germânico, dirigido por Wim Wenders e escrito pelo mesmo junto de Takuma Takasaki. A trama segue o dia a dia de Hirayama (Kōji Yakusho) enquanto trabalha como limpador de banheiros públicos em Tóquio.
Entrei no filme achando que se trataria de um ode à humildade e respeito da cultura japonesa ou uma tragédia sem fim com alguma crítica à condição de trabalhadores braçais. O que encontrei foi uma história que se destaca de outras formas, explorando a realidade de uma pessoa não extraordinariamente comum, mas sim extraordinária e ainda assim comum. Muitas vezes a grande tela do cinema é apontada para histórias de quem se destaca, pois o ordinário é visto como óbvio. Ironicamente, a falta de exposição ao que não se destaca torna ele mais único e propicia uma conexão diferente com a narrativa, no caso de Perfect Days pode se encontrar muito de espetacular na rotina de Hirayama, seu exercício metódico em limpar os ambientes se cruza com as interações que tem com as pessoas que o rodeiam no seu viver cotidiano.
Apesar de representar alguém comum, o personagem é rico de coisas que o tornam único, que cativam a nós que o observamos, sua comunicação que pouco se vale do dizer em si, o modo como parece ser querido apesar de sua aparente solitude, as músicas que ouve ainda em mídia física, seu hábito de leitura e a alegria de jogar o jogo da velha com um desconhecido através de um papel deixado no banheiro.
Possivelmente cada um vai tirar algo desse sujeito, mesmo que esse algo talvez seja nada, o que não resta de dúvidas é que mesmo só tendo uma fração de sua realidade presente e menos ainda de seu passado se percebe seu ser pelas suas interações com tudo que o ronda, pessoas, lugares, sensações, dores, tarefas, memórias, como qualquer pessoa o pode fazer, porém cada qual a sua maneira. Cada uma comum e extraordinária.
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CRÍTICA DO FILME “PERFECT DAYS”
por Vitória Amaral Marques
“Perfect Days” é aquele tipo de filme que fica na cabeça e faz a gente pensar por dias. Ele mostra, de forma bonita, como as coisas simples do dia a dia também podem ser especiais.
Acompanhamos a rotina de Hirayama durante alguns dias que, à primeira vista, parecem “normais” – ele repete os mesmos hábitos –, mas o filme consegue encontrar beleza e até variedade nessa repetição. Seja regando as plantas, escolhendo uma música no carro ou tomando um café no fim do dia, cada detalhe é tratado com leveza e cuidado, de um jeito que faz a gente enxergar a vida com outros olhos.
O que mais me tocou foi justamente a forma como o filme ensina a olhar o presente. Hirayama come no mesmo restaurante (mas em mesas diferentes), dirige pelo mesmo caminho (ouvindo músicas diferentes), tira fotos no mesmo banco do parque há anos (e cada uma é única). Ele vive o momento presente com tranquilidade. A frase “agora é agora, da próxima vez é da próxima vez” resume bem isso. É uma capacidade incrível de encontrar felicidade e novidade nas mesmas coisas. Me fez refletir muito sobre a minha vida, como estou olhando para meu dia a dia.
E mesmo falando pouco, Hirayama passa muitos sentimentos. A gentileza dele não parece algo bobo, mas sim algo que ele foi aprendendo com o tempo — talvez como uma forma de lidar com a correria e frieza da cidade. A maneira como ele se relaciona com as outras pessoas também mostra esse cuidado: com o colega de trabalho, com os desconhecidos que cruzam seu caminho e com a sobrinha que aparece de surpresa. Ele se conecta com os outros de um jeito calmo e discreto, mas cheio de carinho. São encontros rápidos, mas que deixam uma marca.
Enfim, o filme não tenta romantizar a rotina nem ser otimista demais, mas fala, na verdade, sobre a busca diária por beleza e leveza nas ruas de Tóquio. Ele convida a gente a valorizar o presente, a encontrar prazer nas tarefas mais simples e a perceber a beleza nos detalhes do cotidiano – tudo isso em contraste com a alienação e o ritmo acelerado da sociedade. É um filme que lembra que a verdadeira felicidade muitas vezes mora nas pequenas alegrias.
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Perfect Days e a dádiva do hoje.
por Laura D'Amoreira
Perfect Days me pareceu um convite e desacelerar, a repensar e acima disso, a apenas estar presente. Com a sua narrativa circular, e até um pouco repetitiva (mas que não me foi cansativa), o filme de Wim Wenders pode até parecer que não esteja tentando chegar a lugar algum. Bem, talvez não esteja mesmo, pelo menos não da forma convencional como um filme avança ou “chega em algum lugar”, com grandes transformações de mundo, na vida dos personagens ou plot twists mirabolosos - Perfect Days não tem nada disso. Se usando da rotina bem fechada e constante do protagonista Hirayama, o filme nos deixa espiar por duas horas uma vida mais calma, acompanhada de livros e fitas cassetes (e não aplicativos repletos de notificações e playlists com mais de dez horas, tudo sempre disponível).
Não quero cair na armadilha de “romantizar” a vida de Hirayama, que tem um trabalho pesado e parece ter pouco ou quase nenhum contato social profundo, mas como alguém que ama tirar fotos mas não faz com frequência, leu muito na infância mas não lê tanto mais e já tentou praticar jardinagem algumas vezes e nunca dando muito certo, a rotina dele me trouxe uma paz muito grande durante aquelas curtas duas horas.
Me pego pensando o que poderia dizer para acrescentar sobre esse filme, mas não consigo pensar em nada: acredito que isso seja porque, para mim, o interessante sobre esse filme está nas lacunas dele, nos espaços vazios que ele deixa você preencher com suas suposições ou os momentos de silêncio onde, no respiro, você se pega pensando “Porque eu parei de fazer tal coisa? Eu amava tanto isso”. Talvez essa última seja algo mais particular meu, tenho pensado muito nesse assunto recentemente, mas me parece que é o convite do filme. Um convite gentil a pensar sobre as lacunas da própria vida e o que foi esquecido no caminho e pode ser recuperado, se tiver interesse. Perfect Days se encaixou como mais uma peça nesse quebra-cabeça que venho montando, sem foto de referência nem nome explícito. Deixo aqui meu convite a encaixar essa no seu quebra-cabeça também.
Talvez o máximo que eu possa acrescentar seja dizer que Hirayama me lembrou uma sábia tartaruga que um dia disse “O ontem é história, o amanhã um mistério, mas o hoje é uma dádiva, por isso se chama presente”.
Hoje é hoje, hoje é uma dádiva, amanhã é amanhã.
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O sopro de vida de Wim Wenders
por Magnus Ferreira de Melo
Sempre penso no poder de Wim Wenders em ser, de trabalho em trabalho, um camaleão. E me inclino muito a artistas que não têm medo de desviar a proposta de seus projetos dos anteriores. Não vejo semelhança alguma entre Dias perfeitos (2023) de Paris, Texas (1984) — seu trabalho de maior sucesso, e que tem um grande espaço em meu coração. Mas é do primeiro que pretendo tratar hoje.
Em Dias perfeitos acompanhamos o cotidiano de Hirayama, um limpador de banheiros (e que banheiros!) na capital do Japão. Um homem de vida simples, muito organizada, caseira e por vezes isolada do ritmo de Tóquio. Inserido em seu próprio mundo, para além do trabalho, gosta de aproveitar seus banhos de sauna, ouvir música em língua inglesa em fitas cassete e ler livros que lhe acrescentem como um ser humano. Nessas duas horas, observa-se a dualidade dessa existência tranquila com o mundo caótico, loquaz que o cerca e atravessa por sua história.
Um dos pontos a se elogiar no longa de Wenders é o seu tratamento com os movimentos da história. Uma câmera quase crua — que me levava a pensar se tinha algum tratamento, algum filtro —, e contemplativa, exercitando um certo tipo de meditação. A atuação delicada de Kōji Yakusho foi fenomenal e criou um ambiente de cumplicidade com o público — uma vez que nós também acompanhávamos o seu dia a dia, e um mínimo trecho do dia a dia de outras identidades que cruzavam seu caminho. Além disso, outra questão digna de nota é a escolha da trilha sonora — que contrasta com os silêncios ruidosos da cidade grande. A graça do filme não está presente, no entanto, na busca de reviravoltas ou algo com início-meio-fim, senão a observação de momentos que soam ínfimos dentro de um tempo de vinte e quatro horas — e de que maneira eles nos acrescentam (até mesmo dentro de um sonho ou devaneios). Dias perfeitos não é uma mera ficção, é uma realidade da qual muitas pessoas não observam, não dão o crédito, ou se afastam com preconceito.
Para finalizar, proponho, em um eventual novo contato com a obra, é observar a dualidade entre Hirayama, e o seu trabalho [para um bem estar social], e como, ao mesmo tempo, é posto às margens da sociedade; como, também, o seu contato, sem julgamentos, com outras pessoas de Tóquio. Com certeza é o sopro de vida que muita gente ainda precisa…
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