Corra! (2017), escrito e dirigido por Jordan Peele
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O terror escondido no racismo cotidiano em Corra!
Dirigido por Jordan Peele, Corra! é um filme de terror psicológico que se destaca menos pelo susto e mais pela crítica social que constrói ao redor do racismo estrutural. A obra parte de uma premissa simples: um jovem negro visitando a família da namorada branca, mas rapidamente revela uma camada mais profunda de tensão social e desconforto racial. Ainda assim, apesar da força de sua proposta, o filme apresenta escolhas narrativas que influenciam diretamente sua experiência de impacto.
Um dos pontos mais interessantes do filme é a forma como ele constrói justificativas para que o comportamento dos personagens pareça inicialmente normal. Há uma sensação constante de ambiguidade no início, em que situações estranhas podem ser interpretadas como simples desconforto social. Essa construção funciona bem para sustentar a ideia de que o perigo não é imediato ou explícito, mas progressivo e simbólico.
Por outro lado, o filme perde parte do seu efeito em uma segunda visualização. Isso acontece porque grande parte do impacto está diretamente ligado ao desconhecimento do espectador em relação ao desfecho. Quando essa surpresa desaparece, percebe-se que o efeito de tensão depende fortemente do plot twist, o que reduz um pouco sua força estrutural.
Outro ponto discutível é a transição entre o cotidiano e o horror. O filme faz uma passagem muito direta do “está tudo sob controle” para o “tudo está completamente fora de controle”, sem explorar tanto uma fase intermediária de dúvida mais prolongada. Em histórias desse tipo, esse momento de incerteza costuma ser importante para que o espectador também questione se algo realmente está errado ou se é apenas impressão — algo que aqui é relativamente abreviado.
Ainda assim, é inegável que o filme cumpre com eficiência sua proposta central. A crítica ao racismo não é apenas temática, mas estrutural, presente em cada interação, gesto e situação desconfortável. Jordan Peele constrói uma obra que usa o gênero do terror de forma criativa, subvertendo expectativas e transformando situações sociais comuns em fonte de tensão.
No elenco, embora todos entreguem performances sólidas, o destaque vai para Daniel Kaluuya, cuja interpretação sustenta boa parte da carga emocional do filme. Seu personagem transmite de forma convincente a constante sensação de alerta e desconforto, especialmente nos momentos de maior tensão.
No geral, Corra! é um filme muito competente no que se propõe a fazer. Sua principal força está na crítica social e na construção de atmosfera, mesmo que sua dependência do impacto inicial e do plot twist reduza um pouco seu efeito em revisitas ou análises mais frias. Ainda assim, é uma obra marcante e uma excelente porta de entrada para o terror psicológico contemporâneo.
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Get Out/Corra
Mateo Montaña Girala
Get Out é um filme estadunidense lançado em 2017, escrito e dirigido por Jordan Peele em sua estreia como diretor de longas-metragens. O filme pertence principalmente aos gêneros de terror psicológico, suspense e thriller social.
Com um elenco excelente, a história acompanha Chris, um jovem fotógrafo afro-americano que viaja para conhecer a família de sua namorada Rose durante um fim de semana em uma casa de campo. Embora, a princípio, tudo pareça um encontro desconfortável, mas normal, Chris começa a notar comportamentos estranhos e uma atmosfera inquietante ao redor da família e das pessoas que trabalham na casa. À medida que as horas passam, ele descobre que por trás da aparente cordialidade existe algo muito mais perturbador.
Um dos aspectos mais marcantes de Get Out é a forma como utiliza recursos técnicos para construir desconforto e tensão desde o começo.
Quando Get Out foi lançado em 2017, os Estados Unidos atravessavam um momento de forte tensão social e política, especialmente em torno de temas como racismo, violência policial e polarização ideológica. O filme chegou poucos meses depois da eleição presidencial de Donald Trump em 2016, uma eleição que deixou o país muito dividido e reacendeu debates sobre identidade nacional, discriminação e privilégio racial. É por essa razão, além de sua força técnica e narrativa, que o filme teve um impacto tão grande naquela época e continua atual até hoje.
Em relação aos aspectos técnicos, o filme trabalha com uma estética muito limpa e luminosa, distante do terror escuro tradicional. O som e a música desempenham um papel central na construção da tensão.
A trilha sonora mistura instrumentos orquestrais com corais e elementos inspirados na música africana e gospel. Desde os primeiros minutos aparecem vozes e sons que antecipam perigo antes mesmo que algo estranho aconteça. O filme também utiliza muito os silêncios, fazendo com que pequenos ruídos (uma colher batendo em uma xícara, passos, respirações) se tornem perturbadores.
Jordan Peele trabalha bastante com microexpressões, olhares prolongados e situações desconfortáveis. O espectador sente que “há algo errado” antes mesmo de entender exatamente o que está acontecendo. Esse acúmulo gradual de estranheza faz com que a tensão cresça constantemente.
Em conclusão, Get Out se destacou pela forma como utilizou o cinema para abordar tensões sociais e raciais presentes nos Estados Unidos. Através de uma construção técnica muito cuidadosa, Jordan Peele conseguiu criar um filme que combina entretenimento, desconforto e crítica social, tornando-se uma das obras mais influentes do terror contemporâneo.
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Debbie
O filme Get Out é uma produção que traz suspense, crítica social e uma pitada de humor que a torna irresistível. A trama se desenvolve a partir da viagem que um casal de jovens fará para apresentar o namorado à família da namorada. A questão mais marcante do filme é a crítica social do racis mo estrutural na sociedade estadunidense, o que é colocado através do casal interracial e nas múltiplas demonstrações de como ele se manifesta cotidia namente.
Tecnicamente, o diretor Jordan Peele recria espaços que são muito re levantes ao desenrolar da história, seja através do cenário principal ser posto em uma casa que remete à estética colonial, um período escravocrata da his tória estadunidense, seja através da criação visual do espaço que ocorre uni camente ao personagem principal, Chris (Daniel Kaluuya), denominado por ele como sunken place ("lugar profundo", em tradução livre). A trilha sono ra também é determinante em conduzir a narrativa de forma tão desconfor tável quanto Chris se sente na casa, principalmente com as situações que se desdobram desde a sua chegada.
O longa trata de um tema atual e extremamente necessário, mesmo sendo um filme de quase dez anos atrás. É uma crítica à branquitude do iní cio ao fim, tratando da reprodução da subjugação da pessoa negra na socie dade estadunidense e em como o racismo atua de muitas formas diferentes no cotidiano. Quando introduz elementos do horror, utiliza o absurdo para construir analogias com situações reais vividas no contexto do país, assim como se utiliza do humor para demonstrar como a união entre pessoas negras naquele contexto se torna mais do que laços de afeto, sendo também um ato de resistência. É um ótimo filme.
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"Corra” e o terror do racismo estrutural
Alice
“Corra” de 2017 acompanha Chris, um homem negro que em um final de semana vai visitar os pais de sua namorada branca Rose. A princípio, tudo parecia correr bem, até que o clima vai ficando cada vez mais tenso e as coisas cada vez mais estranhas. O longa escrito e dirigido por Jordan Peele, ganhador do Oscar de melhor roteiro de 2018, faz uma crítica bem feita ao racismo estrutural velado e escancarado, o maior terror da humanidade.
O protagonista Chris já inicia o filme perguntando a sua namorada se seus pais sabiam que ele era negro, aonde ela responde que não importa, que seu pai votaria npo Obama uma terceira vez se necessário. Nessa cena inicial já nos mostra o que o filme pretende criticar, o perigo do racismo velado. A direção de Jordan Peele constroi um clima de tensão de forma perfeita, deixando nós espectadores desconfortáveis assim como Chris está se sentindo naquela casa. O gênero de terror encaixa perfeitamente com a mensagem do filme, que utiliza convenções do gênero para expor medos contemporâneos, tornando-se uma ferramenta poderosa para criticar questões importantes da sociedade contemporânea . O ator Daniel Kaluuya merece destaque em seu papel como Chris, por transmitir com perfeição o desespero e ao mesmo tempo cautela que tem de lidar com as situações sinistras que lhe acontecem naquele final de semana.
Em “Corra”, Jordan Peele transforma o terror em uma poderosa crítica social ao mostrar como o racismo pode se manifestar de maneira silenciosa e disfarçada de cordialidade. Com uma direção eficiente, um roteiro inteligente e atuações marcantes, especialmente de Daniel Kaluuya, o filme consegue causar desconforto e reflexão ao mesmo tempo. Assim, o longa se consolida como um filme impactante, atual e necessário, utilizando o terror não apenas para entreter, mas também para denunciar uma realidade social.
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Muito Além do Suspense: o verdadeiro horror de Corra!
Clara Ortiz
O filme de terror psicológico Get Out (lançado no Brasil como Corra!), dirigido por Jordan Peele, utiliza os elementos clássicos do suspense e do horror para construir uma crítica social profundamente ligada às relações raciais nos Estados Unidos. Mais do que um filme de terror convencional, a obra transforma situações aparentemente comuns em momentos de desconforto constante, fazendo com que o espectador compartilhe da tensão e da insegurança vividas pelo protagonista.
A narrativa acompanha Chris, um jovem negro que viaja para conhecer a família de sua namorada branca em um ambiente inicialmente acolhedor, mas marcado por comportamentos estranhos e desconfortáveis. Desde os primeiros minutos, o filme cria uma sensação de alerta quase permanente. Pequenos detalhes, diálogos e olhares parecem carregar algo fora do lugar, e isso faz com que a tensão aumente gradualmente ao longo da história.
Um dos maiores méritos da direção de Jordan Peele é justamente a forma como o horror é construído. O medo não surge apenas de sustos ou violência explícita, mas principalmente da sensação de não pertencimento e da constante vigilância sobre o protagonista. O filme trabalha o racismo de maneira muito específica: não apenas através de agressões diretas, mas também por meio de atitudes aparentemente “cordiais”, comentários invasivos e comportamentos mascarados de admiração. Isso torna a experiência ainda mais desconfortável porque aproxima o horror da realidade cotidiana.
A construção visual também reforça esse sentimento. A fotografia utiliza contrastes de iluminação e enquadramentos que frequentemente isolam Chris dentro dos espaços, transmitindo sensação de aprisionamento e vulnerabilidade. Muitos planos fazem o espectador observar o personagem como se ele estivesse sendo constantemente analisado, reforçando a ideia de controle presente durante toda a narrativa. Ademais, o filme consegue equilibrar tensão e humor sem quebrar sua atmosfera. Os momentos de alívio cômico não parecem deslocados; pelo contrário, ajudam a intensificar o desconforto em outros momentos e tornam os personagens mais humanos e próximos.
Outro aspecto importante é a forma como o filme utiliza o gênero do horror como ferramenta política e social. O medo no filme está diretamente associado às estruturas raciais e às formas de violência simbólica sofridas pelo protagonista. O horror deixa de ser apenas entretenimento e passa a funcionar como representação de tensões sociais reais.
Portanto, o filme destaca-se pela maneira inteligente como constrói suspense enquanto desenvolve uma crítica social muito clara. Ele prende pela narrativa, pela atmosfera e pelas interpretações, mas também permanece na memória justamente por fazer o espectador refletir sobre aquilo que existe além do terror mostrado na tela.
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O horror do real
Ana Luísa Niggemann Sauer
O Cativeiro das Boas Intenções: Uma crítica de Corra! (2017)
Lançado em 2017, o longa-metragem norte-americano Corra! (Get Out) marcou a estreia estrondosa de Jordan Peele na direção cinematográfica, que também assina o roteiro original. Com enxutos 104 minutos de duração, a obra navega com destreza entre o terror psicológico, o suspense e a sátira social, impulsionada pela trilha sonora perturbadora de Michael Abels e pela fotografia imersiva de Toby Oliver. Encabeçado por uma performance estelar de Daniel Kaluuya no papel principal, o elenco conta ainda com as atuações de Allison Williams, Bradley Whitford, Catherine Keener, Caleb Landry Jones e o alívio cômico cirúrgico de Lil Rel Howery. Aclamado tanto pelo público quanto pela crítica especializada, o filme tornou-se um fenômeno cultural instantâneo, faturando o Oscar de Melhor Roteiro Original (um feito raro e histórico para o gênero do horror), além de indicações nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator.
A trama acompanha o final de semana tenso de Chris Washington, um talentoso fotógrafo negro que viaja para o interior a fim de conhecer os pais de Rose, sua namorada branca. Inicialmente apreensivo pelo fato de a parceira não ter avisado à família sobre sua etnia, Chris é recebido na isolada propriedade dos Armitage com uma hospitalidade exagerada, porém repleta de microagressões e comentários desconfortáveis disfarçados de progressismo. O clima de estranheza ganha contornos sombrios quando o protagonista passa a observar o comportamento robótico, submisso e bizarro dos empregados negros da casa. Quando a mansão sedia uma luxuosa e excêntrica festa anual para os amigos da família, as atitudes peculiares dos convidados levam Chris a desvendar uma série de segredos perturbadores, transformando sua ansiedade social em uma luta desesperada pela própria sobrevivência.
Elevando-se muito além dos tradicionais jump scares, a película se consagra como um ensaio brilhante e aterrorizante sobre o racismo estrutural contemporâneo. A grande sacada de Jordan Peele é não localizar o perigo em figuras caricatas de ódio explícito, mas sim na elite branca autodeclarada liberal (aquela que fetichiza, apropria e objetifica o corpo negro sob a máscara da admiração). Através de um roteiro milimetricamente construído, o diretor transforma o desconforto cotidiano em puro horror cósmicoo. Com doses precisas de humor que servem para acentuar a paranoia ao invés de diluí-la, o filme subverte os clichês do gênero ao entregar um protagonista altamente perceptivo e inteligente, criando uma tensão palpável do primeiro ao último minuto.
Em última análise, a obra inaugural de Peele transcende o rótulo de mero entretenimento passageiro para se fixar como um dos pilares modernos do cinema. É um thriller que consegue ser, simultaneamente, um sucesso comercial vibrante e um manifesto político afiado, provando que o medo mais asfixiante costuma nascer das situações mais corriqueiras. Para quem busca uma experiência que provoque calafrios, arranque risos nervosos e exija discussões aprofundadas após o subir dos créditos, este título é uma pedida essencial. Brilhante, provocador e absolutamente recomendado, o longa é um lembrete implacável de que, muitas vezes, as intenções mais sorridentes escondem os segredos mais sombrios.
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Crítica de Corra! - Quando Jordan Peele transformou o Thriller Contemporâneo
Luiza Cardoso
Em 2017, Jordan Peele estreou como diretor com o longa de terror Corra! (Get Out). Vindo de uma carreira de ator nas séries humorísticas MADtv e Key & Peele, se consolidou na história do cinema ao criar um clássico repleto de crítica social e simbolismo. Na trama, Chris Washington (Daniel Kaluuya) namora Rose Armitage (Allison Williams), uma garota branca que viaja com seu namorado, que é negro, para conhecer sua família, os Armitage. Ele é recebido com um aparente acolhimento, mas com diálogos repletos de detalhes desconcertantes e racismo velado. O pai (Bradley Whitford), esconde essas falas incômodas por trás de uma face de “paizão sem noção” e que se intromete demais. A mãe (Catherine Keener), psiquiatra, é hospitaleira, mas trata os empregados da casa, que por acaso são todos negros, com tensão e rigidez. Se Chris já estava desconfortável, esse é apenas o começo.
Um dia após chegar de viagem, toda a família (incluindo tios, avós, primos e o resto), se reúnem na casa, vindo em carros pretos e vestimentas chiques para um evento que pelo visto, é tradicional na família. Durante o dia inteiro, o racismo velado opera através de diálogos onde membros da família, em uma sequência de cortes, erotizam e objetifica Chris por sua cor e suposta “superioridade física” a partir de perguntas desconfortáveis e invasivas. Se não bastasse esse comportamento com Chris, as interações com os empregados da casa, “jardineiro” e “empregada” e até com o único membro negro da família são ainda mais esquisitas. O modo pausado de falar, desconhecimento de expressões apesar de uma aparência jovial ou até dificuldade a empatizar com o senso de deslocamento e desconexão de Chris dentro de um ambiente completo de pessoas brancas. Parecem extremamente desconectadas com a realidade, e isso provoca um sinal de alerta. Tudo diz para que ele corra.
Daniel Kaluuya traz uma atuação primorosa e que acrescenta muito ao filme. O protagonista é um personagem identificável, com postura descontraída e olhares desconfiados. Ao invés de um personagem de filme de terror que parece cego aos sinais de perigo, quando percebe uma conversa esquisita ou qualquer estranhamento Chris reage com expressões, falas e eventualmente algumas palavras de baixo calão, trazendo um certo humor para o longa. Além disso, provoca uma aproximação e apego ao Chris. Por isso, a audiência quer entrar na tela, chacoalhar ele e gritar pra ele sair correndo, o salvando de qualquer que seja o perigo. Mas claro, tudo que nos resta é esperar que a verdade seja revelada. Enquanto isso, seu amigo Rod Williams, é um alívio cômico e tenta trazer Chris à realidade e despertar sua fuga, mesmo que de uma forma exagerada e com hipóteses malucas.
Ao longo de seus 103 minutos de duração, o filme cria um sentimento de urgência e desespero. Junto de enquadramentos fechados, microexpressões, simbolismos visuais, a trilha sonora se destaca com a presença do blues, tal como cantado pelos negros escravizados americanos e cantos espirituais. Em uma junção hipnotizante, elementos, visuais, corporais, auditivos se unem para uma narrativa completa de tensão, crítica social e uma história de arrepiar.
O filme surge dentro de um recorte histórico importante de tensão política. Em 2017, um ano antes de seu lançamento, marcou o primeiro ano do governo Donald Trump e foi marcado pela ascensão de grupos de extrema-direita e supremacistas brancos. Ocorreu a marcha "Unir a Direita", convocada devido aos planos de remoção da estátua de um general pró-escravidão que lutou na Guerra Civil Americana. Um carro atropelou uma multidão que era contra o protesto. Por esse motivo, quando lançado, ressoou profundamente com as pessoas. Contudo, em um mundo não muito distante dessa realidade de crescente polarização, intolerância, racismo e avanço da extrema-direita, ele mantém a sua atualidade e relevância.
Apesar de um preconceito da premiação estadunidense com filmes do gênero, Corra! foi indicado às categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator, e recebeu uma estatueta no Oscar na categoria de Melhor Roteiro Original na premiação de 2018. Com a conquista, Jordan Peele se consolidou na história como a primeira pessoa negra a receber o prêmio. Desde então, o filme influenciou diretamente a originalidade, profundidade e a inclusão de debates sociais em roteiros de terror contemporâneos.
O filme Corra! (2017), dirigido e roteirizado por Jordan Peele, é um excelente filme e uma ferramenta de debate e crítica social.
No longa, somos introduzidos a um casal interracial, Chris e Rose, que está prestes a viajar para a casa dos pais dela para que Chris os conheça. Desde o início, o protagonista fica com um pé atrás sobre a situação, pois os pais de Rose não sabem que ele é um homem negro. No desenrolar da história , Chris começa a notar inconsistências no comportamento da família e se vê preso na casa dos mesmos. Sem o seu consentimento, a mãe de Rose o submete a uma sessão de hipnose que, mais adiante o colocará em uma situação horrível.
No decorrer do filme, a família começa a receber vários convidados para o que Chris acreditava ser um encontro anual que na verdade, era um disfarce para um leilão do seu corpo. Após se dar conta de que algo naquele lugar está muito errad ele tenta fugir a qualquer custo, mas sem sucesso. Chris é colocado no “The Sunken Place”, um vazio escuro e isolado em seu subconsciente, onde sua mente fica paralisada enquanto seu corpo continua funcionando normalmente sob o controle de outro, o que funciona como uma metáfora para o apagamento histórico da população negra. A dinâmica dos Armitage consistia em um ciclo bem calculado, Rose seduzia pessoas, sempre negras, e as trazia para a casa para que sua família transplantasse a consciência de pessoas brancas idosas para os corpos dos jovens sequestrados, fazendo com que eles continuassem vivendo em novos corpos.
O filme usa a fotografia para trazer sensação de tensão, bem como a trilha sonora que cada vez mais intensifica o suspense do filme, à medida que o espectador descobre o que está acontecendo junto com o protagonista.
Além disso, o uso das cores apesar de sutil, chama a atenção. Na primeira metade do filme, tanto Chris quanto Rose e sua família usam roupas azuis, cor que simboliza calma e estabilidade. No contexto dos Estados Unidos, o azul também está atrelado ao Partido Democrata, e Peele usa isso para criticar à elite liberal branca, como na fala do pai de Rose: “Eu teria votado no Obama uma terceira vez se pudesse”. O azul aqui representa aqueles que se consideram aliados mas que na realidade enxergam os negros como produtos.
Já na segunda metade do filme, quando os convidados chegam para a festa, as roupas passam a ser vermelha, seja em gravatas, vestidos ou na maquiagem , enquanto Chris continua usando azul. O vermelho, oposto do azul quebra a ilusão de perfeição e funciona como um sinal de alerta e perigo.
O longa é muito bem dirigido, Peele é conhecido por criar filmes complexos e cheios de significados escondidos, por isso rever o filme é importante para achar detalhes que passaram batido. Quando no início eles atropelam um cervo e um policial exige o documento de Chris, Rose insiste para que o namorado não mostre a identificação, o que inicialmente parece um ato de defesa, pode ser entendido mais tarde como uma estratégia pois ela não queria que a presença de Chris naquela região fosse notada oficialmente dificultando investigações após o seu desaparecimento. Outro exemplo acontece quando Chris conversa com os visitantes, que agem de forma estranha , perguntando se ele joga golfe ou comentando sobre seu tamanho. Fica claro depois que eles estavam literalmente o avaliando como mercadoria.
Além do mais, é impossível falar de Corra! e não citar as atuações incríveis . Todo o elenco entrega performances perfeitas que contribuem para atmosfera de suspense.
Por fim, Corra! não é um suspense qualquer. O filme não gera desconforto apenas por seus sustos e tensão , mas por transformar as microagressões e o racismo estrutural em um pesadelo literal. O maior terror do longa não vem do sobrenatural, mas sim daquilo que os seres humanos são capazes de fazer, incluindo os que mais aparentam ser inofensivos.
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Corra: a constante fuga do racismo
Beatriz Vargas Leão
O filme indicado a quatro categorias (melhor roteiro original, melhor filme, melhor ator e melhor direção), tendo ganhado como melhor roteiro original, “Corra” (2017) é um filme de terror e suspense com uma pitada de humor dirigido e escrito pelo competente diretor Jordan Peele, cineasta estadunidense. A obra aborda o racismo utilizando principalmente de metáforas para induzir o espectador a perceber as nuances em relação a situação em que o protagonista se situa, e cumpre muito bem a expectativa.
O longa-metragem narra a história de um casal de um homem negro e uma mulher branca que vão se encontrar com os pais da moça. Jordan Peele, durante todo o filme, utiliza de várias metáforas para, de forma subjetiva, indicar o racismo da família. A comparação implícita entre pessoas negras e animais, a utilização das cores vermelha e azul, as quais são representações de Obama (azul) e Trump (vermelho), as constantes insinuações da família sobre a forma como enxergam essas pessoas, a colocação do algodão em referência à escravidão ocorrida nos Estados Unidos, etc. Peele foi muito certeiro e desenvolveu de forma majestosa o plot twist, embora o longa nos dê vários sinais do que aconteceria, a trama consegue nos surpreender a cada momento. Somente ao finalizar o filme, mesmo aos mais atentos, torna-se possível o melhor entendimento de todos os diálogos que em nenhum momento foram sem sentido, mas sim minuciosamente pensados pelo autor.
Definitivamente um dos pontos mais notáveis de “Corra” é a atuação, em um geral que foi majestosa, mas em minha visão, principalmente a atuação dos atores protagonistas Rose Armitage (Allison Williams) e Chris Washington (Daniel Kaluuya) que roubam a cena e fazem com que a imersão na obra seja completa. A forma como conseguem transparecer somente com os olhos, ou com as expressões corporais os sentimentos e intenções dos personagens chamou muito minha atenção ao longo do filme. Os atores, em um geral, conseguem transparecer o ambiente estranho, mesmo não havendo palavras ditas em voz alta, o espectador consegue se colocar no lugar de Chris e sentir as aflições do personagem.
“Corra” é e será sempre um filme muito reconhecido, e é merecido. O primeiro filme de terror de Jordan Peele surpreendeu e continua surpreendendo, mesmo com um orçamento considerado mais baixo em comparação a outros, o longa-metragem continua atual e aclamado. Quem assiste o filme não o esquece rápido, e quer ver de novo para enxergar cada mínimo detalhe da obra. Não paguei para ver o filme, mas se pudesse, voltaria no tempo e o veria no cinema.
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Mel Prado
Corra! (Get Out, 2017), de Jordan Peele, é um marco do cinema contemporâneo por usar o terror psicológico como ferramenta para satirizar o racismo velado. A trama acompanha Chris, um fotografo negro que viaja ao interior para conhecer os pais de sua namorada branca, uma família de elite que projeta uma fachada de progressismo liberal sintetizada na clássica fala do patriarca dizendo que votaria em Obama pela terceira vez. O grande trunfo da direção está em subverter os clichês do gênero: o horror aqui não vem de monstros ou de supremacistas caricatos, mas sim da hipocrisia, da fetichização e da condescendência dessa burguesia que se diz aliada. Através de microagressões disfarçadas de elogios e de uma atmosfera de estranhamento cirúrgica coroada pela atuação brilhante de Daniel Kaluuya e pela icônica cena do "Lugar Esquecido" , Peele constrói uma obra-prima que equilibra o suspense com o alívio cômico estratégico do personagem Rod, provando como o cinema de gênero pode ser o diagnóstico mais afiado das tensões estruturais da sociedade.
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Cesar Cesário
Corra!, de Jordan Peele é um filme que demonstra o enorme domínio técnico de Jordan Peelecomo diretor. Conhecido anteriormente por sua carreira na comédia, Peele utiliza em Corra justamente aquilo que também faz o humor funcionar: o controle do tempo. Se na comédia o timing é responsável pela quebra que gera o riso, aqui ele é usado para prolongar silêncios, sustentar olhares e construir uma tensão constante que incomoda o espectador do início ao fim.
O trabalho de câmera é um dos pontos mais fortes do filme. Peele utiliza enquadramentos fechados e movimentos discretos para transmitir a sensação de isolamento do protagonista, fazendo com que o público compartilhe sua paranoia. As cenas raramente parecem exageradas visualmente, mas a permanência da câmera em certos planos cria um desconforto crescente, reforçando o terror psicológico muito mais pela atmosfera do que pelo choque.
Além de seu comentário social e racial extremamente bem construído, Corra se destaca por sua direção precisa. Jordan Peele mostra entender que o horror mais eficiente nasce da expectativa e do desconforto gradual. Seu domínio do timing transforma situações aparentemente comuns em momentos perturbadores, provando que sua experiência na comédia acabou se tornando uma ferramenta poderosa também no terror.
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Alice Maciel
Jordan Peele estreiou na direção com Corra! e entrega mais do que um filme de terror: entrega uma faca cirúrgica dissecando o racismo estrutural americano. O resultado é uma obra que assusta não pelos monstros sobrenaturais, mas pela realidade que espelha. Chris Washington, interpretado por Daniel Kaluuya com uma performance magistral, é um fotógrafo negro que acompanha sua namorada branca Rose para conhecer os pais dela em sua propriedade rural. O que parece ser o clássico roteiro de jovem conhecendo a família da namorada rapidamente se transforma em pesadelo psicológico.
A genialidade está na subversão das expectativas. Peele usa os códigos do terror para falar de algo muito mais terrível: a objetificação do corpo negro disfarçada de admiração liberal. A família Armitage representa a vertente mais insidiosa do racismo contemporâneo. Não são racistas de ódio barulhento. São aqueles que dizem não enxergar cor, que admiram a genética negra, que fazem elogios que soam como avaliações de produto. O Sr. Armitage quer implantar sua consciência no corpo de um atleta negro. A Sra. Armitage usa hipnose para aprisionar Chris no lugar afundado, uma metáfora visual poderosa para a marginalização da voz negra. Essa é a crítica central: o racismo liberal não precisa te odiar para te explorar. Pode te admirar enquanto te desumaniza.
Daniel Kaluuya carrega o filme nas costas. Sua expressão de desconforto crescente, esse olhar de quem percebe que algo está errado mas não consegue nomear o que é, é magistral. Cada microexpressão transmite a angústia de ser o único negro em ambiente branco que se diz aceitável mas que não é. Lil Rel Howery como Rod, o amigo censor que ninguém acredita quando diz a verdade, traz o alívio cômico necessário sem jamais diminuir a tensão. É também a voz da comunidade negra que reconhece os sinais que brancos ignoram.
Peele não desperdiça nenhum elemento visual. A hipnose com a colher na xícara de chá representa a domesticação da violência, o racismo servido à mesa de jantar. O lugar afundado é escuridão, silêncio, impotência, a experiência de ter sua voz apagada enquanto permaneces consciente. A cena da festa mostra negros reduzidos a atrações exóticas, avaliados por suas características físicas. O algodão no ouvido é referência histórica ao trabalho escravo nos campos, transformado em salvação.
Se há crítica a fazer é que o clímax se torna mais tradicional como filme de terror. A fuga física, a luta corporal, o sangue, tudo funciona, mas perde um pouco da sutileza satírica dos atos anteriores. Poderíamos ter tido um final ainda mais ousado. Mas o impacto emocional não diminui. Corra! venceu o Oscar de Melhor Roteiro Original exatamente por isso: transforma experiências específicas da diáspora africana em linguagem universal de horror.
O filme chegou em 2017, ano de eleição de Donald Trump, e capturou o clima de tensão racial americana. Mas sua relevância transcende momento político. Enquanto existirem corpos sendo explorados enquanto mentes são apagadas, Corra! continuará assustando. Corra! é cinema de gênero elevando discussões sociais a outra dimensão. Peele prova que terror pode ser intelectualmente estimulante, esteticamente sofisticado e socialmente urgente simultaneamente. Daniel Kaluuya merece todos os prêmios. O roteiro é impecável. A direção segura o ritmo perfeito entre suspense e revelação gradual.
Corra! é um marco do terror social que merece ser estudado tanto quanto assistido.O verdadeiro monstro não está na casa dos Armitage. Está na sociedade que criou essa casa.
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O racismo estrutural americano sempre foi um terror
Ana Laura Horst
Lançado em 2017, o filme Corra! (Get Out), dirigido e roteirizado por Jordan Peele, é um terror psicológico nada clássico. Até para pessoas que não são fãs do gênero — como eu —, esse é um dos filmes fundamentais para desenvolver um pensamento crítico sobre o racismo entrelaçado nas cores da bandeira americana. O terror não vem apenas de sustos e da trilha sonora de suspense, mas sim pela narrativa inquietante.
A trama acompanha Chris Washington, interpretado por Daniel Kaluuya, um jovem fotógrafo negro que viaja para conhecer a família de sua namorada branca, Rose Armitage, vivida por Allison Williams. O que começa como um encontro desconfortável entre diferentes contextos sociais e raciais rapidamente se transforma em uma experiência perturbadora. As diferenças entre os grupos é percebida desde os detalhes mais sutis, como um comentário político sobre o ex-presidente Obama, até agressões psicológicas gritantes, que o espectador terá que ver para entender.
Desde os primeiros minutos, o longa-metragem causa o sentimento de “tem algo errado aqui”, mesmo quando ainda não se sabe o que é. As filmagens — ora de paisagens belas, ora de ângulos incomuns — e a trilha sonora de suspense — intercalando entre músicas pacíficas, de tensão e com ritmos típicos afro-americanos — contribuem para essa sensação.
O filme ainda trabalha símbolos de apagamento da identidade negra. O protagonista frequentemente é tratado mais como objeto de admiração do que como indivíduo completo, especialmente pela família e amigos da namorada. O filme critica a forma como corpos negros são historicamente consumidos, apropriados e transformados em mercadoria cultural pela sociedade branca. Essa dimensão simbólica torna Corra! muito mais do que um terror convencional, mostrando um background histórico, social e político. Talvez, o verdadeiro horror do filme seja o quão condizente algumas cenas são com a realidade.
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Os Sorriso e Silêncios de Corra!
Matheus Alschinger
Dirigido por Jordan Peele, o filme Corra! utiliza o suspense psicológico para construir uma narrativa desconfortável e provocadora. A história acompanha Chris, um jovem negro que visita a família de sua namorada branca e percebe, aos poucos, que existe algo estranho por trás da hospitalidade exagerada daquela casa. O longa transforma situações comuns em momentos de tensão constante, fazendo com que o espectador desconfie de cada detalhe e permaneça atento durante toda a trama. A combinação entre terror e crítica social é o grande diferencial da obra.
O aspecto mais interessante do filme está na maneira criativa como o racismo velado é trabalhado ao longo do roteiro. Em vez de apresentar apenas atitudes explicitamente preconceituosas, Jordan Peele explora comentários aparentemente inofensivos, elogios desconfortáveis e comportamentos forçados para criar um clima perturbador. Essa construção torna o horror mais próximo da realidade, já que o desconforto surge justamente de situações cotidianas e socialmente aceitas. Entretanto, ao revisitar o filme, parte de seu impacto acaba diminuindo, principalmente porque muitas das revelações dependem do fator surpresa para manter a tensão elevada.
Outro ponto positivo é a forma como o roteiro foge de alguns clichês clássicos do gênero. Diferente de muitos protagonistas de filmes de terror, Chris não toma decisões absurdas o tempo inteiro nem ignora completamente os sinais de perigo ao seu redor. O personagem percebe rapidamente que há algo errado e tenta agir de maneira racional dentro da situação em que está inserido. Isso faz com que o público se conecte mais facilmente com ele e reduz a sensação de frustração comum em diversos longas do gênero, tornando a experiência mais envolvente e convincente.
Nos aspectos técnicos, Corra! demonstra um controle impressionante de atmosfera e ritmo. A fotografia utiliza enquadramentos fechados e iluminação discreta para aumentar a sensação de claustrofobia e paranoia, enquanto a trilha sonora contribui para o clima constante de inquietação. A montagem também merece destaque pela forma como distribui pistas sutis sem revelar totalmente os mistérios da narrativa. Mesmo sem depender de grandes sustos ou violência exagerada, o filme consegue manter a tensão praticamente o tempo inteiro graças ao cuidado técnico presente em cada cena.
As atuações elevam ainda mais a qualidade da obra, especialmente a de Daniel Kaluuya no papel principal. O ator transmite medo, insegurança e desconfiança de maneira extremamente convincente, muitas vezes apenas através de expressões faciais e pequenos gestos. O restante do elenco também contribui para o clima perturbador do longa, criando personagens que parecem simpáticos na superfície, mas carregam uma estranheza constante. No fim, Corra! permanece como um dos filmes de terror mais criativos e relevantes dos últimos anos, tanto pela crítica social quanto pela eficiência narrativa.
Nota Final: 7/10 (Bom)











