A Crítica Cinematográfica e suas múltiplas faces

A crítica cinematográfica desempenha um papel essencial na relação entre o público e a arte do cinema. Ela é importante por vários motivos culturais, artísticos e sociais. Ela ajuda o público a interpretar e compreender filmes. A crítica funciona como uma ponte que permite ao espectador perceber aspectos simbólicos, históricos, políticos ou estéticos que poderiam passar despercebidos.

Normalmente, uma crítica situa o filme em um contexto maior, seja dentro da carreira do diretor,  das tendências do cinema,  de movimentos artísticos, seja de questões sociais da época. Isso enriquece a experiência do público e estimula o debate cultural, pois a crítica promove conversas sobre ideias, representações, temas sociais, diversidade e valores. 

Filmes influenciam a sociedade e a crítica ajuda a analisar essas influências e a incentivar o pensamento crítico. Ao expor argumentos, comparações e leituras, a crítica ensina o público a olhar para filmes (e outras artes) de forma mais atenta e reflexiva. Assim, ela orienta o público ao funcionar como guia, ajudando pessoas a decidir o que assistir com base em análises fundamentadas, não só em publicidade.

A crítica também contribui para o desenvolvimento do cinema ao apontar tendências cinematográficas, destacar falhas recorrentes, valorizar obras autorais e incentivar experimentações audiovisuais. A crítica, assim, ajuda a manter o cinema vivo, diverso e em transformação.  Por fim, ao registrar a história do cinema, as críticas atuam como documentos históricos, mostrando como os filmes foram recebidos em sua época e como mudaram de significado ao longo do tempo.

A crítica cinematográfica ocupa um lugar singular entre a arte e o discurso sobre a arte desde o surgimento do cinema. Ela não é apenas uma reação subjetiva a uma obra audiovisual, nem tampouco um exercício puramente técnico de avaliação; é, antes, um campo de mediação entre o filme e o espectador, entre a cultura e seu tempo, entre o olhar individual e as estruturas sociais que moldam a compreensão do mundo. Por isso, a crítica jamais é estática. Ela se transforma conforme os paradigmas teóricos, as tecnologias e os modos de recepção do público se modificam. Para compreender sua relevância, é preciso enxergar a crítica como um mosaico formado por perspectivas distintas — muitas vezes complementares, outras vezes em tensão — que delinearam sua função ao longo da história.

A noção moderna de crítica cinematográfica começa a se solidificar na primeira metade do século XX, momento em que o cinema deixa de ser mera curiosidade tecnológica e se afirma como linguagem artística. Nesse processo, teóricos como André Bazin desempenham papel crucial. Para Bazin, o crítico deve ser antes de tudo um intérprete do real filmado. Sua missão não é impor dogmas, mas revelar a essência que emerge da relação entre câmera e mundo. É desse pensamento que nasce a valorização da figura do diretor como autor, ideia que influencia profundamente a crítica contemporânea, que ainda hoje volta seus olhos para “assinaturas” estilísticas, universos narrativos e coerências temáticas de cineastas. A crítica baziniana é, portanto, uma crítica de revelação: busca descrever, e não prescrever. 

Se Bazin olha para a transparência do mundo no filme, Sergei Eisenstein aponta para o contrário: o cinema como construção, como artifício. Sua teoria da montagem intelectual sugere que a crítica deve compreender como a justaposição de imagens gera significados não presentes nos elementos isolados. Com Eisenstein, a crítica ganha um caráter analítico e político; ela expõe a engenharia estética por trás da emoção e da ideologia. Em sua perspectiva, o crítico é quase um anatomista, alguém que disseca o filme para revelar suas forças internas. 

Outro caminho é proposto por Siegfried Kracauer, para quem os filmes refletem a sociedade que os produz. A crítica, então, torna-se uma leitura sociológica. O que está em jogo não é apenas “se o filme é bom”, mas “o que este filme nos diz sobre nós mesmos”. A crítica torna-se um espelho cultural, capaz de revelar contradições, ansiedades coletivas, valores dominantes e tensões históricas. Essa abordagem ganha força no mundo contemporâneo, em que a análise de representações — de classe, raça, gênero ou poder — se torna central no debate público.

Walter Benjamin, por sua vez, amplia essa perspectiva ao enxergar o cinema no contexto da cultura de massas, perguntando sobre o papel político das imagens em uma sociedade marcada pela reprodução técnica. A crítica, nesse caso, é um ato de resistência; é desmontar a ideologia que se esconde sob o entretenimento. Benjamin antecipa a crítica moderna que investiga as estruturas industriais do cinema, seu papel no consumo e na formação de subjetividades.

No campo formalista, Christian Metz introduz a semiótica no cinema e transforma a crítica em um estudo dos signos. Para ele, o filme é uma linguagem dotada de gramática própria, e a crítica deve aprender a decodificá-la. Essa abordagem influenciou a análise de símbolos, cores, arquétipos e construções narrativas que dominam muitos ensaios audiovisuais contemporâneos. A crítica metziana é rigorosa: exige atenção à forma, ao detalhe e ao funcionamento interno da obra.

Laura Mulvey, ao criticar a estrutura patriarcal do olhar cinematográfico, desloca o foco para o campo das relações de poder. Sua teoria do male gaze (olhar masculino que objetifica a mulher para o prazer viril) torna-se uma das mais importantes ferramentas da crítica contemporânea, permitindo que filmes sejam analisados não apenas pelo que mostram, mas pelo ponto de vista que naturalizam. A crítica aqui é desconstrução: um gesto que desvela mecanismos de opressão e denuncia desigualdades.

Por fim, nomes como Roland Barthes e David Bordwell ampliam ainda mais o espectro da crítica. Barthes defende que o sentido não está no filme, mas na leitura que dele se faz; assim, a crítica é emancipação interpretativa, uma multiplicação de significados possíveis. Bordwell, em contraste, procura estruturar uma crítica técnica e racional, baseada no funcionamento da narrativa e na cognição do espectador. A crítica torna-se uma ciência do cinema, um estudo metódico do modo como as imagens comunicam e como o público as compreende.

Essas diferentes abordagens coexistem e se entrelaçam na crítica contemporânea, sobretudo no ambiente digital. Youtubers, ensaístas audiovisuais, podcasters e resenhistas herdaram — consciente ou inconscientemente — esse repertório teórico. Ao falar sobre “linguagem cinematográfica”, retomam Metz; ao discutir representatividade, recuperam Mulvey; ao examinar a visão de um diretor, ecoam Bazin; ao analisar narrativa, encontram Bordwell; ao propor leituras subjetivas, bebem em Barthes. A crítica hoje é híbrida, fragmentada e profundamente democrática, alcançando públicos que antes jamais teriam contato com teorias tão complexas.

No entanto, apesar das transformações no formato e na plataforma, a função essencial da crítica permanece a mesma: iluminar o filme. A crítica não existe para ditar gosto, mas para ampliar horizontes; não para encerrar sentidos, mas para multiplicá-los; não para impor autoridade, mas para despertar consciência. Ela nos ensina a ver melhor — e, ao ver melhor, a compreender melhor a nós mesmos e o mundo que habitamos.

Assim, a crítica cinematográfica continua sendo um espaço fundamental de reflexão, diálogo e descoberta. Ela é, em última instância, um gesto de atenção: um convite para olhar o cinema com mais profundidade, sensibilidade e rigor. E é precisamente desse olhar cuidadoso que nasce a capacidade de transformar um filme em mais do que entretenimento — em experiência, em pensamento, em memória.

Expressas de maneira resumida, seguem as principais perspectivas da crítica cinematográfica: 

Bazin (fundador da Cahiers du Cinéma) via a crítica como instrumento para revelar a 'essência' de um filme, especialmente seu compromisso com a realidade; prática que valoriza o diretor enquanto autor, antecipando a teoria do cinema de autor; forma de orientar o público a reconhecer o que há de artístico em um filme. Para ele, o crítico deveria compreender as escolhas estéticas e não impor interpretações.

Eisenstein, cineasta e teórico soviético, defendia que a crítica deve analisar como a montagem cria sentido; ela também é um ato político, já que o cinema molda consciências; o crítico precisa entender a forma como o filme estrutura ideias. Ou seja, crítica para ele é decodificação técnica e ideológica.

Kracauer via o cinema como um espelho da sociedade. Assim, a crítica deveria mostrar como os filmes revelam valores sociais, ansiedades e desejos coletivos; analisar filmes como produtos culturais, e não apenas como arte. É uma crítica sociológica, que enxerga o cinema como documento social.

Para Benjamin a crítica deve desmistificar a cultura de massa; ela é um ato que expõe ideologias, especialmente em filmes comerciais; o crítico não é neutro: participa de uma disputa de sentidos. A crítica é, portanto, um gesto político e dialético.

Metz introduz a semiótica no cinema. Para ele o crítico deve analisar filmes como sistemas de signos. A crítica é rigor técnico, não opinião subjetiva. Os filmes possuem uma “linguagem” que precisa ser decodificada. Ele vê a crítica como ciência da interpretação. 

Mulvey, ligada ao feminismo no cinema, argumenta que a crítica deve revelar olhares dominantes (male gaze); deve denunciar como filmes moldam relações de gênero; a crítica não é apenas estética: é social e política. Para ela, o crítico é alguém que desnaturaliza o que parece comum. 

Bordwell oferece duas contribuições: 1) o formalismo contemporâneo, analisando estilo, narrativa e técnica e 2) o cognitivismo, mostrando como o espectador interpreta informações no filme. Ele vê a crítica como algo técnico, sistemático e racional, focado no funcionamento interno do filme.

Para Barthes a crítica é produção de novos sentidos, não busca de uma “verdade” do filme. O significado é criado na relação entre obra e leitor/espectador. A crítica, para Barthes, multiplica interpretações, não as fecha.

As teorias clássicas do cinema influenciam muito mais do que parece o trabalho de youtubers, podcasters e resenhistas atuais — mesmo quando eles não citam teóricos diretamente. 

Muitos criadores de conteúdo falam sobre “o estilo do Tarantino”, “os temas do Nolan”, “a assinatura do Ari Aster”. Isso vem diretamente da ideia de cinema de autor difundida pela Cahiers du Cinéma (Bazin). Influência atual: vídeos focados na “visão do diretor”; ranking de filmes por autor; discussões sobre coerência estética na filmografia.

Análises que explicam “como a edição cria tensão”, “por que a montagem de um filme funciona”,“como cortes influenciam emoção” derivam da ideia de Eisenstein de que a montagem cria sentido. Canais de “filmmaking explainers”; breakdowns técnicos e  youtubers que analisam “como um filme manipula o espectador” demonstram na prática a influência do pensamento eisenteiniano.

Já quando youtubers falam sobre representações de classe, crítica social em filmes ou como um filme “reflete seu tempo”, eles estão aplicando a visão sociológica de Kracauer de o cinema como reflexo da sociedade.  

Por sua vez,  conteúdos que desmascaram discursos de filmes, como “o que Hollywood não quer que você veja”, “a ideologia escondida em blockbusters” ou críticas à cultura de massa e padrões de consumo ecoam Benjamin e sua crítica ao consumo cultural. A influência de Benjamin é perceptível em vídeos ensaísticos politizados e nas críticas ao marketing e à lógica de franquias.

Análises que explicam símbolos, signos visuais, códigos de cor e a estrutura da narrativa visual são herdeiras da semiótica do cinema de Metz. Como por exemplo, vídeos sobre “a linguagem secreta das cores”; leituras simbólicas complexas ou  decodificação de significados escondidos na direção de arte.

Quase toda discussão moderna sobre representatividade, objetificação feminina estereótipos de gênero deriva da teoria do male gaze de Mulvey. Por exemplo: vídeos feministas sobre cinema; críticas à sexualização desnecessária e debates sobre protagonismo feminino.

Quando canais analisam estrutura de roteiro, técnica de direção, progressão narrativa e/ou como o espectador entende uma cena, estão trabalhando com a abordagem cognitiva e formalista de Bordwell. Essa influência é explícita em vídeos usando diagramas de roteiro (setup/payoff, estrutura em 3 atos), análise de mise-en-scène e direção e em explicações sobre como o espectador processa informação visual.

Muito do conteúdo atual valoriza a produção de novos sentidos, ou seja,  a interpretação aberta; as interpretações pessoais, leituras alternativas, teorias de fãs e discussões abertas. Isso está diretamente ligado à ideia barthesiana de que o significado é criado pelo leitor/espectador. 

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