Queer (2024), dir. Luca Guadagnino
Patético (como um descritor, não como um pejorativo)
por Jo P. Klinkerfus
Eu sei que sou chata (como um descritor, não como um pejorativo) e tenho percebido que a escrita é um lugar em que meus sentimentos parecem ser mais fortes do que realmente são. Ver ou não ver o filme me parece uma escolha indiferente para a leitora. Eu vi. Mas se não tivesse visto também não teria feito diferença. Agradeço pela experiência e pela erudição (a apresentação que seguiu o filme foi muito boa e senti que aprendi muito), mas não fui tocada. Talvez isso seja porque eu nunca consegui me atrair pela produção ou pelas adaptações da obra de William S. Burroughs (pelo menos não por sua escrita, já que suas pinturas me interessam muito mais).
Uma das máximas da Antropologia como um campo de conhecimento é o exercício de se familiarizar com o estranho e estranhar o familiar. Não vejo filmes como antropóloga, não faço o esforço ativo de empatia analítica. Uma obra me toca ao me arrastar pelas orelhas até a familiarização vir. Alguns estranhos são mais difíceis de engolir, alguns filmes lubrificam melhor essa descida estômago à dentro. Queer (dir. Luca Guadagnino, 2024) me é peculiar, não pela sexualidade ou pelos cenários belos ou pelo diálogo estilizado, mas pelas condições que possibilitam a vida que serve de base para a história do protagonista. Um homem branco estadunidense em conflito com sua nacionalidade e experiência com a sexualidade me toca de forma fantasmagórica, como um antepassado de faz de conta. Uma fantasia.
Parte inconsciente de mim buscou uma conexão com as experiências queer em tela para me entreter e buscar sentido em um filme que majoritariamente achei sem graça. Não achei. Conheço muito pouco da obra do diretor, mas pela experiência com o essa obra não me parece ser alguém com sensibilidades estéticas próximas das minhas. Por outro lado, o universo de sexualidades desviantes, drogas e surrealismo melancólico das obras de Burroughs já me era minimamente familiar por conta da adaptação cinematográfica de Naked Lunch (dir. David Cronenberg, 1991), outro romance parcialmente autobiográfico do autor. Creio que prefiro as sensibilidade estéticas de Cronenberg às de Guadagnino. Ainda assim, o material base não parece me capturar. Ao longo de minha vida o que é estranho e o que é familiar são coisas que mudaram muito. Talvez uma eu do passado visse na obra familiaridades alegóricas, mas a eu que viu o filme em sala de aula não tinha nada para agarrar que fosse de casa.
Talvez eu queira ler um livro de Burroughs e talvez o farei no futuro, mas essa curiosidade surge muito mais da apresentação das colegas e da interpretação de Cronenberg. Acredito que me desconectei da obra de Guadagnino a partir da longa cena de sexo entre dois homens embreagados, um dos quais tão mais bêbado que vomita logo antes. Nessa cena a trilha sonora, a cinematografia e a reação dos personagens se unem em uma melodia de alegria, conquista e beleza. Não vi beleza. Longe de mim me agarrar às moralidades conversadoras da geração Z que negam o sexo ou se fecham a qualquer coisa "problemática" (ainda que eu tenha entendido a cena como uma violência sexual desagradável), mas a perspectiva de vitória do protagonista não me cativou. O resto da narrativa emocional decai e passamos o resto do filme em um vazio emocional desagradável, desconfortável. Como um ato de egocentrismo eu apenas aceitei o universo como patético (como um descritivo, não como um pejorativo).
Aceitando esse enquadramento do patético, não consegui ver a obsessão de um homem de meio idade por um rapaz branco, oco, sem personalidade e convencionalmente atraente como nada mais, nada menos, que patético. Como um todo achei que a música no filme me contava uma história muito deslocada das imagens (quase forma sentimentalmente anacrônica). As paisagens sonoras pareciam indicar um caminho tão mais empolgante e a fotografia belíssima seguia esse caminho, entretanto a história contada nunca alcançou o seu meio. O meio é lindo e grandioso (com exceção dos efeitos especiais que achei pavorosos), mas o caminho traçado é, mais uma vez, patético.
Ainda de forma prévia e (in)consciente esperava me divertir nesse filme, talvez pelo título, mas com certeza pela presença de Daniel Craig no papel principal. É fresca em minha mente a euforia estúpida que me veio ao ver a precisa e caricata performance de Craig em Knives Out (dir. Rian Johnson, 2019). Seu rosto me chamava para o camp, mas sua versatilidade como artista me surpreendeu ao mostrar que ele poderia ser entediante ao mesmo tempo que tinha um sotaque cartunesco e flutuante. Muitas pessoas talvez ficaram chocadas com Craig no filme por conhecê-lo por seus trabalhos com James Bond nos filmes do espião 007. Mas para mim eu esperava mais diversão. Não odiei o filme, não amei o filme. Ele é lindo e robusto, mas o resultado me parece ainda um pouco patético.
Eu sei que sou chata (reitero, uma última vez, como um descritor, não como pejorativo) e percebo a cada dia que a escrita é um lugar em que meus pensamentos parecem ser mais fortes do que realmente são (ou do que eu acredito que sejam). Vi o filme, mas o não ver o filme me parece uma escolha indiferente para a leitora. Talvez a curiosidade daquela que lê a leve a ver. Isso é bom, ou pode ser bom. Eu vi. Mas se não tivesse visto também não teria feito tanta diferença. Ou talvez tivesse. Respeito como uma obra pode me levar a sentir sensações múltiplas (é um dos principais motivos para o meu amor eterno pelo terror), então talvez a pura sensação do patético seja uma conquista em tanto.
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Queer tenta ser profundo, mas tropeça na selva
por Raissa Hübner
É meio engraçado que o norte-americano seja a pessoa deslocada, mas é o que acontece em Queer (2024). O protagonista de meia idade, expatriado e gay parece constantemente fora do lugar. Solitário e viciado, ele acaba desenvolvendo uma obsessão quase patológica por um rapaz visivelmente mais jovem e visivelmente mais interessado em uma mulher do que nele. Premissa esquisita, mas nem tanto, vindo de Guadagnino.
Foi impossível não pensar em Call Me By Your Name (2017) enquanto assistia. Que fetiche é esse por homens com idades tão discrepantes se relacionando? Mas as semelhanças entre os filmes continuam com a essência de verão preguiçoso, o jogo de atração desequilibrado e o desejo não correspondido. Mas enquanto em CMBYN havia certa doçura e até sensibilidade na descoberta e experimentação da sexualidade pelo protagonista, Queer escolhe o caminho da angústia e da desorientação.
Essa repetição se estende para Challengers (2024), que, embora narrativamente muito distinto, também parte da tensão do desejo e da disputa. Mas se o tênis em Challengers era uma metáfora eficaz, e a Itália de CMBYN era um refúgio para a sexualidade, a selva amazônica de Queer parece apenas um cenário artificial e sem qualquer vigor. E fica difícil levar a sério uma jornada espiritual quando o espaço onde ela se desenrola parece uma simulação mal feita.
Quando Lee e Eugene partem para a floresta em busca da ayahuasca, o longa perde o pouco fôlego que havia conseguido construir, e me perdeu também. Guadagnino me deixou curiosa para saber onde ia chegar a cena deles vomitando os corações, mas acaba que chega a lugar algum. Parecem dois filmes diferentes: o diretor abandona qualquer senso de imersão e se entrega à psicodelia sem propósito. E pessoalmente não me incomoda quando um filme começa a dar uma viajada, mas no caso de Queer, eu não comprei essa viagem.
É verdade que o longa ainda se sustenta, em parte, por causa das atuações. O problema é que as cenas entre os dois se tornam cansativas — muito por culpa da duração exagerada do filme. Depois de certo ponto, Daniel Craig não tem muito mais o que mostrar: Lee se repete, se esgota e se reduz a um ciclo de desejo e rejeição.
Ainda assim, Queer termina com força. O epílogo, centrado no homicídio da esposa do protagonista, devolve a obra uma densidade emocional que parecia perdida. Mas se por epílogo entende-se um desfecho breve, o que vemos é quase meia hora de um terceiro filme. E talvez esse seja o maior problema de Queer: ele é, ao mesmo tempo, demais e de menos. Demais em duração, em pretensão e em simbolismos. E de menos em clareza, em foco e em potência narrativa.
No fim, o que resta é a melancolia. Queer é um filme sobre alguém que quer (que deseja, que necessita) ser visto — não como estadunidense, ou como gay, mas como pessoa. Mas essa vontade, por mais legítima que seja, se dilui na confusão de uma jornada que não sabe para onde está indo. Há momentos lindos, há atuações poderosas, há intenções interessantes. Mas a obra, como experiência, se fragmenta antes de chegar a algum lugar. E o que fica é essa sensação de incompleto, de promessa não cumprida, de um cineasta talentoso que parece ter se apaixonado mais pela estética da ruína do que por suas causas reais.
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Queer – Silêncio é fogo que arde sem se ver
por Gustavo Bianchini V.
Não consigo apontar ao leitor exatamente o momento em que percebi que Queer não seria um conto de amor. Entretanto, um estranho sentimento foi se formando com cada interação entre Lee (Daniel Craig) e Eugene (Drew Starkey), os dois amantes que protagonizam toda a história, um senso de incompatibilidade fundamental que corria contra toda minha pré-concepção do que o filme estaria fadado a fazer. Não vou mentir, inicialmente fiquei um pouco “irritado”, como se o diretor estivesse segurando o inevitável para fazer drama da situação toda, que estávamos a um diálogo de dar um 180
em todos esses desencontros entre os dois amantes. Entretanto, lentamente senti essa ânsia ecoando em Lee, sua busca incessante por momentos com Eugene menos como um personagem carismático desesperadamente apaixonado e mais próximo de um homem desesperado pelo desejo de uma paixão recíproca, que pode muito bem nunca vir.
Tenho que bater palmas para os jeitos que a narrativa visual retrata esse estranho gênero de “filme de desejo”, escolhendo muitas vezes trabalhar com uma abordagem que subjetiviza a imagem. Essa subjetividade é dada de diversas maneiras, por vezes ela é clara, temos diversas cenas ambientadas dentro da mente de Lee, seus sonhos, pesadelos e desejos tomam posse da câmera, minha forma favorita é quando vemos toques não realizados se manifestando como fantasmas em tela, como se a vontade de Lee fosse tamanha que um espectro se formasse para dar forma ao desejo de proximidade emocional.
Entretanto, técnicas mais sutis também são usadas com maestria para demonstrar essa solidão que permeia toda a narrativa. Destaco a composição das cenas, que remetem muito às pinturas de Edward Hooper, com os personagens isolados em uma Cidade do Mexico vazia e propositalmente falsa, o grande espaço vazio do plano preenchido por ruas, restaurantes, mesas e tudo que compõe a vida moderna urbana. A presença dos personagens ocupa pouco espaço na cena e eles raramente interagem com a cidade em si, contraditoriamente, é exatamente por isso que nosso olhar se foca tanto neles e na sua condição dentro daquele espaço, adentrando muito mais na dinâmica interna do que na externalizada.
A segunda cartada inesperada de Queer foi a direção que a história tomou, pois jamais imaginaria que a segunda metade do filme seria na busca por poderes telepáticos! Vou deixar essa frase decantar um pouco ao leitor...
Bom, na verdade, esse aspecto da telepatia é para mim o grande diferencial da narrativa, pois apesar de nominalmente parecer algo completamente fora da casinha, é uma expressão inusitada, mas genial de tudo apresentado até então. Todo o sofrimento de Lee vem da busca pela proximidade para além do sexo, ir além do físico e encontrar essa conexão idílica entre amores. Em Eugene ele idealiza essa possibilidade, ele busca no jovem esse contato e encontra decepção, de um homem que fala pouco, se expressa pouco. Nem mesmo o silêncio de Eugene é declaratório, só podemos chutar quais são suas motivações para se manter tão calado, seria por repressão de sua identidade? Algum trauma? Apenas desinteresse?
Assim como Lee, nossa comunicação com o personagem de Drew Starkey é unilateral, o espectador é privado de sequer um vislumbre de sua subjetividade, não vemos o mundo pelos seus olhos e, portanto, ele se torna um objeto de interesse, um mistério para ser solucionado. Deste modo, a introdução da telepatia aqui é a solução mágica ao problema. Se não conseguimos nos conectar para além do físico, atravessaremos os limites do corpo e da mente, uma comunicação entre duas almas, sem necessidade do toque e muito menos das palavras ditas, pois estas jamais virão.
Queer não se debruça sobre o amor florescente, mas sobre o desejo resultante desse amor quando incapaz de se materializar. Na falta da substância, o coração busca desesperadamente maneiras de atravessar o abismo entre duas solidões. Não vou dizer qual o fim desta busca, pois estaria tragicamente revelando a cena mais incrível do filme através de meras palavras. Deixo ao leitor a tarefa de presenciar uma das conclusões mais visualmente irretocáveis que já vi, algo que vai além do que eu jamais esperei, ao mesmo tempo que é uma imprescindível conclusão para tudo o que o filme buscou comunicar.
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“A Distância que Separa”
Queer (2024) é uma adaptação do livro homônimo do escritor americano William Seward Burroughs, que em si é uma autobiografia ficcionalizada do autor. O filme, dirigido por Luca Guadagnino nos apresenta a busca do personagem William Lee (Daniel Craig) por uma conexão humana genuína enquanto vivendo na situação de expatriado e sofrendo com o vício de drogas recreacionais. O Lee, como é mais chamado na trama, está em um estágio mais avançado da vida e sofre com a solidão nos seus dias no México, mas se apaixona por Eugene Allerton (Drew Starkey), um soldado vivendo sua juventude. A trama acompanha as tentativas de Lee em se conectar sexual e emocionalmente com Eugene, o que leva a uma viagem pela Amazônia em busca de uma substância com supostas capacidades telepáticas. A obra se divide em vários capítulos, fazendo juz à sua origem literária, o que ajuda a transmitir a progressão dos sentimentos ao passo em que os personagens se conhecem melhor. Ao mesmo tempo o abismo entre eles se torna cada vez mais concreto e as preocupações e desejos de Lee se manifestam através de ambientes oníricos que relaciona a parte ficcionalizada com a vida real do autor. Mais do que uma narrativa, “Queer” é uma experiência sensorial e introspectiva. Trilhas sonoras intensas…que em instantes se dissipam em um doloroso silêncio, a autodestruição em forma de peçonhentos animais ocupantes da realidade e do sonho, a carne em mescla junto dos pensamentos mais indescritíveis feitos cinese, a breve pausa após o ápice de cada fase…antes de voltar a si e continuar a si contar a história, quase como se o final já se soubesse e como para adiar-lo quanto possível. No final de tudo isso, desta obra que se sente e se reconfigura, resta o desejo por algo que talvez já se tenha encontrado, mas que por acaso ou por destino se apagou.
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Cativante, mas não me cativou…
por Magnus Ferreira de Melo
Abordar questões da alma, do corpo e das emoções, de uma perspectiva mística, alquímica, deixou de, há muito tempo, convencer muitas pessoas na Arte, caindo em um nicho (injusto) de autoajuda. Entretanto, a autoajuda se mostra falha no que tange o filme Queer, do diretor Luca Guadagnino. E de forma muito feliz me remeteu a um certo tipo de A montanha sagrada, de Jodorowsky, ou ainda Felizes juntos, de Kar-Wai, pecando, apenas, em ser demasiadamente pretensioso. Me explico…
A história gira em torno de um personagem (Lee), em busca de conquistar o amor de Allerton a todo custo. Para tal, engendra e dá ao cabo de uma viagem à América do Sul em busca de encontrar uma planta (a yagé) com poderes sobrenaturais. A trama seria interessante, se o modo de contar, ou a justificativa, não fosse tão pouco convincente. Lee parece ser o único cidadão do mundo interessado por esse achado — mas por que não é algo tão notório, se até “os russos e americanos estão usando em diferentes experimentos”?
A escolha de um 007 (Daniel Craig) como protagonista — figura talvez pop, pelo menos famigerada —, foi um ato falho, por uma atuação que destoa muito das demais. É uma atuação parada, sem expressão, por vezes explosiva, caindo no vergonhoso. O que salva, ao menos, é o ator de Allerton (Drew Starkey) — de papel incômodo e misterioso. As músicas, desconexas com a temática, são interessantes — mas soam como escolhidas para edits de TikTok… E a demora para o acontecimento dos eventos é penosa, cansativa, ainda que contemplativa. Para não só reclamar, o vício e a desconexão são pautas bem exploradas e caras na construção do entendimento do que nos é mostrado.
Por fim, outro aborrecimento pessoal foi o protagonismo ensimesmado do estadunidense — praxe norte-americana de tornar suas personagens donas do mundo. Seus problemas são muito vazios (apesar do preconceito, que mal aparece no filme). Como pontuado, me lembra da obra Felizes juntos, com chineses que se mudam para a Argentina — lá o choque de culturas, e até mesmo a realidade estrangeira, é frisada do primeiro ao último minuto. Vai além de uma situação amorosa conturbada entre dois homens: são dois homossexuais asiáticos fazendo as suas vidas na América; uma busca de estabilidade (emocional e financeira). Ademais, a Argentina está sempre (ou quase) retratada na tela (com argentinos, importante ressaltar!). Em Queer todos falam inglês — e ao se arriscarem no espanhol nota-se a causa de sempre estarem em sua língua materna. O mundo latino parece ser um fetiche, ou um “mundo selvagem” interessante de se rodar no cinema. Não é bem assim que a banda deveria tocar.
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Crítica: Queer (2024), dir. Luca Guadagnino
por Amanda M.
Há filmes que parecem falar muito — sobre o corpo, o desejo, a busca por si mesmo e pelos outros — mas, no fim, deixam mais uma sensação de exposição do que de conexão. Queer, de Luca Guadagnino, é um desses casos. Baseado em uma obra de William S. Burroughs, o longa tenta ser sensorial, simbólico e provocativo, mas me causou mais incômodo do que envolvimento. Talvez por não estar habituada com esse tipo de cinema tão cru em relação ao corpo, à nudez e à tensão erótica, terminei o filme com a sensação de que algo em mim havia sido atravessado — mas não necessariamente de forma positiva.
A história acompanha Lee (Daniel Craig), um americano deslocado, obcecado por Allerton (Drew Starkey), um jovem ambíguo, distante e envolto num certo mistério. A obsessão de Lee o leva até a América do Sul em busca de uma planta com supostos poderes visionários. Mas o enredo parece ser apenas um pano de fundo para o que o filme realmente quer exibir: a fragilidade e o descontrole emocional de um homem, sua carência, seu delírio — e, claro, seus desejos não resolvidos. Só que tudo isso é contado de forma tão explícita e desconfortável, com cenas de nudez longas e repetidas, que em vez de me aproximar da dor do personagem, me senti distante, observando algo quase invasivo. Em certos momentos, confesso que queria apenas desviar o olhar.
Daniel Craig, que costuma funcionar melhor em papéis frios e contidos, parece perdido aqui. Sua atuação oscila entre o robótico e o exagerado. Já Drew Starkey, apesar de bem mais contido, entrega um personagem tão enigmático que por vezes soa vazio — difícil saber se ele está agindo, sofrendo ou apenas entediado. A relação entre os dois se pretende intensa, mas me pareceu unilateral, e, talvez por isso, difícil de engajar emocionalmente. Era mais fácil sentir pena de Lee do que torcer por qualquer desenvolvimento.
Outro ponto que me desconectou foi a ambientação latino-americana tratada como pano de fundo exótico. Todos falam inglês, quase ninguém parece, de fato, latino-americano. A cultura local é mostrada com um certo fetichismo, como se estivéssemos assistindo a um turismo emocional de um homem branco em crise, que passa por mercados e becos como se buscasse uma iluminação que só ele pode alcançar. A América do Sul, aqui, é cenário — não personagem.
Ainda assim, há méritos: a fotografia é bonita, há composições visuais bem cuidadas, e a trilha, ainda que um pouco “descolada demais” para o tom do filme, ajuda a manter um certo ritmo nos momentos em que a narrativa se arrasta. E é preciso reconhecer: o filme, com todas as suas pretensões, toca em temas importantes — vício, desejo, abandono, a necessidade desesperada de ser amado. Só que o faz de uma maneira que exige muito do espectador: exige entrega, tolerância ao desconforto, e uma abertura emocional que nem todos estão prontos para oferecer.
No meu caso, saí da sessão com mais dúvidas que reflexões. Não por causa de complexidade filosófica, mas porque senti que o filme queria me confrontar mais do que me acolher. E, sinceramente, às vezes só queremos um pouco de silêncio no meio da tormenta — e Queer não deixa isso acontecer em momento algum.














