Wicked (2024), dir. Jon M. Chu
Eu amo Wicked. Ponto final. Esta escrita poderia acabar aqui e seria o suficiente.
O musical estreou em 2003 e se tornou um espetáculo e um marco do teatro musical e da cultura popular nos Estados Unidos. Reproduções e adaptações da peça foram feitas ao redor do mundo e a incrível e cativante história ganhou novas cores por todos os lugares que passou. Conheci a obra por volta dos 12 anos, quando ouvi a monumental Defying Gravity (canção que encerra o primeiro ato da peça e, na versão do filme, encerra a história) pela primeira vez. Eu quis voar. Eu amei Wicked desde aquele momento e desde então não deixei de lado essa obsessão e carinho.
Ao longo dos anos ouvi a trilha sonora feita pelo elenco original com Idina Menzel e Kristen Chenoweth múltiplas vezes, ouvi também versões feitas pelo elenco do seriado Glee (2009-2015) e tantas outras, incluindo a versão de Ariana Grande de The Wizard and I. Muitas vezes busquei acalento nos desejos de aceitação e sonhos (im)possíveis de Elphaba, assim como manufaturei uma autoestima e confiança falsas me espelhando nas palavras de Galinda. Digo tudo isso para dizer que eu jamais poderia escrever uma simples crítica voltada para a qualidade do filme de forma isolada ou com uma indicação ou contraindicação para um público sobre ver ou não a obra. Para mim, estar em uma sala de cinema ou na sala de aula vendo Wicked é um presente pra minha eu de 12 anos, um presente que eu aprecio e apreciarei sempre.
Uma vez que o filme foi anunciado, ou melhor, uma vez que foi anunciado o fato de que a história seria fatiada em dois filmes diferentes baseados nos dois atos da peça, fiquei apreensiva. É um fato universalmente concordado de que o primeiro ato é o melhor. Como ficará o segundo? Não sei, mas espero ansiosa para descobrir no final deste ano. Por hora, debrucemo-nos neste primeiro ato de magia. Wicked (dir. Jon M. Chu, 2024), antes mesmo de se materializar como filme, tem ocupado minha mente em cada detalhe desde a pré-produção, os escândalos dos bastidores e cada pequena escolha. O elenco em si é uma alegria. Cada uma das atrizes principais, com exceção de Marissa Bode que estreia sua carreira cinematográfica como Nessarose, era alguém que eu já amava o trabalho antes do filme (com ênfase em meu amor pelo excentrismo de Jeff Goldblum que interpreta o Mágico e pelo humor de Bowen Yang que vive Pfannee).
Chegou o dia da estreia. Eu estava lá com meu vestido rosa, produzida de Glinda, e silenciosamente cantei todas as canções dentro de mim. Dancei quieta ao som de What is This Feeling? e chorei diversas vezes. Foi lindo, incrível. Segui os meses seguintes ouvindo a trilha sonora repetidamente, mais do que qualquer outro álbum, e buscando cada informação possível sobre as cenas deletadas e sobre o subsequente filme. Em todos os meus círculos de amizade e nas redes sociais defendi com unhas e dentes que Ariana Grande, no papel de Galinda/Glinda, merecia todos os prêmios de atriz coadjuvante. Lendo tudo isso, a leitora pode imaginar que eu estava extasiada para rever a obra pela primeira vez em sala de aula. Mas não foi bem assim.
Estava em uma semana particularmente cansativa e as demandas de trabalho me sufocavam. Considerei faltar a aula para poder trabalhar e quem sabe descansar, mas no fim das contas decidi que estaria presente em sala, mas não completamente, pois estaria trabalhando durante o filme, como uma escolha de meio termo. Lá estava eu, com meu notebook aberto, trabalhando em projetos empilhados de meu estágio. O filme começou e os flashs do fim da história da Bruxa Má estavam passando. Em poucos minutos o instrumental grandioso da canção inicial No One Mourns the Wicked começou e fui tomada, laçada à força. A beleza dos cenários construídos, a riqueza de detalhes em cada figurante e o esplendor da presença de Grande como a Bruxa Boa do Norte vieram me lembrar que eu amo tudo que estava em tela. Finalizei às pressas uma peça para minha supervisora, enviei e logo fechei meu computador. Arrepiei-me com as notas agudas de Glinda em seu saber agridoce. Vivendo com a histórias por anos, lá estava eu em luto pela bruxa, por alguém vista como má.
Poucos números iniciais se equiparam a No One Mourns the Wicked. A potência de toda uma população raivosa, feliz e vingada, ao mesmo tempo mergulhada nas propagandas políticas do Mágico. Mesmo estudando morte (e especialmente morte daqueles desprezados pela sociedade) há 5 anos, eu ainda engasgo com a pura alegria coletiva com a morte de alguém. Simultaneamente Glinda apresenta sua performance mais etérea. O começo de Wicked por si só é um banquete que faz qualquer revisita à obra uma experiência mágica. Conhecendo o segundo ato, o número inicial é ainda mais emocionalmente poderoso. Mas esse é, literalmente, só o começo.
Em pouco tempo a história progride e somos apresentadas à mais cenários belíssimos. Cada peça de roupa é uma obra prima e o conjunto da obra é uma experiência imersiva. Ao chegarmos em The Wizard and I, a primeira música da protagonista Elphaba, vivida por Cynthia Erivo, eu estava completamente rendida, como na primeira vez que ouvi essas músicas ou que vi o filme. Passei as seguintes duas horas com um sorriso no rosto, cantarolado em silêncio me mexendo na cadeira, chorando, rindo e deliciando meus olhos e ouvidos. Ao fim dessa jornada, ao som de Defying Gravity, estava revigorada em meu carinho pela obra.
Poderia ter gasto essas linhas analisando, apontando detalhes, expressando sentimentos particulares em momentos diferentes da obra, comentando sobre a intertextualidade da temática racial da obra e escolha de Erivo para o papel principal, etc, etc, etc. Mas não. Deixo essa missão para minhas colegas ou para uma futura escrita de 10, 15, 20 ou mais páginas. Por hora, cabe dizer que eu amo Wicked. Ponto final.
Wicked é O musical (até para quem odeia)
Eu faço parte da minoria que ama musicais. Mas não amo Wicked (2024) porque amo musicais, amo Wicked porque não teria como não amar. Acredito que, para todo gênero, existe um filme que foge à regra e pode conquistar até os mais céticos. Wicked é um desses. Ele é a magia do teatro musical adaptada de maneira perfeita para o cinema. Não o descreveria de outra forma.
Eu cresci vendo a Ariana Grande na TV, num spin-off bem bobinho de duas séries famosas da Nickelodeon, e já dava para perceber que ela tinha um timing cômico muito apurado. Anos depois, vejo ela como Glinda e penso que não tinha como ser outra. Ariana nasceu para ser a Glinda. E o mesmo vale para Cynthia Erivo como Elphaba. Não consigo imaginar qualquer outra pessoa pintada de verde entregando tanta emoção na voz quanto ela.
Em In the Heights (2021), Jon M. Chu já provou que sabe coreografar músicas de maneira vibrante e integrá-las à narrativa sem forçar uma cantoria do nada. Com Wicked, ele faz ainda melhor: entrega números musicais visualmente arrebatadores e uma direção que não tenta esconder que estamos, sim, num musical – pelo contrário, ela abraça isso com vontade. E ainda bem. Porque Wicked sabe ser exagerado, sabe ser brilhante, e mais do que tudo, sabe emocionar.
É engraçado pensar que o longa estreia no mesmo momento em que outros musicais tentaram, e falharam, em ser levados a sério. Coringa 2 (2024) é um exemplo disso. Um musical que quer muito ser autoral e ousado, se auto denominando como “semi-musical”, mas parece mesmo é envergonhado de si. Ao contrário de Wicked, que acredita na sua própria magia desde o primeiro acorde.
Talvez o maior mérito da obra seja justamente esse: ela não tenta agradar quem odeia musicais. Não há vergonha alguma das músicas, coreografias e luzes. Nem mesmo das jogadas de cabelo da Glinda. E é no meio disso que ela conquista até os mais relutantes. Porque há um momento, em algum ponto do filme – chuto que durante a dança que marca o início da amizade entre Elphaba e Glinda – que algo muda. Você se entrega. E quando percebe, está emocionado. Rendido. E pensa que Wicked pode ser uma exceção à regra. E vamos combinar: o vocal da Cynthia em “Defying Gravity”, a última música, é de arrepiar mesmo.
É claro que há pequenos problemas aqui e ali – um número que se arrasta, um CGI que não convence totalmente. Mas, para mim, isso é completamente ignorável quando o conjunto é tão arrebatador. Wicked é aquele tipo de filme que te faz lembrar por que ama cinema. Mesmo que você diga que odeia musicais.
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“Verde, Música, Reflexão”
Wicked (2024) é uma adaptação cinematográfica do famoso musical homônimo da broadway de 2003, que em si é uma adaptação do romance “Wicked: The Life and Times of the Wicked Witch of the West” de 1995, que por si só é uma exploração alternativa do mundo do romance “The Wonderful Wizard of Oz” escrito em 1900 por Lyman Frank Baum.
Todas essas referências e reinterpretações podem parecer confusas e gerar reticências quanto à acessibilidade do filme, porém a obra se sustenta por si só, mesmo que um conhecimento de alguma das derivações vá aumentar ainda mais o proveito de assistir.
O filme é um orgulhoso musical. Para muitos isso já sentencia o filme ao esquecimento, contudo se eu, que geralmente sou desgostoso ao gênero, achei espetacular, talvez isso seja prova da qualidade e acessibilidade do filme.
A trama principal se resume nas experiências e circunstâncias de vida de Elphaba (Cynthia Erivo), que virá a se tornar a infame bruxa má do oeste, aquela da história do mágico de oz. Deste o desdém sofrido por ela no nascimento devido à sua inesperada coloração verde de pele até ao ostracismo no meio social e posteriormente no meio acadêmico fica claro a intenção profunda e visceral em apresentar, por meio do mundo fantástico de oz, vestígios da realidade na forma política, uma política não partidária, mas sim sociológica. Além do preconceito sofrido por Elphaba também é apresentado a limitação à condição de impotência para pessoas com deficiência, representado na negação ao arbítrio da personagem Nessarose (Marissa Bode), irmã de Elphaba, também na repressão cultural e de expressão aos animais, impedidos de falar e apresentar suas perspectivas devido a uma agenda política, que os transforma em bodes expiatórios para um poder centralizado na figura do maravilhoso mágico de oz, este aliado aos detentores do lugar de conhecimento oficial, a universidade de shiz, em busca de um progresso marcado pelo esquecimento e desumanização do outro.
Sendo um filme inequivocamente político, reitero, socialmente, pode se pensar que se limite a isso. Não. É um ótimo e bem executado musical, é uma trama pessoal e interpessoal comovente e é uma exploração sensível e marcante da realidade de Elphaba, sofredora, empática e por fim certa e orgulhosa de si. Tudo isso em uma produção que fez questão de criar ambientes e personagens vivos, que se desenvolvem no ritmo das diversas canções, estas nos proporcionando um feixe do maquinário interno de cada um em seu desenvolvimento. Entre as cenas, os espetáculos, os discursos e a realidade escondida, vemos uma trama que, por uma verdejante ótica, se liberta do maniqueismo do mágico e sua tão conhecida e difundida história.
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Wicked: a construção de crenças e ambições.
Wicked nos traz uma história de poder, ambição e crenças - repleta de contrastes e simbologia. Não vou mentir, a história não é original. E não digo isso por ser uma adaptação de uma peça que é adaptação de livro inspirando em um outro livro 95 anos mais velho. A história de Wicked é uma colcha de retalhos de tropos, clichês e arquétipos costurados com muito cuidado e atenção. Começando com as protagonistas diametralmente opostas forçadas a conviver e que se odeiam (mas no fim aprendem a gostar uma da outra), o interesse romântico convencionalmente atraente e com pouco apreço pelas normas e regras, o poder grandioso de um escolhido, uma escola interna mágica, a autoridade não confiável e a protagonista que não aceita o status quo. E não me entenda mal, eu gosto de como eles usam os temas conhecidos e me parecem conseguir tirar o melhor deles criando uma história muito fácil de acreditar - talvez por que nós já a conhecemos.
Sendo a segunda vez e meia que eu vejo esse filme, tenho tranquilidade em dizer que o interessante nele não é (puramente) a história que se conta, mas como estão mostrando a história. Mesmo sabendo o que estava por vir, me peguei sentindo os mesmos sentimentos e sensações da primeira vez, nos mesmos momentos, talvez um pouco mais ainda por já saber o que me empolgaria, e empolgar com a proximidade da cena ou música, ou a angústia de saber que algo ruim vai acontecer e não poder interferir, deixando a cena, para mim, mais angustiante e até mesmo uma pequena tortura. Não acho que minha percepção seja uma única, nem movida por favoritismo ou um apego de um emocional sensível. Wicked me fez sentir as mesmas coisas pela terceira vez porque tem uma história que não é contada, ela é mostrada. E acima disso, ela é construída. As motivações das personagens e os pontos principais do roteiro aparecem gradualmente e a ambientação (cenário, enquadramento, cores, trilha sonora) é cuidadosamente construída na mesma graduação criando uma apresentação coesa, acreditável e, mais importante, envolvente.
Esse filme é uma aula em como mostrar uma história e como pequenos detalhes entregues aos poucos crescem e criam motivos e identidade - e facilmente preencheria de 15 a 20 páginas com exemplos e motivos. Eu não vou tomar esse tempo de vocês, mas não seria certo não comentar como a personagem da Glinda é construída com movimentos e figurinos estereotipados e caricaturais, justamente para apresentar e construir essa personagem que se vê como uma jogadora e que, ao menos parte, essa persona é para chegar nos seus interesses e objetivos, com um tema sonoro agudo de notas curtas que remete um pouco uma caixa de música. Essa figura hiperfeminina da personagem não é apenas personalidade mas também ajuste político e ambição. E da mesma forma, a personagem de Elphaba, com um tema sonoro grave, com notas longas, postura fechada e atuação sutil, muito mais próximo do “comportamento real” (o que já serve para aproximar o espectador dessa personagem em comparação a Glinda), que cria uma personagem que se restringe e se poda, mas que demonstra uma ingenuidade quando recebe afeto.
Enfim, Wicked entrega pelo tempo que tem - se não pela grande história que movimenta o roteiro, pelas pequenas que movimentam as personagens e preenchem um mundo vivo e envolvente.
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Rosa vai “bom” com verde
por Nicolas Castro
Levar Wicked para os cinemas é uma ideia desafiadora, apesar de esperada. Adaptar uma obra já existente para uma mídia diferente da original não é fácil, ainda mais se tratando de um musical: o que funciona bem nos palcos não necessariamente funcionará nas telonas, e vice-versa. Além disso, estamos falando de um dos musicais mais populares da atualidade. Mexer com Wicked significa mexer com uma base muito fiel de fãs, mas o longa de Jon M. Chu lida muito bem com o desafio, e com fôlego de sobra. Não é apenas excelente como uma adaptação, mas como uma obra por si só, tendo encantado o coração dos fãs e do público que não conhecia o livro ou a peça, até mesmo quem nem sequer gosta de musicais.
Seus méritos já chamam atenção em absolutamente todos os aspectos técnicos, desde a primeira cena, como a direção de arte, a fotografia, o figurino e a forma como esses e outros elementos se justapõem em uma experiência de brilhar os olhos.
Uma das coisas que, na minha opinião, Wicked mais acertou em termos de adaptação foi a sua ambientação. Ao transpor a experiência teatral para a cinematográfica, rompemos a limitação do distanciamento do palco e somos levados para dentro dos cenários de Oz, com uma direção que possibilita passear por aquele mundo, explorando tudo que ele tem a oferecer. Sentimos vontade de adentrá-lo e de conhecer mais. Por pouco mais de 160 minutos, é como se tudo aquilo fosse real e como se disso fizéssemos parte. Algumas poucas cenas, no entanto, parecem carecer de uma montagem mais enxuta, me fazendo sentir levemente a duração do filme.
A coreografia também é um desbunde, e sabe aproveitar essa ambientação. Para mim, o maior exemplo disso é durante Dancing through life, em que todo o cenário da biblioteca e seus itens são aproveitados ao máximo para compor uma performance fluida.
Falar das músicas que vieram dos palcos da Broadway seria chover no molhado para elogiar toda a potência de Wicked, então queria aproveitar para reforçar o quão delicada e sensível é a trilha sonora original do filme, a Original Motion Picture Score, composta por John Powell e por Stephen Schwartz, responsável pela peça original. É nos momentos de sutileza entre as cenas musicais que a trilha instrumental se manifesta para consolidar o nosso envolvimento emocional com a trama.
Aliás, sobre a trama, é recheada de críticas sociais e mensagens nem um pouco sutis (e o filme nem mesmo tenta ser sutil, o que funciona bastante dentro do que se propõe). Ela é bastante expositiva em vários dos temas que insere, como preconceito, manipulação midiática, opressão por um fascismo ascendente e amor próprio. Novamente, são exageros intencionais: o longa não é (e não precisa ser) implícito em seu texto.
O elenco todo é competente, e praticamente todos os personagens de maior destaque têm pelo menos um momento de brilhar durante uma cena musical. Gostaria de me focar agora nas protagonistas, Elphaba e Glinda, bem como nas performances de Cynthia Erivo e de Ariana Grande.
Ao mesmo tempo que Elphaba é uma personagem única, ela também é universal. Todas as pessoas que já se sentiram desajustadas de alguma forma podem se enxergar na Bruxa Má do Oeste, vilanizada tanto por pessoas que não a compreendem quanto por aquelas que temem o seu poder. Glinda é magnética, um arquétipo da garota popular. As duas, tão diferentes uma da outra, entram em choque e, aos poucos, passam a nutrir sentimentos entre si, cultivados com carinho, respeito, sororidade e amor. Talvez, o despertar dessa relação tenha surgido na cena da Ozdust, em que elas dizem muitas coisas sem falar nada, apenas com olhares, toques e dança. Elas parecem destoar, mas se complementam. “Rosa vai ‘bom’ com verde”, como diz Glinda, se referindo não apenas às suas cores, mas às suas particularidades.
No decorrer do filme, vemos o quanto elas se desenvolveram como personagens e como elas foram mutuamente importantes para esse desenvolvimento. Isso está presente não apenas no texto, mas também nos pequenos detalhes, como um adereço rosa em Elphaba e uma tímida iluminação verde no rosto de Glinda.
Na minha opinião, Defying Gravity sempre foi a apoteose de Wicked. Tive o prazer de assisti-la ao vivo em 2023, na versão brasileira do musical, e digo sem exageros que foi um dos melhores momentos da minha vida. Eu estava muito curioso pra ver como a adaptaram quando fui ao cinema assistir ao filme, apesar de ter consciência de que assistir a um filme no cinema e a um musical ao vivo são experiências completamente diferentes. Algo que, para mim, pessoalmente, não funcionou tanto, foram as interrupções na narrativa musical de Defying, pois elas descontinuavam meu envolvimento emocional, que ansiava por continuar ouvindo e apreciando a música. Entendo, porém, que há uma função narrativa nessas interrupções, e aqui entra a lógica da adaptação de uma mídia para a outra: faz sentido que tenhamos espaços de respiro no meio da canção.
Defying Gravity é fantástica em toda a sua construção narrativa, além de ser musicalmente impecável. Logo no começo, as protagonistas proferem falas sarcásticas de “I hope you’re happy” (eu espero que esteja feliz) com acusações de imprudência, submissão e ambição. É nesse momento que elas despejam uma na outra sua raiva e suas frustrações, mas também seus medos e desejos. Ao longo da cena, elas externalizam suas convicções e, por um instante, somos tomados pelo sentimento esperançoso de um final feliz, em que ambas desafiariam juntas a gravidade, voando para longe dali, mas esse sentimento é substituído por outro mais agridoce: nós sabemos, juntamente com elas, que é ali que seus caminhos se separarão. Glinda se sente dividida, mas não consegue de fato se desprender de sua vida já estabelecida. Elphaba, já sem amarras e incapaz de ceder a princípios totalmente opostos aos seus, abre mão de tudo aquilo pelo qual lutou durante toda a trama: a admiração do Mágico e a chance de poder ser admirada e respeitada pelas outras pessoas. No fim, cada uma delas repete que espera que a outra seja feliz, mas agora sem espaço para o sarcasmo, somente para um desejo sincero.
Entre Canções; Verde; Rosa e Tules surge Wicked
por Luiz Eduado Schlosser
A obra de arte (como a considero) é uma adaptação do famoso musical da Broadway no qual somente tinha conhecimento de algumas cenas. Dirigido por Jonathan Murray Chu o filme mostra a história que nunca foi contada sobre a relação da Elphaba ( futura bruxa má do Oeste) com Galinda, que mudou seu nome para Glinda como ‘apoio’ a causa dos animais. O filme é um espetáculo em todas suas características, e para os amantes do musical, ele virou Popuular, cantadinho assim mesmo, e ficou no coração de todos que tinham uma memória afetiva com o mundo de Oz.
A propaganda de pré-estreia do filme foi muito intensa e bem construída, me lembro de ficar esperando a Ariana Grande e a Cynthia Erivo aparecerem em algum evento de moda usando rosa e verde, recordando um pouco e era pink de Barbie (2023), será então que tivemos agora uma era green and pink? Quando fui assistir o filme nos cinemas, somente conseguimos a versão dublada, causando em mim um pouco de tristeza por não assistir o original, mas esse sentimento se exauriu nos primeiros minutos. As vozes de Myra Ruiz e Fabi Bang, que interpretam a peça aqui no Brasil, não deixaram a desejar, cantando todas as músicas da melhor forma possível e merecem todo o reconhecimento.
Depois assisti o filme novamente (no qual não tive nenhum incômodo) na versão original, onde nos primeiros minutos somos consumidos pela magnitude de No One Mourns the Wicked, com Ariana Grande mostrando toda sua potência vocal e de como o filme não teria nenhum problema de diálogo entre as músicas e as cenas sem elas. Toda trilha sonora é composta por grandes momentos e músicas brilhantes. Após a chegada dos alunos na Universidade de Shiz, temos a apresentação do local que mais se passará o filme, a construção do cenário nos mostrou um incrível mundo de fantasia em que todos queríamos estudar. A partir disso, são apresentadas músicas como What is This Feeling? e Popular que foram todas adicionadas a minha playlist do spotify. Chegamos então no ápice do filme, a música Definity Gravity que já é conhecida por grande parte do público. Iniciada com uma melodia calma, intercalando falas entre a canção, conseguimos ver a ética das duas personagens, Glinda pedindo para Elphaba se desculpar depois de todo o mal que ela havia visto e a Bruxa do Oeste seguindo na defesa da causa dos animais, à qual eu considero a ‘boa’. Então é colocado a tenção na melodia e depois uma explosão para desafiar mesmo a gravidade, a cidade das esmeraldas passa a ser um palco para a incrível Cynthia, no meio das acusações e de tornar Elphaba o inimigo, a personagem nos mostra a liberdade conquistada e a canção mais esplêndida do filme.
Destaco aqui a perfeita implementação do humor no filme, feita principalmente pela personagem da Ariana Grande, as batidas de cabelo, a mean girl loira somente preocupada com a popularidade e beleza causando várias risadas durante o musical. Por fim, falando em beleza, coloco a magnitude do figurinista Paul Tazewell e todo o figurino majestoso e maximizador produzido, cada detalhe das roupas foi pensado. Os figurinos fortes, focados na natureza e assimétricos de Elphaba em conjunto com os de Glinda, carregados por borboletas, movimentos suaves e leveza em seus tecidos exemplificam a personalidade das personagens, segundo Marley Marius para a Vogue US, Paul teve três referências principas para a produção, o livro Wicked: The Life and the Times of the Wicked Witch of the West; o próprio musical da Broadway e a base de fãs do musical. Utilizando a terra e o ar como principais referências dos figurinos das protagonistas. Assim a Vogue coloca sobre o uso do máximo nos figurinos do filme e nos lembra de uma passagem do filme “De fato, o impulso nos faz lembrar uma fala do Mágico no final do primeiro ato, quando Elphaba e Glinda espiam por trás da cortina de seu refúgio na Cidade Esmeralda: "Eu sei, é um pouco demais", ele diz com um sorriso de ombro. "Mas as pessoas esperam esse tipo de coisa!".” Com isso, o filme entregou todo o esperado e foi além, deixando todos ansiosos para o próximo capítulo das nossas divas.
Referências
MARIUS, Marley. 'Wicked': tudo o que você precisa saber sobre os figurinos do filme. Vogue Brasil, 17 nov. 2024. Disponível em: https://vogue.globo.com/moda/noticia/2024/11/wicked-figurinos-filme.ghtml. Acesso em: 4 jun. 2025.
Crítica: Wicked (2024), dir. Jon M. Chu
por Amanda M.
Wicked é mais do que um musical encantador — é uma fábula poderosa sobre os julgamentos precipitados, a manipulação da verdade e a linha tênue entre o bem e o mal. O filme consegue ser visualmente deslumbrante e, ao mesmo tempo, emocionalmente profundo, trazendo uma discussão social que considero extremamente importante: nem sempre quem é chamado de “vilão” o é de fato, e nem toda “heroína” é livre de falhas.
A narrativa acompanha a trajetória de Elphaba, a jovem de pele verde que futuramente se tornará a "Bruxa Má do Oeste", e Glinda, a popular e carismática bruxa "boa". O que começa como uma rivalidade se transforma numa amizade comovente, envolvida por tensões políticas, desigualdades e conflitos internos. Essa jornada, ao mesmo tempo fantástica e tão próxima da realidade, me prendeu completamente.
A fotografia do filme é lindíssima: cada cena parece pensada como um quadro, com uso marcante de cores para representar os mundos e emoções das personagens. O contraste entre os tons vibrantes de Glinda e os verdes escuros e mágicos de Elphaba refletem, visualmente, suas diferenças — e aproximações — ao longo da história.
O figurino também é um espetáculo à parte. Rico em detalhes, expressivo e com uma estética mágica e teatral que nunca deixa de impressionar. Ele não apenas reforça a fantasia do universo de Oz, mas também ajuda a construir visualmente a personalidade de cada personagem.
O resultado é um filme emocionante, com performances marcantes, números musicais potentes e cenas que ficam na memória — algumas pela beleza, outras pela carga emocional. É uma obra que consegue entreter e, ao mesmo tempo, provocar reflexão.
Wicked me emocionou muito e me deixou completamente envolvida do início ao fim. Mal posso esperar pela segunda parte.





















