Amarela (2024), dirigido por André Hayato Saito
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Julia Mendonça
Um dos aspectos que mais chama a atenção é a forma como a imagem contribui para aproximar o espectador da realidade apresentada. Os enquadramentos, os ângulos e a velocidade das cenas fazem com que a experiência pareça acontecer junto com a personagem, e não apenas ser observada à distância. Isso intensifica a emoção provocada pelo curta e permite que o espectador tenha uma percepção mais próxima do desconforto e da tensão vivenciados naquela situação.
Também considero interessante a representação do encontro entre diferentes culturas, mostrando esse "mix cultural" formado por pessoas que vêm de outros países e passam a fazer parte da sociedade brasileira. Ao mesmo tempo em que essa diversidade aparece, o filme evidencia como ela pode ser acompanhada de preconceitos e dificuldades de integração.
A crítica social é, portanto, o principal elemento da obra. O próprio título, Amarelo, ganha diferentes significados ao longo do curta, relacionando-se tanto à cor associada às pessoas retratadas quanto à forte presença do amarelo na identidade visual brasileira, especialmente no contexto da Copa do Mundo. Essa relação contribui para uma reflexão sobre o nacionalismo e sobre a maneira como o sentimento de orgulho nacional pode, em determinados contextos, transformar-se em uma valorização exagerada daquilo que é considerado "brasileiro" em oposição ao que vem de fora.
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Entre o Amarelo e o Silêncio: uma leitura de "Amarela"
João Lorenzzoni
Amarela (título internacional Yellow) é um curta-metragem brasileiro de 2024, com 15 minutos de duração, escrito e dirigido por André Hayato Saito, com roteiro também assinado por Luigi Madormo e Tatiana Wan, e desenvolvimento de personagem de Érica Sarmet. A fotografia é de Hélcio Alemão Nagamine, a montagem de Caroline Leone, e a trilha sonora original é de Dudu Tsuda e Lilian Nakahodo. O elenco é encabeçado por Melissa Uehara, no papel de Erika Oguihara, com Ricardo Oshiro no elenco principal. A história se passa em São Paulo, em julho de 1998, no dia da final da Copa do Mundo contra a França: Erika é uma adolescente nipo-brasileira que rejeita as tradições da família japonesa e só quer torcer pelo penta ao lado dos amigos, mas ao longo do dia vivencia uma violência silenciosa, quase invisível aos olhos de quem está ao redor, que reacende um conflito antigo — a sensação de nunca pertencer inteiramente a lugar nenhum.
Do ponto em que assisti — como alguém que também já sentiu na pele o que é carregar sozinho um preconceito que os outros insistem em não ver —, o filme me pegou logo nos primeiros minutos pelo cansaço no rosto da Erika. É um cansaço que reconheço: o de quem sorri por fora enquanto sustenta um peso emocional que ninguém pergunta se existe. A cena do metrô, com o comentário xenofóbico do rapaz, é o retrato exato de como o preconceito quase nunca vem como agressão explícita, e sim como uma piadinha, um comentário "inofensivo" que o agressor esquece no minuto seguinte e a vítima carrega para casa. É praticamente o mesmo mecanismo que eu reconheço na homofobia: a "brincadeira" que ninguém acha grave, mas que vai se acumulando até doer de verdade. Saito filma isso sem sublinhar, e é justamente essa recusa em explicar demais que torna a cena mais incômoda — e mais verdadeira.
No campo da direção, o que mais chama atenção é a paciência. Saito não tem pressa de explicar Erika; ele deixa que os silêncios da casa, entre uma avó adoecida sendo cuidada e uma família de rotina simples e rígida, façam o trabalho pesado. Essa rigidez familiar é sutilmente construída — não por gritos, mas por ausências: ninguém pergunta como ela está, e ela também não oferece. É um retrato fiel de famílias onde sentimento não é assunto de conversa, algo que muita gente que cresceu escondendo quem é também reconhece dolorosamente bem. O tom se mantém coerente do início ao fim: melancólico, introspectivo, sem nenhum momento que quebre esse clima artificialmente para gerar alívio cômico ou dramalhão.
A fotografia trabalha com uma paleta contida, tons terrosos e levemente dessaturados, que evitam o nostálgico "amarelado" clichê dos filmes de época e preferem uma luz mais realista, quase documental. Os enquadramentos fecham bastante no rosto de Erika, favorecendo primeiros planos que capturam microexpressões — decisão coerente com uma protagonista introspectiva, que fala pouco e sente muito. Não há uso de animação no curta; a linguagem é inteiramente live-action, o que reforça a intenção de ancorar a história num realismo emocional, e não numa estilização abstrata da memória.
Na montagem, o ritmo é deliberadamente lento, quase contemplativo, o que pode incomodar quem espera uma narrativa mais ágil, mas cumpre a função de nos colocar dentro do tempo interno da personagem — aquele tempo esticado que só quem já ficou remoendo uma humilhação em silêncio conhece. O uso do tempo narrativo, concentrado praticamente num único dia (a final da Copa), funciona como uma pressão-panela: o país inteiro celebrando um "pertencimento nacional" coletivo enquanto Erika é lembrada, mais uma vez, de que esse pertencimento não é garantido a ela. A trilha sonora entra com parcimônia e se intensifica no ato final, ganhando um tom melancólico que não busca arrancar lágrima à força, mas sim confirmar, com delicadeza, o que a imagem já vinha sugerindo.
No fim, "Amarela" funciona menos como um filme "sobre" xenofobia e mais como um estudo de como o preconceito — seja ele racial, étnico ou, no meu caso, a homofobia— se instala mais fundo quando não há espaço em casa para nomeá-lo. É um curta que confia no espectador para preencher os silêncios, e é exatamente aí que ele me atingiu: não no comentário do metrô em si, mas no fato de Erika voltar para casa e guardar aquilo só para ela, porque sabia, antes mesmo de tentar, que não haveria escuta do outro lado.
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Vitor Sebastiany da Silva
O curta-metragem Amarela, dirigido por André Hayato Saito, aborda temas como identidade, pertencimento e preconceito por meio da história de Erika, uma adolescente nipo-brasileira que enfrenta conflitos relacionados às suas origens e à forma como é vista pela sociedade. A narrativa se passa durante a final da Copa do Mundo de 1998, utilizando esse contexto para discutir o que significa ser brasileiro.
Um dos pontos mais interessantes da obra é a maneira sutil como o racismo é apresentado. Em vez de focar apenas em atitudes explícitas, o filme mostra situações cotidianas que fazem a protagonista sentir que não pertence totalmente ao lugar onde nasceu. Essa abordagem torna a mensagem mais realista e reflexiva.
Além disso, a atuação de Melissa Uehara é convincente e transmite bem os sentimentos de insegurança e frustração da personagem. A fotografia e a direção também contribuem para criar uma atmosfera sensível e emocionante.
Como ponto negativo, a curta duração faz com que alguns personagens e conflitos não sejam aprofundados, deixando a sensação de que a história poderia explorar mais certas questões. Assim como também a presença de elementos que não são característicos da época, como um motoboy do iFood, que foi informado em sala.
De modo geral, Amarela é uma obra relevante e atual, pois promove reflexões importantes sobre identidade cultural e preconceito. Mesmo sendo um curta-metragem breve, consegue transmitir uma mensagem forte e sensibilizar o público para uma realidade muitas vezes invisibilizada.
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Pertencimento
Dirigido e roteirizado por André Hayato Saito e Luigi Madormo, o curta-metragem “Amarela” é produzido no ano de 2026 e retrata a vivência da personagem Erika Oguihara, uma jovem cuja família é de origem japonesa. A narrativa da trama acompanha essa jovem que é discriminada por xenofobia pelos amigos por ser de origem diferente. A partir dessa experiência vivenciada por ela, o filme aborda questões relacionadas à identidade, à ancestralidade e à busca por pertencimento, mostrando como a discriminação pode afetar não apenas a forma como uma pessoa é vista, mas o proprio sentimento de aceitação.
Com o intuito de apresentar cinematograficamente o período em que acontece a história, o diretor utiliza uma fotografia em alto contraste, explorando o uso em destaque do preto nas sombras, o que cria uma atmosfera visual mais densa, reforçando também o estado emocional da protagonista, marcada visualmente pelo sentimento de isolamento e não pertencimento.
A direção de arte, também desempenha um papel crucial na construção da narrativa, a composição dos ambientes é apresentada visualmente através da paleta de cores, com destaque na cor azul, o que cria pontos de atenção dentro do das imagens. A recorrência desta tonalidade de cor, também é associada à personagem de Erika, o que reforça visualmente sua presença dentro do quadro. Neste sentido, a direção de arte desempenha um dos principais agentes dentro da narrativa, pois também auxilia na construção da narrativa reforçando o estado emocional e social que a personagem se encontra, sua individualidade e ao mesmo tempo o seu deslocamento dentro da trama.
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Lua Monteiro
O drama Amarela (2024), curta-metragem (19 min) dirigido por André Hayato Saito. Ambientado em São Paulo (Brasil) no dia da final da Copa de 1998, o filme usa o futebol para falar sobre algo bem mais desconfortável: a angústia de não se sentir pertencente a lugar nenhum.
Acompanhamos a narrativa pelos passos de Erika (Melissa Uehara), uma jovem nipo-brasileira de 14 anos bastante fanática de futebol que tenta viver aquele dia com o mesmo entusiasmo de qualquer outro torcedor brasileiro. O conflito, esbarra na incompreensão dos pais, que não entendem a urgência daquele rito nacional para a filha. Há um descompasso cultural e geracional no ambiente doméstico. A adolescente vive o dilema de ser japonesa demais para ser brasileira e brasileira demais para ser japonesa. Mas é na rua que a violência ganha contornos mais diretos. Começa no ônibus, com um desconhecido reduzindo-a ao rótulo fetichista de "exótica", e atinge o ápice quando gritam que ela "nem brasileira é". Para quem vive o limbo entre duas culturas ou nacionalidades, a cena atinge de maneira quase física: é a recusa social em aceitar a identidade de quem tenta fazer parte do todo, relegando o sujeito à eterna condição de estrangeiro enquanto a personagem em questão é nascida no Brasil.
O maior acerto da direção de Saito está no controle da atmosfera e na precisão dos planos. Longe de apostar apenas na euforia da rua, o filme abraça um silêncio desconfortável. Quando Erika retorna ao espaço familiar, encontra uma casa apática e esvaziada de celebração. A câmera trabalha colada à protagonista, com ângulos fechados.
A câmera foca nas reações e no isolamento de Erika, criando uma atmosfera imersiva e reflexiva sobre o racismo velado contra pessoas " amarelas" e o vazio que é sentido pela personagem.
O título Amarela sintetiza essa encruzilhada: a camisa da seleção, o termo racial imposto e o próprio "amarelar" da derrota esportiva que parece sobrar para a protagonista carregar. No fim, o curta demonstra que a busca por identidade é feita de fraturas, expondo a solidão de carregar duas heranças e, ainda assim, não ser plenamente validada por nenhuma delas.
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Luy Macedo
Há algo de profundamente brasileiro na vontade de pertencer ao Brasil. Somos um país formado por diferentes povos, histórias, culturas e, portanto, experiências de pertencimento. Essa diversidade, tantas vezes celebrada como símbolo da nossa identidade nacional, nem sempre se traduz em reconhecimento ou equidade — quase nunca se traduz. Mesmo nascidos no território, falando português e compartilhando os mesmos costumes, vivências, referências e afetos, para muitos descendentes de japoneses — ou nipo-brasileiros — isso não significa deixar de ser associado a uma origem estrangeira e ter a sua brasilidade negada todos os dias. Há, para muitos brasileiros, uma necessidade constante de provar que pertence ao lugar onde nasceu. É dessa realidade íntima que Amarela, curta de André Hayato Saito lançado em 2024, decide se debruçar.
O curta encontra no futebol o cenário perfeito para falar de uma experiência que, à primeira vista, parece não ter nada a ver com esporte. Com 15 minutos de duração, acompanhamos Erika Oguihara (Melissa Uehara), uma adolescente nipo-brasileira de 14 anos, durante a final da Copa do Mundo de 1998. A Copa é, sem sombra de dúvidas, uma das poucas experiências capazes de fabricar, ainda que momentaneamente, uma ideia de comunidade nacional. Durante um jogo da seleção, todos vestem as mesmas cores, repetem os mesmos nomes, compartilham os mesmos gestos e a mesma ansiedade pela vitória. O país inteiro parece dizer “nós”. E é precisamente dentro desse “nós” que Erika descobre que talvez exista um “vocês”.
O filme de Saito não trata o pertencimento como uma questão abstrata, mas como uma experiência corporal. O diretor representa o conflito da protagonista através de seus enquadramentos fechados e claustrofóbicos; e uma montagem que equilibra muito bem a explosão emocional das passagens da copa com momentos contemplativos, que são muito bem sustentados pelas expressões de Melissa Uehara, que faz um excelente trabalho. Ao falar sobre a criação do curta, o diretor descreveu sua identidade como a de alguém situado entre dois lugares — “japonês demais para ser brasileiro” e “brasileiro demais para ser japonês”. A personagem de Erika nasce justamente desse entrelugar. Amarela usa essa experiência pessoal; esse relato fechado sobre a comunidade nipo-brasileira, para alcançar questões que ultrapassam essa experiência. Quantas vezes a sociedade exige de nós uma definição simples justamente porque não sabe lidar com aquilo que existe entre as categorias? O título da obra — “Amarela” — consegue amarrar muito essa ideia, remetendo tanto a categorização etnorracial quanto à cor predominante no uniforme da seleção brasileira.
Aos 14 anos, Erika está justamente naquele momento em que começa a perceber com mais clareza a distância entre quem é, quem gostaria de ser e quem os outros dizem que ela é. A infância ainda permite alguma proteção da ignorância; a vida adulta oferece, ao menos em tese, ferramentas para elaborar as contradições. A adolescência acontece no meio. É quando o olhar dos outros passa a funcionar quase como um espelho, e algumas pessoas descobrem que esse espelho não devolve a imagem que imaginavam. Por isso, a história de Erika também pode ser entendida como uma história sobre o nascimento da consciência racial. Não necessariamente uma consciência organizada, política, madura, mas a percepção dolorosa de que o próprio corpo possui um significado social para além do que ela imaginava e/ou gostaria. Ela descobre que não basta saber quem é. Existe uma sociedade pronta para lhe dizer quem ela parece ser e o que ela não é.
Essa experiência produz uma espécie de estrangeirismo doméstico. Sabemos que há algo particularmente perturbador em ser estrangeiro em um país que se considera seu. Os descendentes da imigração podem nascer no destino e ainda carregar, no corpo, a marca simbólica de uma origem que não escolheram e que não necessariamente vivenciaram diretamente. O deslocamento já não está no território. Está no olhar. Saito descreve esse espaço como uma “fronteira invisível” entre culturas. E a expressão é muito boa porque sabemos que fronteiras nem sempre são muros. Mas elas ainda separam elementos. Às vezes são perguntas aparentemente inocentes, comentários cotidianos, piadas, expectativas familiares, estereótipos e pequenos gestos que lembram alguém de que existe uma diferença entre “nós” e “eles”. O que torna essa fronteira tão poderosa é justamente o fato de ela ser invisível para quem está confortavelmente dentro dela.
Amarela também é interessante porque não reduz o problema ao confronto simplista entre Brasil e Japão. Não existe, de um lado, uma família japonesa opressora e, de outro, um Brasil plenamente acolhedor. O próprio diretor aponta que Erika é atravessada por pressões familiares, bullying, sexismo e outras formas de violência que aparecem nos dois universos culturais — uma forte representação da própria multiculturalidade do brasileiro. A identidade da personagem não é uma batalha entre duas pátrias perfeitamente definidas, mas é justamente a impossibilidade de encontrar abrigo completo em qualquer uma delas. E a Copa do Mundo, retornando ao início dessa reflexão, representa o Brasil justamente em sua forma mais imaginária — verde e amarelo, unido, apaixonado, orgulhoso de si mesmo. Só que toda identidade nacional é construída também por exclusões. Para produzir a sensação de que existe um “povo brasileiro”, é preciso imaginar quem compõe esse povo. E, durante muito tempo, a imagem desse brasileiro imaginário foi associada a determinados corpos, determinadas cores, determinados traços. Erika pode amar o país; isso não significa necessariamente que o país esteja disposto a reconhecê-la da mesma maneira.
O que significa amar um país que nem sempre devolve esse amor?
A pergunta é poderosa e pode ser feita também (em suas distinções próprias) por pessoas pretas, indígenas, imigrantes, filhos de imigrantes, comunidade queer, pessoas com deficiência ou qualquer indivíduo que tenha descoberto que a identidade nacional proclamada nos discursos não corresponde inteiramente à realidade vivida. O patriotismo costuma falar em nome de um “nós” universal, mas a experiência concreta desse “nós” nunca é igualmente distribuída. É por isso que o filme não precisa transformar sua personagem em porta-voz de uma tese. Sua força está justamente em permitir que a experiência preceda a explicação. Erika não é uma ideia sobre racismo. É uma adolescente tentando existir, em um país atravessado pelo racismo estrutural originado da nossa violenta história da formação.
Por isso a dimensão política de Amarela nasce de uma experiência íntima. O filme não precisa fazer um discurso sobre representatividade porque a própria existência de Erika diante da câmera já questiona quem costuma aparecer como protagonista da experiência brasileira. A presença de um corpo nipo-brasileiro no centro da narrativa desloca o eixo daquilo que entendemos como uma história tipicamente brasileira e isso já é um grito de resistência. O percurso de Amarela por festivais como Cannes, Toronto e Clermont-Ferrand, além do reconhecimento recebido em Havana e a seleção para a shortlist do Oscar, ajuda a reforçar essa dimensão. É importante exportarmos diferentes ideias de brasilidade, pois nós somos diversos em essência.
Em apenas 15 minutos, Amarela consegue abrir espaço para uma série de questões sem jamais torná-las explícitas ou didáticas. O filme encontra nas imagens uma linguagem capaz de expressar tanto o desconforto que convida à reflexão quanto a tensão que, aos poucos, se acumula até transbordar — assim como a banheira de Érika. Essa força não está apenas na dimensão sensorial da obra, mas também na maneira como Saito constrói uma representação muito convincente e viva de um lar nipo-brasileiro. A autenticidade deste universo aparece tanto na dinâmica e nas relações entre os familiares quanto na atenção aos pequenos elementos que compõem o espaço, revelados com riqueza pelo design de produção. Amarela talvez seja, no fim, sobre essa necessidade de reivindicar como sua uma identidade que jamais deveria precisar ser provada. Porque, às vezes, pertencer ao Brasil também significa ter de lembrar ao próprio Brasil que você já faz parte dele.
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Luiz Roberto
A amarela aqui aparece tanto como referência ao amarelo da camiseta da seleção brasileira de futebol, quanto à expressão “amarelo” usada para chamar os descendentes dos ciclos imigratórios de japoneses para
Vemos isso já no seu interior familiar, onde a jovem e sua família fazem saudações típicas japonesas
Mas por outro lado, a identidade brasileira se faz presente em sua paixão pela seleção brasileira de futebol masculino. Seu quarto, completamente decorado por pôster e referências à seleção, não falham ao mostrar o quanto brasileira ela se entende, afinal, algo mais brasileiro do que paixão por futebol?
Como se não bastasse a paixão nacional, elementos basilares da cultura e religião predominantes no Brasil também já tomaram conta de seu núcleo familiar, basta vermos a família rezando antes de jantar, tradição extremamente presente em diversos lares brasileiros.
Com essas identidades estabelecidas, a protagonista sai para encontrar seus amigos e ver juntos a grande final da Copa do Mundo de futebol masculino de 1998.
Durante sua ida ao ponto de encontro, o clima de otimismo no país aparece muito forte, todas as conversas são previsões distintas no placar, mas sempre com o mesmo vitorioso, o Brasil.
No caminho para encontrar os amigos, a Erika sofre uma primeira agressão durante uma breve conversa com o motorista no ônibus, que ao princípio, mesmo se referindo a ela como “japa”, parece manter um certo respeito. E logo depois pergunta naturalmente - “vocês são todas exóticas, né?”. Aqui já podemos ver algum que não é escancaradamente racista, mas que acha normal fazer comentários como tais, simplesmente por a garota parecer “diferente”.
Ao chegar no local onde marcaram de ver o jogo, dentro do clima mais otimista possível, vemos outra agressão: a própria amiga, sorrindo e olhando nos olhos da protagonista diz “você fica fofinha torcendo para o Brasil”. Por mais que a possa parecer ser um gesto carinhoso, essa fala contém um racismo velado. A protagonista nasceu no Brasil, provavelmente seus pais também. Ela cresceu, estudou e vive a cultura brasileira, ela ama o que a grande massa brasileira ama – o futebol - mas aos olhos de sua amiga, ela não é uma verdadeira brasileira torcendo para o seu país, mas sim uma estrangeira, de olhos puxados, que se fantasia de amarelinha para se enturmar com aquele povo.
Com o passar do jogo a situação piora. Conforme a seleção ia perdendo, o otimismo se transforma em pessimismo, do pessimismo vinha a raiva, e com a raiva, as agressões pioraram.
As agressões veladas passam a serem diretas e ásperas. Frases como “o China, abre o olho”, “sou brasileiro, não sou japonesinho que nem você” e “você tá torcendo pro meu país!” surgem por parte de torcedores frustrados com o jogo, simplesmente para descontar sua raiva, e nisso, seu racismo e xenofobia, que em clima de otimismo se disfarçam, nesse momento tomam vazão, até o ponto em que agressão física vem à tona.
Assim só resta a protagonista voltar correndo para sua casa, e ao chegar, mesmo nitidamente triste, prefere ficar em silêncio, deixando que sua família pense que sua tristeza vem da derrota da seleção, enquanto sofre sozinha por todas as agressões sofridas ao longo do dia.
Em um país dito diverso, em que a miscigenação é louvada, este pequeno retrato sobre uma família pertencente a uma das comunidades mais bem recebidas no Brasil, nos lembra o quanto essa integração, linda na teoria, está distante de ser plenamente realizada no dia a dia dessas populações.
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Suyane Ramos de Oliveira
Repúdio, estereótipo, e um sonho. Esses três elementos carregam a essência do filme Amarela (2024) de André Hayato Saito. Indicado ao Palma de Ouro de curta-metragem, a obra carregada de sentimento nos apresenta a dor de Erika Shigeru, uma adolescente nipo-brasileira, repudiada pelos seus por algo que deveria ser seu direito: amar aquela que também era a sua pátria. Em meio a desavenças, preconceito, e frustração, somos apresentados à primeira cena do curta de maneira potente: Erika submergida, por água, e também por opiniões alheias, expectativas de si mesmo, e sua dor.
O curta nos faz refletir sobre o quanto temos realmente o direito de ser quem somos. Sobre a liberdade dos nossos direitos, e até onde o outro pode - ou pelo menos pensa poder - dirigir nossa própria vida. Erika, apesar de carregar uma divisão no peito, mostra-se muito mais heróica em seu brado, que muitos de nós. O curta é exímio em nos fazer questionar, nos atrair à personagem e tomar as suas dores.
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“Amarela”, Você é de onde?
Sofia Fernandes Campos
“Amarela”, curta-metragem de 2024, dirigido por André Hayato e roteirizado pelo mesmo juntamente com Tati Wan e Luigi Rossi, é protagonizado por Melissa Uehara, que em 15 minutos entrega uma performance ancorada no fardo de uma origem estrangeira.
Copa de 98 no Brasil, uma família nipo-brasileira inserida num contexto em que o preconceito e a intolerância passam despercebidos no dia a dia. Erika, uma adolescente reservada, sofre para se encaixar num meio que não a aceita por completo, ela carrega uma nacionalidade-bagagem, mas quer, talvez como muitos jovens, pertencer. Assim, torcer para o Brasil é, de um certo modo, para ela, fazer parte.
Em vão, as raízes forasteiras não têm chão aqui, Erika não cabe aqui. Ela retorna pra casa, com um gosto amargo na boca, rodeada por rostos parecidos com o seu, e ainda assim, se sente estrangeira.
Espaços, pessoas, e cor. O filme apresenta lugares familiares, as ruas de São Paulo solitárias, gente sozinha, e as cores que ou vibram em amarelo ou se acinzentam em tom melancólico. Com uma direção delicada que acompanha de perto o despertencer de alguém que busca identidade.
“Você é tão fofa torcendo pro Brasil.”, em diversos momentos o curta relembra a “intrusão” de Erika nesse país, através de diálogos desconfortáveis que a expõe como estranha, diferente ou até exótica. A cultura como um peso a ser carregado, num dia de torcida para uma pátria, Erika é excluída e isolada como aquela “de fora”, não tem espaço para torcer.
Na ansiedade durante o jogo final da copa, as diferenças da protagonista aos demais se destacam, “que lugar ela tem aqui?”. Num confronto central do filme, Erika é exposta para todos como alguém que ali não se integra ao todo brasileiro, e com a perda desse time, vem também a perda de uma identidade.
Erika volta pra casa e chora ao preparar um prato tradicional de seu país.
Aí está sua condição, de ser, de viver com raízes plantadas em terra nenhuma, e levar consigo as diferenças.
Em conclusão, o curta-metragem consegue evocar a solidão percebida pela protagonista, ao ser constantemente afastada por ser “diferente”, através de enquadramentos que a destaca do cenário e das pessoas, e diálogos que deixam explícitos que “ela não é daqui”. O que fica é a cena final, Erika preparando docinhos japoneses enquanto chora, a derrota do jogo como a própria desnacionalização.
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Amarela (2024), dirigido por André Hayato Saito, transforma o fervor patriótico da final da Copa do Mundo de 1998 em um cenário de isolamento íntimo.
Acompanhamos Erika, uma adolescente nipo-brasileira em São Paulo que deseja apenas vibrar com o futebol ao lado dos amigos, mas que se vê tragada pelo peso de microagressões e pelo silêncio sufocante do próprio ambiente familiar.
A direção mostra o preconceito do jeito que ele costuma acontecer na vida real, através de comentários desnecessários que o outro solta sem pensar e esquece na mesma hora, que aparecem de maneira inofensiva para disfarçar o constrangimento. Conseguimos sentir o cansaço dela e o peso de ter que carregar esse desconforto sozinha, sem ter com quem desabafar em casa.
Em seus quinze minutos, o curta mostra um retrato melancólico e urgente sobre a busca por aceitação e as fronteiras invisíveis que definem quem tem o direito de pertencer a uma cultura. Nele, a celebração alheia serve apenas para evidenciar a solidão de quem assiste à festa do lado de fora.
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A linguagem visual é um dos principais destaques do filme. A cor amarela aparece constantemente, seja em objetos, no ônibus ou nos símbolos relacionados ao Brasil, contrastando com os tons cinzentos e escuros de São Paulo e da casa de Erika. A cor possui uma ambiguidade fundamental para o filme: ao mesmo tempo em que é uma das cores mais associadas à identidade brasileira, especialmente durante uma Copa do Mundo, também está relacionada à classificação racial atribuída aos asiáticos e seus descendentes no Brasil. Dessa maneira, aquilo que visualmente representa o Brasil também remete à característica utilizada para diferenciar Erika dos demais brasileiros.
Outro recurso importante é o enquadramento do rosto de Erika. Em diversos momentos, a câmera parece mais interessada em registrar sua expressão do que a ação que está sendo realizada. A reação da personagem passa a ser mais importante do que o acontecimento externo. O espectador não observa apenas aquilo que acontece com Erika: é conduzido a observar como cada acontecimento é absorvido por ela.
O curta também utiliza bastante o silêncio e os sons do ambiente, sem depender constantemente de música. Além disso, mesmo tendo apenas 15 minutos, apresenta planos relativamente longos, fazendo o espectador permanecer nas situações desconfortáveis vividas por Erika.
Mesmo sendo um curta, Amarela constrói uma reflexão significativa sobre identidade, racismo e pertencimento. Ao utilizar a Copa do Mundo como cenário, o filme questiona a ideia de uma identidade brasileira igualmente acessível a todos. Erika pertence ao Brasil, mas ainda precisa enfrentar um olhar externo que insiste em tratá-la como estrangeira. Dessa forma, o filme deixa uma questão central: o que significa pertencer a um país quando esse país ainda não reconhece completamente você como parte dele?
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O curta Amarela me passou uma sensação de incômodo e tristeza, principalmente pela maneira como apresenta uma violência que, muitas vezes, não é percebida por quem está ao redor.
Uma das coisas que mais me chamou atenção foi a forma como o filme não precisa explicar o tempo todo o que a personagem está sentindo. A fotografia, os enquadramentos e principalmente os closes no rosto fazem com que o espectador perceba seu desconforto mesmo quando ela não fala nada. O filme trabalha muito com essa ideia de uma violência invisível, construída por comentários, olhares e pequenas atitudes que podem parecer insignificantes para quem pratica, mas que vão se acumulando para quem sofre.
Também achei interessante a maneira como o futebol é utilizado na história. Enquanto todo mundo está reunido, torcendo pelo Brasil, a personagem também deseja fazer parte daquele sentimento. Ao mesmo tempo, ela é constantemente lembrada de que, para algumas pessoas, sua aparência faz com que ela seja vista como estrangeira, mesmo sendo brasileira.
No fim, o curta me fez pensar sobre como a ideia de pertencimento pode ser complicada. A personagem é brasileira, mas precisa lidar constantemente com pessoas que colocam sua identidade em dúvida por causa de sua aparência. O curta mostra, de uma maneira bastante sensível, como pode ser doloroso ter que provar que você pertence a um lugar que também é seu.
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Gustavo Luz
O curta-metragem brasileiro Amarela, lançado em 2024, retrata os dias de Erika, uma jovem nipo-brasileira, interpretada por Melissa Uehara, durante a final da copa do mundo de 1998. O curta é dirigido por André Hayato Saito e tem roteiro de Luigi Madormo e Tatiana Wan.
Ao longo do curta, Erika trabalha na loja da família e participa, com pouco entusiasmo, de eventos da comunidade japonesa. Buscando algo que a interessasse genuinamente, decide assistir o jogo do Brasil com o restante dos amigos. Entretanto, nos diferentes espaços que frequenta, Erika sofre preconceito por sua aparência e ascendência.
Os cenários ajudam a incorporar muitas das ideias discutidas no filme: O lar da família, junto de sua loja, são ambientes apertados, marcados principalmente pelo trabalho no balcão da loja ou cozinha. Cria-se uma atmosfera sufocante que caracteriza a invisibilidade da jovem perante a família. Os espaços ligados à comunidade japonesa são retratados de maneira ambígua, atuando como refúgio mas também prisão.
O espaço externo, reflexo da sociedade em sua totalidade, é marcado pela lembrança do final da copa e a tendência do evento de unir as pessoas. Apesar disso, a protagonista continua a sofrer agressões, que refletem as limitações da sociedade e sua incapacidade de ver Erika como “brasileira”, isso é, parte de si. Essa dualidade entre contextos é enfatizada em cenas no transporte público que atuam como uma transição dessas duas esferas, e seus efeitos na protagonista. Por fim, um ambiente completamente íntimo, o ofurô da família, aparece como único ambiente seguro.
O filme imerge o espectador na realidade angustiante vivida por Erika: o isolamento.A derrota da seleção brasileira na copa de 1998, elemento que desencadeou a trama, e o sentimento amargo da derrota parecem se mesclar com a frustração da protagonista que, desamparada, não se sente parte de nenhum dos dois contextos. Suas vivências, ao longo do dia, demonstram como o preconceito, de forma sutil ou não, ainda marca as interações de milhares de pessoas.
Amarela, em poucos minutos é capaz de criar uma narrativa introspectiva sobre a realidade da jovem. O preconceito da sociedade brasileira, se mostra um tema complexo, evidenciado de maneira sucinta, mas em múltiplas facetas. Cria-se um retrato sobre pertencimento e dificuldade de integração das pessoas na sociedade.
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Amarela: País do futebol e preconceitos
Eliza Freire
O curta-metragem Amarela, lançado em 2024 e dirigido por André Hayato Saito, acompanha, ao longo de 15 minutos, Érika Oguihara, uma adolescente nipo-brasileira durante o dia da final da Copa do Mundo de 1998, entre Brasil e França. A obra aborda com sensibilidade as experiências de racismo e xenofobia vivenciadas pela protagonista, mostrando como essas violências, muitas vezes naturalizadas no cotidiano, podem afetar a forma como uma pessoa enxerga a si mesma e o espaço que ocupa na sociedade.
A narrativa também explora os conflitos próprios da adolescência e o choque entre diferentes identidades e tradições familiares. Ao escolher um dos maiores símbolos da identidade brasileira, o futebol, o filme cria um contraste interessante: ao mesmo tempo em que a Copa representa união, orgulho e pertencimento, ela também se torna cenário para manifestações de intolerância e violência.
Um dos aspectos mais interessantes de Amarela é a maneira como o espectador é colocado próximo às sensações da protagonista. O desconforto está presente durante praticamente toda a narrativa, seja dentro de casa, nas relações familiares, nas ruas ou entre os amigos. Em vez de apresentar o preconceito apenas por meio de grandes atos de violência, o curta evidencia também as pequenas agressões e comentários corriqueiros que, por serem frequentemente tratados como “brincadeiras”, acabam sendo banalizados.
É justamente essa construção que torna a obra marcante. Amarela não apenas denuncia o racismo e a xenofobia, mas mostra como essas violências podem se manifestar de maneira silenciosa, especialmente durante uma fase de formação da identidade. Ao acompanhar Érika em um momento que deveria ser marcado pela celebração coletiva, o filme revela uma realidade na qual nem todos experimentam o mesmo sentimento de pertencimento.
O curta Amarela de 2024 dirigido por André Saito acompanha a personagem Erika Oguihara, uma adolescente nipo-brasileira que se reconhece como brasileira,mas que é constantemente colocada na posição de estrangeira. A história acontece no final da Copa do Mundo de 1998, momento associado à construção de uma identidade nacional brasileira, em um cenário para discutir o sentimento de não pertencimento. O que chama a atenção no curta é que ele aborda o racismo e a xenofobia sem muito diálogo. Essas questões foram apresentadas a partir do desconforto da personagem por meio do som e da progressão dramática.
A escolha da Copa do Mundo foi boa para abordar esses temas por ser um dos símbolos mais fortes da identidade brasileira, e é nesse cenário que Erika tenta afirmar seu pertencimento. Ela não está apenas torcendo para a seleção, ela está tentando ocupar um lugar que deveria ser naturalmente seu. Ao longo do curta, essa identificação é colocada em conflito com a maneira como as outras pessoas a enxergam, chamando-a de “Japinha” e “Exótica”. É por meio dessas pequenas interações, desses comentários e desses olhares que fazem Erika perceber que sua aparência é suficiente para algumas pessoas questionarem a sua nacionalidade. As agressões que a personagem sofre não são explícitas, mas constituem uma violência que pode passar despercebida por quem está ao redor da vítima, mas que tem consequências para quem passa por isso.
A construção visual do curta contribui diretamente em focar mais na experiência do personagem do que no agressor. Os enquadramentos mais fechados em Erika fazem com que quem está assistindo permaneça próximo de suas reações, o que é muito importante, por ela não verbalizar aquilo que está sentindo. Em vez de usar o diálogo para explicar o seu estado emocional, o curta permite que o rosto e o corpo da personagem assumam essa função. A fotografia de Hélcio Alemão e a montagem de Caroline Leone participam dessa construção ao acompanharem a mudança gradual entre a expectativa inicial da personagem e seu isolamento posterior.
O som também possui uma função narrativa importante. A partida de futebol está presente estabelecendo um contraste entre a euforia coletiva e o isolamento de Erika. Enquanto o ambiente ao redor está associado à torcida e à expectativa pela vitória, a experiência da personagem segue uma direção contrária. O que deveria ser uma união passa a ser uma exclusão.
A direção de arte reforça a existência desse espaço intermediário entre as culturas brasileira e japonesa, e o conflito está no fato de ela pertencer às duas culturas e ainda assim ser tratada como se não pertencesse inteiramente a nenhuma.
O título Amarela também ganha força no contexto. A palavra pode remeter à classificação racial atribuída às populações asiáticas, mas o filme não a utiliza apenas como uma categoria de identidade. Ela está relacionada à maneira como Erika é percebida. Dessa forma, o curta mostra que o pertencimento não é garantido pela nacionalidade. Erika nasceu e vive no Brasil, acompanha a seleção brasileira e deseja comemorar uma vitória como qualquer outra adolescente. Ainda assim, a sua aparência faz com que sua identidade brasileira seja colocada em dúvida.
Amarela termina sem resolver o conflito, mostrando que Erika vai continuar enfrentando o problema de pertencimento, mesmo depois da partida de futebol que terminou com o Brasil perdendo para a França.
A última cena do curta, em que Erika aparece chorando, é bem forte, porque deixa a sensação de que ela está chorando por não conseguir mais conter o seu sofrimento causado pelo preconceito sofrido e, ao mesmo tempo, o choro também pode estar relacionado à derrota do Brasil ou pelo sentimento de torcer e amar uma nação que, muitas vezes, não a reconhece como parte dela.
O curta-metragem brasileiro, Amarela (2025), dirigido e escrito pelo diretor nipo-brasileiro André Hayato Saito e co roteirizado por Luigi Madormo e Tatiana Wan, ao longo de seus 15 minutos de duração, nos apresenta um pouco da realidade diante a sociedade brasileira de 1998 vivenciada pela personagem Érica, interpretada pela atriz Melissa Uehara, que assim como sua personagem, também é nipo-brasileira. O filme propõe uma experiência de reflexão e discussão sobre temas como: pertencimento, xenofobia e identidade.
No filme, a protagonista Érica Oguihara tenta conciliar a vivência de ambas as suas culturas (japonesa e brasileira). Ao mesmo tempo em que está em dia com suas tradições e costumes asiáticos, a jovem tenta se provar/mostrar brasileira “o suficiente” durante a final da Copa do Mundo de 1998 ( entre Brasil e França). Entretanto, é durante a transmissão dessa partida que mais um incidente desagradável ocorre com a protagonista, fazendo-a novamente ter sua identidade e cultura questionadas.
A direção e o roteiro se mostram muito inteligentes ao eleger um recorte de uma situação específica para desenvolver a trama do curta, recorte esse, que apesar de focar em uma ocasião principal, consegue evidenciar durante pequenas e secundárias interações, a reincidência constante de situações como a que dá origem a catarse do filme. Dessa forma, desassociando a história de uma trama plana e adicionando diversas camadas à obra.
A escolha da história se passar durante a final da Copa do Mundo é outro ponto importante para a construção da narrativa. A partida, marcada pelo forte sentimento de união e identificação nacional, cria um ambiente em que a ideia de “ser brasileiro” está constantemente em evidência, entretanto, a frustração de uma derrota, pode transformar a ideia de acolhimento em hostilidade àqueles que parecem não compartilhar do mesmo sentimento. É justamente nesse contexto que a realidade de Érica entra em xeque.
Outro destaque do curta é sem dúvidas a sua fotografia. Por meio de um filtro levemente amarelado e constante durante todo o filme, somado à escolha da direção sobre a inserção constante de elementos amarelos nas cenas, existe uma consequente saliência desses elementos durante a rodagem do filme, que parecem sempre se destoar do restante do enquadramento. As imagens então, trazem ainda mais profundidade à obra e dialogam muito bem com a discussão principal do curta e com seu título “Amarela”.
A montagem também tem papel fundamental na maneira em que a história é contada. Possibilitado por meio de um roteiro enxuto e bem definido, por meio de planos mais longos e contemplativos e por uso constante do silêncio, o curta toma seu tempo para nos colocar na posição da protagonista e assim como ela, ter tempo para refletir e digerir cada acontecimento que se sucede em tela.
A trilha sonora é simples e crua, e parece também querer nos colocar no lugar da personagem principal, focando em sons ambientes e vozes sem tratamento sonoro, além de não se utilizar muito de músicas (com exceção do início e fim do curta). Entretanto, a trilha traz de maneira bem inventiva a narração do jogo como plano de fundo para algumas cenas, implementando a imersão no período em que o filme se passa.
O filme, então, de maneira simples e inteligente, consegue construir uma discussão forte sobre identidade e pertencimento ao apresentar o que parece ser um verdadeiro limbo identitário, no qual a pessoa não se sente completamente pertencente a nenhum dos grupos culturais dos quais faz parte. Ao longo da narrativa, fica evidente que, por mais que Érica tente se adequar e demonstrar seu pertencimento, sempre haverá alguém disposto a enxergá-la como diferente.
No fim, Amarela nos deixa justamente com a reflexão de que talvez o problema não esteja em Érica não ser “brasileira o suficiente” ou “japonesa o suficiente”, mas em uma sociedade que insiste em que ela não seja nem uma coisa nem outra.
Amarela: o não-lugar dos nipo-brasileiros
Lucas Farias
Amarela (2024) é um curta metragem com direção de André Hayato Saito, escrito por André juntamente de Luigi Madormo e Tati Wan.
É 1998 e só se presta atenção no evento quadrienal da Copa do Mundo, evento esse que no Brasil, é talvez consagrado como um dos, se não o mais esperado, não só num contexto esportivo mas também como um anseio geral de uma nação que se formou com o futebol sendo um dos elementos centrais de sua identidade.
Mas para além de identidade, Amarela nos faz questionar também sobre pertencimento, e põe em xeque o mito brasileiro da democracia racial. Erika Oguihara (interpretada por Melissa Uehara) é uma adolescente nipo-brasileira que é lida como estrangeira onde quer que vá, mesmo sendo nacional do Brasil, sua terra natal. Percebe-se ao acompanhar a rotina de Erika, os fortes estigmas presentes não somente na sociedade brasileira em relação a herança asiática mas como na própria família de Erika, que usa termos excludentes com ela como a palavra usada pelo pai “gaijin”, do japonês, estrangeiro ou forasteiro. Aqui temos o cerne do conflito de Erika, uma garota que comumente se apossa da cultura brasileira, que é sua cultura nata, e que não se vê tanto representada no tradicionalismo conservador de sua família japonesa. Entretanto, é comum e rapidamente reduzida a seu fenótipo, que chega antes de sua identidade, assim fazendo com que Erika tenha que afirmar reiteradamente sua cultura e identidade, para além do carimbo étnico excludente que os brasileiros insistem em lhe aplicar. É o que assistimos na cena do clímax quando Erika e um colega de turma iniciam uma discussão acalorada durante a partida da final, entre Brasil e França, sobre o desempenho dos jogadores e a como o criticismo e ceticismo do garoto não iriam ajudar nem a torcida nem a seleção naquela situação, momento no qual o menino começa a questionar a brasilidade e naturalidade de Erika, uma menina, nascida e criada em São Paulo, cidadã tão brasileira quanto ele. A partir disso, trocam-se ofensas, e o garoto reproduz falas xenófobas contra Erika. Após o conflito, Erika volta para casa, imersa em sentimentos desgastantes.
Amarela denuncia principalmente a contradição que paira a sociedade brasileira, que historicamente vem se vendendo como plural, diversa e miscigenada, ao passo que se recusa a abrir mão de práticas apartadoras, originadas na formação sócio-histórica das sociedades ocidentais (no caso do Brasil, um país que esquece de sua condição colonial) fundamentada em uma visão eurocêntrica. E esta visão, por sua vez, carrega estereótipos antiquíssimos, trazidos do velho mundo, por exemplo o próprio termo “amarelo” que apesar de ser usado com validade institucional, como em contextos estatísticos e de autodeclaração de cor ou raça do IBGE, é muito debatido sobre sua adequação, já que a atribuição de cores aos seres humanos a fim de separá-los em raça surge de taxonomias europeias do século XVIII como a teoria racial biológica, também chamada de racismo científico, crença essa, pseudocientífica que dividia a espécie humana em grupos biológicos fixos para justificar hierarquias e dominação de um grupo sobre o outro. A cor amarela não reflete tanto a tonalidade real da pele, mas sim construções exóticas e pejorativas dos colonizadores sobre o Oriente.
Para além da herança europeia que distorce a verdadeira identidade e autopercepção do povo brasileiro, há também o fator da pobre consciência política que assola o país, que se declara fazer parte do ocidente, nega sua latinidade, e abranda o passado escravocrata, esquecendo-se assim que o Brasil foi, juntamente de seus povos nativos, construído por imigrantes e seus descendentes, mesmo que historicamente houvesse na sociedade brasileira uma hierarquia que sempre creditou a branquitude e o eurocentrismo.
Por fim, Amarela é um filme muito necessário, que cumpre o papel essencial de expor essas fraturas éticas, lembrando que a redução de indivíduos a marcadores fenotípicos não é apenas um deslize de conduta ou um ato de mau gosto, mas talvez a perpetuação ativa de violências e exclusões no cotidiano brasileiro.
A questão de identidade sino-brasileira na cultura hegemônica do Brasil foi explorada na curta-metragem "Amarela" de André Hayato Saito como diretor e Luigi Madormo e Tatiana Wan como roteiristas.
A curta-metragem foi lançada em maio de 2024 e os 15 minutos do filme caracterizaram um dia importante demais para os torcedores de futebol, como Erika Oguihara, em que o final inclui a França e o Brasil como os finalistas na Copa do Mundo. Erika, uma menina nipo-brasileira com grande afinidade pelo esporte, sofreu um ataque racista, tanto físico quanto verbal, sobre o tópico do futebol que mostra as várias percepções das pessoas nipo-brasileiras dentro das fronteiras.
O diretor acentuou os detalhes que podem parecer mundanos no filme, mas demonstrou a medida em que a família da Erika foi imersa na cultura brasileira. Para mostrar que a vida nipo-brasileira inclui tradições de ambos os países, a primeira cena inclui Erika participando em um evento tradicional japonês. Também durante o almoço, a família dela estava falando em português, e este detalhe não é para dizer que famílias nipo-brasileiras deveriam falar a língua nacional do Brasil dentro da casa, mas para notar que a escolha foi deliberada pelo diretor. Também, o que me chamou a atenção foi a camiseta do Brasil que o irmão dela estava usando quando ela chegou em casa porque ainda pode ser simbólico do apoio da família dela à equipe nacional do Brasil.
No fim, a ausência do som dentro da cozinha me ligou emocionalmente; às vezes, os adolescentes não têm a oportunidade de se expressar de uma maneira honesta ou simplesmente na sociedade não existem espaços para conversar sobre as dinâmicas complicadas sobre o tópico de raça. A ausência do som só aparece como muito óbvia no fim quando a música de encerramento começa a surgir gradualmente, um detalhe que eu achei bem forte na segunda vez que eu assisti ao curta-metragem.
Enfim, uma imagem do filme que me marcou foram as duas cenas da Erika no banho porque o banho é um espaço limitado. É como os sentimentos que ela não verbalizou podem ser representados por essas cenas, como a atmosfera de xenofobia e isolamento dos nipo-brasileiros não foi criada por ela, mas ela ainda existe dentro destes parâmetros.
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Isabel Muñoz
Amarela é um curta-metragem brasileiro de drama lançado em 2024, dirigido por André Hayato Saito. O roteiro é assinado por André Hayato Saito, Luigi Madormo e Tati Wan, e o filme é protagonizado por Melissa Uehara, no papel de Erika. Com aproximadamente 15 minutos de duração, o curta também conta com Ricardo Oshiro, Carolina Hamanaka e Kazue Akisue no elenco. A fotografia é de Hélcio Alemão Nagamine, a montagem de Caroline Leone e a direção de arte de Luana Kawamura Demange.
A história acompanha Erika, uma adolescente nipo-brasileira, durante a final da Copa do Mundo de 1998 entre Brasil e França. Em meio ao ambiente familiar e à celebração do futebol, situações relacionadas à sua origem fazem surgir conflitos sobre sua identidade e seu sentimento de pertencimento.
O filme chama atenção por não seguir uma estrutura narrativa tradicional de início, desenvolvimento e desfecho. Em vez disso, parece mostrar apenas um fragmento da vida de Erika, como uma realidade que já existia antes do filme e que provavelmente continuará depois dele. Essa escolha faz com que sua experiência individual também represente conflitos vividos por migrantes e descendentes de migrantes.
Tecnicamente, a direção adota uma abordagem naturalista e íntima, sem explicar excessivamente os sentimentos da personagem. A fotografia contribui para criar uma atmosfera cotidiana e aproximar o espectador daquele ambiente. A montagem acompanha esse ritmo mais natural e organiza os acontecimentos sem depender de grandes reviravoltas, reforçando a sensação de que estamos observando um recorte da realidade.
O som também tem um papel importante, principalmente pela presença do ambiente da Copa do Mundo e dos sons cotidianos. Enquanto existe uma atmosfera coletiva de expectativa e celebração ao redor da personagem, Erika vive um conflito muito mais pessoal. Essa diferença entre o ambiente externo e sua experiência interna ajuda a construir a tensão do filme.
A direção de arte situa a história no Brasil de 1998 e também apresenta elementos relacionados à origem japonesa da família. Dessa forma, os espaços e objetos ajudam a mostrar que Erika vive entre diferentes referências culturais. As atuações seguem a mesma proposta naturalista, principalmente a de Melissa Uehara, que transmite grande parte dos sentimentos de Erika através de olhares, silêncios e pequenas reações.
O principal tema de Amarela é a identidade como um processo de aceitação pessoal. A experiência de Erika permite discutir a interculturalidade e os conflitos enfrentados por pessoas que vivem entre diferentes culturas. O filme levanta perguntas como: o que significa ser brasileiro? É possível pertencer a duas culturas ao mesmo tempo? Quem tem o direito de definir a identidade de uma pessoa?
O título Amarela também pode ser interpretado como um símbolo relacionado à forma como a identidade de Erika é percebida socialmente. A cor pode representar uma característica que é atribuída à personagem pelos outros, mas que também pode ser ressignificada por ela mesma. Da mesma forma, a Copa do Mundo funciona como um símbolo de identidade nacional, criando um contraste entre a ideia coletiva de “ser brasileiro” e a experiência individual de Erika.
A escolha do ano de 1998 é importante porque a Copa do Mundo representa um momento de forte identidade coletiva no Brasil. Ao colocar uma adolescente nipo-brasileira nesse contexto, o filme questiona até que ponto a ideia de identidade nacional realmente inclui todas as pessoas. Assim, a história dialoga com a experiência da imigração japonesa no Brasil e com questões contemporâneas sobre pertencimento e preconceito.
Dentro da filmografia de André Hayato Saito, Amarela se relaciona com seu interesse por temas como ancestralidade e identidade nipo-brasileira. O curta também dialoga com produções contemporâneas que utilizam histórias pessoais para discutir questões sociais mais amplas. Sua linguagem naturalista, somada à sensação de realidade criada pelo conjunto dos elementos técnicos, faz com que o filme pareça quase um microdocumentário, conservando ao mesmo tempo a beleza e a construção estética da ficção.
Na minha interpretação, o principal argumento de Amarela é que a identidade não precisa ser uma escolha entre duas culturas. Uma pessoa pode ser formada por diferentes origens, referências e experiências. O filme não oferece uma solução definitiva para o conflito de Erika, e isso é uma de suas maiores forças, pois mostra que a construção e a aceitação da identidade são processos contínuos.
Em conclusão, Amarela transforma uma experiência particular em uma reflexão mais ampla sobre interculturalidade, pertencimento e aceitação. Através de uma linguagem simples, naturalista e sensível, o curta mostra uma realidade que não começa nem termina com sua protagonista. Essa é, para mim, a principal força do filme: fazer com que uma história ficcional pareça tão próxima da realidade que poderia ser vivida por muitas pessoas fora da tela.
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Ana Clara Cordeiro
O curta-metragem “Amarela” de 2024 é uma obra delicada e sensível costurada por imagens da vivência de uma jovem Nipo-brasileira. Ainda que o curta-metragem acompanhe apenas um recorte de dois dias da vida de Erika Oguihara (Melissa Uehara) durante a Copa do Mundo de 1998, os sentimentos apresentados parecem ir além do recorte, são situações e especialmente emoções experienciadas de maneira recorrente. As reações da protagonista demonstram este ponto a partir das expressões de cansaço diante de comentários e dinâmicas que se repetem e que mesmo assim, despertam grande dor.
Visualizo que a história não se trata apenas das situações apresentadas durante os 15 minutos de duração, mas abrange um universo de experiências que ficam implícitas pela obra. ”Amarela”, nesse sentido, também propõe um olhar para o sentimento de pertencimento e identidade cultural. Apesar da curta duração, o curta-metragem permite que o espectador compreenda o universo de Erika: suas conexões com as diferentes culturas e a dinâmica de conciliar as expressões dessas identidades em seu dia a dia. Esse feito deve, acredito, a direção de André Hayato Saito, que conduz o filme de maneira significativa, com movimentações de câmera e enquadramentos que tornam a experiência do filme imersiva e mais sensível.
Os minutos finais com o choro de Erika são extremamente fortes. É um choro que fala e representa muito. Considero uma maneira muito inteligente de finalizar o curta. Tenho certeza que o filme dialoga de maneira intensa com muitos espectadores, no entanto é capaz de sensibilizar mesmo quem não possui contextos semelhantes ao da protagonista.
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Cecilia Scheel
Amarela, dirigido por André Hayato Saito é um curta brasileiro, que foi lançado em 2024 e teve sua estreia no Festival de Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro de Melhor Curta-Metragem. Em 15 minutos o curta retrata de maneira sensível sobre o sentimento de pertencimentos dos nipos-brasileiros no Brasil.
Ambientado na final da copa do mundo de 1988 acompanhamos o dia de Erika e seus desafios familiares e externos. Um dos aspectos mais fortes do filme é justamente a forma como a violência aparece de maneira sutil, e faz a protagonista não se sentir pertencente ao seu próprio país, com isso o curta transforma uma experiência individual em uma reflexão maior sobre o que significa ser brasileiro.
Algo que foi notável no filme inteiro é a utilização da cor amarela em praticamente todas as cenas. A cor não aparece apenas como uma escolha estética, mas ganha um significado simbólico muito forte. Ela remete diretamente ao uniforme da Seleção Brasileira e, ao mesmo tempo, à forma como pessoas de ascendência asiática são racialmente classificadas no Brasil.
Além disso, o silêncio proposital deixa o curta ainda mais sensível e intimista. Em contraste com o barulho e a euforia da Copa do Mundo, Erika vive seus conflitos de maneira silenciosa e contida, levando o espectador a ter muitas emoções através de expressões e esses silêncios.
Com isso, o curta Amarela mostra como o sentimento de pertencimento pode ser complexo e como, às vezes, até mesmo dentro do próprio país, alguém pode ser sempre questionado do seu vínculo. Amarela transforma cores, silêncios e pequenos gestos em uma reflexão sobre pertencimento.
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Theo O. Munarim
Amarela (2024), escrito e dirigido pelo nipo-brasileiro André Hayato Saito, é um curta-metragem de 15 minutos de duração que trata do sofrimento diante de construir-se sobre uma identidade nacional fragmentada. Erika Oguihara (Melissa Uehara), uma adolescente de 14 anos, vive o dia 12 de julho de 1998, final da Copa do Mundo, disputa entre o “país do futebol” e a França. Na encruzilhada entre sua família, que é marcada pelo exercício de uma conexão cultural japonesa, e seu entorno, tão brasileiro quanto a paisagem paulistana pode ser. Sendo a soma de ambos, Erika é nenhum; mas, estando na fase da vida em que se constrói identidade, precisa poder encontrar-se nos heróis das camisetas amarelas assim como seus compatriotas. Ao longo do filme, o espectador em muito se aprazerá em ver como o trabalho de cores conta a história subjacente. Preste atenção na luz amarela quente e como ela parece acompanhar os rumos da própria alma de Erika; o contraste com o cinza escuro apático, seja do concreto e do asfalto da cidade, seja na repetição visual dos produtos nas estantes da loja da família. A ausência de música como trilha sonora, senão na cena final, ressoa com a sobriedade fria da atuação impecável de Melissa Urahara. É um filme que provoca empatia pelo seu realismo e por permitir ao sofrimento que reverbere pelo silêncio. É uma escolha de forma que corresponde ao conteúdo de uma violência que é uma ‘exotização’, que transborda em pequenos comentários no dia a dia. Revela que, entre as frestas de uma identidade nacional que se propõe à união da diferença, há uma diferenciação de Eu e Outro, e esta exclusão é sentida mesmo dentre as margens menos afastadas do centro.
Amarela é um curta-metragem brasileiro do gênero drama que, só dois anos após sua estreia no Festival de Cannes de 2024, ganhou reconhecimento interno, conquistando o Prêmio Grande Otelo de Melhor Curta-Metragem no ano de 2026. O filme de apenas 15 minutos de duração, com roteiro de Tatiana Wan, Luigi Madormo e André Hayato Saito e direção deste último, conta com atuações de Melissa Uehara, Ricardo Oshiro e Carolina Hamanaka e trata de contínuas experiências de racismo vivenciadas pela personagem principal.
Ambientado em 1998, no dia da final da Copa do Mundo de Futebol Masculino da FIFA, em que as seleções do Brasil e da França se enfrentaram, Amarela conta a história de uma adolescente nipo-brasileira, Érika (Uehara) que sai de casa para assistir ao jogo com seus amigos e, no caminho, sofre diferentes formas de preconceito vindas de diferentes pessoas que interagem com ela.
Tamanho é o desrespeito nestas interações que se torna compreensível o isolamento da personagem, tanto no mundo do filme como fora, por meio de enquadramentos que amplificam sua imagem em detrimento dos coadjuvantes. A direção de Saito e a direção de fotografia de Hélcio Nagamine optam, em muitos momentos, por planos fechados no rosto da protagonista, como uma estratégia para aproximar os espectadores de sua realidade e, ao mesmo tempo, comunicar a solidão de sua existência como adolescente diferente das demais. Um momento que chama a atenção é o plano-sequência de mais de três minutos do final, em que a câmera acompanha Érika enquanto ela caminha pesarosamente por dentro de sua casa e assim nos é comunicado, silenciosamente, através do jogo de câmera e de uma atuação muito equilibrada nas emoções transmitidas, a dor de passar pelas situações vividas pela personagem. A atuação de Melissa Uehara, de modo geral, parece de início um tanto contida, mas é mais a serviço de imprimir uma sisudez (justificada pela narrativa) em Érika do que propriamente por falta de coragem da atriz ou qualquer coisa do gênero.
Acrescentaria ainda que Amarela é, como um todo, um filme pequeno. Não por achar que a importância de sua mensagem é diminuta (longe disso), e também não me refiro à duração, mas sim porque, nas cenas que se passam dentro da casa da família de Érika, permeia uma iluminação soturna, os diálogos são falados com calma e em volumes baixos, tudo sob uma direção mais intimista, concentrada, respeitosa para com as figuras representadas. Esses elementos estabelecem um senso de proximidade e comunidade entre as personagens da família, e fazem com que seja mais ríspido o contraste destes momentos para com as sequências externas, seja pela diferenciada iluminação neon do local onde é transmitido o jogo ou, ainda, pela profusão de vozes e barulhos de motor e buzina na primeira cena do ônibus. Na segunda, durante a volta de Érika para casa, os barulhos não estão mais tão presentes. Parecem distantes, como se, perdida nos pensamentos e tentando processar a experiência recente, a personagem estivesse quase alheia ao que a rodeia.
É, porém, sobre uma das cenas externas do começo do filme, de sons variados em sobreposição, que recai minha atenção. O filme é, como já estabelecido, ambientado em 1998 e não há nada na narrativa em si que aponte para o contrário. Mas em um establishing shot de um viaduto, aparecem em cena diversos carros (e até um entregador de aplicativo em uma moto) que não deveriam existir na década de 90. Mas não é verossímil dizer que se trata de descuido da produção, até porque se percebe cuidado e atenção por parte desta ao longo de todo o curta. Não, este plano, ao contrário de um erro na direção de arte ou na continuidade, é inserido na obra com um sentido maior, com o propósito de comentar sobre como, apesar da história representada se situar em 98, o racismo e a discriminação reverberam até os dias atuais. A direção se desprende da própria diegese em prol de reforçar sua mensagem.
Mensagem essa que, em um contexto de ascensão assustadora do ódio e da violência contra minorias, se faz profundamente relevante. O filme faz um recorte (naturalmente, em se tratando de um curta-metragem) para a vida de uma personagem e para como esta é afetada internamente pela forma como o mundo exterior a trata. A introversão de Érika parte de um receio, um medo de falar demais, de ser percebida demais, de ser malvista demais por ser como é. Seria prepóstero ignorar como a história da protagonista de Amarela ressoa nas vidas de milhões de pessoas ao redor do Brasil. A solidão estampada na atuação de Melissa Uehara, cuja personagem (majoritariamente enquadrada sozinha) explode ao chegar no seu limite de tolerância para com os abusos que sofre de uma sociedade intolerante. As demais personagens (à exceção de sua família) não demonstram respeito quanto à identidade de Érika, sua ancestralidade. Usam apelidos pejorativos, diminuem-na como pessoa e, cabalmente, não a aceitam como brasileira.
E é por conta disso que o contexto da Copa do Mundo de Futebol se mostra a provocação principal do curta-metragem. Trata-se de um evento quadrienal vendido insistentemente no Brasil como um momento de união, confraternização e declaração de amor à pátria. Mas esse amor à pátria é para quem? Amarela questiona isso. A nacionalidade mista da personagem principal não a permite ser reconhecida por seus colegas como pertencente à mesma pátria que eles, tampouco como “merecedora” de torcer para a mesma seleção.
A seleção brasileira perdeu de 3 a 0 o confronto contra a seleção francesa na final da Copa do Mundo de Futebol Masculino da FIFA de 1998.
A torcida, de cabeça quente com o resultado decepcionante, encontra qualquer um mais vulnerável, ou mais diferente, para pôr a culpa. E essa pessoa sofre, mesmo que em silêncio, mesmo que sob a iluminação suavemente bucólica de sua casa, por não ser levada a sério como todo o resto.
Em Amarela, André Hayato Saito retorna, como não é incomum em sua filmografia, ao passado, e propõe uma reflexão sobre ancestralidade e passagem do tempo. Com apenas um plano de estabelecimento, ele indica a triste continuidade de um movimento de aversão ao estrangeiro. Com apenas um recorte espaço-temporal e de personagem, ele comunica a dor de uma geração de pessoas de um grupo específico – mas sua mensagem se estende para outras comunidades afetadas pela discriminação.
Amarela pode ser simples e, mais uma vez, “pequeno” (não pejorativamente), mas há uma profundidade a ser encontrada a cada passo dado pela narrativa, em cada plano e diálogo, por quem estiver atento e disposto a se aproximar do filme. E acho que quem mais aproveita a experiência é quem se entrega à (um tanto silenciosa) modulação emocional de Amarela e consegue se enxergar, por quaisquer motivos, nesta obra, que ao mesmo tempo em que se desvela vulnerável como sua protagonista, tem a coragem de reclamar vez e voz no cenário audiovisual brasileiro contemporâneo.
----Alaíde
O curta Amarela de 2024 dirigido por André Saito acompanha a personagem Erika Oguihara, uma adolescente nipo-brasileira que se reconhece como brasileira,mas que é constantemente colocada na posição de estrangeira. A história acontece no final da Copa do Mundo de 1998, momento associado à construção de uma identidade nacional brasileira, em um cenário para discutir o sentimento de não pertencimento. O que chama a atenção no curta é que ele aborda o racismo e a xenofobia sem muito diálogo. Essas questões foram apresentadas a partir do desconforto da personagem por meio do som e da progressão dramática.
A escolha da Copa do Mundo foi boa para abordar esses temas por ser um dos símbolos mais fortes da identidade brasileira, e é nesse cenário que Erika tenta afirmar seu pertencimento. Ela não está apenas torcendo para a seleção, ela está tentando ocupar um lugar que deveria ser naturalmente seu. Ao longo do curta, essa identificação é colocada em conflito com a maneira como as outras pessoas a enxergam, chamando-a de “Japinha” e “Exótica”. É por meio dessas pequenas interações, desses comentários e desses olhares que fazem Erika perceber que sua aparência é suficiente para algumas pessoas questionarem a sua nacionalidade. As agressões que a personagem sofre não são explícitas, mas constituem uma violência que pode passar despercebida por quem está ao redor da vítima, mas que tem consequências para quem passa por isso.
A construção visual do curta contribui diretamente em focar mais na experiência do personagem do que no agressor. Os enquadramentos mais fechados em Erika fazem com que quem está assistindo permaneça próximo de suas reações, o que é muito importante, por ela não verbalizar aquilo que está sentindo. Em vez de usar o diálogo para explicar o seu estado emocional, o curta permite que o rosto e o corpo da personagem assumam essa função. A fotografia de Hélcio Alemão e a montagem de Caroline Leone participam dessa construção ao acompanharem a mudança gradual entre a expectativa inicial da personagem e seu isolamento posterior.
O som também possui uma função narrativa importante. A partida de futebol está presente estabelecendo um contraste entre a euforia coletiva e o isolamento de Erika. Enquanto o ambiente ao redor está associado à torcida e à expectativa pela vitória, a experiência da personagem segue uma direção contrária.
O que deveria ser uma união passa a ser uma exclusão.
A direção de arte reforça a existência desse espaço intermediário entre as culturas brasileira e japonesa, e o conflito está no fato de ela pertencer às duas culturas e ainda assim ser tratada como se não pertencesse inteiramente a nenhuma.
O título Amarela também ganha força no contexto. A palavra pode remeter à classificação racial atribuída às populações asiáticas, mas o filme não a utiliza apenas como uma categoria de identidade. Ela está relacionada à maneira como Erika é percebida. Dessa forma, o curta mostra que o pertencimento não é garantido pela nacionalidade. Erika nasceu e vive no Brasil, acompanha a seleção brasileira e deseja comemorar uma vitória como qualquer outra adolescente. Ainda assim, a sua aparência faz com que sua identidade brasileira seja colocada em dúvida.
Amarela termina sem resolver o conflito, mostrando que Erika vai continuar enfrentando o problema de pertencimento, mesmo depois da partida de futebol que terminou com o Brasil perdendo para a França.
A última cena do curta, em que Erika aparece chorando, é bem forte, porque deixa a sensação de que ela está chorando por não conseguir mais conter o seu sofrimento causado pelo preconceito sofrido e, ao mesmo tempo, o choro também pode estar relacionado à derrota do Brasil ou pelo sentimento de torcer e amar uma nação que, muitas vezes, não a reconhece como parte dela.
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Laura Ferreira da Silva Nascimento
Amarela (2024), dirigido por André Hayato Saito, acompanha Erika, uma adolescente nipo-brasileira, durante o dia da final da Copa do Mundo de 1998. O que deveria ser um momento de celebração e união para os brasileiros acaba se tornando, para a protagonista, um marco na sua vida em relação ao sentimento de não pertencimento e ao preconceito que a cerca de maneira cada vez mais evidente.
O filme se mostra bastante sagaz ao construir essa narrativa durante um período tão emblemático para os brasileiros. A euforia provocada pela Copa e o forte sentimento de patriotismo criam um contraste importante com a experiência de Erika. Enquanto a camisa e a bandeira deveriam representar união e pertencimento, para ela esses mesmos símbolos acabam evidenciando a distância entre a identidade que possui e a forma como é enxergada pelas outras pessoas.
O amarelo, presente tanto na protagonista quanto na bandeira brasileira, cria uma associação entre Erika e o símbolo nacional. No entanto, enquanto o amarelo da bandeira representa naquele contexto uma coletividade, orgulho e pertencimento, o amarelo associado à protagonista acaba revelando justamente a dificuldade de ser reconhecida como parte desse coletivo.
Mesmo sendo brasileira, Erika é tratada como estrangeira dentro do próprio país. O preconceito aparece não apenas em situações explicitamente hostis, mas também na maneira como a personagem é constantemente colocada em uma posição de diferença. Amarela vai além do drama de uma adolescente que deseja se encaixar. Erika reflete a maneira como a sociedade brasileira lida com comunidades que, apesar de fazerem parte da formação do país, muitas vezes são colocadas sob uma ótica de estrangeirismo.