Fechar os olhos (2023), dirigido por Victor Erice
Fechar os olhos: quando o cinema se transforma em memória
por Júlia Mendonça
Fechar os olhos (2023), dirigido pelo espanhol Victor Erice, é um filme que fala sobre memória, desaparecimento, identidade e, principalmente, sobre a relação entre as pessoas e o próprio cinema. A obra acompanha Miguel, um antigo diretor de cinema que é chamado para participar de um programa de televisão que investiga o desaparecimento de um ator durante as filmagens de um de seus filmes. A partir dessa investigação, Miguel acaba revisitando acontecimentos do seu passado e pessoas que fizeram parte de sua vida.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi o ritmo do filme. Fechar os olhos não parece ter pressa para chegar a uma conclusão, e isso pode causar uma sensação diferente para quem está acostumado com narrativas mais rápidas. A montagem acompanha esse ritmo mais contemplativo e permite que as cenas tenham tempo para existir. Em vez de apenas avançar a história, o filme parece querer que o espectador observe, pense e sinta.
A fotografia também contribui bastante para essa sensação. Existe uma escolha por imagens que parecem simples, mas que carregam muito significado, principalmente quando relacionadas às lembranças dos personagens. A direção de Erice valoriza os espaços, os rostos e os pequenos gestos, fazendo com que coisas aparentemente banais adquiram importância. O som e a trilha sonora seguem essa mesma lógica, sem tentar conduzir o espectador de maneira exagerada. Em vários momentos, o silêncio também parece ter uma função narrativa.
Minha principal interpretação é que Fechar os olhos é menos um filme sobre encontrar respostas e mais um filme sobre aprender a conviver com as perguntas que permanecem. O desaparecimento de Julio é importante, mas o que realmente permanece ao longo da narrativa é a relação dos personagens com aquilo que perderam e com aquilo que ainda conseguem lembrar. Por isso, o filme exige uma participação maior do espectador. Ele não entrega tudo pronto, e talvez seja justamente essa ausência de respostas imediatas que faça com que a história continue na nossa cabeça depois dos créditos.
Para mim, Fechar os olhos mostra que nem sempre precisamos enxergar tudo para compreender alguma coisa. Às vezes, é justamente ao fechar os olhos que conseguimos perceber aquilo que permanece quando já não podemos mais ver.
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Daigo Allebrandt
Cerrar los ojos, drama dirigido por Víctor Erice, é um daqueles filmes que prende o espectador pelo simples envolvimento com os personagens da trama. Miguel Garay, um escritor em profundo hiato, é chamado para uma entrevista para um programa televisivo que busca resolver um dos maiores mistérios do país: o desaparecimento do ator Julio Arenas durante as gravações do último filme de Miguel Garay, ainda nos anos 90.
Cerrar los ojos trabalha com muita competência os silêncios em sinergia com a fotografia “estéril” ou “austera”, e neste último ponto, é justamente um artifício sofisticado do filme em diferenciar a filmografia analógica para a digital, metalinguisticamente demonstrada no filme, ao apresentar o último filme de Miguel Garay ao espectador logo na introdução do longa. A montagem do filme busca ritmar através das pausas a dimensão psíquica de Miguel, do mesmo modo, o som valoriza a ausência de presença instrumental, que quando vem a tona, entra de modo completamente diegético, propondo-se manter o aspecto documental e realista da trama. A direção de arte conquista um espaço envelhecido, frio e de paixões sem brasas, representando o estado da vida de Miguel através da sociedade contemporânea espanhola, que, há tempos não escreve um romance, e não dirige filmes, buscando fugir da realidade produtiva da sociedade contemporânea e suas responsabilidades do passado.
O longa busca evocar a sensação de uma geração pós-franquista, que em parte, luta pela memória dos que sofreram a repressão estatal, consequentemente estabelecendo uma visão crítica sobre a Ley de Memória Democrática de 2022, um período de reavaliação dos traumas sofridos na ditadura franquista.
O filme assumiu imediatamente um papel de fechamento testamentário na historiografia do cinema espanhol, conectando-se diretamente à filmografia anterior de Erice. A presença de Ana Torrent — meio século após O Espírito da Colmeia (1973) — confere à obra o estatuto de documento histórico sobre a evolução do olhar no cinema ibérico. Cerrar los ojos consolidou-se como um manifesto crítico contra o esquecimento programado, reafirmando que o valor da imagem reside na sua capacidade de testemunhar o tempo, a perda e a persistência da identidade humana diante da desintegração histórica.
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Fechar os olhos: a memória como forma de permanência
por Lorenzzoni
Assistir a Fechar os Olhos (Cerrar los ojos), de Víctor Erice, foi uma experiência bastante diferente do cinema mais comercial que estamos acostumados a ver. O filme acompanha Miguel Garay, um diretor de cinema que volta a lidar com o desaparecimento misterioso do ator Julio Arenas, ocorrido décadas antes durante as filmagens de um longa-metragem.
O que mais me chamou a atenção foi o ritmo da narrativa. O filme é lento e contemplativo, mas essa característica faz sentido dentro da proposta da obra. Erice parece querer que o espectador sinta o peso do tempo e das lembranças junto com os personagens. Há muitos silêncios e momentos de observação que ajudam a construir uma atmosfera melancólica e reflexiva.
Visualmente, o filme é muito bonito. A fotografia utiliza enquadramentos simples, mas carregados de significado, transmitindo uma sensação constante de nostalgia. A trilha sonora também é discreta e contribui para que as emoções surjam de forma natural, sem exageros. Nas atuações, destacam-se Manolo Solo, José Coronado e Ana Torrent, que interpretam personagens marcados pela passagem dos anos e pelas ausências que carregam consigo.
Para mim, o tema central do filme não é exatamente o desaparecimento de Julio Arenas, mas a memória. Ao longo da história, fica evidente a preocupação com aquilo que permanece quando as pessoas deixam de estar presentes. O cinema surge como uma forma de preservar vidas, rostos e histórias que poderiam ser esquecidos. Nesse sentido, Fechar os Olhos também funciona como uma homenagem ao próprio cinema e ao seu poder de conservar lembranças.
Outro aspecto interessante é que o filme marca o retorno de Víctor Erice ao longa-metragem de ficção após mais de três décadas, o que torna a obra ainda mais significativa dentro de sua trajetória artística.
Ao final, tive a sensação de que Fechar os Olhos fala sobre a resistência ao esquecimento. Apesar de sua longa duração e do ritmo mais lento, é um filme sensível e recompensador para quem se permite entrar em sua proposta. Mais do que contar uma história de mistério, a obra nos convida a refletir sobre o tempo, os afetos e a importância de lembrar daqueles que passaram por nossas vidas.
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Fechar os Olhos: uma reflexão sobre memória e tempo
por Vitor Sebastiany da Silva
"Fechar os Olhos" (2023), dirigido por Víctor Erice, é um filme espanhol que acompanha a investigação sobre o desaparecimento de um ator ocorrido décadas antes. A partir desse mistério, a história traz temas como memória, identidade e a passagem do tempo.
O que mais me chamou atenção foi o ritmo do filme, que é bastante lento e diferente da maioria das produções de hoje em dia. Apesar de exigir muita paciência do espectador, essa escolha ajuda a criar um clima de reflexão. A fotografia é bonita e os cenários e contextos contribuem para transmitir uma sensação de nostalgia muito interessante. Além disso, a trilha sonora é discreta e as atuações passam muita naturalidade.
Na minha visão, o filme não busca apenas explicar o desaparecimento do personagem, mas mostrar como as lembranças permanecem vivas mesmo após muitos anos desse acontecimento. A obra também faz uma homenagem ao próprio cinema, demonstrando como os filmes podem preservar histórias e memórias.
Apesar de ser um filme longo, considero que sua mensagem é relevante. Fechar os Olhos faz o espectador pensar sobre o passado, as relações humanas e aquilo que permanece em nossa memória ao longo da vida. É um filme sensível e profundo, que valoriza mais a reflexão do que a ação.
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Sofia Rachadel Campos
Fechar os Olhos (Cerrar los ojos, título original) é um longa-metragem de drama lançado em 2023, dirigido por Víctor Erice e escrito por Erice e Michel Gaztambide. Com aproximadamente 169 minutos de duração, é protagonizado por Manolo Solo, José Coronado e Ana Torrent. O filme foi produzido entre Espanha e Argentina e participou do Festival de Cannes de 2023.
A história acompanha Miguel Garay, um diretor de cinema cujo amigo e ator Julio Arenas desapareceu durante as gravações de um filme, muitos anos antes. Seu corpo nunca foi encontrado. Depois de um programa de televisão decidir relembrar o caso, Miguel começa a revisitar esse passado, reencontrando pessoas e lembranças ligadas ao desaparecimento do amigo.
O filme tem um ritmo bastante lento, com cenas e diálogos longos. Em alguns momentos, isso pode deixar a experiência um pouco cansativa, principalmente por ser um filme de quase três horas. Ao mesmo tempo, esse ritmo combina com a proposta da obra, que fala muito sobre lembranças, passagem do tempo e acontecimentos do passado que continuam afetando as pessoas.
Outro ponto interessante é a presença do cinema dentro do próprio filme. Algumas cenas mostram imagens da produção que Miguel estava gravando quando Julio desapareceu. Essas imagens antigas acabam tendo um papel importante, porque mostram como o cinema consegue guardar momentos e pessoas mesmo depois de muitos anos.
Um dos principais temas de Fechar os Olhos é a memória. O filme mostra como nossas lembranças ajudam a formar nossa identidade, mas também como elas podem mudar, enfraquecer ou até desaparecer com o tempo. A amizade entre Miguel e Julio também é importante, porque o desaparecimento deixou uma parte da vida de Miguel sem uma resposta definitiva.
Na minha visão, a principal qualidade de Fechar os Olhos está na forma como o filme fala sobre memória, identidade e envelhecimento sem transformar o desaparecimento de Julio apenas em um mistério a ser resolvido. A história parece mais preocupada em mostrar o impacto que o tempo teve sobre essas pessoas.
Mesmo sendo um filme longo e lento, Fechar os Olhos consegue construir uma reflexão interessante sobre aquilo que permanece depois de muitos anos. No final, o cinema aparece quase como uma forma de guardar lembranças que as próprias pessoas podem perder.
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O desaparecimento
por Édina Barbosa Farias
Dirigido por Victor Erice, o drama Cierra los ojos de 2023 é um longa metragem coproduzido em hispano-argentina. Roteirizado por Erice e Michel Gaztamambide a narrativa do longa metragem é construída a partir da história de Miguel um antigo diretor de cinema que é buscado para auxiliar no desaparecimento de um ator durante as gravações de um filme.
Com intuito de apresentar cinematograficamente o desenrolar da narrativa, o diretor evidencia a temporaneidade, a partir do próprio tempo da história. Com planos longos e câmera fixa entre os personagens e a paisagem que compõem o quadro, a fotografia é implementada como principal agente da narrativa. As imagens apresentam tonalidades neutras, marcadas pelo uso expressivo das sombras e do preto, contribuindo para a construção de uma atmosfera de mistério e suspense. Outro aspecto significativo está no uso do som, especialmente na presença recorrente do silêncio. Ele não aparece apenas nos momentos de transição ou entre as cenas, mas também durante os próprios diálogos, criando pausas e vazios sonoros que intensificam a tensão. Dessa forma, o silêncio deixa de ser apenas a ausência de som e passa a funcionar como um elemento narrativo, contribuindo para o desconforto, as tensões e as sensações dos personagens.
Cierra los ojos é um longa metragem que busca explorar temas sensíveis e construir uma relação de proximidade com o próprio espectador, convidando-o não apenas a acompanhar a trama, mas também a refletir sobre as questões apresentadas, como o processo da perda, as indagações de uma investigação e o próprio tempo. Narrativamente, o filme se distancia de estruturas e formas de condução das quais estamos habituados no cinema, e propõem uma experiência mais contemplativa e subjetiva no espectador. Dessa forma, a obra estabelece um diálogo particular com quem assiste, fazendo com que o espectador também se torne parte da construção dos sentidos do filme.
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Fechar os olhos: o luto por alguém que ainda existe
por Isabel Muñoz
Cerrar los ojos (Fechar os olhos) é um filme hispano-argentino de 2023, dirigido por Víctor Erice e escrito pelo próprio diretor em parceria com Michel Gaztambide. O filme tem 169 minutos de duração e conta com Manolo Solo, José Coronado, Ana Torrent, María León e Soledad Villamil no elenco. A direção de fotografia é de Valentín Álvarez, a montagem é de Ascen Marchena, a direção de arte é de Curru Garabal, o som é de Iván Marín e a música é de Federico Jusid.
O filme acompanha Miguel Garay, um diretor de cinema que, anos depois do desaparecimento de seu amigo e ator Julio Arenas durante as filmagens de uma obra, é levado novamente ao caso quando um programa de televisão recupera imagens relacionadas aos últimos momentos conhecidos do ator. A partir dessa situação, a narrativa percorre diferentes momentos da vida dos personagens e transforma a investigação sobre o desaparecimento de Julio em uma reflexão sobre memória, identidade, amizade, ausência e passagem do tempo, sem reduzir a história à simples resolução de um mistério.
A fotografia de Valentín Álvarez cumpre um papel fundamental na construção emocional do filme. A escolha por uma paleta de cores opaca, associada aos planos longos e ao ritmo lento da câmera, traduz visualmente o estado de luto que atravessa a narrativa. É um luto particular, pois não existe a certeza de uma morte nem a possibilidade de um encerramento definitivo. A fotografia acompanha essa sensação de suspensão e espera, como se os personagens permanecessem presos a um acontecimento que nunca pôde ser completamente concluído. Mesmo diante das revelações da narrativa, a imagem não abandona sua atmosfera apagada, reforçando a ideia de que descobrir o que aconteceu não significa necessariamente recuperar aquilo que foi perdido. A montagem também contribui para essa construção, principalmente por meio de uma abordagem tonal, que privilegia a atmosfera e o estado emocional das cenas. Em alguns momentos de inflexão da trama, poderia haver uma montagem mais métrica, capaz de produzir maior dinamismo e enfatizar as mudanças narrativas, mas a escolha de manter um ritmo mais contemplativo parece coerente com a proposta do filme. Dessa maneira, a montagem potencializa aquilo que a fotografia já desenvolve. O som, por sua vez, apresenta uma característica ao mesmo tempo passiva e tensionante. Os silêncios, os sons ambientes e a contenção sonora criam uma sensação constante de espera, enquanto determinados momentos produzem tensão sem recorrer necessariamente a uma grande explosão dramática. As atuações seguem essa mesma lógica de contenção, principalmente na interpretação de Manolo Solo como Miguel, cuja dor aparece mais através de seus silêncios, olhares e gestos do que por grandes manifestações emocionais. José Coronado também constrói uma diferença importante entre Julio Arenas e a identidade que ele assume posteriormente, contribuindo para que a questão da identidade se torne também uma questão corporal e performática.
Para mim, o tema central de Cerrar los ojos é o luto. Entretanto, não se trata do luto convencional provocado pela morte de alguém, mas do luto provocado pela perda de uma pessoa que continua existindo fisicamente, embora já não seja exatamente quem era. Ao redor desse luto desenvolvem-se temas como identidade, amizade, memória e passagem do tempo. A particularidade dessa perda está justamente no fato de que aquilo que Julio era já não existe da mesma maneira. Dessa forma, a película apresenta uma situação difícil de definir: como fazer o luto de alguém que não morreu, mas que, de alguma maneira, deixou de existir como era? A memória passa a ter um papel fundamental nesse processo, pois aquilo que Julio foi permanece principalmente nas lembranças das pessoas que o conheceram. A amizade entre Miguel e Julio também é atravessada por essa impossibilidade de recuperar completamente o passado, enquanto o tempo aparece como uma força que transforma as pessoas e torna algumas perdas irreversíveis. É um tema bastante humano e, ao mesmo tempo, pouco discutido dessa maneira, e o filme consegue explorá-lo sem oferecer uma explicação simples ou convencional.
Cerrar los ojos também estabelece um diálogo importante com a própria filmografia de Víctor Erice, especialmente com El espíritu de la colmena, de 1973, e El Sur, de 1983. A presença de Ana Torrent, protagonista de El espíritu de la colmena e também atriz em Cerrar los ojos, estabelece uma ligação direta entre diferentes momentos da trajetória do diretor e entre diferentes formas de representar a memória, a ausência e a infância. O retorno de uma atriz décadas depois também permite que o próprio tempo se torne parte da intertextualidade do filme. Além disso, o cinema aparece dentro da narrativa não apenas como profissão ou cenário, mas como instrumento de preservação da memória. As imagens de um passado distante tornam possível recuperar pessoas e momentos que já não podem ser experimentados novamente da mesma forma. Nesse sentido, o filme também parece refletir sobre o próprio cinema como uma forma de conservar aquilo que o tempo inevitavelmente transforma.
A minha principal interpretação de Cerrar los ojos é que o filme não trata essencialmente de encontrar uma pessoa desaparecida, mas de compreender que encontrar alguém não significa necessariamente recuperá-lo. Miguel passa anos convivendo com a ausência de Julio e, quando finalmente surge a possibilidade de reencontrá-lo, a expectativa de recuperar o passado entra em conflito com uma realidade muito mais complexa. Julio está vivo, mas a pessoa que Miguel conhecia não pode simplesmente voltar a existir da mesma maneira. Por isso, considero que o luto é o eixo que organiza os demais temas da narrativa. A identidade é afetada porque Julio já não sabe completamente quem é; a memória é afetada porque aquilo que ele foi permanece principalmente nas lembranças dos outros; a amizade é afetada porque Miguel precisa se relacionar com alguém que já não corresponde integralmente ao amigo que perdeu; e o tempo é responsável por tornar essa transformação irreversível. As próprias escolhas formais do filme reforçam essa interpretação: a fotografia opaca, os planos longos, o ritmo lento e o som simultaneamente passivo e tensionante criam uma experiência de espera e ausência. Mesmo quando a narrativa apresenta respostas, a atmosfera permanece praticamente a mesma, porque a descoberta não é capaz de desfazer o luto.
Cerrar los ojos utiliza o desaparecimento de Julio Arenas como ponto de partida para construir uma reflexão mais ampla sobre perda, identidade e memória. Através de uma linguagem cinematográfica contemplativa e de uma narrativa que se recusa a transformar o reencontro em uma solução convencional, Víctor Erice apresenta uma forma de luto que não depende necessariamente da morte física. A obra mostra que algumas pessoas podem ser encontradas novamente, mas isso não significa recuperar aquilo que elas foram. É justamente nessa impossibilidade de voltar completamente ao passado que o filme encontra sua maior força, transformando a história de um desaparecimento em uma reflexão sobre o tempo, sobre as relações humanas e sobre a capacidade do cinema de preservar aquilo que, na vida real, já não pode ser recuperado.
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Memória e o Tempo entre o Passado e o Presente
por Antarki Jose Luis Zuniga Mendoza
Cerrar los ojos, ou Fechar os Olhos, em português, é um filme dirigido pelo cineasta espanhol Víctor Erice, lançado em 2023. É uma coprodução entre Espanha e Argentina, com duração de 169 minutos. O roteiro foi escrito por Víctor Erice e Michel Gaztambide, a direção de fotografia é de Valentín Álvarez, a montagem é de Ascen Marchena, a direção de arte é de Curru Garabal e a música é de Federico Jusid. Entre os principais atores estão Manolo Solo, José Coronado e Ana Torrent. O filme estreou no Festival de Cannes de 2023, na seção Cannes Première.
Víctor Erice nasceu na Espanha em 1940 e é considerado um dos importantes cineastas espanhóis de sua geração. Sua filmografia é relativamente pequena, mas suas obras apresentam uma relação muito particular com o tempo, a memória, a luz, a infância, a pintura e o próprio cinema.
Seu primeiro longa-metragem, El espíritu de la colmena (O Espírito da Colmeia), foi lançado em 1973. Depois vieram El sur (1983) e El sol del membrillo (1992). Cerrar los ojos representa seu retorno ao longa-metragem de ficção depois de aproximadamente trinta anos. Nesse intervalo, Erice não deixou de trabalhar com cinema e outras formas de criação, realizando curtas-metragens, trabalhos documentais e instalações.
Esse intervalo entre El sol del membrillo e Cerrar los ojos também torna significativa a relação do novo filme com a passagem do tempo, com a memória e com aquilo que permanece ou desaparece.
O filme parte do desaparecimento do famoso ator espanhol Julio Arenas durante as filmagens de uma produção cinematográfica. Seu corpo nunca é encontrado e o caso é considerado pelas autoridades como um possível acidente ocorrido próximo ao mar. Muitos anos depois, o desaparecimento volta a despertar interesse por meio de um programa de televisão que recupera a história do ator e apresenta imagens das últimas cenas que ele havia filmado, dirigidas por seu amigo, o cineasta Miguel Garay.
A partir desse acontecimento, Miguel volta a entrar em contato com pessoas, lugares e lembranças relacionados ao passado. O filme passa, então, a trabalhar questões como memória, identidade, amizade, envelhecimento, desaparecimento e a relação entre cinema e lembrança.
Falar sobre um filme é muito interessante porque podemos ter várias perspectivas sobre uma mesma obra, diferentes ideias, emoções e sentimentos. Fazer uma crítica de um filme significa ainda mais, porque o olhar sobre a obra e a maneira como a percebemos podem se transformar completamente.
Tive essa experiência dentro do curso de Cinema. Depois de algumas disciplinas, percebi que meu olhar sobre os filmes mudou. Passei a observar não apenas o filme em si, mas também a maneira como ele é construído. Aquela ingenuidade que eu tinha mudou, no bom sentido da palavra, e deu lugar a um olhar mais crítico. Não crítico apenas no sentido de fazer uma crítica, mas no sentido de perceber cada detalhe, cada elemento que vem junto com o filme.
Comecei a descobrir o que está por trás de uma obra cinematográfica: as questões relacionadas à produção, à direção, à fotografia, ao som, à maquiagem, à mise-en-scène e, enfim, tudo o que envolve a realização de um filme. Também passei a perceber o percurso da obra até chegar às salas de cinema e as diferentes formas pelas quais ela pode ser apresentada ao público.
Nesse processo de dissecação do filme, começamos a entender e a nos conectar com um olhar crítico sobre como a obra apresenta, através de tudo o que envolve a criação cinematográfica, elementos que nos permitem realmente entendê-la e compreendê-la.
É nesse sentido que cerrar los ojos se tornou interessante para mim. O filme aguça o olhar crítico de um estudante de Cinema que está iniciando sua formação, colocando-o diante de diferentes perspectivas. Entre os aspectos que mais me chamaram a atenção está a fotografia.
A direção de fotografia de Valentín Álvarez possui um papel importante na construção visual do filme. Entre os elementos que me chamaram atenção estão o uso de planos médios, planos americanos e primeiros planos, especialmente para colocar ênfase nos personagens. Também existe um trabalho cuidadoso na construção das cores, dos cenários e na composição dos planos.
Quando é utilizado um plano mais aberto, como um plano conjunto, podemos perceber diferentes formas das portas e das janelas. Existe, portanto, um trabalho de fotografia que, para mim, é muito interessante e muito rico. A imagem não funciona apenas como uma maneira de registrar aquilo que está diante da câmera, mas também participa da construção de uma linguagem.
Foi justamente nesse sentido que a referência a Carl Theodor Dreyer, cineasta dinamarquês, chamou minha atenção.
Carl Theodor Dreyer (1889–1968) foi um dos grandes nomes do cinema dinamarquês e da história do cinema. Entre seus filmes mais conhecidos estão A Paixão de Joana d'Arc (1928), Vampyr (1932), Ordet (1955) e Gertrud (1964).
Dreyer ficou especialmente conhecido pelo cuidado com a composição, pelo uso expressivo dos rostos, pelos primeiros planos, pela organização do espaço e pela relação entre imagem, luz e interioridade dos personagens. Em A Paixão de Joana d'Arc, por exemplo, os primeiros planos colocam os rostos em evidência e fazem da expressão dos atores um elemento fundamental da narrativa.
O trabalho de Dreyer também demonstra como a fotografia e a composição visual podem construir significados que não dependem exclusivamente das palavras. Seu cuidado com a disposição dos atores, dos espaços, da câmera, da iluminação e da composição revela uma concepção do cinema em que a imagem possui uma linguagem própria.
Ao ouvir a referência a Dreyer em Cerrar los ojos, fui procurar novamente seus filmes para relembrar seu trabalho. Percebi, então, um trabalho muito minucioso em relação aos planos do ator, à maquiagem e à maneira de mostrar as expressões, para que aquilo que está sendo comunicado não seja transmitido somente através das palavras, mas também pelas imagens, pelas cores e pelas texturas.
Nesse sentido, Cerrar los ojos trouxe para mim uma profundidade, uma delicadeza e, por que não dizer, uma certa ousadia. É um ritmo talvez diferente daquele que estamos vivendo em muitos filmes contemporâneos, marcados por uma presença muito forte da tecnologia em diferentes sentidos.
Não se trata de dizer que as novas produções são ruins. Mas esse filme foi, para mim, um respiro. Foi uma forma de perceber que ainda existe espaço para uma dimensão poética e artística do cinema, para uma procura de fazer arte.
Além da questão formal, o filme traz algo que considero muito interessante: o trabalho da memória a partir de dois personagens. Um deles lembra, está sempre com a memória ativa, e isso parece até um tormento, algo que continua a segui-lo. O outro, por sua vez, não lembra de nada.
O filme se movimenta dentro dessa questão, como um fechar dos olhos para esquecer, para lembrar ou para se concentrar. Nesse sentido, achei o filme muito interessante porque apresenta diferentes relações com aquilo que podemos esquecer, com aquilo que queremos esquecer e com aquilo que realmente esquecemos. Da mesma maneira, apresenta aquilo que é lembrado e aquilo que não gostamos de lembrar.
O título Cerrar los ojos pode ser pensado dentro dessa própria relação. Fechar os olhos pode significar não olhar, esquecer, afastar-se de alguma coisa, mas também pode significar concentrar-se e voltar-se para dentro. Dessa forma, o ato de fechar os olhos pode adquirir diferentes sentidos dentro da experiência da memória.
Dentro do filme, há várias cenas e várias palavras que me trouxeram momentos de reflexão, de olhar e de perceber o processo da vida. Acho interessante, nesse sentido, que o filme nos proporciona um olhar que nos faz pensar.
A relação entre Cerrar los ojos e a própria trajetória de Víctor Erice também é importante. O filme retorna a temas que atravessam sua obra, especialmente a relação entre cinema, memória, tempo e experiência humana.
Além disso, existe uma dimensão autorreflexiva muito forte: Cerrar los ojos apresenta um diretor de cinema, um ator desaparecido e um filme que ficou inacabado. O próprio cinema passa a fazer parte da narrativa e da reflexão sobre aquilo que permanece na memória.
Essa relação entre cinema e memória também ajuda a compreender a referência a Dreyer. Não é necessário afirmar que Erice simplesmente reproduz o estilo de Dreyer, mas é possível perceber uma aproximação na valorização da imagem, do rosto, da composição, da duração e da capacidade do cinema de produzir sentidos para além do diálogo.
Particularmente, não fiquei tão impactado pela história ou pelo filme como um todo. Não é uma obra que eu diga: “Nossa, esse filme é o que eu vou querer ver sempre”. Não é assim.
Entretanto, aquilo que o filme trouxe para mim em relação à fotografia, especialmente na construção de ela , dos personagens e da própria história, foi muito interessante. O que realmente me impactou foi a maneira como a fotografia participa da experiência do filme.
Por isso, minha principal percepção é que Cerrar los ojos é uma obra que pode provocar diferentes formas de olhar. Para mim, ela se tornou especialmente significativa a partir da percepção de que a fotografia possui uma linguagem própria e de que os planos, as cores, as texturas, os espaços e as expressões dos personagens podem comunicar para além das palavras.
Cerrar los ojos foi, para mim, uma experiência de observação e aprendizagem. Mais do que me impactar pela história em si, o filme me chamou a atenção pela maneira como é construído e, principalmente, pela fotografia.
É um filme que, de alguma forma, traz um alívio e uma tranquilidade ao poder enxergá-lo dessa maneira. Ele também me permitiu perceber que o cinema pode seguir outros ritmos e outras formas de construção, mantendo uma dimensão poética e artística.
Nesse sentido, o filme funcionou como um respiro dentro da experiência contemporânea de assistir ao cinema. Não como uma rejeição às novas produções e às novas tecnologias, mas como uma possibilidade de reencontrar uma forma de cinema em que a imagem, o tempo, os personagens, as cores, as texturas e os silêncios também podem falar.
E talvez seja justamente essa uma das maiores contribuições de Cerrar los ojos para o meu próprio processo de aprendizagem: perceber que olhar criticamente para um filme não significa apenas julgá-lo, mas aprender a enxergar aquilo que existe dentro dele, aquilo que está por trás de sua construção e aquilo que cada escolha cinematográfica pode nos fazer sentir, pensar e compreender. Deixo a seguir a entrevista do diretor que achei muito certeira.
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Lua Monteiro
O Fechar dos Olhos, filme espanhol dirigido por Víctor Erice, conta a história do desaparecimento de Julio Arenas, um ator que some durante as filmagens de um filme dirigido por seu amigo Miguel. Anos depois, o caso volta a ser comentado em um programa de televisão sobre casos não solucionados, fazendo Miguel revisitar esse passado.
O que mais me incomodou no filme foi o ritmo. Achei muito lento, mas não de uma forma que me fizesse entrar naquele universo ou refletir sobre o que estava acontecendo. Para mim, era uma lentidão que acabava tornando as cenas cansativas. Muitas vezes eu sentia que uma cena já tinha passado sua principal informação, mas continuava por muito tempo. Não senti que essa escolha criasse tensão ou curiosidade suficiente para me fazer querer continuar acompanhando a história.
Os diálogos também contribuíram bastante para isso. O filme é muito baseado em conversas longas e, em alguns momentos, quase em monólogos. Tive a impressão de que os personagens precisavam falar muito para explicar uma ideia ou um sentimento que poderia ser transmitido de outras formas, principalmente através da imagem, da atuação ou do próprio silêncio. Isso fez com que algumas cenas me parecessem mais explicativas do que realmente cinematográficas.
Também não me conectei muito com as atuações. Achei os personagens muito contidos e, em alguns momentos, tive dificuldade de sentir emoção nas situações que estavam sendo apresentadas. Para mim, faltou uma atuação que me fizesse criar uma relação maior com aqueles personagens e com o que eles estavam vivendo.
A parte visual também não foi algo que me chamou atenção. Os enquadramentos e a câmera são bastante parados e discretos, e eu não senti que eles acrescentassem muito às cenas. A fotografia também me pareceu bastante apagada, e, junto com a trilha sonora mais discreta, acabou contribuindo para essa sensação de distância que tive durante o filme. Em vez de me colocar dentro da história, eu me senti muitas vezes apenas observando o que estava acontecendo.
Outra coisa que não funcionou muito para mim foi o mistério. A ideia do desaparecimento de Julio cria uma expectativa de que vamos descobrir o que aconteceu, mas percebi que o filme está muito mais interessado nas consequências desse desaparecimento, na memória e no passado do que propriamente na resolução do mistério. Acho interessante essa escolha, mas, para mim, ela acabou sendo um problema porque eu não fiquei curiosa o suficiente para continuar acompanhando a história.
Apesar disso, consigo perceber que existe uma proposta por trás de todas essas escolhas. O filme fala bastante sobre memória, perda, envelhecimento e sobre o próprio cinema. Existe uma relação interessante entre a história e a trajetória do personagem Miguel como cineasta, principalmente nessa tentativa de recuperar algo que ficou no passado. O problema é que, para mim, entender o que o filme queria discutir não foi suficiente para me fazer sentir envolvida com ele.
No fim, não acho que o problema seja simplesmente o filme ser lento. Acho que é a combinação de todas essas escolhas: o ritmo muito prolongado, os diálogos extensos, as atuações contidas e uma direção visual e sonora mais discreta. Tudo isso fez com que eu me sentisse cada vez mais distante da narrativa. O Fechar dos Olhos parece pedir que o espectador tenha paciência para contemplar o tempo, a memória e a ausência, mas essa experiência não funcionou comigo. Em vez de me prender, o filme acabou me fazendo perder o interesse.
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Fechar os olhos: A capacidade de transcender o tempo por meio do cinema
por Ana Clara Cordeiro Junkes
Cerrar los ojos (2023), dirigido por Víctor Erice, acompanha o cineasta e escritor Miguel Garay (Manolo Solo) que, anos após o desaparecimento de seu antigo amigo e ator Julio Arenas (José Coronado), é convidado a participar de uma reportagem sobre seu ponto de vista em relação ao acontecimento. A partir disso, Miguel reencontra pessoas importantes e relembra as memórias de seu último projeto como diretor, que se manteve incompleto após o desaparecimento de Júlio. É um drama denso sobre luto e tempo, que, ao mesmo tempo transborda amor pelo cinema.
Embora o cerne da história seja a capacidade do cinema de atravessar o tempo, creio que a conversa possa se estender para o poder e a permanência de toda a ampla gama das artes, como literatura, música e outros. A obra reverencia várias dessas formas de arte, principalmente a música, o que considero um detalhe importante. A relação entre este poder, o luto e a velhice é desenvolvida de maneira sublime, transparecendo o amor de Erice pelo cinema. No entanto, considero que o ponto alto do filme demora pra chegar, o que perde um pouco da força do último, e mais importante, ato do longa.
O luto acontece em diversos contextos, mesmo quando não existe a morte em si. Ana, filha de Julio Arenas, por exemplo, lida com o luto sobre a relação superficial que teve com seu pai mesmo quando ele não estava desaparecido, e também o luto após seu desaparecimento. No desfecho, ainda vemos a personagem ser obrigada a lidar com a existência do pai em sua realidade, embora ele não tenha lembranças do passado e não saiba nem mesmo que Ana é sua filha. A dinâmica da personagem foi um dos meus elementos favoritos da trama, nesse sentido, dou muitos créditos para a atriz e para o roteiro.
O terceiro ato é o momento que o espectador espera durante todo o longa, com destaque para a sequência final, que é extremamente comovente. No entanto, considero que os primeiros atos poderiam ser mais curtos, permitindo que o clímax da trama se desenvolvesse mais cedo. Ao longo da obra, sentimos o impacto da passagem do tempo sobre todos os personagens e, quando finalmente conhecemos Júlio, essa passagem se torna ainda mais palpável. Dessa forma, a reconexão com o passado por meio do cinema ganha ainda mais significado, especialmente para dois personagens tão ligados a esse universo: um ator e um cineasta.
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Fechar os olhos e lembrar
por Sofia Fernandes Campos
"A vida não é a que cada um viveu, mas a que recorda."
— Gabriel García Márquez
Víctor Erice, depois de anos de silêncio, volta a ocupar a cadeira de diretor com “Cerrar los ojos” (Fechar os olhos), fazendo um estudo sobre o poder da imagem cinematográfica de reter aquilo que o tempo insiste em apagar. Apresentado em Cannes em 2023, o filme rendeu ao cineasta espanhol o prêmio de melhor filme na seção competitiva do LEFFEST daquele ano e chegou a onze indicações ao Goya. Em mais de duas horas de filme, Erice desenvolve o cinema como instrumento de memória.
Miguel Garay, interpretado por Manolo Solo, é um ex-diretor de cinema que há décadas abandonou esse mundo de imagens, após o desaparecimento de seu ator-musa e amigo mais próximo, Julio Arenas (Jose Coronado), que some sem aviso durante as filmagens de um projeto nunca concluído. Seu corpo nunca foi encontrado, com infinitas especulações sobre seu paradeiro ou seu fim, sua vida acaba inconclusa. Anos depois, um programa de televisão sobre casos não resolvidos convida Miguel a revisitar o sumiço de Arenas e a exibir as últimas cenas que restaram do filme incompleto. Esse convite obriga Miguel a voltar ao próprio passado e, a partir daí, o filme se movimenta entre o presente e a memória, entre a vida que Miguel construiu depois da perda e os vestígios de uma imagem que se recusa a desaparecer.
Erice constrói o filme em um ritmo propositalmente contemplativo, não há pressa em resolver o caso de Julio Arenas, porque a busca importa mais do que a resposta, é na busca que a memória se reorganiza. A narrativa avança intercalando o presente de Miguel com fragmentos do filme inacabado, criando uma estrutura que espelha o jeito desmembrado da lembrança, que é descontínua, seletiva, e reconstruída a cada recordação.
O que resta de uma pessoa quando sua imagem sobrepõe a sua presença? A pergunta ecoa ao longo da narrativa, se é possível recuperar alguém através daquilo que ficou registrado em filme. A textura desgastada da película do filme-dentro-do-filme contrasta com a fotografia mais limpa do presente, tornando visível a distância entre o registro e a vida que ele tenta reter. Essa memória-imagem guardada por Miguel mostra como ele não supera a perda do amigo, com o tempo, apenas constrói uma vida ao redor dela. Ao voltar para a sala de cinema com o filme inacabado, o tempo perdido pode, por alguns minutos, ser reencontrado.
As partes que restam de um filme sem fim são projetadas numa sala escura, os rostos no filme, os rostos na platéia, olham, lembram ou, sem lembrança, estranham, para depois reconhecer, vêem ali um registro de memória. A arte capaz e incapaz de salvar do esquecimento uma vida. O que resta de Julio Arenas é um rolo de filme que roda no imaginário de quem o assiste.
“Cerrar los ojos” reflete sobre o próprio cinema como dispositivo de memória, Erice, através do andamento do filme e sua natureza fragmentária, desenvolve uma meditação sobre a incapacidade da imagem cinematográfica de substituir uma vida, mas preservar o que dela ainda pode ser salvo. O diretor, Víctor Erice (e também Miguel Garay), não tem interesse em resolver um mistério policial, e sim, quer mostrar que todo filme é um arquivo de ausências, e que revisitá-lo é sempre um ato arriscado de reencontro com quem fomos.
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Fechar os Olhos: arquitetura da memória e dos afetos
por Emilly Ferreira
Dirigido por Víctor Erice e lançado em 2023, Fechar os Olhos (Cerrar los ojos) é um filme que aborda a memória, a amizade e a passagem do tempo de forma sensível e contemplativa. Mais do que buscar respostas definitivas, a obra convida o espectador a refletir sobre aquilo que permanece vivo dentro de nós, mesmo quando parece ter sido esquecido.
Como estudante de Arquitetura e Urbanismo, um dos aspectos que mais chamou minha atenção foi a construção dos ambientes. A direção de arte utiliza espaços, cores e objetos para comunicar emoções que muitas vezes não são verbalizadas pelos personagens. Os cenários mais frios, os tons neutros e o figurino sóbrio contribuem para transmitir o estado emocional de Miguel Garay, o protagonista. A ambientação reforça seu sentimento de perda e, ao mesmo tempo, sua recusa em aceitar a morte do amigo Julio Arenas. Ao longo do filme, percebe-se que Miguel prefere acreditar que Julio escolheu desaparecer e abandonar sua vida anterior, uma hipótese que lhe parece mais suportável do que a ideia da morte.
A fotografia e a composição das cenas trabalham em conjunto para aprofundar essa sensação. Os espaços parecem carregados de lembranças, como se cada ambiente guardasse fragmentos do passado. Em contraste, os momentos próximos ao mar e à praia trazem uma atmosfera mais leve e serena. A paisagem costeira transmite a ideia de que tudo possui seu próprio tempo, assim como as marés que vão e voltam. Essa metáfora dialoga diretamente com a trajetória de Julio e com a esperança persistente de Miguel de reencontrá-lo.
Narrativamente, o filme possui um ritmo lento e contemplativo. Os longos diálogos e a quantidade de cortes temporais podem tornar a experiência cansativa para parte do público. No entanto, essa lentidão parece intencional, permitindo que o espectador acompanhe o processo de reconstrução das memórias junto aos personagens. O filme não está interessado em criar suspense sobre o desaparecimento de Julio, mas em explorar as marcas deixadas por sua ausência.
O aspecto mais marcante da obra é a forma como ela trata a amizade. Miguel não busca apenas encontrar o amigo desaparecido; ele deseja reencontrar a pessoa que conheceu, recuperar uma conexão interrompida pelo tempo. Quando finalmente o encontra, percebe-se um desejo silencioso de que Julio recupere suas memórias e volte a ser quem era. Ainda assim, esse desejo nunca se transforma em imposição. O filme demonstra uma profunda compreensão da condição humana ao mostrar que amar alguém também significa aceitar suas limitações e respeitar seu percurso.
Outro aspecto que merece destaque é o uso do som e da trilha sonora. Fechar os Olhos é um filme marcado pelo silêncio. Em muitos momentos, a ausência de música não transmite vazio, mas sim contemplação. Víctor Erice permite que os ambientes, os ruídos cotidianos e as pausas entre os diálogos ocupem o espaço narrativo, criando uma experiência mais íntima e reflexiva. Quando a música surge, ela não busca conduzir emocionalmente o espectador de forma evidente, mas reforçar sentimentos já presentes na cena. Esse uso contido da trilha sonora contribui para a atmosfera melancólica da obra e para a sensação de que estamos acompanhando lembranças fragmentadas, que emergem lentamente da memória. O silêncio também funciona como uma representação da ausência que atravessa toda a narrativa: a ausência de Julio, das respostas definitivas e até mesmo do tempo perdido que os personagens tentam recuperar.
O desfecho merece destaque por sua sensibilidade. Ao evitar respostas definitivas e construir uma conclusão aberta, Erice rompe com a expectativa de encerramento tradicional e entrega ao público a tarefa de interpretar o destino emocional dos personagens. Em vez de solucionar o mistério, o filme reafirma seu interesse pelas memórias, pelos afetos e pelas perguntas que permanecem sem resposta.
Fechar os Olhos é, acima de tudo, um filme sobre a permanência. Sobre como as lembranças podem ser ocultadas, esquecidas ou enterradas em algum lugar da mente, mas jamais desaparecem completamente. Elas continuam existindo, moldando quem somos e acompanhando nossas trajetórias. Com uma narrativa delicada e uma construção visual cuidadosa, Víctor Erice cria uma obra profundamente humana, que fala sobre amizade, aceitação e a maneira como convivemos com nossas ausências.
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Os olhares de Ana, o olhar de Víctor Erice
por Luís Gonçalves
Em 2023, após um hiato de mais de 30 anos desde seu último longa-metragem, o cineasta espanhol Víctor Erice apresentou ao mundo (começando por uma estreia no Festival de Cannes) sua mais recente investida em direção e roteiro (este construído ao lado de Michel Gaztambide) com Fechar os Olhos (Cerrar los Ojos). Graças a excepcionais 169 minutos de duração, este drama nostálgico carrega um quê de épico, mas isto se deve também, e principalmente, ao se avaliar o contexto de sua produção e, ainda, as pessoas envolvidas na atuação: Manolo Solo, Jose Coronado e, notadamente, Ana Torrent.
A carreira de Erice em longas-metragens se iniciou com Ana Torrent, que com 7 anos de idade protagonizou o clássico revolucionário de Erice O Espírito da Colmeia (1973), e 50 anos depois, em Fechar os Olhos, filme que opera simbolicamente como um epicédio para a carreira do cineasta, Ana é uma peça-chave na narrativa. Esta, porém, acompanha mais especificamente a saga de Miguel (interpretado pelo renomado Manolo Solo), um diretor de cinema aposentado, em busca de seu antigo melhor amigo, Julio Arenas (Coronado), duas décadas depois que este desapareceu misteriosamente durante as gravações de um filme protagonizado por ele e dirigido por Miguel. Já logo de cara, a frustração de um diretor para com a incompletude de sua obra diz muito respeito à carreira do próprio Víctor Erice, cujo longa El Sur (1982) não pôde ser finalizado por conta de um corte de gastos da produção.
A vontade de Miguel de encontrar Julio é apenas acendida após sua participação, no ano de 2012 (ano em que acontece a trama de Fechar os Olhos) em um programa de televisão que decidiu cobrir a história. E é no contexto deste programa que a personagem interpretada por Ana Torrent, a filha de Julio Arenas, aparece na trama, por um breve momento. Seu nome? Ana. Como a atriz, sim, mas também como a personagem principal de O Espírito da Colmeia. Ana.
Ao final do filme dirigido por Víctor Erice há mais de 50 anos, a pequena Ana se levanta da cama durante a noite e caminha até a sacada do seu quarto e contempla o iluminado lado de fora. As palavras de sua irmã Isabel a respeito da comunicação com o (suposto) espírito que assombrava Ana ecoam em sua mente: “Apenas feche os olhos e chame por ele… ‘Sou Ana; sou Ana’”. Ana fecha os olhos por um breve momento e depois os abre. Vira-se para trás e, no último plano do filme, parece estar sendo engolida pela luz externa em meio à escuridão do quarto.
Em uma cena vital de Fechar os Olhos, a personagem de Ana Torrent, sob a baixa iluminação do quarto do pai que nunca teve a oportunidade de conhecer, sob o olhar perdido de seu pai amnésico, fecha seus olhos e fala baixinho “Sou Ana”. É a forma mais sincera (e emocionalmente bem construída) de Erice firmar o caráter metafórico de toda a produção, fazer referência a um de seus trabalhos passados, o que mais marcou sua carreira e o consagrou como um dos maiores cineastas espanhóis de todos os tempos, e homenagear o olhar tão representativo da atriz que, mesmo depois de 50 anos, retornou com energia expressiva para um de seus projetos. Mas é também notável como, em meio século, Erice nada perdeu de sua sagacidade e – ainda mais fulcralmente – sua sensibilidade no que diz respeito a dirigir uma experiência sensorial inebriante.
Que a cinematografia é mais pálida do que suas obras anteriores, não é um detrimento, afinal, aparenta se tratar muito mais de uma representação do envelhecimento de Erice e de seu cinema, como se as cores mais vibrantes de O Espírito da Colmeia e até mesmo El Sur tivessem se apagado, junto da memória de Julio Arenas e a motivação de vida de Miguel. É um filme visualmente ermo, e as outras áreas correspondem a essa sensação. Os trajes de várias das personagens são acinzentados. O som é moderado. É um filme com muitos diálogos, de fato, mas não são explosivos. São diálogos calmos, que prezam por um silêncio. A montagem é contemplativa, optando por um tratamento lento das imagens e dos eventos, dando a cada momento peso e significado.
As atuações parecem se desenvolver, majoritariamente, nos olhos. Manolo Solo imprime preocupação e melancolia, esta, fruto de uma saudade de um tempo diferente, uma falta de seu amigo. O olhar de Jose Coronado é absorto, quase ingênuo, ainda que com lampejos de uma clareza que parece surgir de súbito sem nunca se efetivar. Mas é o olhar de Ana Torrent que impressiona mais, apesar de sua participação reduzida no filme. Há um misto de medo e êxtase, há uma profunda inquietação sentida pela personagem com relação ao pai, escondida debaixo de uma fachada de indiferença. Na sequência final, enquanto Julio assiste, muito concentrado, a si mesmo no telão do cinema, Ana olha para ele, e seu rosto comunica uma miríade de sentimentos complexa e, mesmo assim, compreensível. Ou, se difícil de compreender, sua expressão é ao menos passível de ser sentida com força.
E a frase acima pode ser usada para se referir tranquilamente ao filme todo. Não é particularmente fácil, como espectador, racionalizar os 50 anos de carreira que Víctor Erice canaliza em menos de três horas em Fechar os Olhos. A obra se propõe a operar no campo de uma transcendência autorreferencial – o que dificulta de ver com clareza tudo que o autor pretendia comunicar, deixando quem assiste no escuro em muitos momentos menos explicativos –, mas, principalmente, de um atestado à potência do cinema como forma de preservar momentos na memória. Há um eventual saudosismo na forma como Erice trata do material cinematográfico em película, passando a ideia de que a filmagem analógica seria superior à digital (o que definitivamente não precisa ser verdade), mas, em compensação, é em favor de uma tocante mensagem a respeito do poder da arte.
É olhando para si mesmo através das lentes da ficção que Julio pode entrar em contato com seu passado, e o mesmo se aplica a Erice e sua revisão da própria carreira através do caráter metaficcional de Fechar os Olhos. Uma obra que leva consigo uma alta carga emocional, graças a um engajamento sensível das atuações, da direção e da equipe de modo geral, para voltar ao passado e revisitar uma história de vida no cinema. Diante das silenciosas catarses de uma evocação nostálgica da capacidade do cinema de deslumbrar e fazer recordar, pode-se enfim abraçar o escuro da incerteza, se deixar sentir mais do que compreender, e, enfim, assim como a(s) Ana(s) e Julio fechar os olhos.
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Aquilo que fica quando a memória falha, Uma crítica de Cerrar los ojos
por Breno Silva Gualda
O filme espanhol Cerrar los ojos (2023), dirigido por Víctor Erice, ao longo de suas quase três horas de duração, nos apresenta uma história que, apesar de inicialmente parecer se tratar do desaparecimento misterioso de um famoso ator, aos poucos se transforma em uma reflexão muito maior sobre memória, identidade e principalmente, sobre o próprio cinema. Por meio de uma narrativa lenta, que toma seu tempo e foca na contemplação, o diretor nos convida a acompanhar personagens que parecem carregar consigo diferentes pedaços de um passado que nunca foi completamente deixado para trás.
No filme, Miguel Garay, interpretado por Manolo Solo, é um escritor e antigo diretor de cinema que teve sua carreira marcada pelo desaparecimento de Julio Arenas, interpretado por José Coronado, ator principal de um filme que acabou nunca sendo concluído. Décadas depois, um programa de televisão decide retomar o caso e procura Miguel para participar da matéria. A partir desse momento, antigas lembranças, relações e acontecimentos ainda sem explicações começam novamente a ocupar espaço na vida e na mente do protagonista.
A direção e o roteiro se mostram muito inteligentes ao inicialmente nos fazer acreditar que estamos diante de uma história construída principalmente em torno de um mistério de desaparecimento. Entretanto, conforme a narrativa se desenvolve, fica cada vez mais evidente que descobrir exatamente o que aconteceu talvez não seja a principal preocupação do filme. O sumiço de Julio, funciona muito mais como um ponto de partida para que Erice consiga discutir sobre aquilo que permanece de uma pessoa depois de tantos anos e sobre a maneira em que, são as nossas lembranças as responsáveis por construir quem somos.
A escolha de Miguel como personagem principal também é outro ponto importante para a construção da narrativa. O personagem aparenta viver em uma espécie de constante convivência com seu próprio passado, mesmo após ter se afastado do cinema e seguido uma vida completamente diferente daquela que tinha anteriormente. Dessa forma, o filme constrói aos poucos a ideia de que algumas experiências podem até ser deixadas para trás, entretanto, isso não significa necessariamente que elas deixem de fazer parte de quem somos.
Outro destaque do filme é sem dúvidas a sua fotografia. Por meio de enquadramentos geralmente estáticos, ambientes pouco movimentados e planos mais longos, a câmera parece quase sempre observar os personagens ao invés de simplesmente acompanhá-los. Existe uma atenção muito grande aos rostos, aos espaços e principalmente aos silêncios, permitindo que seja possível perceber as mais sutis e pequenas expressões e gestos, dando-as um peso muito maior dentro das cenas.
A montagem também tem papel fundamental na maneira em que a história é contada. Com quase três horas de duração, Cerrar los ojos definitivamente não possui pressa alguma para desenvolver sua narrativa. Por meio de cenas extensas, longas conversas e momentos em que aparentemente muito pouco acontece, o diretor dá ao espectador tempo suficiente para observar e compreender aqueles personagens. Tempo o bastante até mesmo para processar e refletir junto do protagonista, sobre as novas informações que a história nos lança . Apesar desse ritmo poder tornar a experiência cansativa e até mesmo repetitiva em determinados momentos, ele parece ser também completamente intencional. O filme vai se construindo pouco a pouco, quase como uma lembrança que precisa de tempo para voltar ao consciente.
A trilha sonora segue essa mesma proposta mais simples e contemplativa. O filme não tenta utilizar músicas constantemente para determinar aquilo que o espectador deve sentir, dando muito mais espaço para sons ambientes, conversas e principalmente para o silêncio. Entretanto, quando as músicas aparecem dentro da própria história, elas ganham uma importância muito maior. Às vezes sendo cantadas em cena pelos próprios personagens, as canções parecem funcionar quase como pontes, conectando diferentes momentos da vida daqueles em cena.
Entretanto, talvez o aspecto mais interessante do filme seja sua metalinguagem, na qual Erice utiliza o cinema dentro do próprio cinema. Desde os primeiros minutos, existe uma presença muito forte das imagens como forma de registro e preservação. Fotografias, gravações e principalmente as cenas do filme jamais finalizado, parecem funcionar não apenas como lembranças, mas como pequenos pedaços de algo que já passou e que ainda consegue permanecer vivo através da imagem.
Essa relação entre cinema e memória acaba sendo uma das partes mais bonitas da obra. O filme parece constantemente questionar até que ponto uma imagem consegue preservar uma pessoa, um momento ou até mesmo uma versão de nós mesmos que já não existe mais. Dessa maneira, o filme deixa de ser apenas parte da história e passa a funcionar como um elemento chave dentro dela.
Cerrar los ojos, então, de maneira lenta e profundamente melancólica, consegue construir uma discussão interessante sobre memória, identidade e passagem do tempo, sem necessariamente depender do mistério apresentado no início da narrativa. Entretanto, por conta de seu ritmo devagar e uso excessivo de cenas contemplativas e do silêncio, pode não ser um filme que agrade espectadores acostumados com tramas mais ritmadas e bem resolvidas. Ao invés de encontrar respostas rápidas e claras para um desaparecimento, o filme parece mais interessado em compreender e refletir com calma sobre aquilo que ainda permanece depois que muitos anos já se passaram sem alguém.
No fim, Cerrar los ojos nos deixa justamente com a reflexão de que talvez lembrar não seja apenas conseguir recuperar e visualizar exatamente aquilo que aconteceu, mas também reconhecer os rastros e as marcas que determinadas pessoas, lugares e experiências deixaram dentro de nós.
Talvez, em alguns momentos, seja justamente ao fechar os olhos que conseguimos enxergar aquilo que o tempo ainda não conseguiu apagar.
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Fechar os Olhos transforma mistério em reflexão
por Terezinha Lima de Quadros
Dirigido por Víctor Erice e estrelado por Manolo Solo, José Coronado e Ana Torrent, o filme espanhol Fechar os Olhos (2023) começa com uma história bem direta: nos anos 1990, um ator famoso some sem deixar rastros no meio de uma filmagem e seu corpo nunca é achado. Anos depois, um programa de TV resolve relembrar o caso, e o antigo diretor do filme que também era o melhor amigo dele volta às lembranças do passado para tentar entender o que aconteceu. Só que, em vez de entregar um mistério cheio de reviravoltas, o filme usa esse sumiço como desculpa para falar de algo mais humano e mais profundo, como por exemplo, o que o tempo faz com a gente ou como se a gente se adapta as mudanças.
É um filme que pede calma e paciência. Quem for assistir esperando uma investigação rápida [como eu] pode estranhar o ritmo, já que Erice prefere focar nos sentimentos dos personagens e no peso da velhice. A história tem um tom triste, mas sem forçar a barra para fazer chorar. A fotografia reflete bem essa sensação, usando cenas mais escuras nos momentos de lembranças e imagens mais claras quando a trama faz a gente ‘‘respirar’’. Os sons da natureza, como o vento e o mar e até o latido do cachorro dele ajudam a criar uma ideia de vida real.
No final, o reencontro dentro de uma antiga sala de cinema é uma das cenas mais bonitas do filme. Sem exagerar, o momento mostra com muita simplicidade o poder que algo que realmente é importante pra cada um de nós — ou uma fotografia, como no caso da própria história do filme — tem de fazer voltar essas lembranças que pensávamos ter perdido.
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Uma crítica sobre o filme Fechar os Olhos
por Eliza Freire
O longa-metragem Fechar os Olhos, lançado em 2023 e dirigido pelo espanhol Víctor Erice, acompanha Miguel Garay, um cineasta que retoma o passado após o desaparecimento de seu amigo e ator Julio Arenas durante as filmagens de um filme. Anos depois, o caso volta a ser lembrado, levando Miguel a revisitar antigas relações e acontecimentos que pareciam esquecidos. A obra utiliza o mistério do desaparecimento como ponto de partida para refletir sobre memória, amizade, envelhecimento e passagem do tempo.
Um dos aspectos mais marcantes do filme é justamente a forma como Erice constrói sua narrativa. Em vez de transformar o desaparecimento em uma investigação tradicional, o diretor aposta em um ritmo lento e contemplativo, utilizando silêncios, diálogos e imagens do passado para aproximar o espectador das lembranças dos personagens. A fotografia e a montagem também contribuem para essa atmosfera melancólica, misturando diferentes momentos da vida de Miguel e mostrando como o passado permanece presente.
O cinema também ocupa um papel central na narrativa. Filmes, fotografias, gravações e objetos antigos funcionam como formas de preservar aquilo que o tempo tenta apagar. É justamente nessa relação entre cinema e lembrança que Fechar os Olhos se torna mais marcante. Mais do que contar a história de um homem desaparecido, o filme questiona o que permanece quando pessoas, relações e momentos deixam de fazer parte do presente.
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Laura Ferreira da Silva Nascimento
Fechar os Olhos (2023), dirigido por Víctor Erice, acompanha Miguel Garay, um diretor de cinema que anos após o desaparecimento de seu amigo acaba novamente envolvido no caso ao participar de uma investigação sobre seu paradeiro. A partir disso, a narrativa se desenvolve entre memórias de acontecimentos do passado, conflitos internos e a relação do protagonista com o próprio cinema.
Com um ritmo bastante lento, o filme não demonstra pressa em desenvolver sua história. Muitas cenas são construídas a partir de diálogos simples, mas que carregam uma contemplatividade.
Em diversos momentos, os fade-ins e fade-outs prolongados funcionam quase como divisores de capítulos, marcando a passagem da narrativa e acompanhando o desenvolvimento das lembranças e dos conflitos do protagonista.
O passado não é apresentado apenas como uma sequência de acontecimentos já encerrados, mas como algo que continua sendo reconstruído no presente. Ao contrário do que o título sugere, assisti-lo pede que se mantenham os olhos abertos, pois a tensão do filme não é construída por grandes reviravoltas ou acontecimentos constantes. É sobre acompanhar as pequenas mudanças e aceitar o ritmo lento da obra para perceber como montagem e fotografia constroem, pouco a pouco, essa atmosfera de lembrança e incerteza.
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Nayara Santos
O filme conta a história de um ator que desaparece durante as gravações de um filme e, por muitos anos, não sabemos exatamente o que aconteceu com ele. A história acompanha principalmente seu amigo Miguel, que era o diretor do filme e, anos depois, acaba voltando a entrar em contato com esse passado. A fotografia é muito bonita e o filme transmite uma sensação de calma durante boa parte da história. Mesmo tratando de um desaparecimento, não senti que ele fosse triste o tempo todo. O personagem principal passa uma sensação de nostalgia, como alguém que sente falta do passado, mas que também aprendeu a conviver com ele. Gostei de como o filme trabalha a memória e o tempo. Miguel parece estar sempre entre o presente e as lembranças de sua amizade com o ator. O cinema também aparece como uma forma de guardar essas memórias, fazendo com que pessoas e momentos do passado continuem existindo através das imagens. Para mim, Fechar os Olhos é um filme tranquilo e nostálgico, que fala principalmente sobre amizade, memória, perda e a passagem do tempo.
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Gustavo da Luz
“Cerrar los ojos”, em portugues “Fechar os Olhos” dirigido por Victor Erice é um drama lançado no ano de 2023. O filme acompanha a tentativa de resolução de um desaparecimento, à medida que seus personagens também confrontam seu próprio passado.
O ator Julio Arenas desaparece misteriosamente no que seria um acidente ou suicídio. Em circunstâncias incertas, seu último filme nunca é exibido. Muitos anos depois, Miguel (Manolo Solo), diretor e amigo de Júlio, ao participar de um programa de televisão, revive as memórias de seu último filme, numa tentativa de trazer sentido a eventos nunca explicados.
O filme discute sobre memória, o passar do tempo e o envelhecimento. Suas personagens, através de relatos individuais, tentam formar uma figura de quem foi Júlio, motor principal da trama, o que contribui para entendê-lo como uma figura complexa e multifacetada . Ainda assim existe um limite claro de até quanto se pode compreender outra pessoa.
O peso do passado às vezes é difícil de ser conciliado com o presente. O filme parece constantemente revisitar momentos já distantes das vidas de Miguel e Júlio que, em certos momentos, tentam escapar de suas dores ao abandonar a própria identidade. Ou simplesmente, com o passar dos anos, tornaram-se pessoas diferentes. O cinema é amplamente referenciado. O filme prevalece como imagem fiel de um momento da vida dos personagens, um retrato do passado em paralelo com a própria memória.
Ao longo do filme, o diretor usa um enquadramento bastante próximo dos personagens para acompanhar a figura de Miguel, que aparece em quase todas as cenas e conduz a trama. Essas características marcam uma experiência, que se torna extremamente pessoal e atrelada ao protagonista. Portanto, o filme se volta ao passado, a memória de seus personagens, numa tentativa de defini-los.
“Cerrar los ojos” é uma obra densa e carregada de simbolismo. Ao longo de suas quase três horas, com uma narrativa lenta e às vezes monótona, o filme torna-se um retrato de pessoas tentando entender quem foram e quem se tornaram.
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As Memórias Desvanecidas Impregnadas na Película
por Gustavo Mendes
Fechar os Olhos (Cerrar Los Ojos, 2023) é um filme espanhol, dirigido por Victor Erice, que também assina o roteiro junto a Michael Gaztambide. O longa é um drama, que gira em torno de um ex-diretor de cinema, Miguel Garay (Manolo Solo), quando ele decide participar de um programa de televisão, contando sobre o desaparecimento de seu antigo amigo e grande ator, Julio Arenas (José Conrado), que sumiu subitamente, 20 anos antes, durante as gravações de seu último filme, nunca finalizado.
A obra inicia, em seus primeiros minutos, com o filme inacabado, ainda estrelado por Julio Arenas, onde ele interpreta um detetive particular, que é contratado para encontrar e trazer a filha de um homem muito rico e também muito doente, para ele poder vê-la uma última vez. Quando a cena acaba, somos colocados ao lado de Miguel, e acompanhamos toda a sua rotina. Desde a entrevista para o programa de TV, conversas com seu antigo editor, um encontro com a filha de Julio e até a busca de um romance do seu passado.
O filme é sólido, estável, não há grandes efeitos especiais ou até movimentos de câmera inusitados. Erice demonstra um controle absoluto sobre os aspectos mais básicos do cinema, utilizando do quadro como uma tela para os atores darem vida ao texto, esculpindo cada fala, emoção e silêncio. Os 169 minutos de filme, lhe permite se aprofundar nas pequenas minúcias desses personagens que já viveram tanto e parecem não saber o que a mais para viver. O seu passado nunca é escrachado na tela, seus vislumbres são através de falas, fotografias, caricaturas, e até a película do filme inacabado. Uma memória constantemente tátil, intrinsecamente interligada com a ambientação em 2012, antes da grande revolução dos smartphones e de um mundo radicalmente digital.
Victor Erice, apesar de renomado, dirigiu pouquíssimos longas de ficção em sua carreira de mais de 50 anos. E é impossível não questionar como os elementos centrais de Fechar os Olhos (2023) se relacionam com sua própria carreira. Ele retorna de um hiato de mais de 30 anos desde seu último longa, o documentário El Sol Del Membrillo (1992), e 40 desde seu último longa de ficção, El Sur (1983) e 50 de seu primeiro longa, El Espíritu de la Colmena (1973).
Cerrar Los Ojos (2023) se torna um estudo sobre a reflexão do passado, os caminhos obtusos que a vida toma, as perguntas que ficam sem respostas, a memória que a mente esquece, mas o cinema ainda lembra.
