Fechar os olhos (2023), dirigido por Victor Erice
Fechar os olhos: quando o cinema se transforma em memória
Júlia Mendonça
Fechar os olhos (2023), dirigido pelo espanhol Victor Erice, é um filme que fala sobre memória, desaparecimento, identidade e, principalmente, sobre a relação entre as pessoas e o próprio cinema. A obra acompanha Miguel, um antigo diretor de cinema que é chamado para participar de um programa de televisão que investiga o desaparecimento de um ator durante as filmagens de um de seus filmes. A partir dessa investigação, Miguel acaba revisitando acontecimentos do seu passado e pessoas que fizeram parte de sua vida.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção foi o ritmo do filme. Fechar os olhos não parece ter pressa para chegar a uma conclusão, e isso pode causar uma sensação diferente para quem está acostumado com narrativas mais rápidas. A montagem acompanha esse ritmo mais contemplativo e permite que as cenas tenham tempo para existir. Em vez de apenas avançar a história, o filme parece querer que o espectador observe, pense e sinta.
A fotografia também contribui bastante para essa sensação. Existe uma escolha por imagens que parecem simples, mas que carregam muito significado, principalmente quando relacionadas às lembranças dos personagens. A direção de Erice valoriza os espaços, os rostos e os pequenos gestos, fazendo com que coisas aparentemente banais adquiram importância. O som e a trilha sonora seguem essa mesma lógica, sem tentar conduzir o espectador de maneira exagerada. Em vários momentos, o silêncio também parece ter uma função narrativa.
Minha principal interpretação é que Fechar os olhos é menos um filme sobre encontrar respostas e mais um filme sobre aprender a conviver com as perguntas que permanecem. O desaparecimento de Julio é importante, mas o que realmente permanece ao longo da narrativa é a relação dos personagens com aquilo que perderam e com aquilo que ainda conseguem lembrar. Por isso, o filme exige uma participação maior do espectador. Ele não entrega tudo pronto, e talvez seja justamente essa ausência de respostas imediatas que faça com que a história continue na nossa cabeça depois dos créditos.
Para mim, Fechar os olhos mostra que nem sempre precisamos enxergar tudo para compreender alguma coisa. Às vezes, é justamente ao fechar os olhos que conseguimos perceber aquilo que permanece quando já não podemos mais ver.
----
Daigo Allebrandt
Cerrar los ojos, drama dirigido por Víctor Erice, é um daqueles filmes que prende o espectador pelo simples envolvimento com os personagens da trama. Miguel Garay, um escritor em profundo hiato, é chamado para uma entrevista para um programa televisivo que busca resolver um dos maiores mistérios do país: o desaparecimento do ator Julio Arenas durante as gravações do último filme de Miguel Garay, ainda nos anos 90.
Cerrar los ojos trabalha com muita competência os silêncios em sinergia com a fotografia “estéril” ou “austera”, e neste último ponto, é justamente um artifício sofisticado do filme em diferenciar a filmografia analógica para a digital, metalinguisticamente demonstrada no filme, ao apresentar o último filme de Miguel Garay ao espectador logo na introdução do longa. A montagem do filme busca ritmar através das pausas a dimensão psíquica de Miguel, do mesmo modo, o som valoriza a ausência de presença instrumental, que quando vem a tona, entra de modo completamente diegético, propondo-se manter o aspecto documental e realista da trama. A direção de arte conquista um espaço envelhecido, frio e de paixões sem brasas, representando o estado da vida de Miguel através da sociedade contemporânea espanhola, que, há tempos não escreve um romance, e não dirige filmes, buscando fugir da realidade produtiva da sociedade contemporânea e suas responsabilidades do passado.
O longa busca evocar a sensação de uma geração pós-franquista, que em parte, luta pela memória dos que sofreram a repressão estatal, consequentemente estabelecendo uma visão crítica sobre a Ley de Memória Democrática de 2022, um período de reavaliação dos traumas sofridos na ditadura franquista.
O filme assumiu imediatamente um papel de fechamento testamentário na historiografia do cinema espanhol, conectando-se diretamente à filmografia anterior de Erice. A presença de Ana Torrent — meio século após O Espírito da Colmeia (1973) — confere à obra o estatuto de documento histórico sobre a evolução do olhar no cinema ibérico. Cerrar los ojos consolidou-se como um manifesto crítico contra o esquecimento programado, reafirmando que o valor da imagem reside na sua capacidade de testemunhar o tempo, a perda e a persistência da identidade humana diante da desintegração histórica.
----
Fechar os olhos: a memória como forma de permanência
Lorenzzoni
Assistir a Fechar os Olhos (Cerrar los ojos), de Víctor Erice, foi uma experiência bastante diferente do cinema mais comercial que estamos acostumados a ver. O filme acompanha Miguel Garay, um diretor de cinema que volta a lidar com o desaparecimento misterioso do ator Julio Arenas, ocorrido décadas antes durante as filmagens de um longa-metragem.
O que mais me chamou a atenção foi o ritmo da narrativa. O filme é lento e contemplativo, mas essa característica faz sentido dentro da proposta da obra. Erice parece querer que o espectador sinta o peso do tempo e das lembranças junto com os personagens. Há muitos silêncios e momentos de observação que ajudam a construir uma atmosfera melancólica e reflexiva.
Visualmente, o filme é muito bonito. A fotografia utiliza enquadramentos simples, mas carregados de significado, transmitindo uma sensação constante de nostalgia. A trilha sonora também é discreta e contribui para que as emoções surjam de forma natural, sem exageros. Nas atuações, destacam-se Manolo Solo, José Coronado e Ana Torrent, que interpretam personagens marcados pela passagem dos anos e pelas ausências que carregam consigo.
Para mim, o tema central do filme não é exatamente o desaparecimento de Julio Arenas, mas a memória. Ao longo da história, fica evidente a preocupação com aquilo que permanece quando as pessoas deixam de estar presentes. O cinema surge como uma forma de preservar vidas, rostos e histórias que poderiam ser esquecidos. Nesse sentido, Fechar os Olhos também funciona como uma homenagem ao próprio cinema e ao seu poder de conservar lembranças.
Outro aspecto interessante é que o filme marca o retorno de Víctor Erice ao longa-metragem de ficção após mais de três décadas, o que torna a obra ainda mais significativa dentro de sua trajetória artística.
Ao final, tive a sensação de que Fechar os Olhos fala sobre a resistência ao esquecimento. Apesar de sua longa duração e do ritmo mais lento, é um filme sensível e recompensador para quem se permite entrar em sua proposta. Mais do que contar uma história de mistério, a obra nos convida a refletir sobre o tempo, os afetos e a importância de lembrar daqueles que passaram por nossas vidas.
----
Fechar os Olhos: uma reflexão sobre memória e tempo
Vitor Sebastiany da Silva
"Fechar os Olhos" (2023), dirigido por Víctor Erice, é um filme espanhol que acompanha a investigação sobre o desaparecimento de um ator ocorrido décadas antes. A partir desse mistério, a história traz temas como memória, identidade e a passagem do tempo.
O que mais me chamou atenção foi o ritmo do filme, que é bastante lento e diferente da maioria das produções de hoje em dia. Apesar de exigir muita paciência do espectador, essa escolha ajuda a criar um clima de reflexão. A fotografia é bonita e os cenários e contextos contribuem para transmitir uma sensação de nostalgia muito interessante. Além disso, a trilha sonora é discreta e as atuações passam muita naturalidade.
Na minha visão, o filme não busca apenas explicar o desaparecimento do personagem, mas mostrar como as lembranças permanecem vivas mesmo após muitos anos desse acontecimento. A obra também faz uma homenagem ao próprio cinema, demonstrando como os filmes podem preservar histórias e memórias.
Apesar de ser um filme longo, considero que sua mensagem é relevante. Fechar os Olhos faz o espectador pensar sobre o passado, as relações humanas e aquilo que permanece em nossa memória ao longo da vida. É um filme sensível e profundo, que valoriza mais a reflexão do que a ação.
----
Sofia Rachadel Campos
Fechar os Olhos (Cerrar los ojos, título original) é um longa-metragem de drama lançado em 2023, dirigido por Víctor Erice e escrito por Erice e Michel Gaztambide. Com aproximadamente 169 minutos de duração, é protagonizado por Manolo Solo, José Coronado e Ana Torrent. O filme foi produzido entre Espanha e Argentina e participou do Festival de Cannes de 2023.
A história acompanha Miguel Garay, um diretor de cinema cujo amigo e ator Julio Arenas desapareceu durante as gravações de um filme, muitos anos antes. Seu corpo nunca foi encontrado. Depois de um programa de televisão decidir relembrar o caso, Miguel começa a revisitar esse passado, reencontrando pessoas e lembranças ligadas ao desaparecimento do amigo.
O filme tem um ritmo bastante lento, com cenas e diálogos longos. Em alguns momentos, isso pode deixar a experiência um pouco cansativa, principalmente por ser um filme de quase três horas. Ao mesmo tempo, esse ritmo combina com a proposta da obra, que fala muito sobre lembranças, passagem do tempo e acontecimentos do passado que continuam afetando as pessoas.
Outro ponto interessante é a presença do cinema dentro do próprio filme. Algumas cenas mostram imagens da produção que Miguel estava gravando quando Julio desapareceu. Essas imagens antigas acabam tendo um papel importante, porque mostram como o cinema consegue guardar momentos e pessoas mesmo depois de muitos anos.
Um dos principais temas de Fechar os Olhos é a memória. O filme mostra como nossas lembranças ajudam a formar nossa identidade, mas também como elas podem mudar, enfraquecer ou até desaparecer com o tempo. A amizade entre Miguel e Julio também é importante, porque o desaparecimento deixou uma parte da vida de Miguel sem uma resposta definitiva.
Na minha visão, a principal qualidade de Fechar os Olhos está na forma como o filme fala sobre memória, identidade e envelhecimento sem transformar o desaparecimento de Julio apenas em um mistério a ser resolvido. A história parece mais preocupada em mostrar o impacto que o tempo teve sobre essas pessoas.
Mesmo sendo um filme longo e lento, Fechar os Olhos consegue construir uma reflexão interessante sobre aquilo que permanece depois de muitos anos. No final, o cinema aparece quase como uma forma de guardar lembranças que as próprias pessoas podem perder.
