Hereditário (2018), direção e roteiro de Ari Aster
O peso do luto e a transformação do horror em Hereditário
Davi Citatin
Hereditário, dirigido por Ari Aster, é um dos filmes mais importantes do terror contemporâneo. Muito além de provocar sustos, a obra utiliza o horror como ferramenta para explorar temas como luto, culpa, relações familiares e traumas, construindo uma experiência emocionalmente desgastante e extremamente envolvente. Desde os primeiros minutos, fica evidente que o foco principal não está na ameaça sobrenatural, mas na deterioração psicológica de uma família marcada por perdas sucessivas.
O maior mérito do filme está justamente na forma como desenvolve esse drama familiar. O roteiro constrói seus conflitos de maneira gradual, permitindo que cada personagem reaja ao sofrimento de forma distinta e convincente. Essa construção faz com que o espectador não enxergue apenas uma família vivendo acontecimentos extraordinários, mas pessoas comuns tentando lidar com circunstâncias emocionalmente insuportáveis. É essa proximidade com a realidade que torna o terror de Hereditário tão angustiante.
Outro aspecto que merece destaque é sua qualidade técnica. A fotografia utiliza enquadramentos extremamente cuidadosos para reforçar a sensação de desconforto e isolamento, enquanto a direção de Ari Aster demonstra enorme controle sobre o ritmo da narrativa. O filme raramente depende de sustos fáceis, preferindo criar uma atmosfera constante de tensão, onde o medo surge muito mais pela expectativa e pelo desconforto do que por explosões repentinas de violência.
Nas atuações, Toni Collette entrega uma performance absolutamente extraordinária. Sua interpretação consegue transmitir de maneira extremamente convincente o desespero, a culpa e o desgaste emocional da personagem, sustentando alguns dos momentos mais marcantes do filme. É uma atuação intensa do início ao fim, capaz de tornar o sofrimento daquela família ainda mais palpável. O restante do elenco também mantém um nível muito alto, contribuindo para que os conflitos familiares pareçam sempre naturais e críveis.
Talvez o aspecto mais forte da obra seja justamente sua capacidade de gerar empatia. Em diversos momentos, o filme coloca o espectador diante de situações tão dolorosas que o horror deixa de estar apenas naquilo que acontece, passando a existir também na simples ideia de imaginar como seria viver aqueles acontecimentos. Essa carga emocional faz com que Hereditário seja uma experiência particularmente pesada, especialmente para quem se identifica com os temas abordados.
Ainda assim, algumas escolhas narrativas podem dividir opiniões. A principal delas está na transição do drama familiar e do terror psicológico para um horror explicitamente sobrenatural em sua reta final. Essa mudança pode causar certa frustração para quem se envolve justamente com a abordagem mais psicológica construída durante boa parte da narrativa. Particularmente, existe a sensação de que o filme poderia alcançar um impacto ainda maior caso mantivesse esse caminho até o encerramento, explorando o sofrimento humano sem recorrer de maneira tão direta ao elemento sobrenatural, tal qual realizado em obras como ‘Ilha do Medo’.
No entanto, essa percepção diz mais respeito à preferência por determinado tipo de horror do que propriamente a uma falha técnica da obra. O filme permanece extremamente consistente dentro daquilo que se propõe a fazer e executa sua ideia com enorme competência.
Além de suas qualidades individuais, Hereditário também ocupa um papel importante dentro da história recente do gênero. Em um período em que o terror comercial era amplamente dominado por remakes, reboots e sequências de franquias já desgastadas, o filme ajudou a demonstrar que ainda havia espaço para obras autorais, psicológicas e mais ambiciosas. Ao lado de ‘A Bruxa’ e ‘Corra!’, tornou-se um dos principais responsáveis por impulsionar uma nova fase do horror durante a década de 2010.
No geral, Hereditário é um filme extremamente bem dirigido, tecnicamente refinado e emocionalmente devastador. Sua construção de tensão, a qualidade do roteiro, a força das atuações e a maneira como trabalha o drama familiar fazem dele uma das obras mais marcantes do terror contemporâneo. Ainda que a mudança para um horror mais sobrenatural diminua parte de seu impacto sob uma perspectiva pessoal, o saldo permanece amplamente positivo, consolidando o filme como um dos grandes marcos do gênero nos últimos anos.