Orgulho e Preconceito (2005), dir. Joe Wright
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A delicadeza e a exuberância de Orgulho e Preconceito (2005)
Sendo uma adaptação de uma das mais famosas histórias da literatura inglesa e mundial, o filme Orgulho e Preconceito, dirigido pelo também inglês Joe Wright em 2005, é um alvo de grandes expectativas por parte do público que passa pela experiência de assisti-lo. Considerando elementos como as atuações, o senso estético transmitido por meio da fotografia e da trilha sonora, e os diversos diálogos românticos adaptados diretamente do livro, é possível afirmar que o produto final atende às expectativas e se consolida como um clássico do tão popular gênero de filmes de romance.
O filme conta a história da família Bennet, focando na dinâmica entre seus membros e também entre eles e o restante da sociedade inglesa. Ao explicitar questões como, para além das mencionadas no título do longa, dinâmicas de classe, reputação social e o significado do casamento, a obra dialoga com diferentes momentos históricos, apesar de ter como plano de fundo a década de 1790, e nos faz refletir sobre como essas questões mudaram (ou não) ao longo da história, desde antes do recorte aqui proposto até os dias atuais. A brutalidade dessa realidade, observada em elementos como a misoginia que envolve o destino das personagens com relação ao papel da mulher na sociedade da época, contrasta com e é explicitada, de maneira sutil, mas pontual, pela delicadeza das cenas românticas do filme.
Colocando sob análise a estética do filme, são muitos os elementos visuais e sonoros que se destacam. As cores e tonalidades das filmagens, as diferentes configurações de luz e sombra, os belos figurinos e a emotiva trilha sonora, ao mesmo tempo grandiosa e intimista, se combinam para criar uma ambientação elegante e delicada, mas também equilibrada, sem ser melosa demais. Por exemplo, as diversas cenas de personagens caminhando, principalmente da protagonista Elizabeth, são muito bem utilizadas como instrumento para mostrar a natureza da região, que tem sua beleza exaltada pelas técnicas de iluminação utilizadas, e criar um ambiente romântico e calmo que conforta quem assiste.
Num geral, Orgulho e Preconceito é um filme que se destaca tanto por elementos trazidos da obra original quanto por seus próprios recursos. A obra passa a sensação de um trabalho cuidadoso, feito com carinho e com a intenção de sensibilizar o público. Para aqueles que costumam classificar os filmes de romance como superficiais e simplistas, é um filme que desconstrói preconceitos, convidando para uma viagem no tempo e oferecendo uma experiência marcante e emocionante.
Graziela Alves
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Orgulho e preconceito: clássico contemporâneo
A escritora Jane Austen, em suas manifestações literárias romancistas do século XVIII, estabeleceu uma ruptura com o modelo de literatura praticado até então ao inserir argumentos sobre o papel feminino na sociedade, as mudanças no campo, a constituição de riquezas na Inglaterra, além de outros. Essa mudança na visão de interpretação da realidade rural da época direcionou à aclamação crítica sob suas obras, uma maior adesão popular aos seus escritos e o surgimento de uma nova categoria literária a partir do século XIX: o realismo. Com isso, um dos livros de maior reconhecimento publicado pela autora é o clássico Orgulho e Preconceito, que narra a história da família Bennet e suas tentativas árduas em ascender socialmente, especialmente por meio do casamento entre as jovens filhas e os representantes da elite da época. O foco, entretanto, se dá no relacionamento entre a segunda filha do casal Bennet, Elizabeth, e o nobre com alto poder econômico Fitzwilliam Darcy, ou somente Sr. Darcy, do qual é extraída uma narrativa inusual proposta pela autora de sobreposição de papéis tipicamente romancistas acerca de um casal. Assim, a adaptação cinematográfica de 2005 do romance de Jane Austen dirigida pelo diretor Joe Wright incorpora esses elementos essenciais da história em uma produção digna de um filme clichê sobre a temática, o que faz entender o apelo popular existente até hoje sobre o filme visto a transmissão fortunata de sua essência para as telas.
Um dos pontos de maior manifestação dessa característica é a forma como o casal principal da trama se revela para o público. O Sr. Darcy se porta como um homem fechado em suas convicções, amargando uma introspecção que instiga a inquietude da Elizabeth Bennet, a qual se aproveita da passividade do nobre inglês para provocar diálogos que sustentem suas concepções e pensamentos céticos sobre o homem. Nesse sentido, ocorre uma permutação na forma que os casais do século XVIII são retratados, visto que a figura feminina não se posiciona de maneira submissa à figura masculina, mas o induz e o persuade. Joe Wright, dessa forma, aborda essa relação de maneira límpida com o objetivo de transmitir as ideias de Jane Austen convenientemente, propondo a mulher como protagonista e articuladora do amor, não o contrário.
Deve-se ressaltar uma das qualidades mais marcantes do longa, que se expressa nos figurinos oitocentistas propostos. Os detalhes das roupas e acessórios instigam a apreciação dos costumes e reforçam a ambiência de séculos passados em uma utilização apropriada do recurso.
Os pontos simplistas de comédia também se mostram presentes no longa, trazendo maior cativação do público para com a obra e permitindo maiores momentos de entretenimento cômico.
O legado de Orgulho e Preconceito no cinema parece se estender para outras produções como Adoráveis mulheres (2019) e Barbie (2023), ambos da diretora Greta Gerwig que, inclusive, cita o filme no fenômeno de 2023.
Mesmo soando demasiadamente cansativo em diversos momentos, Orgulho e Preconceito é um longa-metragem ideal para o público interessado em filmes clichês de romance por sua história profunda e melosa, o que condiz com seu êxito em angariar diversas pessoas para sua aprovação.
Marlon Ramos
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Um Amor Além das Primeiras Impressões
"Orgulho e Preconceito", na visão de Joe Wright, captura de forma vibrante o coração de uma das histórias de amor mais teimosas da literatura. O filme gira em torno do conflito imediato entre Elizabeth Bennet, uma jovem espirituosa e inteligente que se recusa a aceitar convenções, e o Sr. Darcy, um homem imensamente rico cuja timidez extrema é facilmente confundida com arrogância. O primeiro encontro desastroso deles estabelece a base de todo o drama: o preconceito dela contra ele e o orgulho que o impede de se conectar. O filme nos leva pela jornada cativante desses dois personagens, forçando-os a confrontar suas primeiras impressões e a descobrir a verdade um sobre o outro por baixo das fachadas sociais.
O grande trunfo do filme é a sua atmosfera palpável e "vivida". Ao contrário de muitos dramas de época que parecem impecáveis e distantes, este parece real; há lama nas barras dos vestidos e a casa da família Bennet é calorosa, mas caótica. Essa abordagem traz os personagens para perto do público. A tensão entre Lizzy e Darcy é o motor emocional da história, carregada de olhares não ditos e diálogos afiados, culminando em momentos de pura intensidade. A química entre os protagonistas faz com que o espectador sinta o nervosismo e a frustração do relacionamento deles a cada passo.
No final, "Orgulho e Preconceito" é um triunfo porque, embora seja visualmente deslumbrante e embalado por uma trilha sonora inesquecível, seu foco nunca deixa de ser humano. Lizzy Bennet é uma heroína com a qual é fácil se identificar, alguém que busca mais do que segurança financeira, ela busca ser verdadeiramente compreendida. É um filme que explora a dor dos mal-entendidos e a alegria de finalmente encontrar alguém que o vê por quem você realmente é, provando ser um romance inteligente, emocionante e atemporal.
Brenda Alves
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"Você me mostrou o quanto eu estava cego.” Essa confissão sintetiza o coração narrativo de Orgulho e Preconceito: um despertar lento, construído por silêncios, olhares e mal-entendidos. Sob a direção delicada de Joe Wright, o filme transcende a adaptação literária para se tornar um estudo sobre percepção, de si, do outro e do mundo ao redor. A narrativa é conduzida não apenas pelas palavras, mas pelo ritmo interno dos gestos, pela forma como o tempo se estende em pausas, respirações e hesitações. A câmera, sempre atenta, traduz o que a linguagem verbal não alcança. Movimentos longos e fluidos revelam tanto o espaço social quanto o emocional, transformando bailes, passeios e jantares em coreografias sutis de desejo e repressão. O roteiro respeita o texto de Austen, mas lhe dá corpo e movimento: o que antes era subtexto agora pulsa em expressões contidas, em diálogos interrompidos, em uma tensão que nunca se resolve por completo. A montagem, precisa e paciente, mantém a cadência de uma época em que as emoções precisavam se esconder atrás da etiqueta. Já a trilha de Dario Marianelli costura o filme com leveza e melancolia, tornando cada cena uma extensão do sentimento não dito. Orgulho e Preconceito é, assim, uma narrativa de revelação: o que começa como um duelo de palavras se transforma em uma dança emocional entre orgulho e vulnerabilidade. É cinema que respira literatura, e literatura que encontra, no olhar, seu silêncio mais eloquente.
Kailani Novello
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