Santiago (2006), de João Moreira Salles


Santiago : a memória de quem lembra

por Isabel Muñoz

Santiago é um documentário brasileiro dirigido por João Moreira Salles, lançado em 2006/2007, com duração aproximada de 79 minutos. O filme parte de um material originalmente filmado em 1992, quando João tentava realizar um filme sobre Santiago Badariotti Merlo, que havia trabalhado durante aproximadamente trinta anos como mordomo da família do diretor. No entanto, aquele projeto ficou inacabado e, mais de uma década depois, João voltou às imagens para construir uma nova obra a partir delas. Desde o início, essa particularidade faz com que Santiago seja diferente de um documentário convencional, porque não estamos vendo apenas a história de um homem, mas também as lembranças de quem decidiu filmá-lo.

Minha primeira impressão ao assistir ao filme foi justamente essa. O preto e branco e a consciência de que estamos vendo fragmentos de um filme que nunca chegou a ser realizado fizeram com que eu entendesse Santiago como uma espécie de revisão da memória de João. Senti que estamos entrando em suas lembranças: em sua infância, em sua relação com Santiago e também na maneira como, muitos anos depois, ele tenta compreender aquilo que aconteceu quando ainda estava começando a construir seu próprio olhar como cineasta. Antes mesmo de conhecermos completamente o personagem, o filme dedica um tempo para mostrar e apresentar os espaços. Isso me pareceu importante porque me ajudou a me situar dentro da história e a entender o lugar a partir do qual Santiago seria apresentado.

À medida que o documentário avança, fica claro que a direção possui um caráter profundamente pessoal. João não tenta desaparecer completamente do filme; pelo contrário, sua presença está constantemente por trás das decisões que vemos e ouvimos. Estamos diante de sua perspectiva sobre Santiago, uma perspectiva construída a partir da infância, do afeto e das lembranças que ele teve tempo de pensar e repensar. Isso faz com que até mesmo as decisões tomadas durante as entrevistas adquiram outro significado quando são observadas a partir do presente. Em alguns momentos, senti certa impaciência por parte de quem estava fazendo as perguntas, especialmente quando pediam a Santiago que repetisse alguma resposta ou seguisse determinadas orientações. No entanto, essas barreiras acabam desaparecendo porque Santiago se expressa com muita naturalidade e demonstra um interesse genuíno em contar suas histórias.

Justamente essa naturalidade foi um dos elementos que mais me chamou a atenção no personagem. Santiago não parece se incomodar quando precisa repetir alguma coisa e, pelo contrário, parece realmente gostar de estar ali conversando e relembrando. Isso faz com que, aos poucos, ele deixe de ser apenas alguém que responde às perguntas e se transforme em uma pessoa que possui muitas histórias que deseja compartilhar. Sua presença é especialmente interessante porque, embora o filme seja construído principalmente a partir de entrevistas, a fotografia e o enquadramento conseguem dar a ele o lugar de protagonista. Os diferentes espaços e composições também permitem que o espectador tenha momentos para respirar e ouvir o que Santiago tem a dizer sem sentir que tudo foi construído da mesma maneira.

Um momento que me pareceu especialmente significativo é quando Santiago dança utilizando as castanholas. A cena transmite uma sensação de espontaneidade e autenticidade, como se, durante alguns segundos, ele tivesse voltado a outra época de sua vida. É um daqueles momentos em que o personagem parece deixar de estar simplesmente diante de uma câmera e volta a ser Santiago, com suas próprias lembranças e maneiras de se expressar.

A montagem também contribui para essa sensação. A história é construída de uma maneira tranquila, como se o material já tivesse sido pensado e processado antes de chegar ao espectador. Tudo parece mais leve porque as informações estão organizadas de uma forma que nos permite simplesmente ouvir e acompanhar Santiago. No entanto, a montagem constantemente nos lembra que estamos diante de um projeto que um dia ficou inacabado. Os cortes para o preto, por exemplo, funcionam como pequenas interrupções que tornam presente a ausência daquele filme que João havia tentado terminar anos antes.

Isso também cria uma relação interessante com a memória. Durante todo o filme sabemos que estamos vendo algo que pertence ao passado, mas, ao mesmo tempo, sentimos que João está tentando compreender esse passado a partir do presente. Por isso, considero que nos aproximarmos desse material também exige certa sensibilidade. Estamos vendo lembranças, conversas e momentos da vida de uma pessoa que foram registrados a partir do olhar de alguém que tinha uma relação específica com ela. Como espectadores, percebemos que aquilo que conhecemos sobre Santiago está necessariamente atravessado pelas escolhas de João.

Essa ideia fica ainda mais evidente através do som e da narração. A voz em off de João funciona como um lembrete constante de que essa história está sendo contada a partir de sua perspectiva. Ouvimos aquilo que ele quer que seja ouvido e conhecemos Santiago através daquilo que ele decide recuperar e mostrar. Por isso, não considero que o filme nos apresente uma verdade absoluta sobre Santiago, mas sim a versão de Santiago que existe na memória de João e que ele decide compartilhar conosco.

Também me chamou a atenção o fato de que os sons ambientes e a música não estejam constantemente manipulando aquilo que estamos vendo. Em muitos momentos, quando Santiago fala, podemos nos concentrar quase exclusivamente em sua voz. Isso cria a sensação de ouvi-lo de uma maneira muito direta, quase como se estivéssemos diante dele em uma conversa real. Em vez de nos dizer constantemente como devemos nos sentir diante do que ele conta, o filme permite que suas palavras tenham espaço para produzir seu próprio efeito.

A partir disso, considero que Santiago aborda vários temas que vão além da história individual do personagem. A memória é evidentemente um dos principais, mas também aparecem o afeto, a admiração, a passagem do tempo, a vida e a maneira como uma pessoa pode deixar uma marca na vida de outra sem sequer perceber. Para mim, todos esses temas acabam se relacionando com uma ideia muito simples: sempre existe alguém que nos percebe. Podemos não ter consciência da importância que temos na vida de outra pessoa, mas nossas ações, nossa presença ou nossa maneira de ser podem permanecer na memória de alguém durante muitos anos.

Isso é especialmente importante quando pensamos na relação entre Santiago e João. Existe uma admiração evidente e, na minha perspectiva, Santiago pode ter sido um grande exemplo para João durante sua infância. A relação entre os dois faz com que o filme possa ser entendido não apenas como o retrato de um antigo mordomo, mas também como a lembrança de uma pessoa que teve um lugar importante na vida do diretor. Pode-se pensar, inclusive, que, depois de não conseguir terminar aquele primeiro filme, João encontrou neste novo documentário uma maneira diferente de voltar a Santiago e, ao mesmo tempo, de confrontar suas próprias decisões como cineasta.

O contexto de produção é fundamental para compreender essa dimensão. O material original foi filmado em 1992, mas o filme que finalmente vemos foi construído anos depois, quando João já podia olhar para aquelas imagens a partir de outra perspectiva. Essa distância temporal transforma o documentário em uma reflexão sobre o próprio ato de fazer cinema. Não se trata apenas de registrar uma realidade, mas de voltar a ela, selecionar, montar, narrar e reinterpretar aquilo que um dia foi registrado. Nesse sentido, Santiago também fala sobre o documentário como construção: embora Santiago seja uma pessoa real e suas histórias pertençam à sua vida, aquilo que nós conhecemos é determinado pelo olhar de João.

Essa dimensão faz com que o filme seja especialmente interessante do ponto de vista cinematográfico. Santiago parece ser o protagonista, mas João também acaba se tornando um. Santiago é quem vemos e ouvimos, enquanto João é quem organiza a memória que nos permite conhecê-lo. O filme acaba funcionando como um diálogo entre os dois, mesmo quando esse diálogo é construído a partir de imagens gravadas muitos anos antes.

Minha postura diante de Santiago é, por isso, bastante positiva. O que mais valorizo é a maneira como o filme consegue ser íntimo sem precisar de grandes recursos. A obra me parece interessante porque não tenta transformar Santiago em um personagem espetacular; simplesmente dá espaço para que ele fale, lembre e se mostre. Ao mesmo tempo, considero importante que João não esconda completamente sua própria presença, porque isso nos permite entender que todo documentário envolve um olhar e que representar a vida de outra pessoa também implica uma responsabilidade.

Por fim, considero que Santiago acaba sendo muito mais do que o retrato de um homem que trabalhou durante décadas para uma família. É um filme sobre lembrar e sobre voltar a olhar para aquilo que um dia deixamos para trás. João recupera Santiago, mas, ao fazer isso, também recupera uma parte de si mesmo e de sua própria história como cineasta. E talvez seja isso que mais fica para mim depois do filme: a ideia de que sempre existe alguém que nos percebe. Santiago passou boa parte de sua vida conhecendo e preservando as histórias de outras pessoas e acabou se tornando, sem saber, alguém cuja própria história merecia ser lembrada. Embora aquele primeiro filme nunca tenha podido ser concluído como João havia imaginado, muitos anos depois ele conseguiu transformá-lo em outra coisa: um filme sobre Santiago, mas também sobre a memória de quem se lembra dele.

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Meu (Ex) Mordomo, Santiago: classe e arrependimento em Santiago (2007)
por Breno Silva Gualda


O documentário “Santiago” (2007), dirigido por João Moreira Salles, leva em seu título o nome do ex-mordomo da Mansão da Gávea, habitada pela rica e poderosa família de banqueiros durante o século XX, o argentino Santiago Badariotti Merlo. O filme, entretanto, apesar de lançado em 2007, é resultado de imagens gravadas cerca de quinze anos antes, em 1992, quando o diretor decidiu registrar a história e as memórias de Santiago, figura marcante de sua infância.

O material, inicialmente pensado para compor um documentário mais convencional sobre o antigo mordomo, acabou sendo abandonado durante anos. Quando retomado, acabou se tornando o retrato de uma realidade, que ainda mantém a intenção de contar sobre as experiências vividas por Santiago na mansão, mas que, principalmente, deixa exposta a dinâmica do relacionamento entre João e seu ex-funcionário.

O filme tem um clima melancólico do começo ao fim, e pode ser que o fato de Santiago ter falecido algum tempo após as gravações tenha bastante influência nisso. Esse fato, somado à fotografia em preto e branco e à narração de um João Moreira Salles posterior e claramente arrependido, acompanhada por uma trilha introspectiva, faz com que o filme reforce as sensações de distância, perda e impossibilidade de retorno ao passado de ambos os personagens.

Apesar de que, quem está sempre presente em tela, seja contando suas histórias ou performando algo, ser o mordomo, o filme realmente brilha quando se trata daquele que está por trás das câmeras: o diretor. O documentário se revela muito mais interessante e profundo ao nos mostrar esse lado arrependido de João e sua evolução como cineasta e ser humano do que propriamente quando está nos mostrando takes engessados nos quais Santiago recebe ordens sobre o que fazer ou o que falar.

Ao revisitar o material anos depois, João Moreira Salles não apenas observa seu ex mordomo, mas sim, Santiago como indivíduo. Ao mesmo tempo, enxerga a si mesmo e principalmente a sua maneira como conduziu aquelas gravações. Marcada por interrupções, repetições e instruções dadas ao mordomo que deixam de parecer simples escolhas de direção e passam a revelar uma relação desigual entre diretor e personagem, retratando a antiga relação entre patrão e empregado. Com isso, o filme transforma seu próprio processo de realização em tema, fazendo com que o espectador perceba que a memória registrada pela câmera nunca é totalmente espontânea, mas também resultado das escolhas, limitações e interferências de quem filma.

Talvez justamente por isso eu considere “Santiago” um documentário mais interessante para quem já gosta ou acompanha o trabalho de João Moreira Salles do que necessariamente para um público mais geral. Grande parte da força do filme está em conhecer o diretor, perceber sua mudança de postura e entender o quanto aquela obra também funciona como uma revisão do próprio modo de fazer cinema. Ainda assim, foi um filme de que gostei. A execução, a fotografia, o tema, a montagem e principalmente a forma como o documentário transforma algo que poderia ser apenas um retrato de Santiago em uma reflexão sobre memória, classe, culpa e cinema fizeram com que a experiência, para mim, fosse muito mais interessante do que sua proposta inicial poderia sugerir.

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O espelho do Mordomo: notas sobre "Santiago"

por Lorenzzoni

"Santiago" é um documentário-ensaio brasileiro de 2007, dirigido e roteirizado por João Moreira Salles, com fotografia de Walter Carvalho, montagem de Eduardo Escorel e Lívia Serpa e produção de Maurício Andrade Ramos pela VideoFilmes. O filme tem 80 minutos de duração, o que vale registrar desde já: embora seja frequentemente discutido ao lado de curtas-metragens em cursos de cinema, trata-se tecnicamente de um média-metragem, e não de um curta. Em 1992, Salles começou a filmar um documentário sobre Santiago Badariotti Merlo, o mordomo argentino que trabalhara por trinta anos na casa de sua família. O material — nove horas de entrevistas e trinta mil páginas de manuscritos escritos pelo próprio Santiago sobre genealogias de nobrezas europeias — ficou engavetado por treze anos, até que o diretor, já outro cineasta, decidiu voltar a ele em 2005. O filme que resulta dessa volta não é mais só sobre Santiago: é sobre o próprio ato de filmar, de lembrar e de decidir o que fazer com aquilo que já não se pode refazer.

Assisti a "Santiago" pensando em quantas vezes eu mesmo já deixei algo pela metade por não saber ainda o que fazer com ele — um projeto, um texto, uma ideia que exigia mais maturidade do que eu tinha no momento em que a comecei. Salles filma aos 30 anos e monta aos 44; o filme carrega, literalmente na sua estrutura, a distância entre quem começa uma coisa e quem finalmente consegue terminá-la. Isso ressoa de um jeito bem concreto comigo agora, no fim da graduação: revisitar um material antigo — seja um trabalho de faculdade engavetado, seja uma versão mais nova de mim mesmo registrada em fotos ou anotações — e perceber que já não sou exatamente a pessoa que o produziu é uma experiência desconfortável e, ao mesmo tempo, reveladora.

Do ponto de vista técnico, a decisão mais corajosa do filme está na narração: em vez de usar a própria voz, Salles entrega o texto em off ao irmão, Fernando. É uma escolha que já é, em si, uma declaração de método — o documentário sobre memória e identidade não confia nem na voz de quem o narra, preferindo emprestar essa voz a outra pessoa da família, reforçando a ideia de que a lembrança nunca é só de quem fala. A fotografia de Walter Carvalho evita qualquer estetização nostálgica; a câmera percorre a casa da infância de Salles com um cuidado quase arqueológico, catalogando objetos, luz e poeira como quem examina uma cena de crime da própria história pessoal. Não há pressa nos enquadramentos, e isso é proposital: cada plano parece pedir permissão antes de entrar num espaço que é, ao mesmo tempo, íntimo e desconhecido.

A montagem de Eduardo Escorel e Lívia Serpa é, sem dúvida, o coração do filme — e não por acaso levou o prêmio de melhor edição de documentário. A grande ousadia estrutural é que boa parte da narrativa não é sobre o que Santiago disse, mas sobre como ele disse: o filme mostra repetidamente o próprio material bruto, as tomadas descartadas, os momentos em que o Santiago de 1992 se emociona ou hesita diante da câmera, e é justamente aí que Salles constrói sua reflexão sobre autoridade documental — quem tem o direito de editar a vida de outra pessoa e transformá-la em narrativa. O tempo do filme não é o tempo cronológico da entrevista, mas o tempo da dúvida do próprio diretor sobre o que fazer com aquele material; a fluidez narrativa vem exatamente dessa tensão entre reencenar o passado e comentar sobre a impossibilidade de reencená-lo com neutralidade.

O que mais me tocou, no entanto, foi a figura de Santiago em si — um homem que passou décadas a serviço de uma família, seguindo protocolos rígidos de etiqueta e hierarquia, enquanto nutria, em segredo, uma paixão erudita por linhagens de nobreza que ele mesmo jamais pertenceria. Trabalhando hoje numa área de cerimonial e organização de eventos institucionais, reconheço bem esse universo de formalidades, protocolos e hierarquias que Santiago dominava com tanto esmero — a diferença é que, no meu caso, essas regras fazem parte do trabalho declarado, e não de uma vocação silenciosa vivida nos bastidores da casa de outra família. Há algo de comovente em ver alguém tão dedicado ao registro e à ordem das coisas — datas, títulos, genealogias — sendo, ele próprio, quase apagado da história que ajudou a sustentar por trinta anos. "Santiago" não é apenas um filme sobre um mordomo ou sobre um cineasta em crise de método: é sobre como toda relação de serviço, por mais próxima e afetuosa que pareça, carrega uma linha invisível entre quem organiza a vida do outro e quem tem o privilégio de ser organizado — e sobre como a câmera, ao tentar corrigir essa assimetria, corre sempre o risco de reproduzi-la.

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Lua Monteiro

Lançado em 2007, Santiago, de João Moreira Salles, é um documentário que parte de uma experiência que não deu certo para construir uma reflexão sobre memória, relações de poder e sobre a própria forma de fazer cinema. Em 1992, o diretor gravou com Santiago Badariotti Merlo, mordomo argentino que trabalhou durante trinta anos na casa da família Moreira Salles, no Rio de Janeiro. Porém, Salles não conseguiu transformar aquele material em um filme e acabou deixando o projeto de lado por treze anos. Em 2005, depois da morte de Santiago, voltou às imagens e decidiu retomá-las. O resultado não é exatamente um filme sobre a vida de Santiago, mas uma reflexão do próprio diretor sobre a relação que existia entre os dois e sobre a dificuldade de representar outra pessoa através do cinema.

Uma das coisas que mais chama atenção no filme é a forma como o diretor mostra o próprio processo de gravação. Em vez de esconder os erros e as partes que não deram certo, Salles utiliza esses momentos como parte importante do documentário. Nas imagens gravadas em 1992, é possível perceber o quanto o diretor tentava controlar Santiago, pedindo que ele repetisse falas, mudasse a posição do corpo e seguisse determinadas orientações. Isso faz com que o espectador perceba que Santiago não tinha total liberdade diante da câmera. Ao mostrar essas situações muitos anos depois, o diretor também reconhece a relação de poder que existia entre os dois: ele era o patrão e herdeiro da família, enquanto Santiago havia trabalhado como empregado daquela casa durante décadas. Assim, o filme acaba sendo também uma espécie de reconhecimento dos próprios erros do diretor.

Ao mesmo tempo, Santiago não aparece apenas como alguém que aceita passivamente aquilo que o diretor determina. Ele tinha uma personalidade muito própria e uma relação muito forte com a memória. Era um grande colecionador e passou boa parte da vida registrando, à mão, informações sobre milhares de pessoas da nobreza e de diferentes períodos da história. Durante as gravações, ele também se apresenta de maneira bastante teatral, recitando versos e contando histórias com gestos e falas muito marcados. Dessa forma, existe uma disputa entre aquilo que o diretor queria mostrar e a maneira como Santiago queria se apresentar. O personagem tenta, de certa forma, construir sua própria imagem dentro do filme, enquanto o diretor tenta enquadrá-lo de acordo com aquilo que havia imaginado.

As escolhas estéticas também ajudam a construir esse tom mais reflexivo. O filme utiliza imagens em preto e branco, fotografadas por Walter Carvalho, que mostram principalmente os espaços da antiga casa da família. Os ambientes vazios ajudam a criar uma sensação de passagem do tempo e de distância em relação ao passado. A narração também chama atenção. O texto é escrito por João Moreira Salles, mas a voz que ouvimos é a de seu irmão, Fernando. Essa escolha cria uma certa distância entre o diretor e aquilo que está sendo contado, evitando que o filme se transforme apenas em uma confissão pessoal e fazendo com que o espectador observe aquela história de uma maneira mais crítica.

No final, Santiago acaba sendo muito mais do que um filme sobre um antigo funcionário da família Moreira Salles. É também um filme sobre a dificuldade de conhecer e representar outra pessoa. Ao revisitar as imagens depois da morte de Santiago, João Moreira Salles percebe que, quando estava diante dele com a câmera, não conseguiu realmente ouvi-lo. Por isso, o filme assume o próprio fracasso como parte de sua construção. Em vez de tentar esconder os problemas das gravações de 1992, o diretor transforma essas falhas no centro do documentário. O resultado é uma reflexão sobre memória, classe, poder e sobre os limites do próprio cinema ao tentar contar a história de alguém.

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Gustavo Borges Pinto da Luz


Santiago é um documentário escrito e dirigido por João Moreira Salles. Embora lançado em 2007, o material usado é de um antigo projeto do diretor, que após anos abandonado e nunca editado, é retomado em 2005.

O documentário se distancia do formato tradicional de seu gênero. É difícil definir qual é o objeto de estudo. O filme original, de 1992, deveria focar na história de Santiago Bardariotti Merlo, que foi  mordomo da família Salles por mais de 30 anos. Entretanto, a narração, idealizada em 2005 e feita por Fernando Salles, assume a perspectiva do diretor e questiona suas decisões. Agora mais maduro, Salles reconhece algumas das limitações do filme. Essa dialética entre dois momentos distintos é uma das qualidades que define a obra, e que a torna tão expressiva.

 Santiago, ao longo da trama, é conduzido por uma série de entrevistas, em sua maioria desajeitadas, que trazem à tona uma figura profunda, intelectual e com interesse na cultura erudita. O material usado, em estado bruto, com os comandos do diretor torna evidente a relação entre documentarista e personagem, de maneira autoritária. Essa questão é agravada pela própria posição social das personagens, e na persistência da relação patrão-empregado, que como o diretor admite, torna a gravação desconfortável. Qualquer obra, ao fazer retrato de um personagem, tem suas limitações, nesse caso, elas não só se tornam explícitas, mas são tópico central da obra.

Apesar do nome do documentário e os vastos depoimentos sobre a vida pessoal de Santiago, a obra torna-se uma reflexão sobre a própria trajetória de Salles. O antigo projeto revisitado por um diretor agora mais maduro, nostálgico e ciente de suas limitações, que infelizmente, nunca conseguiu captar a figura real de Santiago, que permanece invisibilizado.

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Santiago: um documentário sobre memória, poder e o próprio ato de filmar

por Sofia Rachadel Campos  

Santiago é um documentário brasileiro lançado comercialmente em 2007, dirigido e escrito por João Moreira Salles. Com aproximadamente 80 minutos de duração, o filme tem como personagem principal Santiago Badariotti Merlo, que trabalhou durante cerca de 30 anos como mordomo da família Moreira Salles. As imagens foram gravadas em 1992, mas o diretor não conseguiu finalizar o documentário naquele momento. Mais de uma década depois, voltou ao material e decidiu construir um filme diferente daquele que havia planejado inicialmente.

O documentário apresenta Santiago já aposentado, falando sobre sua vida, suas lembranças e seus interesses. Ele era um homem bastante particular, apaixonado por música, história e pelas antigas famílias da aristocracia, sobre as quais produziu milhares de páginas de anotações. Porém, conforme o filme avança, percebemos que ele não trata apenas de quem Santiago era. Ao rever as gravações anos depois, João Moreira Salles começa a analisar também a maneira como ele próprio tratou e filmou Santiago, transformando o documentário em uma reflexão sobre a relação entre os dois.

Esse aspecto aparece de forma muito clara quando o filme mantém nas imagens as orientações dadas pelo diretor durante as gravações. Ouvimos João pedir que Santiago repita falas, espere para começar ou faça algo novamente porque a primeira tentativa não ficou como ele queria. Em alguns momentos, Santiago tenta falar espontaneamente e é interrompido. Isso quebra a impressão de que um documentário simplesmente registra a realidade como ela acontece. O próprio diretor revela que aquilo que estamos vendo também foi organizado e influenciado por quem estava atrás da câmera.

Essa relação também evidencia uma diferença de poder entre os dois. Mesmo muitos anos depois de Santiago ter deixado de trabalhar para a família, João percebe que continuava tratando-o de certa forma como o antigo empregado da casa. Um momento importante ocorre quando o diretor reconhece que, durante as filmagens, nunca atravessou completamente essa distância entre patrão e empregado. Dessa forma, o filme acaba sendo também uma autocrítica: João não tenta esconder seus erros como diretor, mas utiliza o próprio material para questionar sua postura.

A memória e a passagem do tempo são outros elementos importantes. Existe a memória de Santiago, que dedicava grande parte de sua vida a registrar histórias de pessoas que já haviam morrido, e a memória do próprio diretor, ligada à casa onde cresceu e à presença de Santiago em sua infância. Quando João finalmente retoma as gravações, Santiago já havia falecido. Por isso, ele não poderia voltar para fazer novas perguntas ou corrigir aquilo que deixou de ouvir em 1992. As imagens passam a funcionar como registros de algo que não pode mais ser recuperado.

Na parte técnica, o filme utiliza principalmente imagens em preto e branco, enquadramentos muito planejados e narração em off. O ritmo é calmo e muitas cenas deixam espaço para os gestos e as falas de Santiago. Ao mesmo tempo, o uso das gravações que normalmente seriam descartadas — como momentos anteriores ou posteriores às falas — é fundamental, pois é justamente nelas que conseguimos perceber a interferência do diretor e entender melhor como aquele documentário estava sendo construído.

A principal qualidade de Santiago é que o filme começa aparentemente como um retrato de um personagem muito particular, mas aos poucos se transforma em algo mais pessoal. João Moreira Salles tenta falar sobre Santiago e termina revelando também muito sobre si mesmo, sobre sua família, sua posição social e sua forma de fazer cinema. O fato de as imagens terem ficado guardadas por mais de uma década permitiu que ele enxergasse problemas que talvez não conseguisse perceber enquanto filmava.

Assim, Santiago não é apenas um documentário sobre a vida de um antigo mordomo. É também uma reflexão sobre quem controla uma história quando ela é transformada em filme. Ao mostrar suas próprias interferências e admitir que talvez não tenha escutado Santiago como deveria, João Moreira Salles transforma uma falha do projeto original em uma das partes mais interessantes da obra. No final, fica a sensação de que conhecer alguém exige mais do que simplesmente apontar uma câmera para essa pessoa: é preciso também estar disposto a realmente ouvi-la.

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Lembrando de Santiago 

Kyoko: "A vida não é decepcionante?  

Noriko: "Sim, é."

        Era Uma Vez em Tóquio, 1953, Yasujirō Ozu

por Sofia Fernandes Campos

Santiago dança sozinho, as mãos que, por anos, serviram para servir, agora se movem no ar, coreografando alguma valsa imaginária diante da câmera. É um gesto de liberdade e, ao mesmo tempo, um gesto observado, catalogado e filmado à distância, um espaço/lacuna que João Moreira Salles impõe entre si e seu personagem do começo ao fim. 

Dirigido e roteirizado por Salles, Santiago (2007) nasceu de um material bruto de nove horas, gravado em 1992 e abandonado, e só foi, então, retomado e finalizado treze anos depois, em 2005. O documentário, vencedor do Grande Prêmio do Festival Cinéma du Réel, em Paris, vai além da imagem de um (ex) mordomo, retrata também um cineasta que se filma filmando errado: instruções dadas em voz alta são deixadas no filme, em vez de cortar os momentos em que dirige Santiago, Salles os mantém.

"Santiago, vai de novo, não olha pra gente não", "fala logo que estamos com um pouco de pressa". O erro de 1992 foi tratar Santiago como um ator que precisa ser corrigido até performar "certo", já em 2005, esses trechos, que talvez seriam cortados na versão final de 92, são marcas de uma falsa realidade, mostrar esse processo de correção sem disfarce convida o espectador ao procedimento de registrar, afastando cada vez mais a ideia de naturalidade que um documentário pode oferecer. Quando o filme repete a mesma história contada três ou quatro vezes, com pequenos ajustes no tom, pausa ou gesto, ele exibe a fabricação da "fala perfeita". Dessa maneira, Salles, ao tentar extrair de Santiago uma performance de protagonista, expõe que durante os cinco dias de filmagem ele nunca deixou de ser o filho do dono da casa e Santiago nunca deixou de ser o mordomo, o filme de 2005 corrige isso não refazendo as imagens, mas expondo, dentro delas mesmas, o mecanismo que as produziu. 

A câmera quase nunca se aproxima do rosto de Santiago, ela o observa de um ponto médio, muitas vezes com ele emoldurado pelos móveis, pelas paredes cobertas de livros, e de quando em quando, uma arquitetura  suntuosa fragmenta a fala de Santiago em sua casa pequena, de repente, retratos de uma casa grande e luxuosa, contraposta a uma cozinha pequena, apertada. Esse confronto entre imagens conta uma história de hierarquia, nessa desigualdade irresolvida, a câmera revela a cada enquadramento, a relação que nunca deixou de ser entre aquele que filma e aquele que é filmado.

Além disso, o som, aqui, cumpre função semelhante, de distanciar. A narração de 2005, escrita e lida com afastamento sereno, funciona como um contraste racional às imagens irregulares do passado, é a voz do cineasta maduro julgando, à distância, o cineasta jovem que não sabia o que fazia. Entre uma trilha e outra, entre um período e outro, o filme também alterna cor e preto e branco, com imagens em Super-8 de uma família na piscina, coloridas, domésticas, banais, destoam com o preto e branco controlado das entrevistas com Santiago, como se a memória privada da família tivesse direito à cor e a memória do funcionário, não.

Sob a superfície biográfica, Santiago é um ensaio sobre memória, servidão e o direito de ser lembrado. As trinta mil páginas que Santiago escreve, algumas delas nos versos de cartas antigas do patrão, nas vezes que não tinha dinheiro para comprar papel novo, retratam um homem, que passou a vida servindo, dedicar-se a salvar do esquecimento as histórias de reis que nunca foram seus, como se resgatar a memória alheia fosse a única forma de garantir também a própria permanência. 

“Te surpreende você ter tanta memória nessa idade?” Ouvem-se as histórias de Santiago com o distanciamento de quem as documenta para estudá-las, não necessariamente de quem quer, ali, construir um vínculo. E o filme sabe disso, ao inserir os bastidores, as instruções de enquadramento, as broncas discretas, Salles quebra a ilusão de espontaneidade, aproxima a mecânica de poder que sustenta qualquer documentário sobre "o outro", mesmo quando o outro é alguém que se conhece há décadas. 

Santiago é, antes de tudo, um filme sobre a impossibilidade de filmar alguém sem, de algum modo, servir-se dele. Dessa maneira, Salles não resolve o desconforto entre patrão e mordomo, ele o formaliza, através da distância da câmera, da repetição dos retakes, da voz fora do enquadramento que julga. Aqui, "servir" é a palavra que atravessa o filme de ponta a ponta: Santiago serviu à família Moreira Salles como mordomo, e depois serve, involuntariamente, de novo, como personagem, um objeto de estudo que só se torna também retrato de alguém quando o cineasta aceita se expor tanto quanto expõe seu antigo empregado. 

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Santiago: Memórias de uma Vida 

por Cecilia Scheel

     O documentário “Santiago”, dirigido e roteirizado por João Moreira Salles  e lançado em 2007, apresenta a história de Santiago, antigo mordomo da família do diretor. Ao longo do documentário, Santiago fala de suas histórias, lembranças, personagens históricos e acontecimentos de sua vida. Por meio de seus relatos, o documentário apresenta sua personalidade e sua maneira muito interessante de enxergar o mundo, ao mesmo tempo em que a gente consegue ver aspectos da relação entre Santiago e o diretor.

     Um aspecto que me chamou atenção foi como o documentário foi construído. O uso de uma narrativa intimista faz o narrador (irmão do próprio diretor)  ficar próximo ao espectador trazendo um aconchego ao ver a obra. A fotografia, a edição e a trilha sonora também ajudam nesse aspecto, com uma edição simples mas ao mesmo tempo fazendo com que determinados momentos tenham maior impacto, e uma fotografia bem interessante ao não ter escolhido o formato tradicional de entrevista e muitas vezes “takes” fazem Santiago ficar distante da câmara e para mim deu uma impressão que ele estava de fato bem confortável contando os relatos.

    Outro aspecto que me chama atenção é a forma como o documentário apresenta a personalidade de Santiago. Quando a entrevistadora questiona Santiago sobre ele ter tantas memórias. A pergunta mostra como as lembranças são uma parte importante da vida dele e faz o espectador perceber a quantidade de histórias que ele carrega. Ele falando sobre diferentes famílias e momentos de sua vida, mostra que possui muitos conhecimentos e histórias para compartilhar, e o que me deixa mais encantada sobre a forma que esses relatos são ditos é que Santiago fala com tanto entusiasmo e felicidade, mesmo a história mais simples.

     De maneira geral, o documentário se mostra ser feito com bastante carinho e admiração que o diretor tem com Santiago, além de mostrar a história do próprio documentário, que inicialmente foi deixado de lado mas felizmente o diretor voltou com a obra, como símbolo de apreço a Santiago.

     Por fim, Santiago é um documentário que vai além de contar a história de uma pessoa. As memórias que Santiago conta na obra mostram um pouco de sua personalidade e de sua relação com o passado. O documentário faz pensar sobre a importância das lembranças e sobre como elas fazem ser quem nós somos. Para mim, a obra se destaca justamente por transformar histórias simples em uma reflexão sobre memória.

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Vitor Sebastiany da Silva

O documentário Santiago, de João Moreira Salles, lançado em 2007, conta a história de Santiago, antigo mordomo da família do diretor. Porém, o filme vai muito além de apresentar a vida do personagem. A obra também mostra a relação entre os dois e aborda temas como memória, diferenças sociais e a própria maneira de fazer cinema.

Um dos pontos que mais chama atenção é a personalidade de Santiago. Mesmo tendo trabalhado como mordomo, ele demonstra ter uma grande cultura e conhecimento sobre história, arte e diferentes povos. Isso faz o espectador pensar sobre como a posição social de uma pessoa pode influenciar a forma como ela é vista pelos outros.

Outro aspecto interessante é que o próprio diretor se coloca em questão durante o filme. Ao recuperar imagens que havia gravado anos antes, Moreira Salles percebe que estava mais preocupado em dirigir Santiago do que em realmente conhecê-lo. Essa reflexão deixa o documentário mais pessoal e mostra que aquilo que vemos em um filme também é resultado das escolhas de quem está atrás da câmera.

O ritmo é mais lento e existem muitos momentos de silêncio, o que pode causar certo estranhamento, mas combina com a proposta de trabalhar com lembranças e com o passado. No final, Santiago não é apenas um filme sobre um antigo funcionário de uma família, mas também sobre memória, relações humanas e sobre os limites entre realidade e representação no cinema.

Na minha opinião, o principal ponto positivo do filme é justamente essa reflexão sobre o próprio ato de filmar. O diretor não tenta apresentar apenas uma história pronta, mas também mostra suas próprias dificuldades em compreender Santiago, tornando o documentário mais profundo e interessante.





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