Outras críticas

 Sobrecarga da maternidade em close

Ana Luísa Niggemann Sauer


A vencedora do Globo de Ouro 2026 de Melhor Atriz em Filme de Comédia, Rose Byrne, interpreta Linda, uma terapeuta de meia idade que se vê emaranhada em um acúmulo de situações caóticas, com problemas com a casa, o casamento, o trabalho, o alcoolismo e a doença de sua filha.


Partindo dessa premissa sufocante, em Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria (If I Had Legs I'd Kick You) a diretora Mary Bronstein consegue brilhantemente construir essa atmosfera, por meio, principalmente, da utilização dos planos fechados e do enfoque deles na protagonista — são relativamente poucas as vezes em que o espectador têm acesso aos demais personagens e ao ambiente —, evidenciando a excepcional atuação de Rose, que precisamente expressa de maneira gradual a famosa sensação de que "nada está tão ruim que não possa piorar" — e que sempre piora. A atriz exprime o "terror" que é se viver uma vida em que não se vive nada (por si mesma) e mesmo assim tudo (de ruim) acontece. 


O desenho de som amplifica a experiência desse enclausuramento da personagem, fazendo com que o espectador sinta essa angústia dos problemas escalonando como se o clímax e a catarse nunca fossem chegar, e quando chegam nos minutos finais parece que o alívio que se sente não é suficiente para acalmar a mente depois de passar por uma montanha-russa de emoções de quase duas horas; mas isso não é um demérito, pelo contrário, essas escolhas só engrandecem a produção.


É um ótimo exemplo de obra que, graças ao cuidado do olhar feminino na direção, levanta e consegue construir e desenvolver reflexões profundas acerca de papéis de gênero na sociedade e na esfera familiar e de sobrecarga da maternidade.

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Camili Machado 

Lançado em 2015 e dirigido por Tom McCarthy, Spotlight: Segredos Revelados é um filme baseado em acontecimentos reais que retrata a investigação do jornal Boston Globe sobre denúncias de abuso sexual dentro da Igreja Católica. Com um elenco formado por Mark Ruffalo, Michael Keaton e Rachel McAdams, o filme expõe a busca pela verdade no jornalismo, o seu papel na sociedade, e questiona a responsabilidade das instituições em proteger suas comunidades.

O filme segue a equipe Spotlight, que, após uma sugestão inicial, começa a desenterrar casos de abuso sexual cometidos por padres católicos em Boston. À medida que avançam na investigação, eles se deparam com um encobrimento de casos e a luta moral de expor a corrupção de uma das maiores instituições do mundo. A narrativa é envolvente e instiga o espectador a refletir sobre a complexidade dos casos abordados.

A abordagem técnica do filme se destaca pela discrição. A direção de McCarthy é eficaz, destacando a história e os personagens sem exageros visuais. O roteiro, escrito por Josh Singer e Tom McCarthy, constrói a tensão de forma gradual, fazendo o público sentir a urgência e a seriedade da investigação.

As atuações são notáveis, especialmente as de Mark Ruffalo e Rachel McAdams, que trazem uma profundidade emocional aos seus papéis. Ruffalo, como Michael Rezendes, mostra um jornalista obsessivo pela busca da verdade, enquanto McAdams, como Sacha Pfeiffer, representa sensibilidade com determinação. 

A trilha sonora discreta, mas impactante, compõe a atmosfera de tensão dos casos. O uso de luzes frias e composições que refletem a opressão do tema reforça a seriedade do assunto, criando um ambiente que ressoa com a luta pela justiça.

Spotlight: Segredos Revelados é uma obra que não apenas informa, mas também provoca uma reflexão necessária sobre a ética jornalística e a responsabilidade social. O filme revela a importância da investigação e da verdade em face do poder social. É uma recomendação para quem busca entender as complexidades da moralidade e da justiça, juntamente com o papel do jornalista na sociedade. 


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