III Mostra Catarina Fantástica
Debbie
LUZES de Angola. [Curta-metragem]. Direção: Lallo Bocchino. Lages: Pangéia Filmes/Rockset Produções, 2025. 20 min., son., color.
Este filme é um curta-metragem muito bem produzido. Eu só tive acesso a ele durante a mostra, ou seja, eu o assisti apenas uma vez, mas, pelo que pude perceber, a direção de arte se aten tou a detalhes ínfimos durante a construção de cena, como por exemplo nos detalhes de posiciona mento das velas, na continuidade, entre outros, assim como as escolhas de foco e enquadramento conduziram muito bem a narrativa, com momentos que se traduziam em dor (como nos açoites), em raiva (como nos abusos do senhor, da sinhá e do feitor), em amor (nos cuidados da mãe e do resto do grupo com Ana). As imagens que focam em elementos naturais são um ótimo marcador de tem po, que traz também um elemento de beleza para intercalar cenas de violência explícita, seja física ou verbal, sendo muito bem demarcadas no decorrer do filme. O curta é montado de forma condi zente ao período histórico retratado, tanto pelo figurino quanto pelo cenário, criando uma ambienta ção muito pontual para a imersão na história, ainda que haja um elemento fantástico ao final. A atu ação é de um nível além do esperado, principalmente por Geovanna Zampenini, que representa o papel de Acotire, mãe de Ana.
A história é de um tema que se faz muito relevante, sendo a escravização de povos africanos através do tráfico transatlântico de pessoas sendo considerada pela ONU o maior crime contra a hu manidade apenas em 2026, algo que traz consequências para a vida de pessoas negras no Brasil até hoje (RESOLUÇÃO, 2026). A narrativa mostra crueldade, força, resistência, sendo que cada ambi ente é dominado por uma emoção -- uma boa estratégia para um curta-metragem --: a cena de aber tura carrega tensão e sofrimento, angústia, medo; a casa-grande é permeada pela violência em for mas diversas; a senzala é um lugar de comunidade -- seja qual for a emoção, ela encontra ali um vi gor coletivo, seja na dor que todos ali compartilham, seja na resistência através do cuidado com Ana. Tem-se então a deficiência em uma posição de enfrentamento do fantástico, algo que me reme teu ao final de Um Lugar Silencioso (2018), também por se tratar de vantagens e desvantagens con tra alienígenas relacionadas à surdez -- Ana, no caso, atua assim como um agente crucial para a li bertação final, o que só é possível através da sua deficiência, o que é constatado por Acotire ao ver que a filha não é afetada pelo ataque. O elemento fantástico entra no lugar da violência que é neces sária à resistência, o que é uma questão que pode ser levantada de diferentes formas; seja pela pers pectiva de manter as personagens com as mãos limpas, seja pela perspectiva da esperança como agente ativo contra o medo, entre outras maneiras abertas à interpretação subjetiva.
O curta foi uma ótima escolha para compor a III Mostra Catarina Fantástica, já que se trata de uma crítica social ainda forte e necessária, que traz o fantástico como metáfora e como esperan ça. A abordagem de temas afins é muito importante para o contexto sociopolítico atual, já que temos ataques racistas recorrentes contra pessoas negras na UFSC nos últimos anos (CALDAS, 2022; RIBEIRO, 2022; UFSC, 2023); não muito tempo atrás, lidamos com ataques racistas à Miss Santa Catarina (BORGES, 2025); falas racistas de Jorginho Mello foram normalizadas pelo Ministério Público ao declarar que não houve crime (BUSS, 2025); o CIC é um espaço gerido por pessoas que têm uma tendência a privilegiar artistas e eventos que pouco representam a diversidade do estado e do país. A mostra acontecer na Gilberto Gerlach neste momento, inserida em tal contexto, é muito representativa, assim como apontado durante o evento pela organização.
Referências
BORGES, Caroline. Quem é Pietra Travassos, jovem eleita Miss Santa Catarina e vítima de ataques racistas. G1, online, out./2025. Disponível em: <https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2025 /10/22/pietra-travassos-jovem-eleita-miss-santa-catarina-vitima-ataques-racistas.ghtml>. Acesso em 1 de abril de 2026.
BUSS, Gabriel. MP arquiva denúncia contra governador de SC por fala sobre cor da pele. Metrópo les, online, fev./2025. Disponível em: <https://www.metropoles.com/brasil/sc-mp-arquiva-denuncia -contra-governador-por-fala-sobre-cor-da-pele>. Acesso em 1 de abril de 2026.
CALDAS, Joana; DUARTE, Catarina; TODESCATT, Juan. Pichação com ofensa racista contra alu na quilombola é feita em banheiro da UFSC em Florianópolis. G1, online, set./2022. Disponível em: <https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2022/09/30/pichacao-racista-contra-aluna-e-feit a-em-banheiro-da-ufsc-em-florianopolis.ghtml>. Acesso em 1 de abril de 2026.
RESOLUÇÃO define escravização de africanos como o mais grave crime contra a humanidade. ONU News, online, mar./2026. Disponível em: <https://news.un.org/pt/story/2026/03/1852716>. Acesso em 1 de abril de 2026.
RIBEIRO, Robson. Reitoria recebe carta de entidades estudantis e sociais contra manifestações neo nazistas na universidade. Notícias da UFSC, online, nov./2022. Disponível em: <https://noticia s.ufsc.br/2022/11/reitoria-recebe-carta-de-entidades-estudantis-e-sociais-contra-manifestacoes-neon azistas-na-universidade/>. Acesso em 1 de abril de 2026.
UFSC comunica à Polícia Civil ocorrência de manifestação de teor nazista. Notícias da UFSC, onli ne, nov./2023. Disponível em: <https://noticias.ufsc.br/2023/11/ufsc-comunica-a-policia-civil-ocorr encia-de-manifestacao-de-teor-nazista/>. Acesso em 1 de abril de 2026.
UM LUGAR Silencioso. [Longa-metragem]. Direção: John Krasinski. Estados Unidos: Paramount Pictures/Platinum Dunes/Sunday Night, 2018. 90 min., son., color.
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Mateo Montaña Girala
Luzes de Angola Dirigido por Lallo Bocchino e exibido na Mostra Catarina Fantástica, o curta-metragem apresenta uma história envolvente que combina elementos históricos e ficcionais, resultando em uma mistura particularmente atraente.
O curta se passa em 1867, em uma fazenda no sul do Brasil, em pleno contexto escravocrata.
Tudo começa quando surgem luzes misteriosas no céu, um acontecimento que rompe completamente a rotina do local.
A obra apresenta uma estética escura, rural e opressiva. É incômoda, mas de forma intencional.
Embora o curta proponha uma ideia interessante, sua execução não é totalmente bem-sucedida. As atuações não parecem convincentes e, em alguns momentos, soam exageradas. As reações carecem de organicidade e nem sempre seguem uma lógica interna consistente.
Os vilões são representados como figuras barulhentas, irascíveis e gritantes. Embora essa caracterização possa fazer sentido, torna-se difícil de sustentar, já que reagem de forma exaltada diante de quase qualquer situação, o que acaba sendo incômodo.
Além disso, não há muito contexto nem explicação sobre as “luzes no céu”, deixando esse elemento narrativo excessivamente aberto.
Como conclusão, trata-se de um curta interessante que aborda questões raciais, sendo recomendável para quem se sente interpelado por esses temas — especialmente no contexto do sul do Brasil —, embora apresente fragilidades em sua execução no nível da atuação e do roteiro.
Salva na Nuvem
Este curta-metragem de gênero fantástico/experimental, típico do circuito da Mostra Catarina Fantástica, dirigido por Lara Koer e protagonizado por Berna SantAnna, Chris Mayer e Karime Limeira, destacou-se como um dos favoritos da mostra.
Com toques de comédia, acompanhados por uma paleta de cores vibrantes, uma estética particular — que combina um estilo futurista com elementos dos anos 90 — e um uso de câmera bastante interessante, o curta é de fácil assimilação e prende a atenção desde o primeiro momento.
As personalidades dos personagens funcionam bem em conjunto, resultando em figuras carismáticas e em uma dinâmica envolvente entre elas.
No entanto, o curta pode não ser recomendado para quem não domina o idioma, já que apresenta diálogos com alto nível de complexidade, o que pode dificultar sua compreensão integral.
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Como Santa Catarina pode ser fantástica na III Mostra Catarina Fantástica
Sophia Meireles
A III Mostra Catarina Fantástica foi um evento realizado em Florianópolis, nos dias 31 de março à 3 de abril, no Cinema Gilberto Gerlach, no Centro Integrado de Cultura (CIC), exibindo filmes catarinenses de fantasia, sci-fi, horror, explorando o cinema experimental de Santa Catarina.
Com uma programação de sete filmes de diferentes cidades de Santa Catarina e um convidado especial da Bahia – o curta Ataques Psicotrônicos, a mostra também contou com o Lab Catarina Fantástica, uma “plataforma de discussão sobre cinema independente, redes de distribuição mundial e produção colaborativa” segundo o próprio site do festival. Todos os filmes mostrados foram premiados nos festivais Sci-Fi Floripa, Festival Internacional de Cinema de Ficção-Científica e Floripa Que Horror! Festival Internacional de Cinema Fantástico.
A mostra foi dirigida artisticamente por Pedro MC, cineasta e produtor cultural, principal responsável pela curadoria do festival, o qual inclui filmes que transitam do terror histórico até o futurismo, debatendo sobre diversos temas sociais; racismo, espiritualidade, sexualidade, política, luto e tantos outros – com, além da fantasia, o amor pelo cinema experimental regional amarrando esse grupo heterogêneo de abordagens, temáticas, fotografias e narrativas.
Relevando um incidente durante a exibição dos curtas “Luzes de Angola” e “Salva na Nuvem”, em que o primeiro foi interrompido durantes seus minutos finais, a experiência do segundo dia da mostra foi confortável, sendo o Cinema Gilberto Gerlach uma sala espaçosa, com uma projeção de qualidade e um bom sistema sonoro.
Sobre Luzes de Angola, dirigido por Lallo Bocchino e roteirizado por Kristel Kardeal, é um curta histórico-fantasioso que conecta uma fazenda de cana-de-açúcar a misteriosos eventos alienígenas. Por se passar no Brasil escravocrata, o curta tem a complicada tarefa de ambientar a obra historicamente com um recurso limitado. A produção faz um trabalho decente, filmando na fazenda histórica São João em Lages, com figurinos, maquiagens e penteados bem feitos para a maioria das personagens – contudo, a imersão é atrapalhada pela roupa usada por Ana, uma das protagonistas e os penteados da sinhazinha. Detalhes pequenos, porém perceptíveis em meio a uma contextualização bem-feita.
Por mais que tenha um outro deslize na caracterização, a fotografia é ótima, manipulando muito bem as luzes naturais e artificiais, brincando com o uso de velas que, na Casa Grande, trazem uma sensação de aprisionamento e escuridão, e na senzala de aconchego.
Durante o curta, é retratado a relação grotesca dos donos de engenho e seus escravizados, os quais têm sua única alegria em uma ritual que operam na senzala, constituindo em dançar com um aparelho na cabeça, o qual faz as vias de um “abafador de som”. O filme pouco se preocupa em explicar o que é esse apetrecho, de onde vem essa brincadeira, deixando subentendido a relação entre ela e a surdez da Ana. Outro aspecto complicado da história é o tom conciliatório entre os escravizados e a sinhazinha, quem tem sua simpatia retratada por uma ou outra careta em momentos decisivos e um suposto desagrado com o tratamento cruel das pessoas negras, o suficiente, segundo roteiro, para torná-la uma aliada. Além da relação esquisita dentro do próprio grupo de escravizados, o capataz é equiparado ao homem branco, com o ônus da traição contra seu próprio povo. Seu final catártico o coloca na mesma posição do seu senhor, sem muita reflexão. Apresenta-se também a figura da escravizada doméstica, a qual é uma figura recorrente na Casa Grande, dispondo de certo cinismo com os demais pretos; contudo, essa problemática não é aprofundada, deixando evidente para o público que o que poderia ser um núcleo de discussão foi apenas uma conveniência de roteiro.
Luzes de Angola, apesar de ser um interessante projeto bem executado, passa a sensação de que deveria ter mais tempo; os seus aproximadamente 10 minutos são apressados, deixando a sensação de que com mais duração essa obra passasse de um projeto interessante para algo, de fato, muito bem executado. Porém, levando em consideração todas as possíveis limitações, faz um bom trabalho no que se propõe.
O segundo curta da noite, Salva na Nuvem, dirigido e roteirizado por Lara Koer, vai para uma direção oposta de Luzes de Angola, tratando de uma Florianópolis futurística com a previsão de uma tempestade tão forte que acabará com o mundo. Enquanto a obra de Lallo Bocchino tem uma metáfora bem direta – sobre os ancestrais vingando seus filhos aprisionados – Salva na Nuvem brinca um pouco mais com os simbolismos. Retratando um dia de trabalho de três empregadas, o filme, em seus 13 minutos, consegue explorar bem a relação das personagens, talvez justamente por delinear personalidades que são quase caricaturas; a puxa-saco irritante, a indiferente desinteressada e a novata amedrontada. Apesar do roteiro conseguir estabelecer bem as características de cada uma, são as quase sempre boas interpretações das atrizes que tornam tudo bem evidente para o público. Atrizes essas que, após a exibição, conversaram com os espectadores durante a mostra.
Salva na Nuvem tem uma ambientação interessantíssima, desde os paineis digitais no prédio da UFSC, até o banheiro repleto de espelhos, placas, câmeras e também a fechadura no sabonete, uma demonstração da mesquinhez de um chefe que, por mais que nunca é mostrado, está presente o curta todo. Existem vários detalhes adoráveis no filme, demonstrando o quanto de amor, carinho e cuidado foi colocado no projeto. A cena em que Dora segura sua xícara desolada, enquanto Leila e Marcela conversam ao fundo foi marcante justamente pelo contraste entre as personagens retratado pelo recipiente que escolheram; enquanto Marcela bebe em um copo descartável, Leila segura uma caneca do tamanho da sua cabeça.
Além das três personagens, existe também a falta de uma quarta - Tânia, empregada demitida por não cumprir com as metas dobradas. Essa personagem também rende um dos pontos altos do filme; enquanto retira as coisas da ex-colega, Dora limpa uma gaveta sem fundo, retirando todo tipo de objeto, de corda até cachorro gigante de pelúcia.
As três trabalham em uma espécie de escritório, realizando tarefas sem propósito algum, como escanear garrafas de plástico amassadas, e se veem presas com a chegada de uma “tempestade mais forte que vento sul”, segundo Leila. Enquanto se desespera por um erro acometido, Dora vê o iminente fim do mundo como uma esperança, não importa mais o que foi feito se nada mais existirá.
Em uma sagaz crítica ao sistema de trabalho, “Salva na Nuvem” diverte e maravilha pela engenhosidade de cenários e um roteiro muito bem feito. Em poucos minutos cria um universo sólido, uma relação entrosada e deixa um gostinho de quero mais para os seus espectadores.
A III Mostra Catarina Fantástica demonstra a importância de sua existência na própria curadoria; sem eventos como esses, dificilmente o público teria acesso a excelentes filmes regionais do cinema experimental. Além de exibir para um maior público produções de menor alcance, fomenta a indústria regional e deixa evidente o potencial do cinema catarinense.
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Luiza Cardoso
O festival Catarina Fantástica exibiu no dia 01/04, às 19h00, o curta Luzes de Angola, e às 19h30, Salva na Nuvem. O local escolhido para as exibições foi o Centro de Integrado de Cultura (CIC), no auditório Cinema Gilberto Gerlach. A sala tinha assentos confortáveis, boas caixas de som e tela de projeção de tamanho adequado. Com capacidade para 137 pessoas, teve espaço de sobra. Foram poucos visitantes e alguns eram a própria equipe de Salvar na Nuvem, como as 3 atrizes principais.
A proposta do festival é criar um espaço para a exibição de obras com temas de horror, ficção científica, política, colapso social, religiosidades e experiências radicais de corpo e desejo. Com sessões gratuitas, busca trazer obras independentes de várias cidades do estado de Santa Catarina. A exibição do primeiro curta da noite começou após breve discurso do organizador da amostra, Pedro MC, às 19h03.
Localizado em Itajaí no ano de 1867, o curta dirigido por Lallo Bocchino acompanha escravizados na Fazenda Pocinho. O elenco é excelente, conseguindo criar e transparecer o sofrimento, a dor e o desespero. A personagem Samara, mãe de uma menina com deficiência auditiva, Ana, é a personagem central da trama. Trabalhando como uma empregada para a família dona da fazenda que maltrata os escravizados, punindo-os pelos menores atos, ela rouba a cena com uma atuação de forte carga emocional. Seu carinho e vontade de proteger a filha cativa o espectador. Com uma bela fotografia, bons enquadramentos, o curta tem uma boa ambientalização, com cores terrosas e um cenário que nos transporta à época da história.
Para lidar com os maus tratos e sofrimento diários, a comunidade de escravizados se une em uma prática de dança, onde eles vestem uma espécie de chapéu que isola o som. Por causa desse adereço, não escutam os avisos de um perigo que se aproxima. No final do curta, uma luzes do céu, que dão nome à obra, “possuem” os moradores da fazenda. Com um ótimo trabalho de edição e efeitos práticos, as luzes, como refletores, causam os atingidos e se contorcerem e provocam sangramentos em seus ouvidos. Com um som contundente, os escravizados percebem que a possessão pode ser interrompida ao tapar-se os ouvidos, logo, colocam os chapéus em suas cabeças, e sobrevivem. Contudo, os senhores, membros da família dona das terras são assassinados.
A exibição de Luzes de Angola foi interrompida em seus três minutos finais, e o público não pôde assistir ao final. Segundo Pedro, isso ocorreu pois “Salvar na Nuvem” estava programado para ser exibido precisamente às 19h30, logo, iniciou instantâneamente no horário cortando o final do curta anterior.
A segunda obra da noite, Salvar na Nuvem, conta com um elenco de 3 atrizes que interpretam Leila, Marcela e Dora, trabalhadoras que vivem entre o fim do mundo e o fim do expediente. Em um mundo pós-apocalíptico e futurista, o curta foi filmado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no campus de Florianópolis. Como estudante da UFSC, ver lugares do cotidiano no telão de uma sala de cinema foi encantador. Além disso, me fez apreciar ainda mais o realismo dos detalhes adicionados posteriormente no processo de edição.
Após a morte de uma quarta colega, as três protagonistas criam um laço. Um telefone misterioso com uma tarefa ocupa todo o tempo e foco das trabalhadores, que dedicam todas as suas energias a cumprir o desafio. No fim, Dora percebe a proximidade de uma tempestade, que traz o fim do mundo consigo.
Após a exibição do curta, Pedro convidou as atrizes Berna Sant'Anna,
Chris Mayer e Karime Limeira para falar um pouco sobre o filme, construção das personagens, processo de produção e mais. Contudo, o momento foi improvisado, sem aviso prévio para os visitantes prepararem perguntas. Além disso, não haviam microfones.
Por solicitação da professora Cléia Mello, o final de Luzes de Angola foi exibido. Contudo, a maioria das pessoas já haviam se retirado do local.
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A Mostra de Cinema Catarina Fantástica aconteceu entre os dias 31 de março a 3 de abril na Sala Gilberto Gerlach, que fica no CIC. Foram sete obras exibidas, entre curtas e longa-metragens, dos gêneros fantástico, horror, experimental e sci-fi. Esta crítica abordará apenas o segundo dia da Mostra, 1º de abril.
Ao entrar no CIC, faltava sinalização da Mostra, aqueles que passavam por ali sem saber por outros meios não conseguiam saber o que estava acontecendo. O início da sessão estava marcado para às 19 horas e acabou atrasando alguns minutos. Na abertura, o organizador Pedro MC falou sobre a proposta da Mostra e deixou claro que foi difícil conseguir a sala de projeção do CIC, expondo que a organização quer abrir para apresentações diversas, com PowerPoint na tela de cinema. Ele deixou claro que é preciso ocupar a sala de cinema, o que já deu o tom da Mostra e ressaltou sua relevância.
Dois filmes foram exibidos neste dia, “Luzes de Angola” e “Salva na Nuvem”. Ambos estavam dentro da proposta da Mostra: explorar gêneros fantástico, horror, experimental e sci-fi de autoria catarinense. Por conta do atraso, o primeiro filme, “Luzes de Angola”, acabou sendo cortado pelo início programado em DCP do outro filme. O mediador do evento parecia por certas vezes despreparado, se não fosse solicitado passar o que cortou de “Luzes de Angola” ao final da exibição, ele não o teria feito. A situação foi um pouco constrangedora para os espectadores, e caso a equipe do filme estivesse na exibição, teria sido ainda mais desconfortável.
Após a exibição dos filmes, as atrizes de “Salva na Nuvem” foram chamadas ao palco para falar sobre a obra. Neste momento, tanto elas quanto o Pedro MC pareceram despreparados. As perguntas foram feitas sem microfone, quem estava mais para trás na sala de projeção não conseguia escutar o que as convidadas e o organizador falavam. Os espectadores também foram pegos de surpresa ao abrirem perguntas, este bate-papo com as atrizes não tinha sido anunciado previamente.
A curadoria dos filmes foi boa, a projeção e som estavam ótimos, porém a Mostra pareceu amadora demais. O organizador expôs as dificuldades de conseguir a sala do CIC, mas mesmo assim a conversa com as atrizes de “Salva na Nuvem” poderia ter sido melhor explorada, por exemplo, ou ao menos com um microfone para que todos na sala pudessem ouvir.
A Mostra Catarina Fantástica tem grande potencial para atrair o público geral para o cinema fantástico e também catarinense. É importante que estes espaços existam para impulsionar o cinema do estado. Mas se não forem bem organizados, o público dificilmente retornará.
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Made hess
Cesar Cesário
Ir ao cinema sempre é uma experiência influenciada por vários fatores, o conforto das poltronas, qualidade de projeção, qualidade de som e a temperatura da sala – que eu particularmente gosto bem gelada, como uma boa cerveja –. Ir ao CIC para a III Mostra Catarina Fantástica foi uma experiência para desacelerar a semana. O centro de cultura claramente possui uma boa estrutura para o que se propõe e, apesar de alguns problemas técnicos durante a projeção dos curtas, a experiência continuou a ser agradável em meio ao caos em que vivemos durante nossos dias.
O primeiro curta apresentado, Luzes de Angola, é capaz de nos presentear logo de início uma atmosfera tensa antes mesmo de compreendermos sobre o que é o filme. A trilha sonora aqui cumpre um papel fundamental, acompanhando a história de sofrimento, resistência e violência com batuques que fizeram meu coração acelerar nos momentos certos, com uma escolha acertada de representação cultural daqueles que vivem essa difícil realidade. Acho muito interessante, além de extremamente importante, nos mostrar como raízes culturais, ritos que acompanham povos e se modificam a depender da realidade, ao mesmo tempo que mantém certas características, são e foram essenciais como formas de resistência de diferentes comunidades e povos. Neste ponto senti uma sensibilidade acurada, uma prática cultural utilizada para fugir, mesmo que brevemente, da difícil realidade vivida é também uma forma de manter aqueles próprios que representam uma identidade cultural viva, de serem os agentes de sua transformação e perpetuação. No fim, esta prática não serve apenas como fuga da realidade e manutenção de suas memórias, mas como real salvadora de suas histórias; é através dessa prática que sobrevivem, que mantêm vivas suas identidades.
Sempre me incomodo, porém, e neste caso não foi diferente, com a tentativa de uma fala de época em que mais parece uma leitura travada de um livro antigo. Acredito que há a possibilidade de se utilizar formas de comunicação datadas à determinados períodos sem parecer que a leitura está acontecendo palavra a palavra, mas não foi esse o caso. As conversas proporcionadas pelos senhores no filme mais me parecem uma leitura de script, com uma tentativa excessiva de corresponder à fala da época mas sem levar em consideração a naturalidade da fala. Este caso não ocorre com o outro núcleo de personagens, sabendo da necessidade de levar em consideração a também histórica diferença no modo de falar condicionado pela realidade de sua classe social. Por fim, apesar de achar o curta extremamente enervante – como se propõe a ser –, com uma trilha sonora interessantíssima, que é capaz de transmitir a sensação dos personagens ao espectador, é inegável que o corte nos minutos finais prejudicou a experiência. Mesmo que tenhamos assistido o final momentos depois, a energia já havia se dissipado e a experiência perdido um pouco de sua potência. Ainda assim é um curta extremamente forte, capaz de expor uma realidade que deve ser constantemente lembrada por seus horrores, ao mesmo tempo em que evidencia grande importância na perpetuação de práticas culturais como formas de resistência à opressão e de continuação da memória de seus representantes.
O segundo curta apresentado, Salva na Nuvem, apresenta uma atmosfera completamente diferente. A fantasia me fascina, seja qual for sua profundidade. Não é necessário que seja densa, que crie um mundo completamente diferente e com novas regras, o simples exagero da realidade já existente me prende, me deixa vidrado à tela. Aqui não foi diferente. Apesar do volume estridentemente alto, impulsionado pela voz estridente – o que se não fosse o volume altíssimo não seria de forma alguma um problema – de uma das personagens ter me incomodado do início ao fim, me peguei gargalhando com as situações absurdas apresentadas no esquisito cenário vivido. As poucas personagens fazem do curta um jogo de momentos singulares e diálogos que te desafiam a não soltar uma risadinha, mesmo que de canto de rosto. A química entre as presentes em cena não deixa nada a desejar, cada uma possuí uma característica marcada, que se expressa não apenas nas falas mas principalmente no agir exagerado, contido ou debochado.
Os cenários espalhafatosos, com gavetas comicamente grandes, eventos climáticos catastróficos e as relações entre as personagens que aparecem ou não diretamente, deixam uma sensação singular de um mundo como o nosso, talvez exageradamente como o nosso. Essa sintonia nos deixa, por fim, com um curta divertido, que expande um pouco a percepção do que pode ser fantasia, de como pequenos exageros na própria cidade em que vivemos a transforma em outra, ao mesmo tempo que permanece sendo a mesmo. Afinal, no filme o mundo acabará em chuva, e hoje… bom, como quase sempre, é um dia chuvoso na cidade de Florianópolis.