III Mostra Catarina Fantástica
Crítica Cinematográfica 26.1 - Déborah Yvanna Bertelhe dos Santos
LUZES de Angola. [Curta-metragem]. Direção: Lallo Bocchino. Lages: Pangéia Filmes/Rockset Produções, 2025. 20 min., son., color.
Este filme é um curta-metragem muito bem produzido. Eu só tive acesso a ele durante a mostra, ou seja, eu o assisti apenas uma vez, mas, pelo que pude perceber, a direção de arte se aten tou a detalhes ínfimos durante a construção de cena, como por exemplo nos detalhes de posiciona mento das velas, na continuidade, entre outros, assim como as escolhas de foco e enquadramento conduziram muito bem a narrativa, com momentos que se traduziam em dor (como nos açoites), em raiva (como nos abusos do senhor, da sinhá e do feitor), em amor (nos cuidados da mãe e do resto do grupo com Ana). As imagens que focam em elementos naturais são um ótimo marcador de tem po, que traz também um elemento de beleza para intercalar cenas de violência explícita, seja física ou verbal, sendo muito bem demarcadas no decorrer do filme. O curta é montado de forma condi zente ao período histórico retratado, tanto pelo figurino quanto pelo cenário, criando uma ambienta ção muito pontual para a imersão na história, ainda que haja um elemento fantástico ao final. A atu ação é de um nível além do esperado, principalmente por Geovanna Zampenini, que representa o papel de Acotire, mãe de Ana.
A história é de um tema que se faz muito relevante, sendo a escravização de povos africanos através do tráfico transatlântico de pessoas sendo considerada pela ONU o maior crime contra a hu manidade apenas em 2026, algo que traz consequências para a vida de pessoas negras no Brasil até hoje (RESOLUÇÃO, 2026). A narrativa mostra crueldade, força, resistência, sendo que cada ambi ente é dominado por uma emoção -- uma boa estratégia para um curta-metragem --: a cena de aber tura carrega tensão e sofrimento, angústia, medo; a casa-grande é permeada pela violência em for mas diversas; a senzala é um lugar de comunidade -- seja qual for a emoção, ela encontra ali um vi gor coletivo, seja na dor que todos ali compartilham, seja na resistência através do cuidado com Ana. Tem-se então a deficiência em uma posição de enfrentamento do fantástico, algo que me reme teu ao final de Um Lugar Silencioso (2018), também por se tratar de vantagens e desvantagens con tra alienígenas relacionadas à surdez -- Ana, no caso, atua assim como um agente crucial para a li bertação final, o que só é possível através da sua deficiência, o que é constatado por Acotire ao ver que a filha não é afetada pelo ataque. O elemento fantástico entra no lugar da violência que é neces sária à resistência, o que é uma questão que pode ser levantada de diferentes formas; seja pela pers pectiva de manter as personagens com as mãos limpas, seja pela perspectiva da esperança como agente ativo contra o medo, entre outras maneiras abertas à interpretação subjetiva.
O curta foi uma ótima escolha para compor a III Mostra Catarina Fantástica, já que se trata de uma crítica social ainda forte e necessária, que traz o fantástico como metáfora e como esperan ça. A abordagem de temas afins é muito importante para o contexto sociopolítico atual, já que temos ataques racistas recorrentes contra pessoas negras na UFSC nos últimos anos (CALDAS, 2022; RIBEIRO, 2022; UFSC, 2023); não muito tempo atrás, lidamos com ataques racistas à Miss Santa Catarina (BORGES, 2025); falas racistas de Jorginho Mello foram normalizadas pelo Ministério Público ao declarar que não houve crime (BUSS, 2025); o CIC é um espaço gerido por pessoas que têm uma tendência a privilegiar artistas e eventos que pouco representam a diversidade do estado e do país. A mostra acontecer na Gilberto Gerlach neste momento, inserida em tal contexto, é muito representativa, assim como apontado durante o evento pela organização.
Referências
BORGES, Caroline. Quem é Pietra Travassos, jovem eleita Miss Santa Catarina e vítima de ataques racistas. G1, online, out./2025. Disponível em: <https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2025 /10/22/pietra-travassos-jovem-eleita-miss-santa-catarina-vitima-ataques-racistas.ghtml>. Acesso em 1 de abril de 2026.
BUSS, Gabriel. MP arquiva denúncia contra governador de SC por fala sobre cor da pele. Metrópo les, online, fev./2025. Disponível em: <https://www.metropoles.com/brasil/sc-mp-arquiva-denuncia -contra-governador-por-fala-sobre-cor-da-pele>. Acesso em 1 de abril de 2026.
CALDAS, Joana; DUARTE, Catarina; TODESCATT, Juan. Pichação com ofensa racista contra alu na quilombola é feita em banheiro da UFSC em Florianópolis. G1, online, set./2022. Disponível em: <https://g1.globo.com/sc/santa-catarina/noticia/2022/09/30/pichacao-racista-contra-aluna-e-feit a-em-banheiro-da-ufsc-em-florianopolis.ghtml>. Acesso em 1 de abril de 2026.
RESOLUÇÃO define escravização de africanos como o mais grave crime contra a humanidade. ONU News, online, mar./2026. Disponível em: <https://news.un.org/pt/story/2026/03/1852716>. Acesso em 1 de abril de 2026.
RIBEIRO, Robson. Reitoria recebe carta de entidades estudantis e sociais contra manifestações neo nazistas na universidade. Notícias da UFSC, online, nov./2022. Disponível em: <https://noticia s.ufsc.br/2022/11/reitoria-recebe-carta-de-entidades-estudantis-e-sociais-contra-manifestacoes-neon azistas-na-universidade/>. Acesso em 1 de abril de 2026.
UFSC comunica à Polícia Civil ocorrência de manifestação de teor nazista. Notícias da UFSC, onli ne, nov./2023. Disponível em: <https://noticias.ufsc.br/2023/11/ufsc-comunica-a-policia-civil-ocorr encia-de-manifestacao-de-teor-nazista/>. Acesso em 1 de abril de 2026.
UM LUGAR Silencioso. [Longa-metragem]. Direção: John Krasinski. Estados Unidos: Paramount Pictures/Platinum Dunes/Sunday Night, 2018. 90 min., son., color.
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Mateo Montaña Girala
Luzes de Angola Dirigido por Lallo Bocchino e exibido na Mostra Catarina Fantástica, o curta-metragem apresenta uma história envolvente que combina elementos históricos e ficcionais, resultando em uma mistura particularmente atraente.
O curta se passa em 1867, em uma fazenda no sul do Brasil, em pleno contexto escravocrata.
Tudo começa quando surgem luzes misteriosas no céu, um acontecimento que rompe completamente a rotina do local.
A obra apresenta uma estética escura, rural e opressiva. É incômoda, mas de forma intencional.
Embora o curta proponha uma ideia interessante, sua execução não é totalmente bem-sucedida. As atuações não parecem convincentes e, em alguns momentos, soam exageradas. As reações carecem de organicidade e nem sempre seguem uma lógica interna consistente.
Os vilões são representados como figuras barulhentas, irascíveis e gritantes. Embora essa caracterização possa fazer sentido, torna-se difícil de sustentar, já que reagem de forma exaltada diante de quase qualquer situação, o que acaba sendo incômodo.
Além disso, não há muito contexto nem explicação sobre as “luzes no céu”, deixando esse elemento narrativo excessivamente aberto.
Como conclusão, trata-se de um curta interessante que aborda questões raciais, sendo recomendável para quem se sente interpelado por esses temas — especialmente no contexto do sul do Brasil —, embora apresente fragilidades em sua execução no nível da atuação e do roteiro.
Salva na Nuvem
Este curta-metragem de gênero fantástico/experimental, típico do circuito da Mostra Catarina Fantástica, dirigido por Lara Koer e protagonizado por Berna SantAnna, Chris Mayer e Karime Limeira, destacou-se como um dos favoritos da mostra.
Com toques de comédia, acompanhados por uma paleta de cores vibrantes, uma estética particular — que combina um estilo futurista com elementos dos anos 90 — e um uso de câmera bastante interessante, o curta é de fácil assimilação e prende a atenção desde o primeiro momento.
As personalidades dos personagens funcionam bem em conjunto, resultando em figuras carismáticas e em uma dinâmica envolvente entre elas.
No entanto, o curta pode não ser recomendado para quem não domina o idioma, já que apresenta diálogos com alto nível de complexidade, o que pode dificultar sua compreensão integral.
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