Considerações

The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore é uma daquelas obras que conseguem ser simples e tocantes ao mesmo tempo. Em pouco mais de 15 minutos, o curta constrói uma experiência sensorial e emocional que celebra o poder das histórias, da leitura e da memória.

Sem depender de diálogos, o filme aposta em uma narrativa visual universal. A jornada de Morris — um homem apaixonado por livros — funciona como metáfora para a relação humana com a arte e o conhecimento. A destruição causada por um furacão (claramente inspirada no Furacão Katrina, 2005) não é apenas um evento físico, mas simbólico: representa a perda, o caos e o apagamento de histórias.

A reconstrução, guiada pelos livros “vivos”, sugere que a literatura tem um papel quase terapêutico — ela cura, organiza e dá sentido à existência. O filme também dialoga com a ideia de legado: histórias sobrevivem às pessoas.

Visualmente, o curta mistura animação 2D e miniaturas e a estética de cinema mudo, evoca uma nostalgia que remete a clássicos antigos. Há influências claras de Buster Keaton, especialmente na fisicalidade do protagonista e no uso do humor sutil em meio ao drama.

A paleta de cores acompanha o arco emocional: começa vibrante, mergulha em tons acinzentados após a tragédia, fazendo a transição do preto e branco para a cor à medida que Morris encontra alegria em uma biblioteca com a redescoberta dos livros. Essa transição é feita com extrema sensibilidade.

A música desempenha papel central, substituindo diálogos e conduzindo o espectador pelas emoções do personagem. É delicada, melancólica e esperançosa — nunca manipuladora, mas sempre presente.

Interpretação simbólica

Os livros ganham vida literal no filme, o que pode parecer um recurso infantil à primeira vista, mas funciona como uma poderosa alegoria: cada livro carrega uma identidade, uma voz, uma história que merece ser cuidada. Morris não apenas lê livros — ele cuida deles, como quem preserva memórias humanas.

Pontos fortes: Narrativa universal e acessível; uso magistral de linguagem visual; forte carga emocional sem apelo fácil e integração entre forma e conteúdo.

Por ser extremamente idealizado, o filme pode soar sentimental demais para quem prefere abordagens mais realistas e a simplicidade narrativa pode ser vista como falta de profundidade por alguns espectadores.

---

"A história cerca a destruição provocada pelo furacão Katrina, o gigante que arrasou áreas inteiras do sul da Flórida, Nova Orleans, Alabama, Mississípi e Louisiana em agosto de 2005. Mas os diretores William Joyce e Brandon Oldenburg não deram voz à tragédia, antes, procuraram lançar sobre ela a luz encontrada na literatura. Com referências ao furacão de O Mágico de Oz, o Mr. Morris Lessmore do título é arrastado para um mundo onde os livros são vivos e cada um deles oferece uma viagem à parte para o leitor que navegar em suas páginas.

A fantasia encontra a paixão pela leitura. Mr. Morris Lessmore, uma representação de Buster Keaton, passa a viver nesse mundo dos livros vivos e a destruição ao seu redor ganha cor, passa a ser um viés não tão essencial quanto a viagem maravilhosa que a literatura lhe proporciona, inclusive através do prazer de escrever. 

Talvez por uma armadilha do roteiro – aquelas situações onde, dada a história, seria impossível não incorrer em um determinado erro – o curta-metragem se mostre aberto ou niilista demais. Talvez seja a minha propensão extrema à racionalização, mas algo em toda a fantasia do filme (considerando a abertura que a fantasia oferece) me pareceu vago, incompleto, superficial. Independente disso, The Fantastic Flying Books… é uma animação adorável, um louvor ao poder que os livros tem sobre nós e como podem nos mostrar novos mundos, caminhos e direções além daquelas a que estamos acostumados ou treinados a seguir." Luiz Santiago https://www.planocritico.com/critica-the-fantastic-flying-books-of-mr-morris-lessmore/ 

Postagens mais visitadas deste blog

Um Lobisomem Americano em Londres (1981), dir. John Landis

Ilha das Flores (1989), dir. Jorge Furtado

Dias Perfeitos (2023), dir. Wim Wenders