Apontamentos sobre a crítica cinematográfica
De modo geral, a critica cinematografica é um gênero opinativo que avalia, analisa e interpreta produções culturais unindo informações objetivas a um juízo de valor fundamentado.
Principais Características e Funções:
É um texto assinado que expressa a visão crítica pessoal, diferenciando-se da escrita de uma sinopse (resumo) puramente informativa.
Análise Fundamentada: Não se trata de apenas gostar ou não; exige argumentos sólidos, contextualização da obra e conhecimento sobre o tema.
Geralmente contém alguns dados objetivos da ficha técnica, uma introdução à obra, análise crítica (desenvolvimento) e um veredito final ou recomendação.
Estilo: A critica cinematografica especializada é clara, reflexiva e com linguagem acessível,
Em resumo, a critica serve como um guia para o público, ajudando a contextualizar e compreender produções culturais.
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Crítica Imanente
A crítica imanente é um método de análise que avalia uma obra em si mesma, a partir de seus próprios critérios internos, sem impor padrões externos. Ela busca contradições, lacunas ou incoerências entre o que algo idealmente representa (suas promessas) e o que de fato realiza (sua prática) A crítica imanente não impõe valores arbitrários, mas sim revela as falhas e os acertos no próprio funcionamento do objeto analisado. O termo também se estende aos juízos e comentários, bem como à pessoa que os produz.
Estrutura de uma boa crítica imanente:
Introdução: Começa com um fato interessante, opinião direta ou contextualização.
Resumo (sem spoilers): Uma breve sinopse do enredo.
Desenvolvimento: Análise detalhada dos pontos técnicos (atuacões, direção, etc.) com evidências do filme.
Conclusão: Avaliação final, forças e fraquezas, e recomendação.
Crítica Externa
A crítica externa julga o objeto usando padrões, normas ou contextos externos, privilegiando a comparação do filme com seus contextos de produção e de recepção.
Método: Aplica um referencial "de fora" (transcendente) para avaliar o objeto.
Objetivo: Confrontar o objeto com um sistema de valores pré-definido.
Diferenças Principais
A crítica imanente é autorreflexiva e baseia-se na lógica interna do objeto.
A crítica externa é heterônoma, trazendo critérios alheios.
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Outras tipologias
1. Crítica Impressionista
Foco: Subjetividade e emoção do crítico.
Características: Baseia-se na premissa de que a leitura é um processo individual e sensível às emoções que a obra provoca no espectador. É frequentemente associada ao jornalismo crítico (crítica de rodapé), priorizando a intuição sobre a pesquisa acadêmica.
Objetivo: Transmitir a "impressão" pessoal, agindo como mediador entre a obra e o público de forma sensível.
As críticas impressionistas fazem uma espécie de descrição da reação imediata de um autor sobre determinada obra, “lançando adjetivos para qualificá-la”, de um modo opinativo raso.
De modo geral, não possui critérios aprofundados como parâmetros, prevalecendo o “eu acho que tal obra representa”, isto é, uma percepção de canto de olho e bastante míope. Contudo, ainda que tenha recebido tal conotação negativa, esse tipo de texto se favorece pela “vantagem da sinceridade, de jogar limpo com o leitor”.
2. Crítica Descritiva
Foco: Narração fiel do objeto analisado.
Características: Atua como um resumo detalhado ou uma resenha simples, focando na estrutura, informações do autor e elementos de composição, sem emitir juízos de valor profundos.
Objetivo: Apresentar a obra ao leitor de forma objetiva e imparcial, descrevendo suas características principais para que o público conheça o conteúdo antes de consumi-lo.
É um estilo de crítica bastante habitual no jornalismo brasileiro, focada mais em falar “sobre o autor, sua importância, seus modos, seus temas, sua recepção, do que analisar aquela obra específica ou sua contribuição intelectual ou artística em conjunto”. É, em suma, a exposição do trabalho do autor com omissão crítica.
3. Crítica Comparativa
Foco: Relação entre obras, autores ou contextos.
Características: Examina o objeto de análise contrastando-o com outros autores, gêneros ou obras anteriores. Pode situar a obra no contexto de um sistema geral (ex: crítica marxista comparando com o contexto social) ou compará-la com pares.
Objetivo: Destacar particularidades, influências, superioridade ou inferioridade técnica de uma obra em relação a outra.
4. Crítica Argumentativa (ou Avaliativa)
Foco: Julgamento fundamentado e defesa de uma tese.
Características: É o núcleo da "resenha crítica", caracterizada pela impessoalidade, cientificidade e a defesa de um ponto de vista (tese) acompanhado de argumentos favoráveis ou contrários ao objeto analisado.
Objetivo: Avaliar a qualidade da obra, justificando o veredito através de análises técnicas e estruturais.
As oposições categóricas na crítica (impressionista/documentada, descritiva/argumentativa, jornalística/acadêmica) definem métodos distintos de mediação entre obra e público. Elas contrapõem a subjetividade rápida à análise profunda e contextualizada, equilibrando a necessidade de divulgação imediata (jornalismo) com a verticalidade teórica (academia).
Impressionista vs. Documentada: A crítica impressionista baseia-se na experiência subjetiva e na emoção do crítico ao fruir a obra. Em contrapartida, a crítica documentada é respaldada por pesquisas, fatos e contextualização histórica.
Descritiva vs. Argumentativa: A crítica descritiva foca em relatar, resumir ou detalhar os elementos da obra (o "que" é). A argumentativa foca em interpretar, defender um ponto de vista e sustentar uma tese sobre a obra (o "porquê" ou "para que" é).
Acadêmica: A crítica acadêmica é vertical, ruminada por longo tempo, teórica e, muitas vezes, considerada mais formal ou "científica".
Jornalística: Comumente, a crítica jornalística é horizontal, rápida e voltada ao público geral (resenhas de jornais). Mas também há críticas que buscam orientar o público e estimular a reflexão, indo além da simples notícia - tais como, por exemplo, as criticas publicadas periodicamente, por críticos especializados, em cadernos culturais.
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Crítica Especializada
Realiza análises aprofundadas sobre roteiro, direção, atuação, fotografia etc, contextualizando obras cinematográficas e influenciando a percepção cultural. Diferente de um espectador comum, utiliza conhecimento técnico e histórico para discutir a linguagem audiovisual.
A atuação envolve escrita crítica, cobertura de festivais e, frequentemente, um caminho autodidata de estudos.
Principais Funções e Habilidades:
Análise Técnica e Contextual: Avalia a obra além do gosto pessoal, considerando técnicas de filmagem, iluminação, som e o contexto sócio-histórico da produção.
Mediação Cultural: Atua como ponte entre a produção cinematográfica e o público, ajudando a interpretar significados ocultos.
Repertório Cinematográfico: Necessita de vasto conhecimento sobre gêneros, estilos, história do cinema e autores.
Argumentação Sólida: Capacidade de organizar pensamentos e fundamentar opiniões, frequentemente através da escrita,
A crítica moderna também aborda o impacto da indústria, como a relação entre valor artístico e de mercado,
RESUMO: Um crítico de cinema assiste a filmes e elabora análises detalhadas que abordam diversos aspectos, como roteiro, direção, atuações, fotografia e trilha sonora. Além de fornecer uma opinião informada, o crítico contextualiza a obra dentro da cinematografia e da cultura, apontando suas referências e relevâncias.
O Cenário Atual da Crítica
Crítica Expandida: Hoje, o crítico também atua por meio de curadorias, festivais, ensaios e vídeos.
Diversidade de Olhares: Há uma busca por maior representatividade, questionando o olhar tradicionalmente masculino e branco sobre o cinema.
Streaming e Lives: A crítica se adaptou, com muitas conversas ocorrendo via YouTube e redes sociais, mantendo a relevância na era do streaming.
Importância: Críticos ajudam a revelar o valor histórico de filmes, destacando o que permanece relevante
Alguns Críticos Brasileiros de Destaque/Históricos
Rubens Ewald Filho: Um dos críticos mais conhecidos do Brasil dos anos 2000, com vasta trajetória na cobertura de prêmios e cinema internacional.
Pablo Villaça: Editor do portal Cinema em Cena, o site de críticas mais antigo do país, e um dos principais nomes da crítica de cinema no Brasil (@pablovillaca).
Luiz Carlos Merten: Crítico do jornal O Estado de S. Paulo, com grande conhecimento em cinema nacional e internacional.
Jean-Claude Bernardet: Crítico e pesquisador incontornável, conhecido por sua análise crítica contundente do cinema brasileiro.
Vinicius de Moraes: Conhecido pela sua atuação na crítica cinematográfica no início dos anos 40, sendo um precursor da análise de filmes no Brasil.
Sérgio Rizzo: Especialista com atuação em diversos veículos de imprensa.
Críticos da Geração Atual e Especialistas
Isabela Boscov: Crítica de cinema com vasta experiência e popularidade na internet.
Renan Martins Frade / Renzo Mora: Críticos com destaque na nova geração.
Donny Correia: Membro da Abraccine e pesquisador da enciclopédia do cinema brasileiro. https://www.youtube.com/channel/UC4AldbyPUBh4fLItDVeww0w
Marcio Sallem: Do "Cinema com Crítica", criador de conteúdo especializado. https://cinemacomcritica.com.br/
Rafael Carvalho: Jornalista e professor, crítico de obras audiovisuais.
Ivonete Pinto: Crítica de cinema, ex-presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS).
Rogerio Sganzerla: Reconhecido cineasta, roteirista e crítico brasileiro.
Luiz Zanin: Crítico experiente ligado a grandes jornais. https://luizzanin7.wordpress.com/author/luizzanin/
Kleber Mendonça Filho: Embora mais reconhecido como diretor, teve uma carreira marcante como crítico e programador de cinema.
Revistas Brasileiras de Crítica Especializada
ABRACCINE: Associação Brasileira de Críticos de Cinema. https://abraccine.org/
Cinema Escrito: https://www.cinemaescrito.com/
Cinética: Focada em ensaios e crítica densa. https://nova.revistacinetica.com.br/
Cine Set: Portal que destaca a nova geração de críticos. https://cineset.com.br/
Revista de Cinema: Focada na cobertura do audiovisual nacional. https://revistadecinema.com.br/