Questão de tempo (2013), dir Richard Curtis
















Questão de Tempo: as segundas chances que (nunca) são dadas


Se o tempo não fosse finito e controlável, qual seria o real valor dele? Um jovem britânico chamado Tim descobre por meio de seu pai que ele apresenta a capacidade de voltar ao passado, característica herdada por todos os homens da família, de onde o protagonista desenvolve todas as possibilidades alcançáveis de conquistar amorosamente uma jovem que ele admira. A princípio, a narrativa soa supérflua e previsível por ser mais uma produção cinematográfica que aborda a relação entre dois personagens baseada no interesse árduo de um dos lados em conquistar o outro. No entanto, Questão de Tempo, do diretor Richard Curtis, lançado em 2013, ultrapassa essa abordagem simplista clássica de filmes de romance ao desenvolver um drama carregado de sentimentalismos e interrogações sobre a vida.  

Sendo a passagem do tempo o fio condutor do longa-metragem, são apresentadas ao público indagações sobre quais atitudes poderiam ser tomadas quando se possui o controle sobre algo que não usualmente se possui; além, quais méritos se almejam na vida daqueles que a possuem. Com isso, o clichê é colocado de lado e as questões existenciais pertencentes a qualquer ser humano funcional se introduzem de maneira com que os impasses e o desenvolvimento da trama gravitem sob a órbita temporal. Esta é a profundidade na qual e com a qual o filme imerge os espectadores, pela sua adaptação de uma vida simples objetivada como um ideal intrínseco à filosofia da alma. A obra nos mostra como o protagonista utiliza sua capacidade de regredir ao pretérito como forma de moldar seu futuro a uma perspectiva aprazível, na qual as consequências negativas dos atos podem ser desfeitas. Sob essa óptica, é ofertada ao público a experiência de assistir a um longa-metragem que se baseia não nos erros dos personagens, mas sim nas possibilidades de cenários diferentes criados para um fim.

Além disso, os pontos de comicidade se fazem bastante presentes, principalmente relacionados com as próprias atitudes do Tim, o qual se desconcerta diante de situações sociais que exigem maiores habilidades sociais. Em alguns momentos, os panoramas vergonhosos dos quais o protagonista revela grande capacidade de fazê-los acontecer ocasionam reações similares dos espectadores. A diferença é que ao público não é apresentada a opção de uma segunda chance para desfazer o sentimento de embaraço compadecido pelo personagem.

Os personagens aqui são todos bastante marcantes. A maioria destes são familiares do Tim, como sua mãe, seu pai e sua irmã, além do ilustre tio que sempre perde a memória e cativa risos. Uma das pérolas desenvolvidas no filme é a relação do Tim com seus parentes, da qual são extraídos juízos de valores e morais que adicionam profundidade ao longa. 

Questão de Tempo, portanto, é um longa-metragem prazeroso que muda as rotas tradicionais de um clichê em uma produção que aborda profundamente as indagações existenciais dos seres humanos. Indo além, é um filme que apresenta comédia, sensibilidade e drama de forma agregada em uma unidade que dificilmente se desmantela pelas forças advindas de cada categoria. No fim, o tempo decorrido ao assisti-lo também se comporta como algo interessante.

Marlon Ramos

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A Família que Temos


Mais do que drama ou romance, “Questão de Tempo” funciona como um ensaio sobre família. O elemento de ficção científica, a viagem no tempo, é apenas o pano de fundo para dois planos maiores: o valor do tempo e, sobretudo, os laços familiares.

A volta no tempo é um tema comum na ficção, e o próprio filme ironiza isso ao citar Hitler ou Helena de Tróia. Mas, à maneira de Dickens (tão adorado pelo pai da protagonista), a obra usa a fantasia não para falar de paradoxos temporais, e sim para convidar o espectador a refletir sobre a vida cotidiana com humor e sensibilidade. É assim que o filme cumpre seu primeiro propósito: mostrar como tentamos refazer mentalmente nossos erros, como revivemos o passado em busca de versões melhores de nós mesmos e como isso é inútil. Tim aprende, aos poucos, que a melhor linha temporal é a presente, com suas falhas e imperfeições. Ele volta para corrigir encontros, declarações e momentos com Mary, até perceber que o que realmente importa não é o perfeccionismo romântico, mas a vivência real, espontânea, imperfeita. Por que ele mudaria o chuvoso dia do casamento deles?

O segundo plano, a família, é o que emociona brutalmente. A família de Tim é quase idealizada, e justamente por isso provoca inveja. O filme retrata de forma orgânica relações que, na vida real, costumam ser tensas ou quebradas: o carinho paterno, a cumplicidade entre irmãos, a presença constante de afeto. Isso gera uma nostalgia curiosa: não daquilo que vivemos, mas do que “deveríamos” ter vivido. Queremos não aquela vida, mas aquele tipo de convivência.

O romance com Mary surge como extensão dessa construção: a formação de um novo núcleo familiar. Ele avança rápido porque o foco não é o casal, mas a continuidade das relações: gravidez, reuniões com amigos, celebrações, pequenas rotinas. Não obstante, tudo isso é interrompido pela morte do pai, que funcionava como o eixo emocional da família e o guardião do segredo da viagem no tempo. Sua partida simboliza a transição inevitável de qualquer estrutura familiar: as pessoas morrem, e nós seguimos vivendo.

A união entre tempo e família produz o impacto emocional mais forte do filme. Choramos porque já tivemos algo parecido e perdemos, porque nunca tivemos e desejamos, ou porque sabemos que nunca teremos. No entanto, há um erro incômodo na construção do protagonista: o filme tenta apresentar Tim como um “mocinho cheio de pequenas falhas”, quando, na prática, ele exerce poder sobre Mary sem consentimento e beira a traição com Charlotte. A mudança repentina de atitude antes do pedido de casamento não apaga completamente a forma como ele age.

Apesar disso, “Questão de Tempo” cumpre brilhantemente seu papel. Ele desperta inveja, desejo e reflexão ao transformar pensamentos cotidianos de “eu deveria ter feito diferente” em situações possíveis. No fim, o golpe emocional permanece: o tempo e a realidade que temos é tudo o que realmente temos.


 Gustavo Rocha

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"Questão de Tempo" utiliza a viagem no tempo como metáfora para afirmar que o sentido da vida nasce das relações que cultivamos, e não das grandes viradas dramáticas. A narrativa acompanha Tim em sua descoberta de que revisitar o passado só tem valor quando nos permite enxergar melhor o presente e, sobretudo, as pessoas que o compõem.

Ao focar em vínculos — amorosos, familiares e amistosos — Richard Curtis transforma gestos cotidianos em pilares emocionais. O romance com Mary, vivido com doçura e simplicidade, mostra que o amor verdadeiro se constrói na repetição das pequenas escolhas diárias.

A relação com o pai, delicadamente interpretada por Bill Nighy, eleva o filme ao seu ápice afetivo, lembrando-nos de que a finitude dá urgência ao cuidado. Mesmo quando a trama flerta com o sentimentalismo, mantém uma honestidade emocional que torna suas reflexões universais.

A fotografia e a montagem destacam o ordinário, sugerindo que a beleza está justamente naquilo que passa despercebido. Ao final, "Questão de Tempo" não oferece respostas filosóficas complexas, mas um convite radical à presença: estar com quem amamos é o que torna o tempo vivido — e não apenas passado.

Luisa Da Rosa

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Questão de Ego

"Questão de Tempo" é, à primeira vista, mais um filme daquelas comédias românticas que nos encantam com suas histórias doces e previsíveis. No entanto, ao analisar um pouco mais a fundo, o que se revela é uma obra que, embora envolva elementos típicos do gênero, questiona algumas premissas fundamentais sobre o amor e o livre-arbítrio.

O filme, protagonizado por Domhnall Gleeson e Rachel McAdams, conta a história de Tim, um jovem que descobre que possui a habilidade de viajar no tempo. Com esse poder, ele tenta manipular seu passado para conquistar a mulher dos seus sonhos, Mary, vivenciando momentos de romance e drama. A premissa inicial é bastante envolvente, e a trama segue um padrão de leveza e sensibilidade, típicos das comédias românticas. No entanto, é justamente aí que começa a surgir uma reflexão que talvez muitos não percebam de imediato.

O ponto central do filme é a utilização do tempo como ferramenta para moldar o destino. Tim, ao tentar refazer e melhorar suas ações no passado, busca incansavelmente "corrigir" seus erros, sempre com a intenção de conquistar o amor de Mary. Se por um lado isso pode ser visto como uma busca romântica e idealizada, por outro, levanta uma questão mais complexa: seria moralmente correto manipular o fluxo natural do tempo, mesmo com intenções aparentemente boas?

É aí que o filme se distancia do campo da típica comédia romântica e nos coloca diante de uma reflexão mais filosófica. A história de Tim não é exatamente sobre como um casal se forma, mas sobre a busca por um controle absoluto sobre a própria vida e as escolhas que fazemos. Ao tentar "arrumar" tudo o que deu errado no passado, o protagonista de certa forma anula o conceito de livre-arbítrio, que é o que nos torna humanos. Ele não apenas altera os próprios erros, mas tenta influenciar o destino de outras pessoas, impondo sua própria visão de como as coisas deveriam ser.

Isso nos leva a pensar: até que ponto a busca incessante por perfeição e controle sobre os acontecimentos pode ser considerada uma atitude egoísta? E será que essa repetição do tempo, que se coloca como uma oportunidade de "melhorar" a realidade, não revela uma forma de negar a imprevisibilidade e os aprendizados que a vida oferece? O romance, então, não é tão puro ou idealizado quanto aparenta. Na verdade, ele é a manifestação de uma perspectiva egoísta, que tenta forjar o futuro de acordo com os próprios desejos.

Embora muitas pessoas possam enxergar o filme como uma doce história de amor, é preciso questionar: o que realmente significa amar alguém? É querer que as coisas aconteçam exatamente como idealizamos ou é aceitar as imperfeições da vida, respeitando o curso natural dos eventos? "Questão de Tempo", de certa forma, nos convida a refletir sobre esses dilemas, apresentando uma história de romance que, em última análise, pode ser vista como um reflexo da luta constante para controlar o destino.

No fim das contas, o filme consegue, sim, transmitir uma mensagem bonita, mas talvez ela não seja tão romântica assim. Ao invés de se tratar de um conto de amor perfeito, é mais uma representação de como a tentativa de controlar os outros e o próprio destino pode nos afastar da verdadeira essência do que significa viver e amar.

Eduardo De Queiroz
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Tempo de Reflexão: A Leveza Profunda de 'Questão de Tempo 

"Questão de Tempo" é uma obra que consegue misturar com sensibilidade elementos de  humor, drama e filosofia, criando uma narrativa que reverbera profundas reflexões sobre a vida  e o tempo. Acredito que o filme se destaca por seu tom humano, ao retratar a história de um  jovem que descobre possuir uma habilidade de viajar no tempo, mas aprender que essa  capacidade não garante a felicidade ou a ausência de problemas. Essa abordagem torna a trama  mais distinta, afastando-se de clichês de filmes de viagem no tempo e colocando ênfase na  experiência emocional do personagem. 

No desenvolvimento da narrativa, o roteiro consegue equilibrar momentos leves e outros mais  introspectivos, permitindo que o espectador se conecte com as dúvidas e sonhos do  protagonista. É interessante como o filme enfatiza a importância das pequenas escolhas do  cotidiano, mostrando que, embora o tempo seja uma força poderosa e realizada, são nas ações  simples que encontramos o verdadeiro significado da vida. Essa mensagem traz um certo  conforto, lembrando-nos de valorizar o presente, mesmo em meio às adversidades. 

A atuação de Domhnall Gleeson como Tim é bastante convincente, transmitindo de forma  sincera as emoções do personagem. Sua vulnerabilidade e ao mesmo tempo sua esperança  permeiam toda a narrativa, tornando sua jornada pessoal mais tangível para o público. Os  demais personagens também são protagonistas para essa atmosfera acolhedora, sobretudo a  figura da mãe, que representa uma alicerce emocional e uma ligação com as raízes familiares  que o valorizam. 

Outro ponto que merece destaque é a direção de Richard Curtis, que consegue criar uma  ambientação acolhedora e realista, mesmo com elementos fantásticos presentes na história. A  fotografia e a trilha sonora complementam bem esse clima, reforçando a ideia de que o  verdadeiro tempo é aquele que dedicamos às nossas relações e momentos de reflexão. A  mensagem central do filme, que devemos aproveitar cada instante, é transmitida de forma  delicada, mas impactante. 

Por fim, “Questão de Tempo” é um filme que provoca uma reflexão sobre como vivemos nossas  vidas. Sua simplicidade aparente esconde uma mensagem profunda, convidando o espectador  a compensar suas prioridades e a valorizar o presente. É uma obra que transcende o gênero de  fantasia, tocando no universal, naquilo que é comum a todos: o desejo de ser feliz e de fazer o  melhor com o tempo que temos. Uma produção marcante não só pelo enredo, mas pela filosofia  de vida que transmite.

Elisa Rocha

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Singelo ou moralmente incerto? Uma Questão de Tempo 


Se tivéssemos uma segunda chance? uma segunda chance para dizer o que não foi dito? Fazer o que não foi feito? Essas perguntas que o filme de 2013, dirigido por Richard Curtis responde, ou tenta, ao menos, em um filme de romance com pitadas de ficção científica, utilizando o artifício da viagem no tempo para conduzir seu protagonista nas relações sociais que cria ou tem ao longo da história.

Quando o jovem Tim – Interpretado por Domhnall  Gleeson – completa seus 21 anos, é presenteado por seu pai (Bill Nighy) com o conhecimento passado pelos homens de sua família de geração a geração, o poder da viagem  no tempo. O filme, nos seus minutos iniciais, é ágil em apresentar todo conceito, conceito esse, que, passando por De Volta para o Futuro (1985), Doze Macacos (1995) ou O Homem do Futuro (2011) aqui se encontra um forma simples e eficaz, um sonho infantil. 

A história é uma verdadeira “sessão da tarde”, histórico do diretor escrevendo comédias românticas e filmes para toda a família mostram o quanto é eficiente em contar histórias simples, com um orçamento de US$ 12 milhões o enredo todo se apoia no elenco, que carrega o filme, quanto nas relações doce de pai e filho – foco do filme –, o carinho de Kitkat com seu tio e a performance da Rachel McAdams – Segunda ocasião que se casa com um viajante no tempo, vide Te Amarei para Sempre (2009) –, a cara metade do protagonista.

Em meio a tantas possibilidades de história que são apresentadas ao longo do filme, como a relação dos irmãos com a viagem no tempo, fazendo uma cena divertida e uma das discussões morais apresentadas no longa, a relação do casal com a viagem do tempo, os roteiristas optaram pela lente do pai e filho, esse guia mais velho que já leu de tudo e passou por tudo. Para um filme que na primeira metade foca no protagonista indo atrás de um amor, o momento que ele escolhe não contar suas habilidades para a esposa, isso deixa a sensação de um sujeito sempre contando vantagem, manipulando todas as possibilidades ao seu favor quando se pensa demais nas convivências apresentadas, tendo outra maior questão moral em “trair ou não trair a namorada?”, fazendo-nos questionar um sentimento genuíno. Mesmo assim, no momento menos esperado mas construído na reta final, uma brincadeira singela entre pai e filho na praia, o filme quadrado se converte em ondas, e você, aberto a lágrimas. 


     Vinícius Lemos Marcílio


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