Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (1975), dir. Terry Jones, Terry Gilliam
Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado: psicodelia revolucionária
Espinhoso, surrealista, cômico, revolucionário, absurdo e criativo. Todos esses adjetivos podem ser utilizados para descrever o grupo de comédia britânico Monty Python, o qual redirecionou os rumos da sátira e da ironia para perspectivas inesperadas. As críticas e piadas sobre política, religiões e a sociedade ocidental se fazem presentes no Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado, primeiro filme com história original criado pelo grupo e lançado em 1975. Aqui, o longa-metragem expõe uma paródia sobre as histórias do Rei Arthur e dos Cavaleiros da Távola Redonda, integrantes da mitologia da Grã-Bretanha, caracterizada pela forma miserável como são retratados os personagens e as situações nas quais eles se encontram.
Tudo gira em torno da comédia. Desde o início da exposição, ainda nos créditos, a comicidade já se apresenta de forma a instigar o público a entender sobre o tom que o grupo adotará ao longo da mostra. Os planos são quebrados, as cenas interrompidas, a relação entre produção e obra se funde, sem haver uma separação entre o "por trás das câmeras" e o que realmente é mostrado. Nesse sentido, todas as cenas carregam fortes manifestações de comicidade e de ironia (às vezes de forma mais latente, às vezes de forma mais tímida, mas sempre sendo apresentadas) que se espaçam e se diluem de maneira a tornar a experiência cinematográfica mais fluida e cativante. Esse é o ponto forte do filme: saber dosar a comédia sem que as situações sejam previsíveis ou se repitam de modo exaustivo e, mesmo quando se repetem, se amalgamam no todo.
O rompimento com ideias pré-estabelecidas vai além dos gêneros e da forma como são apresentadas, pois intervém também na própria estrutura cinematográfica que se praticava até então. Monty Python consegue incomodar até Aristóteles ao descontinuar as convenções usuais descritas na Poética por meio da adoção do próprio arranjo narrativo substitutivo das leis da probabilidade e da necessidade. Nesse sentido, a surpresa/o inesperado/o repentino se mostram intrinsecamente relacionados com o ordenamento elaborado pelo grupo, visto que até a forma como se configurava o roteiro teve de ser alterada com o objetivo de se encaixar na sua proposta. Neste longa-metragem, as histórias apresentadas sobre os personagens ganham atos específicos sob a ótica da nova conformação, as quais, pela lógica do impremeditável, se iniciam e se findam de maneira singular.
A genialidade do grupo fica exposta também pelas adversidades que se colocaram no caminho da produção de Em Busca do Cálice Sagrado. O baixo orçamento disponível para um filme normalmente o coloca abaixo das expectativas e diminui seu valor pelas limitações materiais e criativas que são cruelmente impostas. Entretanto, esse impasse é apresentado de modo articulado com o longa-metragem, o qual expõe abertamente os erros e as controvérsias durante sua criação, e que funciona de maneira pitoresca para que o filme transmita a mensagem que deseja, além de servir para a construção de uma “experiência Monty Python". Além disso, uma das características de exposição da obra é o uso de animações em substituição de cenas filmadas com atores, o que possivelmente se explica pela questão orçamentária, sem obviamente reduzir as qualidades do longa pela preferência.
Assim, por ser uma experiência diversa e fora tradicional para a comédia e para a ironia, é passível de Monty Python Em Busca do Cálice Sagrado ocasionar diferentes percepções para o público, que podem amá-lo ou odiá-lo. O que se pode ter como unanimidade é que tudo é polêmico, controverso e rompido, mas de certa forma, amarrado em uma unidade.
Marlon Ramos
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Quem é você que é tão sábio nos caminhos da lógica?
Monty Python em Busca do Cálice Sagrado é a essência do nonsense. Com a quebra dos próprios limites da moldura, o filme nos faz questionar até se houve revisão do roteiro ou de qualquer outra etapa da produção. Corriqueiramente nos perguntamos como os autores pensaram naquelas cenas e diálogos. É difícil imaginar que o Rei Arthur possa fazer a Lebre e o Chapeleiro parecerem personagens sãos.
O objetivo do filme não é criticar Rei Arthur, não é contar sua história ou propor uma nova interpretação. O monarca mítico é quase uma vítima da inconsequência dos variados humores do grupo, assim como são as lhamas e os alces (mesmo que os responsáveis pelos créditos do início do filme tenham sido demitidos e aqueles que os tenham demitido também tenham sido demitidos).
A obra varia do puro humor sem sentido e sem punchline, como quando falam sobre andorinhas, até o humor físico exagerado, como no episódio do cavaleiro negro, sem deixar de lado um humor de esquetes estruturadas, como a esquete da bruxa, ou o humor de conotação sexual com Zoot e sua irmã gêmea.
Todavia, atirar para todos os lados não o torna um filme que faz todos gargalharem, mas sim o contrário. Há profusão de ideias, cômica em si mesma, é claro, mas que atrapalha o aproveitamento daqueles indispostos a assistir o filme dentro de sua proposta ou aqueles com humores específicos.
Ademais, a obra é especialmente fértil para aqueles mais inclinados ao humor nonsense, mas o gênero nascido na Inglaterra é, por si só, difícil de ser entrelaçado quando não há um fio condutor que traz o espectador à realidade, como em Alice no País das Maravilhas. Bem, como já dito, a quebra desse paradigma ocorre dentro de uma estrutura que já rompe com aspectos fundamentais do acesso intelectual à obra: a suspensão da descrença. É uma provocação artística e humorística, mas não universal.
É natural que tenhamos que utilizar a suspensão de descrença para assistirmos um filme ou consumirmos qualquer outra obra. Não obstante, o nonsense por si só desafia o conceito, tornando seu mundo completamente inesperado, mas sempre com uma personagem ou outro artefato que garantam que quem está assistindo a obra não fique sozinho na sanidade e infeliz realidade. O grupo não entrega essa pedra de fundação para o espectador no filme. Não de forma negativa, mas sim como uma afirmação de que a produção seria uma obra-prima do humor sem sentido.
Dessa forma, Monty Python em Busca do Cálice Sagrado não é um filme que agrada a todos, mas é essencial. É um ponto de pivot importante na comédia, um filme que deve ser assistido por todos os amantes da comédia e da cultura pop, pois suas referências reverberam até os dias de hoje. Ao final, fica a provocação: quais são as velocidades de voo de uma andorinha africana e europeia?
Gustavo Federovicz
















