Dias Perfeitos (2023), dir. Wim Wenders

















Dias Perfeitos: essa rotina liberta ou prende?


Oh, mother, tell your children

Not to do what I have done

To spend your lives in sin and misery

In the house of the rising sun


Com a música “House of the Rising Sun” se inicia uma história banal, o protagonista, ao contrário do que a música sugere, não se lamenta, mas o pecado e a miséria se encontram presente na terra do sol nascente. Dias Perfeitos é um filme de 2023, dirigido por Wim Wenders, onde acompanhamos Hirayama, um limpador de banheiro de Tóquio, que vive uma vida simples, com uma rotina clara, até sua sobrinha reaparecer e reconfigurar sua vida.

É uma obra que, durante grande parte de sua projeção, busca captar a vida desse homem, sua rotina banal até ser quebrada no meio com a vinda de sua sobrinha,  cada dia daquela semana muda e as inconveniências aparecem para desafiá-lo. A atuação de Kōji Yakusho é mestre em representar a solitude do personagem, é meticuloso em seu trabalho e tem muito a esconder. No início, o ajudante do trabalho parece alguém simplesmente irritante com Hirayama, mas é ele que busca pela história daquele homem quieto, se é casado, se tem filhos, por que ama tanto esse emprego, questões que nos perguntamos e somos deixados sem resposta, assim como nunca veremos todas aquelas fotos.

 A aparição de Niko, junto com sua mãe revela o afastamento da família por parte do protagonista, tanto de tempo sem vê-las, quanto de estilo socioeconômico, onde o Hirayama mora e com o que trabalha, aquilo foi uma escolha, nessa noite também temos um abraço carinhoso e familiar, a saudade é evidente. Dalí, sua rotina é quebrada, o colega de trabalho se demite, cobrindo o dia de trabalho, pela primeira vez, vemos raiva. 

O filme nos faz pensar em como afetamos e somos afetados por todas as pessoas em nossa volta, sendo com um abraço familiar ou a troca de olhares com alguém em um parque, a diferença entre a escolha ou não de estar sozinho, tudo em pequenos gestos em uma rotina. Seguindo essa perspectiva, os sorrisos, as risadas e a calma de Hirayama são significantes, principalmente ao olharmos a cena final, com o choro sincero intercalado pelo sorriso, aquela rotina de um trabalho desvalorizado liberta ou prende?  

Vinícius Lemos Marcílio

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Dias Perfeitos: quando a simplicidade vale ouro


Viver o agora. Essa é a premissa que acompanha o longa-metragem Dias Perfeitos, dirigido por Wim Wenders e lançado em 2023. Aqui, nos é apresentado Hirayama, um limpador de banheiros que trabalha em Tóquio carregando consigo suas simplicidade, humildade e gosto por literatura, música, fotografia e natureza. Todo o processo de construção do filme se baseia na mostra dos ciclos rotineiros do protagonista em sua habitação e em suas atividades laborais, ao lado de personagens paralelos que se apresentam casualmente com a intenção de reforçar a trama.

A experiência de assistir ao longa é de quase como se estivesse em uma sessão de cinema mudo, pois os diálogos do Hirayama são escassos e as situações que se expõem comunicam o necessário pela sua exposição visual. O ator Kōji Yakusho se desdobra em diversos momentos a fim de transmitir de forma singela a personalidade de Hirayama, se aproveitando da escassez das linhas oferecidas a ele para emanar um conteúdo substancial com sua linguagem corporal e com seus gestos, sempre pontuais.

As pessoas que entram no caminho do Hirayama, as situações que se apresentam e as próprias inquietações do protagonista transmitem ao público sua personalidade quieta e ao mesmo tempo inquieta, com sua obsessão por mídias tradicionais e sua busca pelo belo.

Ponto forte do filme é a exposição dos banheiros nos quais o Hirayama trabalha, cada um de forma mais exuberante e arquitetonicamente diversa que o outro. Em cada um desses locais são expostos encontros, reflexões e observações que funcionam como fio condutor da trama. Um fato curioso é que a ideia de Wim Wenders, a princípio, era produzir um documentário sobre esses locais insertos na cultura japonesa, entretanto, o diretor mudou as rotas para produzir um longa-metragem que aborda não algo material, mas sentimental a partir desses espaços.

A trilha sonora do filme, por outro lado, marca presença de forma impactante e vibrante por conta da escolha de faixas ressoantes que permanecem na memória mesmo após o fim da exposição. Esse uso das músicas pode ser alvo de questionamento por conta de absolutamente todas as gravações exibidas no filme serem estadunidenses (com exceção de uma interpretação japonesa de uma música que também é americana), o que soa como um Oscar-bait evidente para agradar os críticos. Outras características como o consumo de outras mídias, produtos e costumes dos Estados Unidos reforçam essa hipótese, visto que o protagonista asiático é praticamente inserido na cultura de outro país dentro de seu próprio país.

O que é fácil de ser observado no filme é a sua paleta de cores, que se concentra nos tons de azul escuro e de amarelo que, no círculo cromático, são praticamente opostas, o que ajuda a criar uma atmosfera interessante para a mostra ao completar os sentidos visuais. 

É um filme que fala sobre o simples, sem necessitar de grandes elencos e de grandes cenários, mas apenas de um homem e sua paixão pelas coisas simples que encontra pelo caminho, como uma centelha que desperta uma grande chama. Quando se percebe que a coisa mais importante da vida é estar em bons lugares com boas pessoas, tudo muda.

Marlon Ramos

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