7ª edição da Mostra de Cinema Uruguaio - MuyCinema (2025)
Imagens de uma despedida: quem se despede é o público
Marlon Ramos
Como superar algo que ainda não aconteceu? Para Joaquim, uma criança, a partir das fotografias que congelam o tempo e fazem viver o que já não pode mais ser vivido. Essa é a narrativa do curta-metragem catarinense Imagens de uma despedida, do diretor Nicolas Busato, que retrata as inquietações silenciosas de um menino que entende como verdadeiro o previsível falecimento do próprio pai. É um filme que aborda a questão da aceitação de um sentimento complexo de se lidar, especialmente para um infante, e as formas como se portar diante das situações de maneira a continuar firme em um mar revolto.
A premissa parece trazer argumentos suficientes para a concepção de uma obra cativante e que desperte emoções profundas nos espectadores. Entretanto, a sensibilidade aqui exposta não imerge com sua potencialidade e atraca em um campo raso, dificultando assim uma conexão mais latente com o público. Em certos momentos, soam supérfluas algumas mostras, quase se atrelando a um conceito puramente estético para justificar a falta de complexidade a ser mostrada.
Uma clareza maior que poderia ter sido adotada seria a do principal argumento do filme, que se assenta no fato de uma criança conseguir lidar de maneira resistente com o expressivo impasse ocorrido, a fim de que houvesse uma maior contribuição da obra para com os espectadores.
No fim, Imagens de uma despedida se porta como uma linha achatada, da qual dificilmente se criam picos de disposição.
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Imagens de uma Despedida: a intensidade de um curta exemplar:
Rafael Perkovski Müller
Imagens de uma despedida do diretor Nicolas Busato, é um curta dramático de 2025, nos colocando na perspectiva de um menino que lida com a doença terminal de seu pai, o filme lida com um dilema bastante interessante e poético utilizando as fotos como fontes de memória, para não esquecer momentos preciosos que agora não podem ser revividos com seu pai. Em um dado momento do filme o menino vai a um senhor buscando revelar fotos de uma câmera antiga ele possuía, entretanto uma das fotos ele não consegue revelar, com isto o filme nos mostra um garoto triste e bastante deprimido diante de tais fatos.
O filme possuí uma mensagem muito bonita e nos faz refletir bastante em passar mais tempo com pessoas que amamos, pois o tempo com eles pode no futuro não existir mais. Cabe também levar em consideração a fotografia, som e ambientação que além de características técnicas ajudam muito a transmitir a mensagem que o filme quer passar.
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O silêncio como narrativa
Elisa de Melo Schlichting
O curta “Imagens de uma despedida”, dirigido por Nicolás Busato, é um retrato sensível sobre o luto e a memória. Em vez de seguir uma narrativa linear, a obra se apoia em fragmentos — imagens contemplativas, gestos cotidianos, silêncios densos — que traduzem a experiência íntima da despedida.
A direção aposta no minimalismo: cada detalhe carrega peso simbólico, e a ausência de explicações abre espaço para que o espectador projete suas próprias emoções. Sem recorrer ao melodrama, o filme transforma a dor da perda em poesia visual, oferecendo uma experiência breve, mas intensa, sobre o modo como lidamos com ausências.
“Imagens de uma Despedida” e a poesia silenciosa do adeus
Brenda Alves
O curta “Imagens de uma Despedida” dirigido por Nicolás Busato, é uma obra que transforma o simples ato de montar uma colagem em um poderoso rito de passagem. Através de uma narrativa construída por lembranças e silêncios, o filme captura a delicadeza dos pequenos gestos que compõem o adeus para aqueles que se foram e o luto dos vivos, onde cada silêncio, cada fotografia, cada ausência fala mais do que as palavras poderiam. O olhar infantil, vulnerável e carregado de culpa, conduz o espectador por um luto que ainda não se concretizou, mas já pesa no ar. A fotografia melancólica e a montagem cuidadosa reforçam o caráter fragmentado da memória, enquanto a perda de uma peça da colagem se torna metáfora do inevitável: o tempo que escapa, o amor que permanece mesmo no vazio. É um filme que não busca respostas, mas ecoa suavemente a verdade mais humana de todas, lembrar também é uma forma de continuar amando.
“… a perda de uma peça crucial o obriga a enfrentar seus medos, sua culpa e a natureza fugaz do tempo.” - Imagens de uma Despedida
Kailani Novello
Imagens de uma Despedida (2025), de Nicolas Busato, é um curta que se move na fronteira entre o visível e o interior: o que perdemos, o que guardamos, e como imagens (físicas, fotográficas) se tornam âncoras para aquilo que parece escapar.
O tema é dolorosamente universal: a infância confrontada com a finitude, a necessidade de preservar memória quando o corpo ou a presença se enfraquecem, o senso de urgência frente ao tempo que inexoravelmente corre. A colagem fotográfica como metáfora consegue unir lembranças fragmentadas, culpa e afetos, numa tessitura que interroga o espectador: até que ponto estamos prontos para admitir que certas despedidas não têm um fechamento limpo?
Visualmente, o filme aposta numa simplicidade que amplifica a emoção. A fotografia privilegia luz natural e contrastes suaves, os enquadramentos são afetivos, próximos da matéria do cotidiano: fotos, papéis, mãos, olhares. Não há grandiloquência, mas há cuidado em cada plano que segura o silêncio entre as bordas da cena.
No som, há um diálogo entre presença e ausência: a respiração, o som ambiente que insiste em voltar, passos, o crepitar de páginas, talvez vozes, e, quando presente, a música ou trilha que não invade, mas circunscreve, aponta para o que foi e para o que será removido pelo esquecimento. O silêncio pulsa tanto quanto os ruídos: ele revela o peso da espera, do medo da perda, daquilo que ainda não foi dito.
Em seus 15 minutos, Imagens de uma Despedida consegue transformar o ordinário, uma casa, uma colagem, um filho, num espaço de experiência universal. É um filme que permanece na pele, e que convida a revisitar as próprias imagens que guardamos, as que já fomos, e as que deixamos escapar.
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Agarra-me forte: Despedida, amizade e memórias
Marlon Ramos
Conexão e amizade são duas palavras que funcionam de maneira harmônica para um relacionamento social saudável e próspero, entretanto, quando esse matrimônio promissor é acometido pela inserção da palavra luto, todas as ideias acerca dessa união são abaladas. Esse descompasso é o fio condutor do longa-metragem uruguaio Agarra-me forte (Agarrame fuerte), dos diretores Ana Guevara e Letícia Jorge, vencedor do prêmio Nora Ephron Award no Festival de Tribeca em 2024. Aqui, duas amigas se despedem da pior forma possível: a partir da morte de uma delas, o que desafia o continuar da existência normal de modo pleno a quem resta.
A trama se desenvolve ao redor de Elena, que tem sua vida abreviada por conta de uma doença e de Adela (ou somente Ade para as amigas), que embarca em uma viagem para um momento passado no qual a amizade estava fervorosa e vivaz na pacata Balneario Solís, no litoral sul do Uruguai. É um filme que, mesmo pela temática melancólica incontestável, se coloca como pretendente a ser uma obra que conforta por expor não o fim em si, mas o que permanecerá vivo na memória, herdado de uma relação vigorosa e fortunada. Um ponto fundamental que embasa essa ideia é a comicidade pontual bem ponderada durante o longa, que traz pequenas doses de satisfação para o espectador e reforça o sentimento prazeroso de estar frente a tela assistindo-o. As atuações aqui também merecem destaque, principalmente a de Chiara Hourcade, que entrega um ótimo trabalho no papel de Adela e potencializa o desfrutar da obra.
Interessante, além disso, é a experiência agradável proposta pelos diretores de inserir o público na amizade manifestada na tela a partir do entendimento dos sarcasmos e das situações internas típicas de qualquer relacionamento. Esses pequenos momentos dão luz ao filme no sentido em que os espectadores são transportados para ambientes como o jardim de uma casa, uma mesa de jantar ou uma praia, sendo convidados a fazer parte daquela amizade por alguns instantes. Indo além, a trilha sonora é expansiva e fulcral para o entendimento da relação entre as personagens, se apresentando com maior intensidade nos encontros mais calorosos e energéticos. Essas características, além de outras, possivelmente foram motivos capitais para que o longa-metragem fosse o escolhido para representar o Uruguai no Oscar de 2026. E de certa forma, estão corretas.
É uma obra que não se propõe a ser algo inovador ou revolucionário para o cinema, mas aborda de forma aprazível uma amizade que perpassa a sororidade e, às vezes, quase desemboca em uma mistura de amizade e de amor visto a proximidade criada entre as personagens. Talvez fosse essa a escolha para clarificar a existência de uma linha tênue entre os dois sentimentos, principalmente quando se tem a ideia de que não durará para sempre.
Em essência, é uma obra sobre amizade e como os prazerosos momentos com pessoas próximas não criam barreiras ou são findados por uma cisão, pelo contrário, são valorizados com o tempo e tidos como referência do que resultou aquela conexão. Não é sobre o fim, mas sobre tudo agradável de que foi vivido.
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Agarra-me forte, uma viagem pela saudade e pelo luto
Rafael Perkovski Müller
O longa Agarra-me forte, de Ana Guevara e Leticia Jorge, retrata o drama do luto, nos mostrando Adela que acabara de perder sua melhor amiga. Logo no início
do filme, a obra nos coloca em um velório e a criação do ambiente é feita de maneira exemplar, nos dando a sensação genuína de como Elena era importante para muitas pessoas. No velório o filme nos dá grande destaque em Adela, nos mostrando ela bastante atordoada sem acreditar que acabara de perder sua melhor amiga.
Com o fim do velório, o filme começa a mudar o seu tom, de um filme extremamente melancólico e cinza para um filme mais alegre e colorido. E o tom do filme começa a mudar com Adela em seu carro, tendo uma crise de choro, nos evidenciando ainda mais como a protagonista tinha carinho pela sua melhor amiga, o filme brinca muito com os reflexos nessa parte, com as nuvens prendendo a atenção de Adela e ela por sua vez começa olhar para elas as contemplando de certa maneira, dando um certo ar de nostalgia, com a protagonista saindo do carro em uma rua ensolarada, ela vê um ônibus e decide entrar nele.
Com isto começamos a conhecer Elena, a garota de cabelos alaranjados, sempre utilizando roupas vibrantes e uma personalidade agradável, com mais uma amiga e seu filho, o trio parte para uma viagem, nos dando momentos de intimidade entre as três, mas também profundidade na relação entre Adela e Elena. Nesta viagem as três passam inúmeras situações como por exemplo a suspeita de que alguém havia invadido a casa, em dado momento quando elas estão escondidas atrás de uma árvore observando a casa, Elena vendo um estranho passando por perto lhe pede ajuda para averiguar se houve realmente uma invasão. sendo um momento muito engraçado no filme, sendo estes momentos bastante frequentes, valendo ressaltar também a cena da Praia, quando Elena e Adela sentadas na praia e Adela tenta esvaziar seu tênis cheio de areia, que continua caindo como se fosse uma cachoeira de areia infinita.
Durante todo o Filme ele não nos dá uma explicação se o ônibus era algum portal que Adela viajará no tempo, ou se somente a protagonista viajava em suas memórias dentro da sua cabeça. contudo isto não é importante para o filme, pois as engrenagens dele conseguem se sustentar sozinhos e sem os clichês de uma viagem temporal. Agarra-me forte, é um filme extremamente único, que mistura elementos de luto e saudades de uma amizade que se foi, dando-nos uma obra linda de se acompanhar.
O luto como reencontro
O filme “Agárrame fuerte”, dirigido por Ana Guevara Pose e Leticia Jorge Romero, é daqueles que falam baixo, mas permanecem ressoando por muito tempo. Longe dos excessos do melodrama, a narrativa se concentra em um momento de despedida: uma mulher de 39 anos, Adela, enfrenta a morte prematura de sua melhor amiga, Elena. O ponto de partida é simples — um velório, um rito socialmente codificado —, mas a direção o transforma em espaço para uma reflexão íntima sobre memória, amizade e o peso do luto.
A força do longa está em não seguir os caminhos fáceis da catarse ou do sentimentalismo. Adela não chora em cena o tempo inteiro, não há música grandiosa sublinhando cada emoção. O que se vê é um olhar deslocado: o velório é ao mesmo tempo real e estranho, familiar e absurdo. A protagonista parece não caber nos gestos repetidos de despedida, e é nesse desencaixe que a obra abre passagem para algo maior. O tempo deixa de ser linear, e o espectador acompanha uma espécie de viagem interior, na qual passado e presente se misturam, revelando a intensidade de uma amizade que se recusa a ser encerrada pela morte.
Esteticamente, “Agárrame fuerte” opta pela contenção: planos que privilegiam os silêncios, enquadramentos que capturam detalhes aparentemente banais — uma lembrança, uma risada, um gesto partilhado — e os transformam em fragmentos de eternidade. O filme constrói-se mais pelo que sugere do que pelo que mostra. Essa economia formal não empobrece; pelo contrário, amplia a potência da narrativa, porque cada imagem parece carregada de afeto e de ausência.
Ao final, “Agárrame fuerte” não oferece respostas sobre como lidar com a perda. O que faz é propor um espaço de comunhão: entre memória e presente, entre espectador e personagem. Trata-se de um filme que não busca consolar, mas sim compartilhar a experiência do luto como parte inevitável da vida — um momento doloroso que também revela a profundidade dos vínculos humanos.
Fique mais um momento aqui na viagem ao passado que já foi presente, agarre-se a esse momento.
Ana Carolina Menegassi
O simbolismo leva o real ao imaginário nessa obra surrealista, que lida com um tema tão delicado como o luto com cenas de leveza cotidiana, onde a relação humana entra em enfoque de maneira que a tristeza parece doce. A premissa de Agarra-me Forte é o confronto com a perda, feito por meio de uma viagem encantada de volta a um momento passado pela personagem de Adela, que perdeu sua melhor amiga, Elena, para uma doença. Todo o enredo é construído circundando essa melancolia e a ânsia de decorar os detalhes da amiga para não a esquecer, de querer ficar mais um momento e provocar deslizes para prolongar a estadia no passado, o luto é trabalhado com sensibilidade mostrando que há de ter esse período de elaboração ao entrar em contato com suas caras memórias de alguém, mesmo que não seja por meio de uma viagem mágica e por apoio de uma trilha sonora que remete a essa magia do afeto que atravessa temporalidades.
Agarra-me Forte, é o filme aposta do Uruguai para o Oscar de 2026, foi dirigida e escrita por Ana Guevara e Leticia Jorge. A direção por duas mulheres sintoniza com a temática de irmandade do filme, e traz essa visão do feminino que não é mistificado em romantismos desenfreados, mas sim em uma mítica do belo da existência humana, como em cenas como a de Adela e Elena na praia, ou de Elena amarrando seu cabelo enquanto é observada pela nostálgica viajante do tempo que é a sua amiga, cenas cuidadosas e feitas com sensibilidade e carinho que expõe um calor humano que nos denota esse contato de alteridades que o cinema deve se propor a trazer para ser assertivo com seu público.
O grande acerto desse filme está nos diálogos, que são representados com casualidade pelas atrizes e que convencem e passam essa sensação de uma amizade que devasta na perda. Os cenários possuem um equilíbrio na paleta que é satisfatório, enquanto o trabalho de câmera captura o olhar. Porém, o grande erro do filme foi o começo abrupto, que causa uma confusão desconfortável e difícil de acompanhar ao desenrolar dos eventos, e que mesmo assim teve uma linguagem corrigida ao longo do que os marcos do filme aconteciam.
Agarre-Me-Forte foi uma experiência emocional, e uma jornada pelo pesar e pelo carinho do presente, trazendo grandes “e se” que vão assombrar a memória coletiva acerca dessa obra.
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Agárrame Fuerte: uma carta íntima sobre o luto e a amizade que resiste ao tempo
Brenda Alves
O filme “Agarrame fuerte” de Ana Guevara Pose e Leticia Jorge Romero, é uma ficção/comédia dramática que acompanha a perda de uma amiga de longa data de Adela e Luci. O reencontro das amigas no funeral de Elena inicia a narrativa em confronto direto com o luto, construindo cenas de dor e melancolia. No entanto, o filme toma uma virada inesperada quando transporta Adela e Luci para revisitar um momento no passado em que Elena ainda estava presente em vida.
A partir disso, as três amigas vivem e se entregam aos momentos de felicidade, euforia, reflexão, apresentando ao público a conexão de afeto e amor entre as protagonistas. As diretoras conseguiram com êxito transmitir não apenas a dor do luto, mas as nuances que permeiam os sentimentos adjuntos das memórias. A volta ao passado não para impedir a morte de acontecer, mas como respiro, como uma chance de viver tudo aquilo que a pessoa tem a oferecer, toda a vida daquele que foi perdido.
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“39 anos são muito poucos se é a idade em que se vai morrer, ou a idade em que se vai perder a sua melhor amiga.” — Agárrame fuerte
Kailani Novello
Em Agárrame fuerte (2024), Ana Guevara e Leticia Jorge transformam o luto em matéria de delicadeza. O filme não fala da morte como ruptura, mas como lembrança que insiste em viver, um espaço onde a amizade resiste ao tempo. A narrativa percorre o reencontro imaginário entre duas mulheres, entre o que foi e o que resta, costurando afeto e ausência em gestos simples.
A fotografia, banhada por uma luz suave e tons terrosos, cria o ambiente de uma memória que se dissolve lentamente. Cada enquadramento parece guardar respirações: olhares, mãos, silêncios. O som, discreto e orgânico, se mistura à trilha de Luciano Supervielle como se o luto tivesse um ritmo próprio, o de quem tenta reviver o que o tempo apagou.
Sem recorrer ao melodrama, Agárrame fuerte revela a beleza contida no que se perde. É um filme sobre o amor que permanece mesmo quando a vida já partiu.
