Mother (2013), musica de Pink Floyd e animação de Simone Massi
Mother é uma animação independente criada em estilo tradicional que retrata a música homônima do grupo Pink Floyd. A narrativa gira em torno das indagações que o personagem principal, e narrador, apresentam sobre sua mãe, em uma tentativa de interpretação e de posicionamentos acerca de situações cotidianas. O papel maternal e suas implicações assumem a função de condutor das mensagens propostas pelo autor, visto que as reflexões expostas se ancoram nas interrogativas direcionadas, em primeira pessoa, à esta personagem.
A música Mother foi lançada oficialmente em 1979, inclusa no décimo primeiro álbum de estúdio do grupo, intitulado The Wall. Aqui, nos é apresentado o personagem Pink, uma estrela de rock que reflete questões relacionadas à sua vida e à todas as pessoas que impactaram, de alguma forma, a sua trajetória. A sexta faixa do álbum, portanto, é dedicada à sua mãe, uma pessoa superprotetora que, segundo Pink, foi uma das responsáveis por isolá-lo do mundo. Com isso, é plausível entender os questionamentos apresentados na canção por conta de estes exporem as inseguranças que tiveram como gênese o tratamento maternal recebido pelo narrador. Além disso, a dualidade entre proteção e instabilidade emocional é algo que pode ser percebido tanto na maneira como o autor retrata sua mãe como na própria forma como ele se comunica, exibindo uma esperança muitas vezes atrelada à vulnerabilidade. O sentimento que a obra emite, desse modo, é desconfortante por se familiarizar com questões pessoais relacionadas à criação emitidas de maneira que entoem como um clamor por ajuda. É aí que reside o principal mérito para com o espectador.
Competência da obra, também, é a utilização da animação em estilo tradicional feita em quadros desenhados à mão que se desdobram incessantemente a fim de mostrar novas sequências. Com a predominância da coloração preta e branca, os cenários, personagens e todos os outros encontros são utilizados nesses quadros como forma de apresentar mais cenários, mais personagens e mais encontros. A expansão e contração dos componentes das imagens garantem dinamismo, além das movimentações que parecem colocar o público como o sujeito que está realmente buscando a próxima mensagem.
O casamento entre a música e a animação, portanto, resulta em uma experiência tocante de ser apreciada pois integra de maneira harmônica as reflexões propostas pelo grupo Pink Floyd com um sentimentalismo proporcionado pelas escolhas advindas do fazer da animação.
----
?
Rafael Perkovski Müller
O Clipe Mother da banda Pink Floyd, tendo uma duração de 8 minutos, a animação nos apresenta uma relação de uma mãe solteira e seu filho, Nos mostrando como a mãe é uma figura de autoridade na vida do filho, mas também uma figura que o filho vê como alguém que quer o seu prórpio bem, sendo uma figura essencialmente boa para o filho, várias vezes durante o clipe o filho pedindo a opinião da mãe para inúmeras situações. E fica explicito em inúmeras situações que no caso a mãe se utiliza disto, para privar o filho de inúmeras coisas, construindo um muro envolta dele, como o a música fala.
Ao final do da música o filho pergunta se o muro precisava ser tão alto, nos mostrando que o oprimido, quando mais oprimido for, chegará um momento que ele começara a questionar o porquê de tal opressão está acontecendo com ele.
A música pode ser entendida também como uma metáfora a um estado autoritário, Onde as liberdades são privadas aos cidadãos referenciadas ao muro que é construído bem alto e a saia da mãe, que a criança em dado momento se esconde, ou as próprias perguntas que o filho faz a mãe, se ele deveria ter confiança no governo, ou se uma garota é boa para ele.
----
Ora, é evidente que interpretações são diferentes. A animação Mother, do Pink Floyd, é profundamente inquietante — e inquietante justamente porque traz a questão materna para o centro da discussão. Afinal, qual é a imagem da sua mãe? Talvez ela seja alguém que até permita que você cante, mas nunca que voe. Talvez tenha te ajudado a construir o seu próprio muro. Talvez seja o refúgio diante das suas ansiedades e perguntas. Talvez investigue todos os relacionamentos que você tem. Talvez represente apenas a memória de um tempo em que havia mais segurança. Ou ainda talvez a imagem materna seja um desejo de algo que não teve. Pensar a maternidade dessa maneira pode parecer tão tolo quanto iniciar um texto com um marcador discursivo argumentativo.
Na infância, a família é tudo. É, afinal, a menor unidade da sociedade, onde todas as nossas interações primárias ocorrem. Dentro da estrutura familiar tradicional, é na figura materna que costuma recair o peso da criação dos filhos. Dessa forma, é natural que tenhamos sentimentos diversos e, muitas vezes, contraditórios em relação à mãe. Não compreendemos o mundo ainda: estamos apenas explorando e aprendendo.
A animação explora esse emaranhado de sentimentos de forma intensa, ainda mais quando acompanhada da música. Os traços desenhados à mão são infantis, trêmulos e instáveis. Ampliam a percepção de imprecisão emocional. O protagonista, um menino em constante movimento, contracena com sua figura materna, sempre presente, fixa, observadora, vigilante e cuidadosa.
Em menos de dez minutos, em Mother, é possível ter as mais diversas interpretações possíveis sobre a figura materna: uma mãe tóxica e controladora, uma presença ausente emocionalmente, uma cuidadora zelosa, um vínculo de conexão febril e sufocante, ou até mesmo o simples desejo de ter uma mãe. Ora, você interpreta a sua mãe da mesma maneira que quando criança?
Construa o muro, fomente sua guerra
Ana Carolina Menegassi
Mother é um curta metragem sensível para uma música sensível. Conduzido pela insegurança dos tempos, os questionamentos acerca de medos para a mãe do eu-lírico são bem representados pelo estilo grafite da animação, que na brincadeira do figura-fundo preto e branco encontra a mensagem da música. Propõe uma grande interrogação sobre o maniqueismo ideológico frente a retroalimentação de um sistema paranoico, que fomenta guerras, mortes e a necessidade de construção de muros que é a grande temática do álbum, “The Wall” do Pink Floyd, cujo a música pertence.
Em uma parte do clipe há o questionamento pela música: “Isso é só uma perda de tempo” enquanto o personagem trabalha e seca o suor da testa, destacando aqui um conteúdo sócio-econômico que traz a desesperança de um futuro não otimista, mas não necessariamente pessimista. “Mother” é um curta sobre questionamentos realistas que atravessam a modernidade líquida, onde tudo é efêmero ao ponto dessa própria condição ser imprevisível dentro de sua previsibilidade circundante ao mundo tangível e intangível. Onde a modernidade é uma boca cheia de dentes pronta para qualquer momento te rasgar se você não criar “muros” que te protejam desse sistema capitalista articulado no conceito de violência.
O curta aborda sobre a relação de um filho com a mãe, que seria esse símbolo usado para o afeto frente ao medo e como ele também é perpassado por esses temores. Nada retém mais a liberdade e a criatividade do que um amor que te alimenta de medo e se alimenta disso, porém nada mais consolidador de base de enfrentamento do mundo do que a relação de um filho com qualquer figura que represente o cuidado maternal, seja a própria mãe, seja um pai, vó, vô, tia… E por meio dessa símbolo então, o curta constrói o que necessariamente seria esse muro que é formado por medos tão fluídos mas ansiosos e paranoicos, o medo estaria nessa figura alta e imponente da mãe que ao abraçar o seu “bebê” consome sua imagem, seu foco em uma imensidão de amor e temor.
O curta acaba com uma janela com a vista do “bebê”- eu-lírico da música- escondendo-se atrás da perna da mãe e depois essa janela virando um chapéu que cobre o passarinho morto- que na minha imagem é um símbolo da inocência infantil morta por temores- que é guardado dentro de uma maleta de trabalho pelo “bebê” agora homem indo trabalhar e levado seu passado como bagagem. Os muros nos seguem como sombras, como maletas que nós mesmos carregamos.
----
O clipe de Mother (1980-81), inserido no projeto monumental The Wall, vai além do papel de ilustração da música e se impõe como obra audiovisual independente. Sua força está na articulação entre imagem e som: o enquadramento, a iluminação e o ritmo visual criam uma atmosfera opressiva que traduz em cena os medos e ansiedades expressos na letra.
Mais do que acompanhar a canção, o clipe a amplia, dando corpo às metáforas e transformando sentimentos abstratos em experiências palpáveis. Cada elemento imagético — do uso de sombras à encenação dramática — colabora para um cinema da alienação, em que a proteção materna se mistura ao aprisionamento psicológico.
Ao assistir, o espectador não apenas escuta Pink Floyd, mas é envolvido por um universo visual que o faz sentir o peso do muro em construção. É essa fusão entre música e cinema que faz de Mother não apenas uma performance, mas um fragmento de narrativa visual que permanece atual e perturbador.
----
O videoclipe da música “Mother” da banda Pink Floyd de 1980 pra mim é uma peça única dentre os videoclipes de bandas famosas, dessas que todo mundo conhece, mas ele entra no pequeno grupo de clipes que além de serem memoráveis visualmente, tem uma narrativa que os transforma em uma obra de arte tão boa quanto a música que o mesmo expõe.
O visual preto e branco e instável do clipe nos remete a um clima melancólico onde as poucas cores que temos estão ligadas (em minha concepção) ao amor e à vida e à cordões umbilicais. A trama é sobre alguém que foi trabalhar na cidade e retornou para o campo para rever sua mãe. Mas muito além disso, a animação nos mostra que além de uma visita física á sua mãe, é um retorno ao seu passado, à sua zona de conforto e à uma vida que já não pertence mais a ele.
Mother: Imagens que Falam
Elisa Rocha
O clipe de animação de "Mother", faixa de “The wall” (1979), álbum conceitual da banda Pink Floyd, é uma obra audiovisual curta, mas densa, que aborda temas tão importantes quanto profundos.
Visualmente, o clipe utiliza uma estética marcante e surrealista, caracterizada por traços angulosos e distorcidos que transmitem uma sensação de inquietação e angústia, empregando cores sombrias e contrastantes, reforçando o clima opressivo e paranóico. Essas escolhas visuais criam uma atmosfera inquietante que captura a sensação de confinamento emocional e psicológico do protagonista, representando visualmente a alienação e o controle parental e social explorados na letra. A animação é marcada por cenas carregadas de simbolismo: figuras monstruosas, pais que se transformam
Musicalmente, "Mother" combina uma melodia delicada e suave, quase como uma canção de embalar, com letras que exploram a proteção excessiva, o medo e a autonomia. A animação complementa essa atmosfera com imagens que oscilam entre o vulnerável e o monstruoso, criando uma experiência sensorial que intensifica o impacto emocional.
O que torna esse clipe particularmente relevante é sua capacidade de provocar reflexão sobre os efeitos das relações familiares e da sociedade na formação do indivíduo. O clipe de animação de "Mother" é uma obra-prima que consegue capturar a essência da música do Pink Floyd por meio de uma estética impactante e cheia de simbolismo. Ele exemplifica como o audiovisual pode ser não apenas uma ilustração, mas uma extensão artística que amplifica a mensagem de uma obra musical, tornando-se uma peça que permanece na memória e no imaginário por sua força visual e temática.
----