Paris is Burning ( 1990), Jennie Livingston

por ANA LUIZA MUNIZ, JULIANA CARVALHO, VITÓRIA WERNER


Críticas  

“Paris is burning” é um filme documentário estadunidense de 1990, não ficcional, escrito e dirigido por Jennie Livingston. A obra é colorida, tem 1h16min  de duração, possui classificação R e foi produzida pela BBC Television, Art.  Matters Inc. e Edelman Family Fund. O orçamento (estimado) foi de US$  500.000, havendo um faturamento de aproximadamente 4 milhões de dólares. O  filme tem diversas premiações, tanto no âmbito nacional, quanto internacional. 

O documentário é esplêndido, por sua pertinência e atualidade, retratando a cena drag queen nos EUA, na década de 1980, com enfoque em  gênero, classe e raça. As dificuldades enfrentadas pelas estrelas da obra ainda  são vigentes para milhares de travestis e mulheres transexuais, que,  historicamente, têm suas existências restringidas às periferias, teatros, boates e territórios de prostituição (Oliveira, 2018). Entram em cena temas importantes  como transição de gênero, transfobia, homofobia, racismo, classismo, branquitude etc.  

Comumente, na acadêmica, existem momentos para se discutir,  separadamente, gênero, raça, classe, dentre outros marcadores sociais, o que  invisibiliza múltiplas vivências. Mas, “Paris is burning” navega nas águas da  interseccionalidade, demonstrando que as diversas formas de opressão se  agregam (Gaard, 2011), produzindo sujeitos com vivências específicas, mesmo  no contexto da comunidade queer. 

A estética da obra é noturna e bem iluminada, evidenciando os espaços  de performance das drag queens, mas também demonstrando os efeitos do  poder biopolítico do regime cis heteronormativo que impõe os espaços e papéis  sociais a serem ocupados por travestis e mulheres trans (Oliveira, 2018). 

A questão socioeconômica, mais precisamente, o desejo de ascender socialmente, é um ponto intrigante trazido pelas personagens – o desejo pelo dinheiro e poder é frequente. Mas, antes de qualquer crítica rasa, vale ter em  mente o contexto de produção capitalista hegemônico na atualidade, que  normaliza esse desejo e necessidade de “crescer economicamente” e “ser  alguém (com dinheiro)”, através das desigualdades sociais. A própria competitividade entre os bailes – “qual é o melhor” – não se dissocia do contexto  material de uma sociedade de classes, que se sustenta na busca infindável de  superação do “eu” em relação ao “outro”. 

“Paris is burning” é uma das melhores obras cinematográficas que já  assisti e, certamente, o melhor documentário. A importância do filme, somada as  múltiplas performances e relatos das personagens, tornam a experiência vívida,  desde o primeiro minuto. A discursividade do documentário retrata não apenas  as vivências queer na década de 1980, nos EUA, mas, toda a (re)produção  biopolítica das ficções masculino e feminino na (pós)modernidade (Preciado,  2023). É certo que, quando a revolução pansexual for enfim concretizada, “Paris  is burning” terá feito parte de seu manifesto.  

Referências: 

GAARD, Greta Claire. Rumo ao ecofeminismo queer. Revista Estudos  Feministas, v. 19, p. 197-223, 2011. 

OLIVEIRA, Megg Rayara Gomes de. Por que você não me abraça. Sur Revista Internacional de Direitos Humanos, v. 15, n. 28, p. 167-180, 2018. 

PARIS Is Burning. IMDb, 1990-2024. Disponível em:  

https://www.imdb.com/title/tt0100332/?ref_=tt_mv_close. Acesso em: 13 out.  2024. 

PRECIADO, Paul B. Testo junkie: sexo, drogas e biopolítica na era  farmacopornográfica. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2023.

Pedro Henrique Ribeiro Gonçalves

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Paris Is Burning é um documentário estadunidense de 1990 dirigido por Jennie Livingston. A obra acompanha a cena ballroom de Nova York nos anos 80, abordando principalmente as competições realizadas nos balls e a realidade vivida pela comunidade LGBTQIA+ negra e latina na sociedade - que envolve pobreza, discriminação, violência e até morte. 

Intercalando entre imagens dos eventos, referências trazidas pelos personagens e relatos em forma de entrevista, o filme mostra a luta de um grupo marginalizado, vítima de diversos preconceitos no contexto em que viviam. A arte, na cultura ballroom, é uma forma de resistência a essas opressões e o lugar onde as pessoas podem se expressar livremente, já que abre espaço para todos. 

Ao longo da trama, somos apresentados a alguns conceitos importantes, como o ‘realness’ - uma forma de performance que imita trejeitos, estilos e costumes de posições sociais que essas pessoas não atingiram fora dos balls. Outro conceito é o de casas, que consistem no acolhimento recebido por pessoas que passaram pelo mesmo, formando grupos diversos - e cada um com suas autenticidades. 

Os personagens que dão voz à história o fazem assim: em um ambiente intimista, sem interromper as tarefas que estão sendo realizadas no momento. Podemos notar esse estilo nas cenas de Freddie Penndavis e Pepper LaBeija, por exemplo. Isso aproxima ainda mais o espectador da narrativa, gerando envolvimento e ajudando na compreensão do que é apresentado. 

Entender o assunto e ser comovido por ele é essencial para a proposta do documentário: registrar a história e servir de fonte para que essas questões sejam discutidas. E pode-se dizer que o objetivo foi concluído, já que a obra virou referência para a ascensão de diversos movimentos que surgiram depois. É claro, sempre haverão pontas soltas e tópicos que poderiam ser mais aprofundados - principalmente quando se fala sobre uma realidade tão ampla e complexa. Mas nada impede que obras futuras explorem mais esses pontos.

Thais Kethlen

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"Paris is Burning" é um documentário lançado em 1990, dirigido por Jennie Livingston, que explora a vibrante cena do "ball culture" de Nova York nos anos 1980. O filme é uma janela para a vida da comunidade LGBTQ+, especialmente de negros e latinos, e aborda temas como identidade de gênero, classe social e o desejo de aceitação. 

Um dos grandes méritos do documentário é sua abordagem humanista. Livingston capta as histórias pessoais de seus protagonistas com sensibilidade, permitindo que o público se conecte emocionalmente com suas lutas e vitórias. Personagens icônicos, como RuPaul e Pepper LaBeija, compartilham suas aspirações e desafios em um mundo que muitas vezes os marginaliza. 

A estética do filme, com suas vibrantes competições de moda e danças exuberantes, contrasta com as realidades duras que muitos enfrentam, incluindo discriminação e pobreza. Essa dualidade é o que torna "Paris is Burning" tão impactante. Ele não apenas celebra a arte e a expressão, mas também ilumina as questões sociais que permeiam a vida de seus participantes. 

No entanto, algumas críticas podem ser direcionadas ao fato de que o filme, sendo feito por uma cineasta branca, pode não capturar completamente as nuances e a profundidade das experiências de sua comunidade. Apesar disso, "Paris is Burning" continua sendo um marco no cinema documentário, essencial para entender a história da cultura LGBTQ+ e a luta pela aceitação e identidade. 

Em suma, "Paris is Burning" é mais do que um simples documentário, é uma obra que desafia preconceitos, celebra a diversidade e proporciona um vislumbre íntimo da resiliência humana. Seu legado perdura, influenciando gerações e continuando a ressoar em debates contemporâneos sobre identidade e inclusão.

Laura Rech
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Escrito e dirigido por Jennie Livingston, Paris Is Burning (1990) é um documentário que retrata o surgimento dos ballrooms, que eram espaços de acolhimento e reunião frequentados pela comunidade LGBT+ no Harlem, Nova York. Nesses locais aconteciam competições de dança, que fundamentaram o desenvolvimento do estilo voguing, uma forma de expressão artística e política que desafia as normas de gênero e raça. Acompanhando as vivências e histórias de resistência de seus participantes, o documentário destaca a importância das “casas”, que funcionavam como redes de apoio para pessoas marginalizadas pela sociedade. 

Enquanto destaca o drama vivido pela população LGBT+ sob o estigma da AIDS nos anos 90, o filme também aborda de forma sensível as questões interligadas de raça, classe e identidade, ampliando sua relevância social. Um dos elementos mais marcantes do longa é a maneira como explora a busca por visibilidade e ascensão, retratando as dificuldades enfrentadas pelos diversos grupos que frequentavam as ballrooms e expondo o papel dos bailes como espaços de resistência, onde as dinâmicas de poder social eram desafiadas. 

Embora sua tarefa principal não seja didática, o documentário assume também uma função pedagógica. Organizado em subcapítulos, o longa explica termos e jargões como “shade” e "realness" de forma leve e extrovertida. Essa característica da produção, permite ao público compreender o significado cultural do contexto retratado no longa e valoriza a oralidade. Outra característica marcante do filme é que em diversos momentos ele rompe com a formalidade técnica do formato documental, optando por uma abordagem orgânica, com cenas e ângulos que parecem capturadas no calor do momento, quase que como um plano sequência. 

Paris Is Burning não apenas registra uma subcultura vibrante e transformadora, mas também serve como um documento histórico que fala sobre lutas, resistências e resiliência de uma comunidade. O impacto do documentário ressoa até hoje, o que se reflete não apenas na grande lista de prêmios, mas também em seu reconhecimento em 2016 como patrimônio cultural e estético pelo Conselho Nacional de Preservação de Filmes da Biblioteca do Congresso dos EUA. Décadas depois, o longa ainda se mantém vital, tanto por sua relevância no debate sobre identidade e marginalização, quanto por seu papel em dar visibilidade à criatividade e efervescência de uma cultura que, ainda hoje, é frequentemente marginalizada.

Robson Ribeiro

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