Yanuni (2025), dirigido por Richard Ladkani
Yanuni: batidas da Amazônia em resistência
Mateo Montaña Girala
Yanuni é um documentário de 2025 escrito, dirigido e coproduzido por Richard Ladkani.
O filme surge em um momento de alta visibilidade global dos conflitos ambientais na Amazônia e do protagonismo das lideranças indígenas na agenda internacional.
A estreia mundial aconteceu no prestigiado Tribeca Film Festival, em 14 de junho de 2025, onde também foi selecionado como filme de encerramento, o que já marca sua relevância dentro do circuito internacional.
O filme trata da líder indígena Juma Xipaia, líder do povo Xipaya e a primeira mulher a ocupar o cargo de chefe da região do Médio Xingu, que luta para proteger suas terras tribais apesar das tentativas de assassinato.
A obra, que mistura o pessoal, o político e o espiritual, foi pré-selecionada ao Oscar e mostra o perigoso trabalho de campo de Juma e de seu esposo, Hugo Loss, agente do IBAMA.
Juma aparece como uma líder indígena jovem, mas com uma enorme carga de responsabilidades. Seu papel não é apenas político (defender o território, denunciar ameaças, negociar com instituições), mas também profundamente pessoal — e é aí que o filme se torna mais interessante. O documentário não se limita à luta pública: também mostra sua vida íntima, seus vínculos, seus medos e as decisões pessoais que precisa tomar em um contexto de risco constante.
A fotografia, a cargo do próprio Ladkani, foca em pequenos detalhes (da floresta, da cidade, da intimidade dos personagens), reforçando a ideia de proximidade e de foco.
Isso contribui para um trabalho visual muito próximo do território, com câmera na mão e registro direto de situações reais.
O filme faz um excelente trabalho ao retratar as emoções dos protagonistas por meio dos enquadramentos e focos, fazendo com que entremos em suas mentes, medos, tristezas, conflitos e esperanças.
O som, a cargo de Ansgar Frerich e Andreas Hamza, entre outros, é um dos pontos fortes. Trata-se de um recurso que acompanha as emoções e a energia de cada cena, sendo utilizado com muita criatividade, gerando transições e mixagens bastante interessantes.
Como conclusão, Yanuni se consolida como um documentário potente e sensível que consegue ir além da denúncia para construir uma experiência profundamente humana. Por meio da história de Juma Xipaia, o filme não apenas dá visibilidade a um conflito urgente, mas também convida o espectador a se conectar emocionalmente com quem o vive em primeira pessoa, deixando uma impressão tão íntima quanto inquietante.
YANUNI: um pedido de socorro
Madê Hess
YANUNI é um documentário de coprodução brasileira que acompanha a trajetória de Juma Xipaia, lider indígena, ativista e a primeira mulher a se tornar cacique no Médio Xingu. O longa narra sua luta diária em prol do povo Xipaya e sua jornada como defensora dos direitos de povos indígenas. Ao utilizar cenas de entrevistas de 2009, o filme demonstra como o ativismo esteve presente em sua vida desde cedo.
Acompanhamos o processo de Juma ao assumir o cargo de secretária de Articulação e Promoção de Direitos Indígenas, bem como a gravidez de seu segundo filho, que dá nome ao documentário. O filme expõe sua imensa frustração por não poder proporcionar aos filhos a infância que teve, tudo isso em meio a ameaças de morte e aos intensos conflitos políticos que ocorreram durante as filmagens.
O documentário busca conscientizar o público sobre o garimpo ilegal e seus impactos devastadores. A contaminação por mercúrio, utilizado na extração do ouro, vem tomando proporções alarmantes e afetando diretamente a saúde dos povos da região amazônica. Hugo Loss, marido de Juma e agente ambiental do IBAMA, atua na linha de frente contra essa prática. Todavia, apesar de expor os danos ambientais, a obra deixa fornecer uma explicação mais profunda sobre quem realmente está por trás do garimpo, seriam os garimpeiros mostrados na tela os únicos responsáveis, ou existem grandes empresas e capitais por trás desse sistema?
Outros pontos relevantes também são pouco explorados, como o contexto detalhado das ameaças de morte sofridas por Juma , lacuna que talvez se deva ao fato de o documentário ter sido gravado ao longo de anos e sem um roteiro prévio escrito.
Apesar disso, a narração de Juma e as imagens impactantes da Amazônia trazem ao filme um tom emocional que não falha em deixar o espectador impactado, do início ao fim. A obra levanta questionamentos essenciais sobre o impacto humanona natureza e até quando continuaremos a destruir nossa própria casa. YANUNI é um relato forte, triste e extremamente necessário para uma sociedade que insiste em ignorar o próprio reflexo.
---
O conturbado da esperança na floresta de Yanuni
Ana Horst
Juma Xipaia é liderança indígena na amazônia, reconhecida como a primeira mulher cacique do Médio Xingu. O documentário Yanuni (2025) é um retrato temporal e político da batalha contra o garimpo ilegal na floresta e a desvalorização dos povos originários brasileiros. Produzido por Juma Xipaia e Leonardo DiCaprio, o filme foi feito para ser reproduzido em diversos países, onde o ecocídio no Brasil virou assunto em escala mundial.
“Eu queria cuidar da floresta que nem vocês”, disse em uma cena o Tuppak, filho pequeno de Juma e do marido Hugo Loss, que é agente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Por entre todo o ativismo político, o documentário é certeiro ao abordar mais do que a rotina de militância e inclui a maternidade, a comunidade, as relações interpessoais e elementos do cotidiano comum no país. Há uma mistura entre a identificação brasileira, as especificidades da comunidade indígena da terra Xipaya e as nuances do pensamento e ação políticos.
Durante a história, me atraiu a temporalidade marcada por recortes de jornais nacionais e internacionais. Às vezes, precisamos que alguém de fora nos olhe para sentirmos que nossa pauta é relevante – e foi isso que senti no primeiro apresentador explicando, em inglês, a delicada situação vivida pelas comunidades do Norte.
As filmagens ainda acompanham a rotina, especialmente de Juma, mas também de marido, filho Tupac e possível nova vida que surge. Durante o longa, a história é marcada por imagens de garimpo, queimadas e desmatamento. Toda a fotografia é de tirar o fôlego. Há imagens por drone e filmagens terrestres, tanto de áreas florestais quanto urbanas e metropolitanas, exibindo a pluralidade brasileira para ambientar o espectador.
As gravações começaram em meados de 2021, antes do ano eleitoral no Brasil. Em caso de vitória do Bolsonaro nas urnas em 2022, fica claro que o desenvolvimento do filme seria completamente diferente. O roteiro explora como pautas ambientais pouco vistas ganham destaque em um país movido pelo desenvolvimento econômico de exportação.
Juma Xipaia é um retrato da força feminina e indígena em um país colonizado por europeus e pelo patriarcado. Mostra poder por meio de tumultos, incluindo de saúde física e mental. O documentário traz tensão em diversos momentos, ao mesmo tempo em que dá esperança.
Esse é um daqueles filmes onde você sai da sessão e pensa: “Pode não ser um retrato da minha realidade, mas me reconheço. Essa produção é nossa. Sou brasileira, com orgulho de lutar por um país tão lindo por natureza”.
----
“Vozes da Amazônia: Resistência Indígena em Yanuni”
Luiza Cardoso de Oliveira
O documentário produzido pela ambientalista cacica da aldeia Kaarimã, Juma Xipaia e o ator Leonardo DiCaprio, Yanuni, de 2025, busca despertar as consciências para a emergência da Amazônia e o genocídio da população indígena no Brasil. Apesar de ter sido criado com foco para um público exterior, principalmente, o Norte Global, faz um belo trabalho de contextualização sem beirar ao óbvio ou ao melodrama, com uma história de luta urgente, amor e soberania, relevante para todos os habitantes do planeta Terra.
Exibido pela primeira vez no território Xipaya, na Amazônia, e pré-indicado ao Oscar em 2025, o longa retrata a trajetória de Juma ao lado de seu marido, Hugo Loss, coordenador de operações de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Os dois lutam contra o avanço da mineração e do garimpo, que contaminam os rios da Amazônia, em defesa dos territórios indígenas e comunidades que a habitam. Essa luta, contudo, traz constantes ameaças, exposição ao conflito além de custo pessoal.
Acompanhando o casal entre os anos de 2021 a 2024, o recorte histórico desse filme mostra o avanço do desmatamento e garimpo ilegal durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, a posterior eleição de Lula, e criação do Ministério dos Povos Indigenas (MPI). O som guia o ritmo emocional do filme, entre momentos de tensão, medo e tristeza diante das injustiças do mundo, e momentos de esperança de um futuro melhor. A comparação dos sons plenos e calmos da floresta aos ruídos opressores de máquinas que destroem em grande escala, por exemplo, é utilizada em uma das primeiras cenas do filme para mostrar, logo de cara, qual o seu tema central: justiça climática.
Com imagens de drone da fauna e flora, acompanhada por cenas estilo “câmera na mão”, orgânicas, tremidas e que seguem seus protagonistas, costumeiramente em cenas próximas aos seus rostos, cria uma sensação de proximidade e permite ao espectador mergulhar em seu mundo e conflitos pessoas. A história de força e resistência de Juma é retratada com uma bela subjetividade e humanização. Vemos momentos de fraqueza, insegurança, sua relação com a maternidade e a constante saudade de casa, sua cultura, e costumes, abandonados em prol de uma causa maior. Apesar de ter sofrido seis tentativas de assassinato, ela segue determinada. O mesmo cabe para seu marido, Hugo, o qual acompanhamos em perigosas operações contra garimpeiros.
Em resumo, Yanuni, apesar de mostrar uma dura realidade do Brasil, carrega uma energia esperançosa. Potente, sensível e comovente, é um convite para que o mundo abra seus olhos e perceba que a luta pela justiça climática não é só dos povos indígenas mas sim, coletiva.