A Entrevista (1966), de Helena Solberg











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Quando nos falta unha, roemos os dedos

por Jo P. Klinkerfus 

Uma das minhas maiores aflições ao longo de minha formação como cientista social e depois como antropóloga é a forma como a há o tempo, o recente, o contemporâneo e o clássico são arbitrariamente construídos pelo poder. Quem são os nossos clássicos? Quanto tempo precisa se passar para ser passado? Quais assuntos consideramos contemporâneos? Essa minha birra ganhou forma dentro de mim no dia que descobri que Sojourner Truth proferiu o discurso de “Não sou eu uma mulher?” em 1851, mais de uma década antes de Karl Marx publicar sua obra prima O Capital, em 1867. Ainda assim, os estudos críticos do capitalismo são vistos como clássicos e o tópico da interseccionalidade é apresentado como uma questão contemporânea dentro das Ciências Sociais.

Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? (Truth, 2014, online)

As palavras distantes de Sojourner Truth me são próximas. A ideia de que há uma homogeneidade na experiência feminina é algo a muito questionado, afinal, as condições de minha materialidade, da materialidade Truth, das experiências de meninas negras em diáspora, das vidas de travestis, do trabalho das primeiras ministras, senadoras, deputadas e presidenta em nosso país são todas muito plurais e diferentes. Aprendemos a discutir o espectro de mulheridades, feminilidades, machismos, sexismos, misóginas e violências de gênero pela lente suja e desfocada do feminismo branco e por muitas vezes essas narrativas podem ser tão estrangeiras que nos levam a  proferir uma paráfrase de uma discurso de 1851: “espera aí, mas não sou eu uma mulher!?”

Ainda assim, ao experienciar a angústia do documentário curta-metragem brasileiro “A Entrevista” (dir. Helena Solberg, 1966, 19 min.), um elo me perfurou e se alocou em mim na corrente da história de violências que funda o nosso Brasil. Não sou branca, mas os dilemas da vaidade me encontraram; não sou virgem, mas a culpa e o puritanismo já bateram à porta de meu inconsciente; não sou católica, mas o olhar de nojo de freiras e beatas já fez parte de meu cotidiano; não sou cis, mas o fardo da feminilidade como saída para ser lida como uma pessoa digna é palpável na materialidade de minhas mudanças corporais; não tenho à minha frente o casamento como única e correta tragetória de vida, mas vejo em mim e naquelas ao meu lado um sentimento de fracasso e medo na perspectiva de não ser amada, nao ser escolhida e não ter em alguém (ou mais especificamente em um homem) a estabilidade de vida servil projetada como distino único e final da existência feminina.

Tive medo do filme. A obra do cinema novo brasileiro em preto e branco conta com a montagem de Rogério Sganzerla que traz a introdução da obra um ar de caos e pavor. Fosse eu uma criança vendo o filme aleatoriamente no Canal Brasil, teria mudado no controle remoto as pressas em um tom de choro. A natureza crua do áudio que acompanha as melancólicas imagens ilustrativas de uma jovem branca de cabelos escuros em sua vida rumo ao dia de seu casamento também se associa ao sentimento de desconforto. Não é um filme feliz. Não é um documentário educativo. Mas é belo, como um fantasma de um passado que ainda é presente em todo o lugar.

Ao longo do filme são ouvidos os áudios picotados e chiados de entrevistas com mulheres nunca identificadas, mas que por conta das imagens são atreladas a corporificação da mulher branca jovem em tela. Muitos dos relatos parecem se perder no áudio fantasmagórico, alguns me encontraram como algo estranho ao ponto de lembrar o quão distantes os dilemas femininos podem ser. Todavia, muitas ainda soaram como falas do presente, nas quais a liberdade e uma a possibilidade de uma existência autônoma são dilemas pertinentes e aparentemente permanentes. Não saquei o quanto o debate era preciso até sair da sala de aula em que vimos a obra, encontrar uma amiga em uma festa junina de rua, a qual conversava com um grupo de colegas peruanos sobre casamento e relações amorosas para mulheres, e perceber que para nós no Brasil e para elas vindas do Peru todos os anseios e aflições das entrevistas ainda eram algo atual.

Vendo o filme me forcei a olhar para o horizonte, para o chão, para meu celular. Não queria engolir à força as angústias da perspetiva de uma vida inteira. Elis Regina me encarava atrás dos olhos e cantava que “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais” em minha cabeça. Decidi que encararia os conflitos e assistiria ser tirar os olhos. Comecei a roer a unha, até não poder mais, foi quando puxei com os dentes um pedaço da pele de meu polegar e a senti rasgar nas forças do meu maxilar em sincronia com a atriz na tela que mordiscava o mesmo dedo. Mesmo nas nossas distâncias raciais, de classe, de corporalidade de gênero e de tempo, estávamos espelhadas. Nossa aflição e incerteza era corrente e como forma de acalento inútil e individual, temos a certeza de que, pelo menos, quando nos falta unha, roemos os dedos.


Referências

TRUTH, Sojourner. E não sou uma mulher? Portal Geledés, 08 jan. 2014, online. Tradução de Osmundo Pinho. Disponível em: https://www.geledes.org.br/e-nao-sou-uma-mulher-sojourner-truth/. Acesso em: 12 jun. 2025.

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A Entrevista é curta, mas a inquietação permanece

por Raissa Hübner

Logo no primeiro semestre do curso de Jornalismo, aprendemos a entrevistar, propriamente, mas aprendemos também o que é a entrevista. Para Nilson Lage (2001), a palavra entrevista é ambígua, ou seja, pode ter vários significados. Dentre eles: uma conversa de duração variável com personagem notável ou portador de conhecimentos ou informações de interesse para o público. Bom, personagens notáveis as mulheres que ouvimos em A Entrevista não eram, visto que sequer sabemos seus nomes ou seus rostos. Diante disso, surge a pergunta: que conhecimento ou informação relevante têm essas mulheres para merecerem ser entrevistadas? E Helena Solberg responde com este curta.

A obra marca a estreia da cineasta em um contexto em que quase não havia espaço para mulheres, nem atrás, nem na frente das câmeras. E o resultado é desconcertante. Enquanto as entrevistadas falam, com alguma doçura e hesitação, sobre casamento, sexo e o papel da mulher, uma camada de ironia se instala. A câmera nunca ridiculariza essas falas, mas também não as apoia.

Mesmo que Helena não seja jornalista por formação, o trabalho de escuta que ela fez é o esperado por todo jornalista recém-formado. O que vemos é uma diretora que além de saber escutar, também sabe montar. E a montagem do curta funciona como comentário sobre o momento vivido. A voz da cineasta não se impõe, mas se insinua. Quando uma entrevistada afirma acreditar que “a mulher só é realizada quando se casa”, o filme não precisa responder. Basta o corte seguinte: um silêncio, um gesto, um olhar vazio.

É engraçado assistir a esse tipo de entrevista hoje porque a gente acredita, ou quer acreditar, que a sociedade não pensa mais assim, que a gente já superou esse discurso. Mas é, de certa forma, um espelho. Algumas falas soam datadas, outras poderiam facilmente ter sido ditas ontem. A Entrevista é um daqueles filmes que não envelhecem porque a realidade que ele denuncia insiste em não mudar.

Referências

LAGE, Nilson. A reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2001. Disponível em: https://nilsonlage.com.br/a-reportagem-teoria-e-tecnica-de-entrevista-e-pesquisa-jornalistica/. Acesso em: 13 jun. 2025.


“Entrevistas, Baús”

por Davi Miranda

A Entrevista (1966) é o primeiro curta-metragem da cineasta e jornalista carioca Maria Helena Collet Solberg, notória por ser considerada o único grande nome feminino do movimento do Cinema Novo. O filme é uma série de entrevistas com mulheres jovens da classe alta carioca acerca de temas como o casamento, a posição da mulher na sociedade e educação. 

A obra se reparte em dois meios: O áudio das entrevistas e as imagens com cenas da cunhada da autora se preparando para o casamento. Esse descompasso entre os meios não é descuido, na temática um se relaciona e reforça com o outro, levando a uma reflexão partindo das percepções do grupo apresentado, que por vezes contrastam e outras vezes se unem. Além disso, essa técnica favorece o anonimato, importante já que se estabelecia um governo ditatorial, que pela censura atrasou a veiculação do filme em alguns anos, e que era evidentemente contra a discussão das desigualdades nas condições de vida das mulheres. 

Além de propiciar essa discussão, o filme também conta com uma contextualização histórica ao invocar a Marcha da Família com Deus pela Liberdade e o crescente receio de que as reformas de base do presidente João Goulart levariam, em um contexto de guerra fria, a uma conversão comunista do Brasil, tanto a marcha quanto o medo e deposição sendo grandes prelúdios de uma tirania por vir. 

A Entrevista, pouco em duração, muito em sensibilidade e presença política, se torna um baú, um vislumbre de um tempo conturbado e que tem efeitos que se percebem nos dias atuais, seja em falas sobre a percepção da mulher na sociedade, similares às que se apresentam no filme, quanto nas repercussões das negações e hipocrisias militares.

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Um espaço maior.

por Laura D'Amoreira


Eu tenho pouca dúvida de que não sou melhor pessoa para falar sobre isso 

Mas talvez eu tenha algo a dizer.

Ouvir aquelas mulheres falando sobre suas crenças, expectativas e, de certa forma, vidas, foi como olhar para um espelho quebrado e sujo. Deslocado, meio errado, nebuloso e, em geral, estranho, mas reconhecível, familiar, mais próximo (do que eu queria). Pareciam minha mãe, madrinha e tias – de certa forma, pareciam com elas. Mesmo sem ouvir nada realmente novo ou que eu não esperasse, aqueles 20 minutos me tiraram o chão e me deixaram trêmula.

Assistir àquilo me fez voltar na mesa do café, ouvindo o que eu deveria ou não deveria fazer, o que dizer ou não fazer – não foi confortável.

E mais uma vez senti e acreditei que elas deviam estar erradas, porque um espaço tão estreito não pode ser um espaço para se viver, especialmente porque eu não me encaixo nele. Mas diferente daquela época, da minha infância ou adolescência "difícil", eu me perguntava mais do que nunca quais partes de suas vidas, crenças e desejos eles cortavam para caber naquele espaço estreito.

Como você provavelmente está pensando, eu não tenho a resposta, e provavelmente nunca terei, mas a dúvida e curiosidade vai ficar aqui.

Enfim.

Eu não sei aonde quero chegar com isso, nem no texto nem na vida, peço desculpa à quem lê por chegar à esse a esse fim de linha - prometo que, se um dia chegar a uma resposta, trazê-la aqui e continuar a conversa. Enquanto isso não acontecer, vou me ocupar de manter todas as minhas partes (mesmo as feias e confusas), de conhecer todas as partes das pessoas ao meu redor (especialmente suas feminilidades) e com a tentativa de tornar o espaço maior até que todos possam caber facilmente.

Sugiro a você que faça o mesmo, como puder e sentir que faz sentido.

Até a próxima, em um espaço maior. 




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